{"id":6714,"date":"2014-09-28T17:34:29","date_gmt":"2014-09-28T17:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6714"},"modified":"2014-10-22T04:22:25","modified_gmt":"2014-10-22T04:22:25","slug":"homenagem-ao-camarada-marcos-cardoso-filho-no-ifsc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6714","title":{"rendered":"HOMENAGEM AO CAMARADA MARCOS CARDOSO FILHO NO IFSC"},"content":{"rendered":"\n<p>Era o come\u00e7o da primavera, no meio dos anos em que as flores vieram com as cores das balas dos generais, naquele 22 de setembro de 1976, Marcos Cardoso Filho ent\u00e3o professor da Escola T\u00e9cnica Federal de Santa Catarina &#8211; ETFSC, atualmente IFSC, foi conduzido as depend\u00eancias da mesma para que os militares fizessem seu julgamento. Seu crime: lutar contra a barb\u00e1rie do autoritarismo daquele regime e que predomina sobre todo o capitalismo.<\/p>\n<p>Neste 22 de setembro de 2014, tamb\u00e9m come\u00e7o da primavera, os dirigentes do IFSC, fazem pedido de desculpas, por ter a institui\u00e7\u00e3o permitido que os desmandos da ditadura ocorressem em suas depend\u00eancias. Para tanto, a referida institui\u00e7\u00e3o fez um document\u00e1rio:<em><strong> Hist\u00f3ria recontada: Professor Marcos Cardoso Filho e a ditadura na escola t\u00e9cnica<\/strong><\/em>, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ExVQd_NHjI\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ExVQd_NHjI<\/a>.<\/p>\n<p>Os militantes do PCB e da UJC de Florian\u00f3polis l\u00e1 estiveram e a camarada Bernadete Wrublevski Aued fez a seguinte interven\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cSINGELA HOMENAGEM AO CAMARADA MARCOS CARDOSO FILHO<\/p>\n<p>Recebi a incumb\u00eancia da c\u00e9lula de base do Partido Comunista Brasileiro (PCB) \u201cManoel Alves Ribeiro\u201d, ou simplesmente \u201dseu Mimo\u201d de homenagear Marcos Cardoso Filho (<em>in memoriam<\/em>), por ocasi\u00e3o da exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio \u201cHist\u00f3ria recontada: professor Marcos Cardoso Filho e a ditadura na Escola T\u00e9cnica\u201d. Produzido pela IFSC\/TV o filme foi exibido no audit\u00f3rio da Reitoria do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), no dia 22 de setembro de 2014, em Florian\u00f3polis. Nestes locais de trabalho e de exerc\u00edcio profissional, Marcos Cardoso Filho pertencia \u00e0 galeria dos professores esquecidos. Na d\u00e9cada de 1970, coincidentemente o professor Marcos Cardoso Filho, do IFSC e da UFSC, tamb\u00e9m \u00e9 dirigente do PCB em SC. Em 1975 \u00e9 preso e torturado na Opera\u00e7\u00e3o Barriga Verde. O Ex\u00e9rcito fez uma das audi\u00eancias do seu julgamento no pr\u00f3prio IFSC, levando o professor algemado na frente dos alunos. Paga, em decorr\u00eancia um severo tributo: negam-lhe legitimidade em vida e lhe prestam homenagem somente ap\u00f3s mais de tr\u00eas d\u00e9cadas e depois de morto. A homenagem \u00e9 um pedido de desculpas dos dirigentes da institui\u00e7\u00e3o e uma resposta \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o do Coletivo Catarinense Mem\u00f3ria, Verdade, Justi\u00e7a ao professor Marcos, morto posteriormente num acidente na Lagoa da Concei\u00e7\u00e3o no dia 22 de dezembro de 1983.<\/p>\n<p>A rememoriza\u00e7\u00e3o do desastre ocorrido com Marcos enche meus os olhos d\u2019\u00e1gua e embarga minha voz, at\u00e9 hoje. A \u00faltima vez que conversamos, na Lagoa da Concei\u00e7\u00e3o onde moramos, Idaleto e eu, deu-se um pouco antes do acidente. Conhecemos Marcos por interm\u00e9dio de Eliane Mota, simultaneamente, estudante de economia da Universidade Federal de Santa Catarina, membro do centro acad\u00eamico e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>O camarada Marcos tinha regressado a Florian\u00f3polis, estava feliz por ter defendido sua tese de doutorado na USP. Neste encontro disse-nos encontrar-se um pouco apressado, pois mesmo \u00e0s v\u00e9speras do Natal iria dar um passeio em seu barco a vela, com familiares. Estando fora da cidade h\u00e1 alguns anos, n\u00e3o percebeu que a rede de energia el\u00e9trica havia sido instalada, \u00e0s pressas, para a popula\u00e7\u00e3o da Costa da Lagoa, uma rede que foi inaugurada um dia antes das elei\u00e7\u00f5es de 1982. A imprud\u00eancia associada \u00e0 imper\u00edcia de parte de funcion\u00e1rios da CELESC interrompe abruptamente 6 trajet\u00f3rias. Neste dia perdem a vida o camarada Marcos e Eliane. