{"id":6855,"date":"2014-10-24T13:06:45","date_gmt":"2014-10-24T13:06:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6855"},"modified":"2014-12-01T18:36:51","modified_gmt":"2014-12-01T18:36:51","slug":"ucrania-levanta-se-contra-a-nato-otan-os-neoliberais-e-os-oligarcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6855","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia levanta-se contra a NATO (OTAN) , os neoliberais e os oligarcas"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><strong>Quais s\u00e3o as origens da crise na Ucr\u00e2nia e porque o conflito irrompeu nos \u00faltimos meses? <\/strong><\/p>\n<p>As origens da crise na Ucr\u00e2nia s\u00e3o triplas. A primeira coisa \u00e9 que a Ucr\u00e2nia foi concebida pelos estrategas de Moscovo como um elemento numa complexa economia planificada. Os territ\u00f3rios que formam a Ucr\u00e2nia foram agrupados, n\u00e3o por quaisquer raz\u00f5es hist\u00f3ricas, culturais ou \u00e9tnicas, mas para organizar um planeamento complexo \u2013 queriam ligar as \u00e1reas industriais do leste com os portos do sul, como Odessa e a Crimeia, ao ocidente agr\u00edcola. Era essa a l\u00f3gica. Quando essa l\u00f3gica foi destru\u00edda com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, este territ\u00f3rio enquanto unidade integrada come\u00e7ou a desintegrar-se e perdeu a sua raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m permitiu que florescessem divis\u00f5es culturais, o que \u00e9 a segunda causa da crise. As diferen\u00e7as na l\u00edngua, por exemplo, tornaram-se muito mais importantes do que anteriormente. Mas as pol\u00edticas nacionalistas para impor uma \u00fanica l\u00edngua ucraniana foram absurdas porque h\u00e1 muito mais ucranianos a falar russo do que ucraniano \u2013 cerca de um ter\u00e7o s\u00e3o de etnia russa e outro ter\u00e7o identifica-se como ucranianos de l\u00edngua russa.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente que fala as duas l\u00ednguas, mas o russo est\u00e1 muito mais difundido do que o ucraniano, e at\u00e9 estava em ascens\u00e3o no per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia. Isto porque o mercado mundial favorece a l\u00edngua dominante, a l\u00edngua dos neg\u00f3cios, do com\u00e9rcio e da produ\u00e7\u00e3o. O sistema de mercado refor\u00e7ou as contradi\u00e7\u00f5es existentes no interior da sociedade e criou as condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias para mais conflitos culturais. Mas os media liberais apresentam esses conflitos como puramente culturais embora, na verdade, as raz\u00f5es subjacentes estejam relacionadas com a economia e as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O terceiro aspeto da crise tem a ver com a economia ucraniana. No per\u00edodo p\u00f3s-sovi\u00e9tico, a Ucr\u00e2nia tornou-se numa oligarquia, tal como a R\u00fassia, mas com menos recursos. A quantidade de recursos que a R\u00fassia possu\u00eda permitiu a Putin criar um sistema de compromisso permanente e auto-reprodutor. O governo de Putin baseia-se numa permanente constru\u00e7\u00e3o de consenso entre as elites. Depois de haver o consenso das elites, faz-se uma tentativa para garantir que esse consenso \u00e9 aceite pelo resto da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de medidas de bem-estar, etc.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 concentrar-se no consumo \u2013 como compensa\u00e7\u00e3o para a falta de atividade pol\u00edtica \u2013 e fica toda a gente mais ou menos feliz. Mas a oligarquia ucraniana nunca teve recursos financeiros e materiais suficientes para facilitar esse compromisso.