{"id":68,"date":"2009-08-21T03:00:00","date_gmt":"2009-08-21T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=68"},"modified":"2009-08-21T03:00:00","modified_gmt":"2009-08-21T03:00:00","slug":"as-pedras-de-tegucigalpa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/68","title":{"rendered":"As pedras de Tegucigalpa"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">O golpe em Honduras \u00e9 parte do plano imperialista para tentar frear a ALBA e os processos de mudan\u00e7as sociais na Am\u00e9rica Latina. Honduras fica entre a Nicar\u00e1gua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de liberta\u00e7\u00e3o nacional, agora em vers\u00e3o moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m disso, o pa\u00eds possui grandes reservas n\u00e3o exploradas de petr\u00f3leo, min\u00e9rio abundante e outros recursos naturais, al\u00e9m da base de Soto Cano, a mais importante e estrat\u00e9gica para os ianques na Am\u00e9rica Central. Zelaya \u00e9 o detalhe do golpe, que \u00e9 muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bol\u00edvia e os dois vizinhos lim\u00edtrofes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao que tudo indica, est\u00e1 a ponto de se consumar o plano B que o imp\u00e9rio adotou a partir da repulsa mundial no in\u00edcio do golpe: a sua legitima\u00e7\u00e3o e, em seguida, legaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A cada dia que passa fica mais dif\u00edcil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as elei\u00e7\u00f5es gerais de novembro com as m\u00e3os atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manuten\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es gerais para o dia 29 de novembro pr\u00f3ximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decis\u00e3o do judici\u00e1rio, como se estivesse submetendo-se a um poder aut\u00f4nomo, ao \u201cimp\u00e9rio da lei e da justi\u00e7a, ao estado democr\u00e1tico de direito\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tudo isso em cadeia nacional de televis\u00e3o. No hor\u00e1rio nobre, como conv\u00e9m a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminat\u00f3rias da Copa do Mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">A sinaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: at\u00e9 a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o pa\u00eds, o TSE realiza as elei\u00e7\u00f5es, a Corte Suprema as preside, as For\u00e7as<\/p>\n<p align=\"justify\">Armadas as garantem e os observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya n\u00e3o volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.<\/p>\n<p align=\"justify\">No mesmo dia, em entrevista coletiva ap\u00f3s uma c\u00fapula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canad\u00e1 e do M\u00e9xico, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Aproveitando-se das ilus\u00f5es alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as m\u00e3os, apontando a incoer\u00eancia das press\u00f5es para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da interven\u00e7\u00e3o dos EUA nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p align=\"justify\">No mesmo evento trilateral, Felipe Calder\u00f3n \u2013 eleito presidente numa monumental fraude contra L\u00f3pez Obrador \u2013 anuncia o reconhecimento do M\u00e9xico ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canad\u00e1, cujas mineradoras transnacionais com sede no pa\u00eds ocupam quase um ter\u00e7o do territ\u00f3rio hondurenho. Para os que ainda n\u00e3o se deram conta de que o capitalismo brasileiro \u00e9 parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela \u201cnossa\u201d Vale do Rio Doce.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tudo indica que o n\u00facleo duro da oligarquia e da c\u00fapula militar que assumiu o governo em Honduras h\u00e1 mais de cinq\u00fcenta dias \u2013 agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder \u2013 est\u00e1 com for\u00e7a para impor seu pr\u00f3prio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. N\u00e3o s\u00f3 recha\u00e7ou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, n\u00e3o recebeu uma delega\u00e7\u00e3o de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pr\u00f3-imperialistas: Argentina, Canad\u00e1, Costa Rica, Jamaica, M\u00e9xico e Rep\u00fablica Dominicana. Os golpistas s\u00f3 admitiram receber a Comiss\u00e3o da OEA no pr\u00f3ximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem \u201cmedia\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os golpistas conseguiram unificar todas as institui\u00e7\u00f5es e personalidades das classes dominantes: as c\u00fapulas das For\u00e7as Armadas, da Igreja Cat\u00f3lica, das entidades empresariais, do Judici\u00e1rio, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do pr\u00f3prio partido de Zelaya, ali\u00e1s o mesmo de Micheletti, o centen\u00e1rio Partido Liberal, uma esp\u00e9cie de PMDB hondurenho.