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foram ceifados: de Daniel Maravalha Cardoso, 4 anos, (filho do pr\u00f3prio Marcos e de Marise Maravalha) do sobrinho Andr\u00e9 Cardoso Bittencourt, 7 anos, (filho de sua irm\u00e3 Rosimeri Cardoso e de Heitor Bittencourt), da sobrinha Manoela Cardoso Garcia, 5 anos e de sua irm\u00e3 Regina Cardoso, 19 anos.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria n\u00e3o guarda lembran\u00e7as somente do excelente professor Marcos que seus ex-alunos atestam. Marcos tinha a rara qualidade de ser, ao mesmo tempo, profissional em F\u00edsica, doutor e professor militante. Seu humanismo nada tinha de abstrato, ou crist\u00e3o, tinha uma origem e um destino, motes de um compromisso social e pol\u00edtico: a mis\u00e9ria de uma sociedade desigual e autorit\u00e1ria. Desde a sua juventude \u00e9 militante comunista. Com 17 anos, estudando no Col\u00e9gio Governador Celso Ramos, em Joinville, conhece militantes do PCB e, depois se junta a eles. Por isso, luta na antiga Escola T\u00e9cnica, hoje (IFSC), aprendendo a distinguir entre a justa indigna\u00e7\u00e3o que incita ao engajamento e o rancor, que leva ao apassivamento. De forma similar ao que Hobsbawm sugere aos sapateiros, Marcos torna-se conhecido na hist\u00f3ria catarinense por sua radicalidade pol\u00edtica junto aos movimentos sociais. Se ocorria uma mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil? L\u00e1 estava Marcos. Se surgia uma greve de professores ou um movimento dos mais diversos, dentro da escola? L\u00e1 estava Marcos. Se surgia uma roda de samba? L\u00e1 estava Marcos estimulando a que se cantasse m\u00fasica popular do Brasil, em especial as de protesto como \u201cCaminhando e cantando\u201d (Geraldo Vandr\u00e9), \u201cPau de arara\u201d (Carlos Lira e Vinicius de Moraes), \u201cRoda Viva\u201d (de Chico Buarque).<\/p>\n<p>Ademais de ganhar a vida como professor, de dividir com a m\u00e3e a lida da casa, enquanto comunista, agitava, distribu\u00eda o Jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), \u201cA voz da Unidade\u201d, escrevia e divulgava panfletos. Dessa maneira o jovem Marcos vai tecendo fios que ir\u00e3o compor a singularidade de uma trajet\u00f3ria de professor que atua dentro do movimento comunista em terras catarinenses, isto \u00e9, faz pol\u00edtica pelo avesso. A homenagem <em>in memoriam<\/em> e tendo-se passado v\u00e1rias d\u00e9cadas do seu desaparecimento \u00e9 muito mais do que registro de fatos, \u00e9 instituir um exemplo. Esta escolha n\u00e3o \u00e9 casual, nem tampouco meramente cient\u00edfica. O esquecido professor Marcos agora integra uma hierarquia de relev\u00e2ncia no quadro de professores consagrados do IFSC. Pode ser professor e ser comunista, n\u00e3o \u00e9 crime. E \u00e9 assim que Marcos Cardoso Filho passa a ser visto: um professor rebelde, dotado de uma ampla cultura e vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p>O golpe de 1964 ou os anos de chumbo na hist\u00f3ria brasileira e os subsequentes, de persegui\u00e7\u00e3o aos \u2018vermelhos comunistas\u2019, n\u00e3o arrefecem os \u00e2nimos de Marcos. Ao contr\u00e1rio, continua a lutar, como nunca, pelo fim da sociedade capitalista e paga, em decorr\u00eancia, um pre\u00e7o elevado pris\u00f5es e de amea\u00e7as de perda da sua integridade f\u00edsica.