{"id":6730,"date":"2014-10-02T03:23:35","date_gmt":"2014-10-02T03:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6730"},"modified":"2014-10-22T04:22:09","modified_gmt":"2014-10-22T04:22:09","slug":"quanto-vale-o-arranjo-social-liberal-em-tempos-de-ajuste-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6730","title":{"rendered":"Quanto vale o arranjo social-liberal em tempos de ajuste neoliberal?"},"content":{"rendered":"\n<p>A pergunta \u00e9 uma resposta aos que ainda se consideram inteiros depois de alian\u00e7as amplas o suficiente para manter moeda e territ\u00f3rio plenamente apropri\u00e1veis e convers\u00edveis, ou seja, para manter est\u00e1vel o \u201cneg\u00f3cio Brasil\u201d depois de 2002. Para os mercados, mais que soberanos, cortejados por Dilma e candidaturas variantes, o que conta \u00e9 capacidade de sacrif\u00edcio adicional de pol\u00edticas dom\u00e9sticas e gastos sociais, requeridos para o ajuste de 2015. As ecl\u00e9ticas coaliz\u00f5es postas em torneio valer\u00e3o o quanto pesarem na implementa\u00e7\u00e3o do aperto na radicalidade necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o \u00e0 esquerda do PT foi implodido \u00e0 medida que este se aferrou a um centro deliberadamente estendido \u00e0 direita, em um esquadro de outorga de superpoderes aos grupos privados. Depois da san\u00e7\u00e3o de Lula e o PT aos privil\u00e9gios adquiridos nos anos de reestrutura\u00e7\u00e3o neoliberal, a direita p\u00f4de ent\u00e3o relaxar e naturalizar suas premissas: fundamentos da \u201cboa economia\u201d em troca dos da \u201cboa sociedade\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 os segmentos e agrupamentos que permaneceram efetivamente na esquerda, na contram\u00e3o, no contra-fluxo do capitalismo, ou seja, tudo que possa ser coletivo, comunit\u00e1rio, democr\u00e1tico, equilibrado, foram expelidos do campo da \u201cnormalidade institucional\u201d. Logo foram rotulados como \u201cultraesquerda\u201d, j\u00e1 que o PT, sensata ou oportunisticamente, tinha se integrado aos par\u00e2metros de longa dura\u00e7\u00e3o da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora do pa\u00eds. A prefixa\u00e7\u00e3o \u201cultra\u201d passa ent\u00e3o a definir o confinamento do protesto ou a dissens\u00e3o toler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Convenhamos, depois de tantas metamorfoses e concess\u00f5es, como compartilhar da mesma percep\u00e7\u00e3o que \u201cchegamos por ora ao teto poss\u00edvel de conquistas sociais\u201d? Quer dizer que para a manuten\u00e7\u00e3o dos estreitos limites do ainda n\u00e3o privatiz\u00e1vel e flexibiliz\u00e1vel \u201cdependemos absolutamente da recondu\u00e7\u00e3o de Dilma ao governo\u201d?<\/p>\n<p>Os limites parecem mais instranspon\u00edveis para os que se autolimitaram aos vetos sist\u00eamicos postos. Palocci indicava com a famigerada frase \u201cesse tema est\u00e1 fora da pauta\u201d, ainda na transi\u00e7\u00e3o do governo FHC, o grau de ren\u00fancia \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e, portanto, o n\u00edvel de pactua\u00e7\u00e3o com os capitais. Doze anos depois, \u00e9 preciso insistir que, enquanto a d\u00edvida p\u00fablica e o trip\u00e9 macroecon\u00f4mico que a alimenta n\u00e3o forem colocados em pauta, n\u00e3o haver\u00e1 pa\u00eds, na\u00e7\u00e3o ou Estado nenhum por \u201cdisputar\u201d.<\/p>\n<p>Estivessem comprometidos com interesses \u201crepublicanos\u201d e \u201cnacionais\u201d, deveriam preparar a popula\u00e7\u00e3o para o mais agudo conflito distributivo que se avizinha em arenas amplas e reconhecidas, e n\u00e3o simplesmente deixar que oligop\u00f3lios e bancos estabele\u00e7am o cronograma e direcionalidade do acerto de contas, como j\u00e1 vem ocorrendo.<\/p>\n<p>O que conferiu reelei\u00e7\u00e3o a FHC foi cavalgar o Real com o mote: \u201cOu eu ou o caos\u201d. A chantagem se repete e se perfila em paralelo \u00e0 chantagem do mercado financeiro com sua orquestra\u00e7\u00e3o da movimenta\u00e7\u00e3o de capitais. Caos antecipado para que o governo transforme desde j\u00e1 essas prerrogativas em pol\u00edticas de Estado, n\u00e3o politiz\u00e1veis, portanto. Do contr\u00e1rio, o caos continuar\u00e1 sendo laboriosamente constru\u00eddo. A chantagem \u00e9 sist\u00eamica e paira sobre os tr\u00eas programas tidos como \u201cvi\u00e1veis\u201d, tal qual uma espectral \u201ccarta aos brasileiros\u201d perene, em expans\u00e3o e com um pend\u00e3o de uma (des)constituinte.<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o \u00e9 o inimigo, mas dorme com ele, lhe d\u00e1 guarida, confere-lhe t\u00edtulos de hero\u00edsmo p\u00e1trio, desqualificando tudo que a ele se oponha como entrave, barreira ou obst\u00e1culo. Criminalizados, consequentemente, os que ficam fora desse pacto de crescimento a qualquer custo. Nem reconhecimento nem igualdade, apenas fuga para a frente da atual matriz de assimetrias.