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta unifica\u00e7\u00e3o se expressa na m\u00eddia. Est\u00e3o com o golpe todos os quatro jornais di\u00e1rios e, com a interven\u00e7\u00e3o militar no canal 36 e a repress\u00e3o a jornalistas independentes, todas as emissoras de televis\u00e3o. Apenas uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um cap\u00edtulo da luta de classes que se expressa no pa\u00eds. Nos dias 11 e 12 de agosto, n\u00e3o por coincid\u00eancia, chegaram ao auge a mobiliza\u00e7\u00e3o popular e a repress\u00e3o. Sinto expressar a impress\u00e3o de que os golpistas sa\u00edram mais fortalecidos dessas dram\u00e1ticas 48 horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, S\u00e3o Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir at\u00e9 a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Pol\u00edcia Nacional e do Ex\u00e9rcito. Na dispers\u00e3o, como express\u00e3o da revolta popular, as pedras das mal cal\u00e7adas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra s\u00edmbolos do capital: as vidra\u00e7as de bancos e redes multinacionais de comida r\u00e1pida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, ve\u00edculos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reuni\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na manh\u00e3 do dia 12, quando nova manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repress\u00e3o j\u00e1 havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com viol\u00eancia contra quem estivesse nas ruas, fossem ou n\u00e3o manifestantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repress\u00e3o foi montado por agentes provocadores que, numa a\u00e7\u00e3o combinada, simularam uma agress\u00e3o e logo em seguida a prote\u00e7\u00e3o do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele sa\u00edra sozinho \u00e0 porta do Parlamento em plena sess\u00e3o legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas \u00e0 exaust\u00e3o em todas as emissoras de televis\u00e3o hondurenhas e possivelmente no mundo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na dispers\u00e3o desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resist\u00eancia desde o in\u00edcio das mobiliza\u00e7\u00f5es, o at\u00e9 ent\u00e3o inviol\u00e1vel campus da Universidade Pedag\u00f3gica, onde se realizam as Assembl\u00e9ias da resist\u00eancia e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus j\u00e1 estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreens\u00e3o ainda serviu para manipular a \u201cdescoberta\u201d de coquet\u00e9is molotov.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 impressionante a combatividade, a coragem e a determina\u00e7\u00e3o do povo hondurenho. \u00c9 digna de registro a unidade das for\u00e7as que impulsionam at\u00e9 aqui a resist\u00eancia, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades pol\u00edticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. N\u00e3o fossem estas debilidades, a hist\u00f3ria poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os sindicatos ainda n\u00e3o t\u00eam a for\u00e7a desej\u00e1vel, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral n\u00e3o vicejou. Os agrupamentos revolucion\u00e1rios s\u00f3 agora est\u00e3o se reorganizando, recuperando-se da desarticula\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas de 80 e 90, em fun\u00e7\u00e3o da derrota da luta armada, da repress\u00e3o e da crise na constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Para se ter uma id\u00e9ia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele per\u00edodo e s\u00f3 agora alguns comunistas est\u00e3o refundando o Partido.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas as classes dominantes, para al\u00e9m do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a m\u00eddia, sobretudo a televis\u00e3o. \u00c9 por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resist\u00eancia aos setores prolet\u00e1rios e parte minorit\u00e1ria das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com muita compet\u00eancia, diuturnamente, todos os canais de televis\u00e3o legitimam o golpe e satanizam a resist\u00eancia. Jogam com o medo, mostrando cenas de viol\u00eancia nas ruas, em que as tropas s\u00f3 atacam para se defender dos \u201cviolentos\u201d manifestantes, chamados de b\u00e1rbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e neg\u00f3cios, por conta da