{"id":6752,"date":"2014-10-15T02:50:05","date_gmt":"2014-10-15T02:50:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6752"},"modified":"2014-11-05T06:49:55","modified_gmt":"2014-11-05T06:49:55","slug":"por-que-evo-ganhou-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6752","title":{"rendered":"Por que Evo ganhou?"},"content":{"rendered":"\n<p>(ALAI, Am\u00e9rica Latina em Movimento)<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria esmagadora de Evo Morales tem uma explica\u00e7\u00e3o muito simples: ganhou porque seu governo foi, sem d\u00favida alguma, o melhor da conturbada hist\u00f3ria da Bol\u00edvia. \u201cMelhor\u201d quer dizer, \u00e9 claro, que transformou a realidade e cumpriu a grande promessa, tantas vezes descumprida, de toda democracia: garantir o bem-estar material e espiritual das grandes maiorias nacionais, dessa heterog\u00eanea massa plebeia oprimida, explorada e humilhada por s\u00e9culos. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que Evo \u00e9 o divisor da hist\u00f3ria boliviana: existe uma Bol\u00edvia antes de seu governo e outra, distinta e melhor, a partir de sua chegada ao Pal\u00e1cio Quemado. Esta nova Bol\u00edvia, cristalizada no Estado Plurinacional, enterrou definitivamente a outra: colonial, racista, elitista que nada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 ressuscitar.<\/p>\n<p>Um erro frequente \u00e9 atribuir esta verdadeira proeza hist\u00f3rica \u00e0 boa sorte econ\u00f4mica que se derramou na Bol\u00edvia a partir dos \u201cventos favor\u00e1veis\u201d da economia mundial, ignorando que pouco depois da ascens\u00e3o de Evo ao governo, a mesma entraria em um ciclo recessivo do qual n\u00e3o saiu at\u00e9 hoje. Sem d\u00favida seu governo fez uma correta manobra da pol\u00edtica econ\u00f4mica, por\u00e9m o que para n\u00f3s \u00e9 essencial para explicar sua extraordin\u00e1ria lideran\u00e7a \u00e9 o fato de que com Evo teve in\u00edcio uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, cujo sinal mais marcante \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o, pela primeira vez na hist\u00f3ria boliviana, de um governo dos movimentos sociais. O MAS n\u00e3o \u00e9 um partido no sentido estrito, mas uma grande coaliz\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es populares de diversos tipos que, ao longo destes anos, foi se ampliando at\u00e9 incorporar hegemonicamente setores da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d que, no passado, tinham se oposto fervorosamente ao l\u00edder cocalero. Por isso, n\u00e3o surpreende que no processo revolucion\u00e1rio boliviano (lembrar que a revolu\u00e7\u00e3o sempre \u00e9 um processo, jamais um ato) se tenham posto em manifesto numerosas contradi\u00e7\u00f5es que \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, o companheiro de Evo, interpreta como as tens\u00f5es criativas pr\u00f3prias de toda revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhuma est\u00e1 isenta de contradi\u00e7\u00f5es, como tudo o que vive. Por\u00e9m, o que distingue a gest\u00e3o de Evo \u00e9 o fato de que tais contradi\u00e7\u00f5es foram sendo resolvidas corretamente, fortalecendo o bloco popular e reafirmando seu predom\u00ednio no \u00e2mbito do Estado. Um presidente que quando se equivocou \u2013 por exemplo, durante o \u201cgasolinazo\u201d de dezembro de 2010 \u2013 admitiu seu erro e, ap\u00f3s escutar a voz das organiza\u00e7\u00f5es populares, anulou o aumento dos combust\u00edveis decretado poucos dias antes. Essa rara sensibilidade para ouvir a voz do povo e responder em consequ\u00eancia \u00e9 o que explica que Evo tenha conseguido o que Lula e Dilma n\u00e3o alcan\u00e7aram: transformar sua maioria eleitoral em hegemonia pol\u00edtica, isto \u00e9, em capacidade para forjar um