{"id":6720,"date":"2014-09-28T18:17:13","date_gmt":"2014-09-28T18:17:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6720"},"modified":"2014-10-22T04:22:25","modified_gmt":"2014-10-22T04:22:25","slug":"renzi-e-berlusconi-juntos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6720","title":{"rendered":"Renzi e Berlusconi juntos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>IT\u00c1LIA \u2014 A anunciada reforma trabalhista quebra a aparente unidade no seio do Partido Democr\u00e1tico, j\u00e1 que 54% dos italianos acham que com a anula\u00e7\u00e3o do Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores as empresas poder\u00e3o desempregar como e quando quiserem<\/strong><\/p>\n<p><strong>Achille Lollo de Roma (It\u00e1lia) \u2014 <\/strong>Em fevereiro, o programa de governo de Matteo Renzi apresentava uma reforma trabalhista para reformular muitas leis que criaram 47 formas de contratos de trabalho, alimentando assim as op\u00e7\u00f5es pela ilegalidade (trabalho no mercado negro sem contrato) ou fragmentando ainda mais a qualidade da ocupa\u00e7\u00e3o, com contratos tempor\u00e1rios (semestrais, mensais e at\u00e9 semanais).<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a reforma deveria abolir a celerada \u201cLei Fornero\u201d do governo Monti, que no lugar de abrir o mercado de trabalho aos jovens, na realidade, liquidou os trabalhadores que est\u00e3o na faixa et\u00e1ria de 50\/60 anos, ampliando ainda mais o contingente dos ditos \u201cprec\u00e1-rios\u201d, que s\u00e3o condenados a permanecer sem contrato de trabalho efetivo.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que tais propostas ficaram no ar como simples inten\u00e7\u00f5es, ao passo que o primeiro-ministro Matteo Renzi e o l\u00edder de For\u00e7a It\u00e1lia, Silvio Berlusconi, realizavam um acordo pol\u00edtico que comportava a introdu\u00e7\u00e3o de s\u00e9rias modifica\u00e7\u00f5es no programa da Reforma do Trabalho. Nesse \u00e2mbito surgiu a proposta de suprimir o Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores, que \u00e9 a \u00faltima lei trabalhista que n\u00e3o foi modificada nos \u00faltimos 15 anos pelos governos direitistas liderados por Berlusconi.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do Movimento Cinco Estrelas na C\u00e2mara dos Deputados e nas ruas foi imediata. De fato, seu l\u00edder, Beppe Grillo, ao promover um protesto de rua disse: <em>\u201cDurante os \u00faltimos 40 anos os empres\u00e1rios disseram que o Artigo 18 devia ser abolido por ser um entrave aos investimentos. Depois, todos os governos que Berlusconi chefiou tentaram suprimir esse artigo, por\u00e9m o PD (Partido Democr\u00e1tico) sempre fez oposi\u00e7\u00e3o permanecendo ao lado dos trabalhadores. Agora, Renzi, que precisa dos votos dos parlamentares direitistas do For\u00e7a It\u00e1lia para sustentar a sua maioria, fez um acordo em segredo com Berlusconi dando, em troca da sustenta\u00e7\u00e3o no Parlamento, 30 anos de hist\u00f3ria e de lutas dos trabalhadores. Quer dizer: o que Berlusconi nunca conseguiu<\/em><\/p>\n<p><em>fazer, agora, foi realizado por Renzi. \u00c9 claro que os empres\u00e1rios e as transnacionais aplaudem<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio torna a situa\u00e7\u00e3o no mundo sindical mais complexa, na medida em que a Confedera\u00e7\u00e3o Geral Italiana do Trabalho (CGIL) j\u00e1 se manifestou contra a decis\u00e3o do governo, enquanto a Confedera\u00e7\u00e3o Italiana Sindicatos dos Trabalhadores (CISL) apoia abertamente Renzi e a Uni\u00e3o Italiana do Trabalho (UIL) ainda n\u00e3o definiu oficialmente sua posi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 praticamente dividida quanto a este assunto.<\/p>\n<p>A CGIL, em um comunicado da secretaria, logo alertou o governo que ela n\u00e3o admite modifica\u00e7\u00f5es do Art. 18, avisando que se o governo continuar por esse caminho a CGIL vai optar pela greve geral em outubro.