<\/p>\n<p>Sobre os protestos de junho, se partidos da esquerda remanescente n\u00e3o os conduziram, foram os que estavam mais pr\u00f3ximos deles, tanto que, ainda em julho de 2013, Abin e as Pol\u00edcias Militares de SP e RJ procuraram envolv\u00ea-los nos inveross\u00edmeis processos de criminaliza\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es. E foram justamente eles, com suas bandeiras empunhadas, que tiveram de enfrentar as gangues fascistas que aflu\u00edram \u00e0s ruas, ditando o verde e amarelo como matiz \u00fanica e inegoci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Processos de adapta\u00e7\u00e3o e oligarquiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, como sabemos historicamente, n\u00e3o podem ser reduzidos a um evento ou causa \u00fanica. Chamemos as \u201ctrai\u00e7\u00f5es\u201d de ren\u00fancias condicionadas \u2013 desde 1994, com as primeiras contribui\u00e7\u00f5es das grandes empreiteiras \u00e0 candidatura de Lula, at\u00e9 os programas de concess\u00f5es de infraestrutura no final do governo Dilma \u2013 e teremos um cen\u00e1rio mais realista da auto-domestica\u00e7\u00e3o do PT e do verdadeiro \u201csentido do lulismo\u201d para os de cima.<\/p>\n<p>O que pode oferecer a ex-esquerda sen\u00e3o a mitiga\u00e7\u00e3o do que considera inevit\u00e1vel, mas n\u00e3o declara: arrocho sobre os trabalhadores, maior esvaziamento das pol\u00edticas sociais e continuidade do avan\u00e7o selvagem da fronteira da mercadoriza\u00e7\u00e3o sobre novos territ\u00f3rios e bens p\u00fablicos?<\/p>\n<p>Em nome da urg\u00eancia de n\u00e3o perder, no curto prazo, duvidosas margens de autonomia relativa, entregam sem maior resist\u00eancia os comandos de \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e0s fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas do bloco de poder. Nos agroneg\u00f3cios, na minera\u00e7\u00e3o e na energia, mais mudan\u00e7as, quer dizer, mais concentra\u00e7\u00e3o e mais lucros. Nos setores de infraestrutura, PPPs (Parcerias P\u00fablico-Privadas) ao gosto do fregu\u00eas \u00e9 a palavra de ordem \u00faltima.<\/p>\n<p>No plano externo, se houve real distanciamento do imperialismo norte-americano, o realinhamento rebaixado do pa\u00eds no seio dos BRICs, mais especificamente como grande supridor de mat\u00e9rias-primas da China, n\u00e3o nos trouxe nada parecido com alguma \u201cinser\u00e7\u00e3o soberana\u201d ou a internaliza\u00e7\u00e3o de centros de \u201cinova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d. Ao contr\u00e1rio, por press\u00e3o chinesa, o Brasil est\u00e1 sendo \u201cconvidado\u201d a negociar com a Parceria Transpac\u00edfico (TPP) e com a Alian\u00e7a Pac\u00edfico. Em breve dir\u00e3o que ser\u00e1 necess\u00e1rio firmar acordo com a Uni\u00e3o Europeia e os EUA (o TAFTA) para \u201ccontrabalan\u00e7ar\u201d o peso chin\u00eas sobre nossa din\u00e2mica e perfil produtivos.<\/p>\n<p>Por um tempo, o carimbo de \u201cultraesquerda\u201d ajudou a convencer a direita, oclusa e onipresente, que o PT era o centro necess\u00e1rio e inescap\u00e1vel. Agora que precisam pendular retoricamente para a esquerda para reter bases eleitorais despolitizadas em fuga, a ultraesquerda torna-se inc\u00f4moda de novo, mesmo com todo seu \u201cresidualismo\u201d. Mas o res\u00edduo que importa \u00e9 aquele proveniente das vagas de lutas massivas no campo e nas cidades a partir do final dos anos 70, um material imag\u00edstico valioso, mem\u00f3ria indispens\u00e1vel para se fundir com o novo repert\u00f3rio de resist\u00eancias trazido pelas Jornadas de Junho.<\/p>\n<p>Por isso, um pouco mais de pudor e respeito com o campo no qual se originaram \u00e9 o m\u00ednimo que se pode exigir dos que agora v\u00eam falar em \u201crisco iminente de perda de direitos sociais e de soberania nacional\u201d. Por isso, quem cr\u00ea que um novo ciclo de crise e mobiliza\u00e7\u00e3o social teve in\u00edcio a partir de 2011 sabe o qu\u00e3o fundamental \u00e9 fortalecer os basti\u00f5es do pensamento cr\u00edtico e das din\u00e2micas de auto-organiza\u00e7\u00e3o. E por isso n\u00e3o se render\u00e1 \u00e0 chantagem dos mercados ou de seus ventr\u00edloquos e seguir\u00e1 com sua agenda de enfrentamento cotidiano do mundo da mercadoria, o que inclui votar, com orgulho e de cabe\u00e7a em p\u00e9, em uma das candidaturas da frente de esquerda, que se apresenta de forma latente com o PSOL, o PCB, o PSTU e o PCO, al\u00e9m de outras organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o comungam da forma-partido cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Havendo segundo turno, conforme reza o script das abdica\u00e7\u00f5es ilimitadas, ser\u00e1 desej\u00e1vel construir uma posi\u00e7\u00e3o conjunta deste campo, que aponte para as mudan\u00e7as profundas e estruturais que a popula\u00e7\u00e3o deseja, mas que n\u00e3o est\u00e3o colocadas \u201cem pauta\u201d nessas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=10069:submanchete220914&#038;catid=72:imagens-rolantes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nLUIS FERNANDO NOVOA GARZON\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6730\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-6730","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ky","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6730"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6730\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}