<\/p>\n<p>O estudante Marcos completa a sua forma\u00e7\u00e3o profissional num itiner\u00e1rio que pode ser resumido a \u201c<em>uma vida de muitas lutas<\/em>\u201d no movimento estudantil, profissional e comunista num cen\u00e1rio em que reina uma sucess\u00e3o de muitos desmandos e de semilegalidade. Intimida\u00e7\u00f5es, pris\u00f5es e viol\u00eancia f\u00edsica atravessam o seu percurso. Passa a ser vigiado e fichado na Secretaria de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es; em 1975 \u00e9 \u2018sequestrado\u2019, preso e torturado pelo DOI-CODI, na opera\u00e7\u00e3o Barriga Verde. Dentro da pris\u00e3o vive um dos piores momentos de sua vida. Faz greve de fome em abril de 1977. Na pris\u00e3o amarga, muitos dias. Quer retornar ao ensino de f\u00edsica como o demonstram os seus diversos bilhetes e peti\u00e7\u00f5es escritos na cadeia. A dor a ele causada n\u00e3o decorre de seus gestos impensados, mas da sociedade ditatorial em que vive. \u00c9, assim uma dor social.<\/p>\n<p>Depois, retorna ao conv\u00edvio profissional, luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, Diretas J\u00e1, Anistia aos Presos e Exilados Pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O seu tempo \u00e9 o tempo de resist\u00eancia, de atua\u00e7\u00e3o em diversos movimentos sociais, n\u00e3o de perplexidade, de contempla\u00e7\u00e3o, de paralisia, mas de luta de quem sequer v\u00ea uma luz ao final do t\u00fanel.<\/p>\n<p>Marcos luta muito, por\u00e9m sua vida \u00e9 abrupta e precocemente interrompida.<\/p>\n<p>No dia do seu enterro cobrimos o seu caix\u00e3o com a bandeira do PCB, era s\u00f3 o que poder\u00edamos fazer naquele momento de grande indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, diante desta plateia t\u00e3o atenta penso que a interrup\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria de Marcos militante est\u00e1 sendo de alguma maneira retomada. Marcos lutou muito e hoje posso dizer que marcou \u00e9poca (como muito bem registra document\u00e1rio). Todavia ele n\u00e3o est\u00e1 entre n\u00f3s, talvez algu\u00e9m tenha que lutar por ele.<\/p>\n<p>Se souvenir, do franc\u00eas significa trazer a tona o que est\u00e1 submerso. E mais, \u00e9 reter, \u00e9 conservar o passado, ent\u00e3o lembrar \u00e9 viver, \u00e9 ensinar a ter projeto, \u00e9 sonhar alto, \u00e9 desfraldar a bandeira s\u00edmbolo que Marcos honrou. Que ela continue tremulando, que a mis\u00e9ria provoque indigna\u00e7\u00e3o! Se Marcos estivesse vivo diria como Oscar Niemayer:<em>\u201cEnquanto houver mis\u00e9ria e opress\u00e3o, ser comunista \u00e9 nossa decis\u00e3o\u201d<\/em>, lembra Niemayer. Por isso, como Marcos queremos a supera\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista como fim da propriedade privada burguesa e tudo o que dela decorre.<\/p>\n<p>Para concluir fa\u00e7o minhas as palavras de Bertolt Brecht:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O comunismo?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Ele \u00e9 razo\u00e1vel. Todos o compreendem. Ele \u00e9 simples.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Voc\u00ea, por certo, n\u00e3o \u00e9 nenhum explorador. Voc\u00ea pode entend\u00ea-lo.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Ele \u00e9 bom para voc\u00ea. Informe-se sobre ele.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Ele \u00e9 contra a sujeira e contra a estupidez.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Os exploradores dizem-no um crime,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>mas n\u00f3s sabemos <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>que ele \u00e9 o fim dos crimes;ele n\u00e3o \u00e9 a loucura e sim o fim da loucura. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o \u00e9 o caos e sim uma nova ordem <\/em><em>[social].<\/em><\/p>\n<p>Camarada Marcos Cardoso Filho!<\/p>\n<p>Presente!<\/p>\n<p>Eliane Motta!<\/p>\n<p>Presente!\u201c<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6714\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-6714","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ki","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6714\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}