{"id":6725,"date":"2014-09-29T23:58:03","date_gmt":"2014-09-29T23:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6725"},"modified":"2017-08-25T00:59:59","modified_gmt":"2017-08-25T03:59:59","slug":"uma-vala-nos-separa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6725","title":{"rendered":"Uma vala nos separa"},"content":{"rendered":"\n<p>A iniquidade \u00e9 a marca dos tempos atuais. Os ricos transformaram o planeta em uma terra arrasada, uma terra de ningu\u00e9m, uma terra apenas deles mesmos.<\/p>\n<p>As riquezas se concentram nas m\u00e3os de poucos. Enquanto a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o sobrevive em condi\u00e7\u00f5es subumanas, isso quando consegue sobreviver &#8211; quando n\u00e3o morre por falta de recursos, de rem\u00e9dios, de atendimento m\u00e9dico, de comida, de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas ou quando n\u00e3o \u00e9 assassinada, v\u00edtima do Estado &#8211; uma minoria desfruta de carros importados, helic\u00f3pteros, iates, mans\u00f5es, luxo, lux\u00faria. Poder. Exerce o Poder.<\/p>\n<p>Os banqueiros conseguiram ocupar os principais cargos de Economia e Finan\u00e7as na Europa. Dominam o governo dos Estados Unidos e da maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica. Imp\u00f5em sua vontade na \u00c1frica e tomaram de assalto grande parte das na\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas. \u00c9 a verdadeira globaliza\u00e7\u00e3o, a globaliza\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o do capital, da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. \u00c9 o apartheid socioecon\u00f4mico a ditar os rumos da humanidade.<\/p>\n<p>Resultado disso \u00e9 a dupla jornada de trabalho das mulheres, os baixos sal\u00e1rios dos trabalhadores, a viol\u00eancia que se acomete sobre os jovens e sua falta de perspectivas, a p\u00e9ssima qualidade da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os principais algozes do povo brasileiro, que tem mais de 80 milh\u00f5es de pessoas em estado de pobreza. Quase metade da popula\u00e7\u00e3o vive em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Desta, cerca de 70% enfrentam um dia a dia extenuante, acachapante, massacrante.<\/p>\n<p>Os negros s\u00e3o discriminados indiscriminadamente. Pol\u00edticas paliativas n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 raiz dos seus problemas. O racismo ainda predomina nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>As mulheres, vistas apenas como objetos de consumo e de explora\u00e7\u00e3o, sofrem com sal\u00e1rios ainda menores que os dos homens, com a viol\u00eancia que mata de 10 a 15 por dia, o sustento da maioria das fam\u00edlias, a assist\u00eancia m\u00e9dica inadequada, principalmente na juventude, na gravidez e no p\u00f3s-parto.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam mais espa\u00e7os seguros e higi\u00eanicos para brincar. O tr\u00e1fico de drogas as assola, o baixo n\u00edvel de ensino as predestina \u00e0 subservi\u00eancia, a escassez de recursos das fam\u00edlias as frustram diante de uma sociedade que impele ao consumo.<\/p>\n<p>Os \u00edndios convivem com escolas da pior infraestrutura em n\u00edvel nacional, falta de atendimento m\u00e9dico, de respeito \u00e0 sua cultura, invas\u00f5es de suas terras, roubo e extors\u00e3o de seus recursos naturais.<\/p>\n<p>Os trabalhadores sofrem com baixos sal\u00e1rios, ass\u00e9dio moral, sobrecarga de jornada, condi\u00e7\u00f5es de trabalho das piores, a manuten\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito de m\u00e3o de obra de reserva a amea\u00e7\u00e1-los e chantege\u00e1-los permanentemente, enquanto estat\u00edsticas absurdamente manipuladas apontam baixos \u00edndices de desemprego.<\/p>\n<p>Os sem terra lutam em todas as frentes, em todo o pa\u00eds, mas apesar das promessas e da Constitui\u00e7\u00e3o a reforma agr\u00e1ria n\u00e3o vem. As foices e as enxadas conseguem vit\u00f3rias a base de muita luta, necess\u00e1rias diante da frustra\u00e7\u00e3o que acomete o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os sem teto s\u00e3o tratados como marginais, como invasores da propriedade alheia. N\u00e3o s\u00e3o tidos como trabalhadores em busca de um direito b\u00e1sico de todo ser humano. S\u00e3o dos mais discriminados na criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento social que o governo e as elites promovem.