<\/p>\n<p>Por isso, Susana Camusso, secret\u00e1ria-geral da CGIL n\u00e3o teve d\u00favida em dizer que \u201c<em>o futuro mais pr\u00f3ximo dos nossos jovens que esperam poder trabalhar est\u00e1 cada vez mais nebuloso, j\u00e1 que ningu\u00e9m sabe o que, de fato, esse governo quer fazer. A CGIL \u00e9 contra a revis\u00e3o do Art. 18 porque esse \u00e9 um ataque grav\u00edssimo contra todos os trabalhadores na medida em que o crescimento econ\u00f4mico se alcan\u00e7a realizando uma ampla reforma econ\u00f4mica e infra-estrutural e n\u00e3o intervindo no mercado do trabalho com a aboli\u00e7\u00e3o do Art. 18 para permitir que as empresas desempreguem livremente<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Confus\u00e3o no PD<\/strong><\/p>\n<p>Desde mar\u00e7o de 1970, os partidos que representam os interesses das transnacionais e do empresariado italiano querem acabar com a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista do Estatuto dos Trabalhadores, por defender em absoluto os interesses dos trabalhadores. Uma bandeira que o ent\u00e3o PCI logo ergueu, inclusive porque esse fato lhe permitiu reconquistar o voto da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores em geral desmotivados com a proposta do Compromisso Hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Tal posicionamento se manteve tamb\u00e9m quando o PCI se transformou em PDS e depois em PD, visto que o Estatuto dos Trabalhadores n\u00e3o foi uma \u201cregalia\u201d oferecida pelo Estado. Foi, sim, resultante de um per\u00edodo de lutas que se transformou em lei somente quando os trabalhadores italianos ganharam a batalha pol\u00edtica ap\u00f3s terem desafiado o capitalismo italiano durante dois longos anos de lutas, com greves, manifesta\u00e7\u00f5es e, sobre-<\/p>\n<p>tudo, com ocupa\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas e das universidades.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dizer que foram tamb\u00e9m dois anos de dura repress\u00e3o por parte de um Estado cada vez mais con-<\/p>\n<p>trolado pelos grupos da Democracia Crist\u00e3 para manter a It\u00e1lia dentro da l\u00f3gica da depend\u00eancia imperialista, seja ela tanto estrat\u00e9gica quanto econ\u00f4mica e financeira.<\/p>\n<p>Por outro lado \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que foi nesses dois anos que os grupos que monopolizavam os pal\u00e1cios do poder abriram as portas aos cl\u00e3s mafiosos para garantir ao governo um \u201cassenso majorit\u00e1rio no sul da It\u00e1lia\u201d, enquanto na capital e nas grandes metr\u00f3poles das regi\u00f5es industriais do norte e do centro, os servi\u00e7os de intelig\u00eancias foram autorizados a materializar um \u201cPlano B\u201d, com uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es planejadas para quebrar o avan\u00e7o das esquerdas e, em particular, a afirma\u00e7\u00e3o da \u201cautonomia da classe oper\u00e1ria\u201d em todas as f\u00e1bricas do norte e do centro norte.<\/p>\n<p>Um \u201cPlano B\u201d que apresentava muitas vertentes, do tradicional e truculento golpe de Estado com a participa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es neofascistas, \u00e0 sofisticada coopta\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e pol\u00edtica de sindicalistas e de deputados de centro-esquerda em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cnascente esquerdismo\u201d. Uma coopta\u00e7\u00e3o que depois da mensagem pol\u00edtica do golpe do Chile evoluiria no PCI, com o chamado \u201cCompromisso Hist\u00f3rico\u201d, de Enrico Berlinguer.<\/p>\n<p>Por conta do peso pol\u00edtico e pelo fato de mexer com a vida de milh\u00f5es de trabalhadores, o PD nunca se atreveu em p\u00f4r em discuss\u00e3o o Art. 18. De fato, aceitar as propostas do empresariado teria significado perder a confian\u00e7a e o voto dos trabalhadores que nos \u00faltimos dez anos come\u00e7aram a desertar a milit\u00e2ncia, mantendo, apenas, o v\u00ednculo eleitoral com o PD.<\/p>\n<p>Por isso, a chamada \u201cvelha guarda\u201d, liderada por Massimo D\u2019Alema, Pierluigi Bersani, Giuseppe Civiati e pelo jovem Stefano Fassina, foi duramente atacada por Matteo Renzi e consequentemente desqualificada por toda a m\u00eddia por amea\u00e7ar n\u00e3o votar no Parlamento a aboli\u00e7\u00e3o do Art. 18.