paralisa\u00e7\u00e3o de parte importante da economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jogam com o sentimento de autodetermina\u00e7\u00e3o, acusando a resist\u00eancia de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">Todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o se utilizam do mesmo padr\u00e3o de manipula\u00e7\u00e3o. Os manifestantes s\u00e3o \u201cv\u00e2ndalos, terroristas\u201d; o golpe \u00e9 uma \u201csucess\u00e3o constitucional\u201d. N\u00e3o h\u00e1 qualquer debate na m\u00eddia eletr\u00f4nica, em que haja espa\u00e7o para o contradit\u00f3rio. Como aqui no Brasil, todos os \u201cespecialistas\u201d chamados a comentar os fatos t\u00eam a mesma vis\u00e3o de mundo. A manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 apenas o que noticiam, mas tamb\u00e9m o que n\u00e3o noticiam. A solidariedade internacional n\u00e3o \u00e9 conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante pol\u00edtico, que queria rasgar a Constitui\u00e7\u00e3o, a servi\u00e7o de Hugo Ch\u00e1vez. Nesta fase de legitima\u00e7\u00e3o do golpe, o notici\u00e1rio sobre Honduras vai sumindo na m\u00eddia mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Confesso que foi imposs\u00edvel resistir \u00e0 atra\u00e7\u00e3o de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse poss\u00edvel. Confesso que foi dif\u00edcil reprimir o impulso que as m\u00e3os suplicavam, quando as pedras me olhavam do ch\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansa\u00e7o, \u00e0 falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para c\u00e1, a uma certa desconfian\u00e7a sobre a determina\u00e7\u00e3o de Zelaya. Ainda por cima, a m\u00eddia legitimou a repress\u00e3o, o que d\u00e1 ao governo golpista m\u00e3os livres para radicalizar mais nas pr\u00f3ximas escaramu\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 muitos ind\u00edcios de que o imperialismo j\u00e1 selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao pa\u00eds, \u201canistiado\u201d, ap\u00f3s a posse do novo Presidente. N\u00e3o h\u00e1 qualquer sinal da sa\u00edda de Micheletti antes disso, nem com a assun\u00e7\u00e3o de um tertius para disfar\u00e7ar o golpe. Se um fato novo n\u00e3o ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidad\u00e3o \u201cilibado, acima das classes, de uni\u00e3o nacional\u201d, ou seja, da absoluta confian\u00e7a do imperialismo e das classes dominantes locais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avalia\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um exemplo deste plano \u00e9 que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comiss\u00e3o de \u201cnot\u00e1veis\u201d indicados pelo governo golpista, para explicar as raz\u00f5es do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de n\u00e3o receber delega\u00e7\u00f5es do governo golpista?<\/p>\n<p align=\"justify\">Os golpistas est\u00e3o trocando os representantes diplom\u00e1ticos hondurenhos no mundo todo, como a C\u00f4nsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe.<\/p>\n<p align=\"justify\">Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas est\u00e3o sendo desobstru\u00eddas, para escoar a circula\u00e7\u00e3o de bens e a exporta\u00e7\u00e3o, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite pol\u00edtica se calaram, com raras exce\u00e7\u00f5es. O caso mais emblem\u00e1tico do oportunismo pol\u00edtico \u00e9 do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como j\u00e1 sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma interna\u00e7\u00e3o por problema card\u00edaco no dia da chegada de Zelaya em Bras\u00edlia, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como se v\u00ea, vai de vento em popa a t\u00e1tica da legitima\u00e7\u00e3o do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominar\u00e1 a cena pol\u00edtica hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter id\u00e9ia do processo eleitoral, haver\u00e1 mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do \u00fanico Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificaci\u00f3n Democr\u00e1tica), que tem seis Deputados \u2013 nem todos participando publicamente da resist\u00eancia \u2013 numa C\u00e2mara de pouco mais de cem.<\/p>\n<p align=\"justify\">A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados j\u00e1 poder\u00e3o divulgar suas campanhas em mat\u00e9rias pagas, inclusive na televis\u00e3o. Isto mudar\u00e1 a pauta nacional.