{"id":6703,"date":"2014-09-24T13:16:39","date_gmt":"2014-09-24T13:16:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6703"},"modified":"2014-09-24T13:16:39","modified_gmt":"2014-09-24T13:16:39","slug":"qsentimo-nos-herois-como-qualquer-cubanoq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6703","title":{"rendered":"&#8220;Sentimo-nos her\u00f3is como qualquer cubano&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Hugo Janeiro (texto)<\/p>\n<p>Ren\u00e9 Gonz\u00e1lez, preso e condenado pelos EUA num processo pol\u00edtico, esteve na Festa do Avante!. Ao \u00d3rg\u00e3o Central do PCP o patriota cubano, libertado ap\u00f3s cumprir a senten\u00e7a, rejeitou ser um arqu\u00e9tipo e sublinhou a heroicidade de Cuba e do seu povo; denunciou os EUA como os principais promotores do terrorismo e explicou como resistiram os cinco anti-terroristas, tr\u00eas dos quais (Antonio, Ram\u00f3n e Gerardo) permanecem encarcerados apesar da crescente exig\u00eancia da sua liberta\u00e7\u00e3o, pelo que, nota, \u00abeste \u00e9 o momento para que o governo norte-americano tome a decis\u00e3o correcta: aplicar a justi\u00e7a e libert\u00e1-los\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Sentes-te um her\u00f3i?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca aspirei a tal. Todavia, as circunst\u00e2ncias colocaram-me e aos meus quatro companheiros em condi\u00e7\u00f5es especiais no confronto com o imperialismo norte-americano. Sentimo-nos her\u00f3is como qualquer cubano. T\u00e3o her\u00f3is como os alfabetizadores que caminham nas ruas do meu pa\u00eds, como os que combateram em Playa Gir\u00f3n [aquando da invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos pelos EUA, n.d.r.], como os que foram para Angola ou para a Eti\u00f3pia; her\u00f3is como os que saem de Cuba para ensinar a ler e a escrever ou para assistir milhares de pessoas que, de outro modo, n\u00e3o teriam cuidados m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Nas circunst\u00e2ncias em que nos colocou o governo dos EUA, assumimos o compromisso de representarmos com dignidade o nosso povo.<\/p>\n<p><strong>Mas ainda que te sintas parte dum colectivo her\u00f3ico, n\u00e3o foi assim que foste recebido pelos visitantes da Festa do Avante!\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Creio que a forma como fui tratado traduz o reconhecimento do papel de Cuba no mundo. Expressam para comigo o carinho que t\u00eam por Cuba, o que \u00e9 uma grande responsabilidade, pois compromete-me cada vez mais com o projecto cubano e com a solidariedade que o meu pa\u00eds sempre prestou aos povos.<\/p>\n<p><strong>Estiveste mais de 12 anos preso nos EUA. Passaste seguramente por muitos momentos, uns mais dif\u00edceis que outros. O que nos podes dizer sobre esse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p>Dizemos em Cuba \u2013 e em Portugal devem ter uma express\u00e3o semelhante \u2013 que \u00abo que n\u00e3o mata, engorda\u00bb. Nos EUA, diz-se: \u00abse n\u00e3o te mata, faz-te crescer\u00bb. Quando fomos presos, decidimos que n\u00e3o \u00edamos morrer. Portanto, crescemos.<\/p>\n<p>Procuramos reter da experi\u00eancia a sua parte s\u00e3, o que n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de resistir mas, sobretudo, o caminho para sair vitorioso. Obviamente que o governo norte-americano tentou quebrar-nos com as condi\u00e7\u00f5es de deten\u00e7\u00e3o e os castigos, mas se sais desanimado, amargurado, com a sa\u00fade arrasada, eles derrotaram-te. Esse era um luxo a que n\u00e3o nos pod\u00edamos dar!<\/p>\n<p>Em certa medida o governo norte-americano ajudou-nos a sobreviver na fase mais penosa porque foi sempre muito imoral. Inventou este processo e manipulou-o expondo-se e aos seus prop\u00f3sitos pol\u00edticos. A partir de determinado momento, perdemos-lhes completamente o respeito. O governo dos EUA deixou o que lhe restava de dignidade na sala de audi\u00eancias.<\/p>\n<p>No final, a combina\u00e7\u00e3o de estarmos a fazer o correcto, o justo, com a baixeza do processo e dos acusadores \u2013 tudo somado ao apoio e \u00e0 solidariedade que foi crescendo \u2013, tornou-nos mais fortes.<\/p>\n<p><strong>No covil terrorista<\/strong><\/p>\n<p><strong>A miss\u00e3o que vos cabia era recolher informa\u00e7\u00f5es sobre os grupos e ac\u00e7\u00f5es terroristas contra Cuba, promovidas a partir dos EUA. Isso levou-te a trabalhar no \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb dos grupos terroristas anti-cubanos, que ficaste a conhecer como ningu\u00e9m. Como actuam?<\/strong><\/p>\n<p>Quem se der ao trabalho de estudar a hist\u00f3ria recente, facilmente descobrir\u00e1 que n\u00e3o existe maior organiza\u00e7\u00e3o terrorista do que o governo norte-americano. Os EUA criaram a Al-Qaeda, que utilizaram como instrumento contra os sovi\u00e9ticos no Afeganist\u00e3o. Depois de ter sido libertado e de ter derrotado o apartheid, Nelson Mandela permaneceu na lista de personalidades que os EUA consideravam terroristas. At\u00e9 recentemente, os terroristas levavam a guerra \u00e0 S\u00edria com o apoio dos EUA, e agora vemos as consequ\u00eancias da situa\u00e7\u00e3o no Iraque. Ora, a hist\u00f3ria com Cuba n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Como bem disseste, estive entre eles. Os terroristas t\u00eam um tra\u00e7o em comum: a desmoraliza\u00e7\u00e3o enquanto seres humanos. Move-os o \u00f3dio, a vingan\u00e7a, perdem a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 justo e admiss\u00edvel, por isso n\u00e3o observam qualquer padr\u00e3o \u00e9tico.