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que essa quest\u00e3o foi a gota que fez entornar o copo no seio do PD, j\u00e1 que os contrastes pol\u00edticos e, tamb\u00e9m, ideol\u00f3gicos n\u00e3o s\u00e3o poucos. Trata-se, enfim, de uma confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre os \u201cliberais de Matteo Renzi\u201d e a dita \u201cvelha guarda social-democrata\u201d que, agora, personifica duas concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diferentes, que, na realidade, podem chegar ao surgimento de dois novos partidos. Ali\u00e1s, algu\u00e9m afirma que esses dois partidos j\u00e1 existem em \u201coff\u201d disputando o \u201caparelho\u201d do pr\u00f3prio PD.<\/p>\n<p><strong>De olho nos EUA<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto na It\u00e1lia multiplicam-se os opositores a uma Reforma do Trabalho que vai acabar com o Art. 18 do Estatuto dos Trabalhadores, o primeiro-ministro Matteo Renzi foi aos EUA para se conciliar, por um lado, com os republicanos (George Shultz e Condoleezza Rice) e, por outro, com os democratas (Bill e Hillary Clinton), al\u00e9m de tornar p\u00fablico o \u201cnamoro pol\u00edtico\u201d com o administrador delegado da FIAT-Chrysler, Sergio Marchionne, que foi quem desafiou a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista italiana, desempregando apenas os sindicalistas e os delegados de f\u00e1bricas da FIOM-CGIL, al\u00e9m de introduzir o \u201ccontrato de trabalho FIAT\u201d, que desqualifica o tradicional contrato nacional dos metal\u00fargicos.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia de encontros que Renzi manteve, em San Francisco, com os empres\u00e1rios do Silicon Valley e depois, em Detroit, com Marchionne e os principais banqueiros (ou seria melhor dizer especuladores) de Wall Street, na realidade, foi uma artimanha do marketing pol\u00edtico que h\u00e1 dois anos construiu o sucesso midi\u00e1tico de Renzi, fortalecendo sua imagem pol\u00edtica.<\/p>\n<p>De fato, ter dialogado, ao mesmo tempo, com Shultz e Rice e depois com Bill e Hillary Clinton, antes de ir \u00e0 Assembleia da ONU, para contar a f\u00e1bula que os italianos escutam desde fevereiro, foi uma jogada de mestre, visto que a m\u00eddia estadunidense homenageou bastante Renzi \u2013 n\u00e3o por ser um l\u00edder inovador mas, simples-mente, por se ajoelhar ao Imp\u00e9rio e reverenciar todos os seus l\u00edderes. Enfim, algo que foi feito n\u00e3o para impressionar os estadunidenses, mas para convencer os italianos de que ele \u00e9 bem protegido e, por isso, agora, \u00e9 ele que manda. \u00c9 claro com o apoio de Berlusconi, sem o qual o governo Renzi j\u00e1 teria ca\u00eddo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que uma agenda desse tipo n\u00e3o foi improvisada na v\u00e9spera de embarcar para Nova York. Houve contatos e um planejamento por parte do \u201cgrupo oculto do PD\u201d que escolheu datas, locais e participantes para obter na It\u00e1lia o chamado \u201cefeito espelho\u201d, no preciso momento em que come\u00e7ava o debate sobre a aboli\u00e7\u00e3o do Artigo 18 e, sobretudo, quando explodia o conflito com a CGIL e os trabalhadores em geral.<\/p>\n<p>Para muitos comentaristas, essa viagem de Renzi aos EUA foi a \u00faltima que ele fez como l\u00edder de um PD unificado, visto que a declarada efus\u00e3o de intentos e de projetos com Sergio Marchionne enterraram, de vez, a aparente unidade que poder\u00e1 explodir de forma definitiva quando a situa\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria e a recess\u00e3o obrigar\u00e3o o governo a pedir a interven\u00e7\u00e3o da Tr\u00edade (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu) com as consequ\u00eancias que todo o mundo conhece. De fato, Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, alertou Renzi ao lembr\u00e1-lo que a d\u00edvida p\u00fablica novamente extrapolou os n\u00edveis, enquanto o crescimento econ\u00f4mico permanece no n\u00edvel \u201c0\u201d`!<\/p>\n<p><strong>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia e editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6720\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[101],"tags":[],"class_list":["post-6720","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c114-italia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ko","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6720"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6720\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}