novo bloco hist\u00f3rico e construir alian\u00e7as cada vez mais amplas, por\u00e9m sempre sob a orienta\u00e7\u00e3o do povo organizado nos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Obviamente que este quadro n\u00e3o poderia se sustentar t\u00e3o somente na habilidade pol\u00edtica de Evo ou no fasc\u00ednio de um relato que exaltasse a epopeia dos povos origin\u00e1rios. Sem uma base adequada na vida material, tudo aquilo desapareceria sem deixar rastros. Por\u00e9m, foi combinado com muitas conquistas econ\u00f4micas significativas, que forneceram as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para contribuir com a hegemonia pol\u00edtica que hoje fez poss\u00edvel sua aterradora vit\u00f3ria. O PIB passou de 9.525 milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2005 para 30.381 em 2013, e o PIB per capita saltou de 1.010 para 2.757 d\u00f3lares entre esses mesmos anos.<\/p>\n<p>A chave deste crescimento \u2013 e desta distribui\u00e7\u00e3o! \u2013 sem precedentes na hist\u00f3ria boliviana, se encontra na nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos. No passado a divis\u00e3o da renda do g\u00e1s e do petr\u00f3leo deixava nas m\u00e3os das transnacionais 82% do produto, enquanto o Estado captava apenas os 18% restantes. Com Evo, essa rela\u00e7\u00e3o se inverteu e agora a parte do le\u00e3o fica nas m\u00e3os do fisco. N\u00e3o surpreende, portanto, que um pa\u00eds que tinha d\u00e9ficits cr\u00f4nicos nas contas fiscais tenha terminado o ano de 2013 com 14.430 milh\u00f5es de d\u00f3lares em reservas internacionais (contra os 1.714 milh\u00f5es que dispunha em 2005). Para equilibrar o significado desta cifra, basta dizer que as mesmas equivalem a 47 % do PIB, de longe a porcentagem mais alta da Am\u00e9rica Latina. Em conson\u00e2ncia com todo o anterior, a extrema pobreza baixou de 39 % em 2005 para 18 % em 2013, existindo a meta de erradic\u00e1-la por completo at\u00e9 o ano de 2025.<\/p>\n<p>Com o resultado de ontem, Evo continuar\u00e1 no Pal\u00e1cio Quemado at\u00e9 2020, momento em que seu projeto de refunda\u00e7\u00e3o ter\u00e1 alcan\u00e7ado um ponto que n\u00e3o permitir\u00e1 retrocessos. Resta saber se conseguir\u00e1 manter a maioria de dois ter\u00e7os no Congresso, o que far\u00e1 poss\u00edvel aprovar uma reforma constitucional que abrir\u00e1 a possibilidade de uma reelei\u00e7\u00e3o indefinida. Ante isto, n\u00e3o faltar\u00e1 quem acuse o presidente boliviano de ditador ou de pretender perpetuar-se no poder. Vozes hip\u00f3critas e falsamente democr\u00e1ticas, que jamais manifestaram essa preocupa\u00e7\u00e3o durante os 16 anos de gest\u00e3o de Helmut Kohl na Alemanha, ou dos 14 anos do lobista das transnacionais espanholas, Felipe Gonz\u00e1lez. O que na Europa \u00e9 uma virtude, prova inquestion\u00e1vel de previsibilidade ou estabilidade pol\u00edtica, no caso da Bol\u00edvia, se converte em um v\u00edcio intoler\u00e1vel que desmascara a suposta ess\u00eancia desp\u00f3tica do projeto do MAS. Nada novo: existe uma moral para os europeus e outra para os \u00edndios. Assim, simplesmente.<\/p>\n<p>&#8211; Dr. Atilio A. Boron, Investigador Superior do Conicet e Diretor do PLED (Programa Latino-americano de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia em Ci\u00eancias Sociais).<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.alainet.org\/active\/77899<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAtilio Boron\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6752\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-6752","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1KU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6752"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6752\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}