<\/p>\n<p>Estive entre pessoas que planeavam lan\u00e7ar um avi\u00e3o contra a Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o, em Havana, ou metralhar hot\u00e9is porque consideravam que matar turistas em Cuba era bom para a sua causa. Acompanhei planos para liquidar dirigentes da revolu\u00e7\u00e3o cubana, ou a prepara\u00e7\u00e3o de assassinatos de pescadores cubanos, ac\u00e7\u00f5es que eles consideravam ben\u00e9ficas para os seus objectivos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preocupante \u00e9 o apoio dos EUA a estes projectos e intentonas reflectir a pol\u00edtica externa norte-americana.<\/p>\n<p><strong>Eram claros os mecanismos de financiamento dos grupos terroristas?<\/strong><\/p>\n<p>O financiamento come\u00e7ou a ser feito pela CIA nos anos 60 do s\u00e9culo passado, quando os EUA apoiaram grupos armados no interior de Cuba e promoveram a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos. Ao longo do tempo, estes grupos foram ganhando import\u00e2ncia social, foram criando uma rede de interesses, ganharam proemin\u00eancia em Miami e passaram a gerir neg\u00f3cios de onde sai o dinheiro para organiza\u00e7\u00f5es monstruosas como a Funda\u00e7\u00e3o Cubano-Americana.<\/p>\n<p>Outra f\u00f3rmula enquadra os menos capazes, menos habilitados. Estes dedicaram-se logo ao narcotr\u00e1fico. A mim propuseram-me em v\u00e1rias ocasi\u00f5es participar no tr\u00e1fico de droga, por isso pude notificar tantas vezes o FBI e neutralizar algumas ac\u00e7\u00f5es e grupos terroristas.<\/p>\n<p>Em suma, o terrorismo encontra v\u00e1rios mecanismos para se financiar, alguns mais \u00ablegais\u00bb e abertos do que outros. A quest\u00e3o fundamental \u00e9 que Cuba tem sabido e tem conseguido resistir, defender-se, n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de n\u00f3s, os Cinco, mas pela ac\u00e7\u00e3o de todo o seu povo. De uma maneira ou de outra, todos os cubanos foram j\u00e1 chamados a defender o seu pa\u00eds do terrorismo e o facto \u00e9 que sempre o fizeram com brio.<\/p>\n<p><strong>Lutar pela liberdade<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Ren\u00e9 e o Fernando Gonz\u00e1lez sa\u00edram da pris\u00e3o depois de cumprirem as respectivas penas. Gerardo, Antonio e Ram\u00f3n permanecem presos. Os recursos nos tribunais est\u00e3o esgotados. Como \u00e9 poss\u00edvel libertar os tr\u00eas patriotas cubanos que os EUA mant\u00eam presos apesar do crescente movimento de exig\u00eancia da sua liberta\u00e7\u00e3o, particularmente em territ\u00f3rio norte-americano?<\/strong><\/p>\n<p>O nosso caso foi sempre pol\u00edtico. Qualquer sa\u00edda legal n\u00e3o ser\u00e1 outra coisa sen\u00e3o uma decis\u00e3o pol\u00edtica disfar\u00e7ada de judicial. Como bem implica a pergunta, julgo que muita coisa mudou nos EUA nos \u00faltimos anos. At\u00e9 recentemente, o governo norte-americano n\u00e3o perdia nada em manter-nos presos. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>O peso da solidariedade faz-se sentir. Muita gente de boa vontade denuncia o crime cometido contra os Cinco, independentemente de ter, ou n\u00e3o, as mesmas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas que n\u00f3s. Este facto \u00e9 importante. N\u00f3s n\u00e3o exigimos que concordem connosco no projecto de sociedade que defendemos. Apelamos a que repudiem a viola\u00e7\u00e3o grosseira dos mais elementares direitos, do direito \u00e0 Justi\u00e7a que nos foi negado e exijam o fim da monstruosidade a que fomos sujeitos.<\/p>\n<p>Dentro da sociedade norte-americana h\u00e1 j\u00e1 uma postura diferente em rela\u00e7\u00e3o aos Cinco porque tamb\u00e9m o h\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a Cuba. Este \u00e9 o momento para que o governo norte-americano tome a decis\u00e3o correcta: aplicar a Justi\u00e7a e libertar os tr\u00eas companheiros que permanecem detidos.<\/p>\n<p>Sempre pedimos que os ju\u00edzes aplicassem a lei norte-americana. Eles n\u00e3o o fizeram por raz\u00f5es pol\u00edticas. Podem agora tomar a decis\u00e3o inversa, mas isso implica um aumento da press\u00e3o sobre a Casa Branca, que deve sentir que privar Antonio, Gerardo e Ramon da liberdade \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Tens mantido contacto com Antonio, Gerardo e Ram\u00f3n?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, est\u00e3o bem, determinados e cientes da sua raz\u00e3o. J\u00e1 passaram 16 anos e isso tem consequ\u00eancias na sua sa\u00fade para al\u00e9m das maleitas normais da idade. A pior doen\u00e7a, por\u00e9m, \u00e9 continuarem presos.<\/p>\n<p><em>*Entrevista publicada no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2129, 18.09.2014<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEntrevista a Ren\u00e9 Gonz\u00e1lez*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6703\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[77],"tags":[],"class_list":["post-6703","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c90-solidariedade-a-cuba"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1K7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6703"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6703\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}