<\/p>\n<p>Nossa terra tem donos. Poucos donos. Pouco preocupados com a alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, os direitos dos trabalhadores rurais, o emprego, a sobreviv\u00eancia da fauna e da flora, a explora\u00e7\u00e3o consciente dos recursos h\u00eddricos e minerais. A maior floresta do mundo \u00e9 sistematicamente estuprada. Empresas internacionais, madeireiras, ONGs roubam sua riqueza, queimam sua grandeza. Os Povos da Floresta choram! Nossos ancestrais desapareceram, n\u00e3o v\u00eam mais \u00e0 noite para conversar.<\/p>\n<p>Nossas praias s\u00e3o privadas, descarregam os excrementos dos ricos, cercadas e cerceadas para os pobres. Em muitas delas as l\u00ednguas predominantes s\u00e3o o ingl\u00eas e o espanhol. At\u00e9 nosso falar est\u00e1 se perdendo.<\/p>\n<p>As estradas conduzem os caminh\u00f5es abarrotados de riquezas que produzimos mas n\u00e3o desfrutamos, o desvio de recursos naturais, a propiciar altos lucros para os donos dos ped\u00e1gios.<\/p>\n<p>As cidades s\u00e3o uns amontoados. Os transportes p\u00fablicos inseguros, sujos, lotados, caros. Cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem saneamento b\u00e1sico, a viol\u00eancia, inclusive policial, campeia, n\u00e3o h\u00e1 teatros, cinemas, quadras de esportes. Os pequenos comerciantes s\u00e3o expulsos pelos shoppings e multinacionais, as \u00e1rvores escasseiam das ruas. A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria expulsa os trabalhadores para bols\u00f5es irrespir\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nossa cultura est\u00e1 vilipendiada, invadida pelo que h\u00e1 de pior na p\u00e1tria m\u00e3e do imperialismo, destitu\u00edda do brasileirismo, contaminada pelo vi\u00e9s financeiro, distante da nossa realidade, longe dos nossos valores. At\u00e9 o futebol, antes maior orgulho do povo oprimido, pois eram os seus filhos a brilharem nos campos, resumiu-se a meros 7 x 1.<\/p>\n<p>Enquanto isso&#8230;<\/p>\n<p>Os ricos est\u00e3o cada vez mais ricos. Os banqueiros nadam em lucros exorbitantes, as transnacionais abastecem seus cofres e suas filiais de recursos aqui gerados. Os milion\u00e1rios e os bilion\u00e1rios se refastelam em suas mans\u00f5es cercadas de grades e seguran\u00e7as. Dominam os governos, os deputados, os senadores, os vereadores, os meios de comunica\u00e7\u00e3o. D\u00e3o as cartas em um jogo de cartas marcadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais di\u00e1logo. \u00c9 imposs\u00edvel o escravo conversar com o feitor. Uma f\u00e9tida e imensa vala nos separa. Uma vala insuper\u00e1vel. Nossas necessidades, nossos interesses, nossos sonhos, nossas vidas n\u00e3o nos permitem conviver com nossos algozes.<\/p>\n<p>Pra vida continuar a viver, o sorriso a sorrir, a floresta a florir, o sol voltar a nascer, isso tem que acabar. Acabar de vez. Acabar porque seu tempo passou. S\u00f3 acabar!<\/p>\n<p>N\u00e3o somos estudados nem letrados. N\u00e3o nos permitiram. Temos a dor em nossa carne a nos ensinar a mais dura das li\u00e7\u00f5es: se n\u00e3o fizermos por n\u00f3s mesmos, ningu\u00e9m o far\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 iluminados, grande pai, ricos bem intencionados. Somente dois lados distintos, antag\u00f4nicos. Queremos o que produzimos. Eles querem o que \u00e9 nosso.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a, a verdade, a igualdade e a pr\u00f3pria vida est\u00e3o do nosso lado. Tom\u00eamo-las.<\/p>\n<p>*Jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAfonso Costa*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6725\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-6725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Kt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6725"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6725\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}