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali\u00e1s, a participa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o no processo eleitoral pode ser um fator de divis\u00e3o da Frente contra o golpe, que re\u00fane a Unificaci\u00f3n Democr\u00e1tica e o Bloque Popular, em que se encontram as organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas mais \u00e0 esquerda. A UD j\u00e1 lan\u00e7ou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es, com o argumento de n\u00e3o legitimar o golpe.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em territ\u00f3rio nicarag\u00fcense, em Ocotal, na fronteira com seu pa\u00eds, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resist\u00eancia popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela Am\u00e9rica do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflex\u00e3o do eixo Ch\u00e1vez\/Ortega para Lula\/Bachelet.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas j\u00e1 ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da luta de resist\u00eancia contra o golpe e ao n\u00e3o reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifesta\u00e7\u00f5es continuam, ainda que com participa\u00e7\u00e3o menor. Neste domingo, haver\u00e1 um grande concerto musical contra o golpe.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos \u00faltimos cap\u00edtulos da ilus\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o nacional-libertadora, que j\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas passou do prazo de validade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios, que t\u00eam algum n\u00edvel de contradi\u00e7\u00e3o com o imperialismo. Sua aproxima\u00e7\u00e3o com a ALBA e a Petrocaribe n\u00e3o tinha um sentido de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, ainda que o difuso \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d. Tratava-se do interesse desses setores n\u00e3o monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos pa\u00edses da ALBA.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o imperialista para importar petr\u00f3leo e outros insumos mais baratos e mitigar as injusti\u00e7as para aumentar o poder de consumo popular, atrav\u00e9s de pol\u00edticas compensat\u00f3rias e aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">A realidade est\u00e1 mostrando que estes setores residuais da burguesia n\u00e3o t\u00eam a m\u00ednima condi\u00e7\u00e3o de disputar com os setores monopolistas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio \u00e0 sua crise, a hegemonia no Estado burgu\u00eas pertence aos segmentos associados aos grandes monop\u00f3lios. Quem manda em Honduras s\u00e3o os bancos, o agroneg\u00f3cio, os exportadores de mat\u00e9ria prima, e as ind\u00fastrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas em Honduras, nada ser\u00e1 como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legend\u00e1ria luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, j\u00e1 ajustou corretamente a linha pol\u00edtica e a organiza\u00e7\u00e3o popular \u00e0s necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convoca\u00e7\u00e3o da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, \u00e9 um dos eixos pol\u00edticos principais. Em Assembl\u00e9ia neste domingo, a resist\u00eancia resolveu priorizar a organiza\u00e7\u00e3o popular, a partir das bases.<\/p>\n<p align=\"justify\">A grande li\u00e7\u00e3o que os militantes hondurenhos aprenderam \u00e9 que os prolet\u00e1rios s\u00f3 podem contar com eles pr\u00f3prios. Para grande parte desta her\u00f3ica vanguarda, acabaram-se as ilus\u00f5es em alian\u00e7as com a burguesia, nas possibilidades de humaniza\u00e7\u00e3o do capitalismo e de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">E a certeza de que n\u00e3o bastam as pedras de Tegucigalpa. *Ivan Pinheiro \u00e9 Secret\u00e1rio Geral do PCB. Rio, 19 de agosto de 2009<\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: \u00c1lbum PCB Flickr\n\n\n\n\n Honduras: a revolu\u00e7\u00e3o nacional-libertadora tardia\nPor Ivan Pinheiro\nOs dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impress\u00f5es que, desde o Brasil, expusera no artigo \u201cContra a manobra do pacto de elites\u201d.\nDefinitivamente, o golpe n\u00e3o s\u00f3 contou como ainda conta com o apoio material e pol\u00edtico do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participa\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o dos erros cometidos na execu\u00e7\u00e3o do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a pris\u00e3o e a retirada \u00e0 for\u00e7a de Manuel Zelaya do pa\u00eds, sem uma sataniza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/68\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-68","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c38-honduras"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-16","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}