<\/p>\n<p>Contrariamente ao petr\u00f3leo russo, o a\u00e7o ucraniano \u00e9 muito mais vulner\u00e1vel no mercado mundial. Isso tem levado a um conflito permanente entre diversos cl\u00e3s olig\u00e1rquicos pelo controlo dos recursos p\u00fablicos existentes, que foi a base da alegada democracia ucraniana. Nesse sentido, a Ucr\u00e2nia \u00e9 uma rep\u00fablica olig\u00e1rquica t\u00edpica, recusando o acesso \u00e0 pol\u00edtica das pessoas vulgares mas, ao mesmo tempo, gerando um pluralismo real para a oligarquia. Este sistema teve as suas crises mas, depois de cada crise, conseguiu-se instituir um ou outro compromisso e isso nunca foi fatal para a estabilidade pol\u00edtica. Ou seja, at\u00e9 \u00e0 crise econ\u00f3mica global de 2008.<\/p>\n<p>Esta crise n\u00e3o s\u00f3 desgastou a capacidade da elite ucraniana em conseguir um compromisso, mas tamb\u00e9m deu entrada a novos atores, como a UE, os EUA e a NATO. Dado o n\u00edvel da crise no Ocidente, o fator importante para estabilizar o sistema passou a ser a sua expans\u00e3o. A UE est\u00e1 com grandes problemas, especialmente no sul. A capacidade dessas sociedades em reproduzir-se est\u00e1 t\u00e3o corrompida pelas pol\u00edticas neoliberais que dificilmente se poder\u00e1 dizer como manter essas sociedades em funcionamento sem se afastarem do neoliberalismo. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/ucrania\/kagarlitsky_28set14_p.html#nt\" target=\"_blank\">[NT]<\/a> Mas \u00e9 precisamente isso o que as elites neoliberais n\u00e3o v\u00e3o permitir. A \u00fanica hip\u00f3tese de fugir ou de resolver estas contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 alargar o sistema e introduzir mais recursos no mesmo.<\/p>\n<p><strong>Que interesses \u00e9 que a UE e os EUA t\u00eam na Ucr\u00e2nia? <\/strong><\/p>\n<p>Em recess\u00f5es globais anteriores, os EUA foram a locomotiva que puxou os outros pa\u00edses para fora da crise. Mas agora a economia americana est\u00e1 t\u00e3o d\u00e9bil que, em vez de puxar os outros pa\u00edses para fora da crise, a recupera\u00e7\u00e3o americana baseia-se em mergulhar os outros pa\u00edses na crise ainda mais. O outro lado da equa\u00e7\u00e3o americana \u00e9 a expans\u00e3o da capacidade militar, em especial, da expans\u00e3o da NATO.<\/p>\n<p>As pot\u00eancias ocidentais come\u00e7aram a ficar mais interessadas na Ucr\u00e2nia enquanto local de acesso a recursos baratos, incluindo uma for\u00e7a de trabalho barata, disciplinada e relativamente instru\u00edda, que pode ser utilizada no Ocidente e, em especial, na UE, para desgastar os estados provid\u00eancia no Ocidente. Mais 10 mil desempregados ucranianos, que podem ser transferidos para o ocidente, como trabalhadores flex\u00edveis, s\u00e3o \u00fateis ao capital ocidental.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia pode desempenhar o mesmo papel na UE que a \u00c1sia Central desempenha na economia russa \u2013 fornecendo montes de trabalhadores sem garantias, sem direitos laborais, sem cidadania, sem prote\u00e7\u00e3o e que est\u00e3o totalmente dependentes dos patr\u00f5es. Os ucranianos est\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o em que podem ser transformados neste ex\u00e9rcito permanente de trabalho migrante.<\/p>\n<p>Se lerem o Acordo de Associa\u00e7\u00e3o da UE com a Ucr\u00e2nia, o seu objetivo central \u00e9 fechar a maior parte da ind\u00fastria ucraniana. O acordo diz que a UE fornecer\u00e1 algum apoio financeiro para resolver os problemas financeiros do estado, mas para isso \u00e9 preciso fechar a maior parte das ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com anteriores acordos de com\u00e9rcio livre, este \u00e9 definitivamente o pior Acordo de Associa\u00e7\u00e3o jamais preparado pela UE. Claro que um outro aspeto \u00e9 que a Ucr\u00e2nia tem que ser integrada nas estruturas pol\u00edticas e militares ocidentais, tem que se tornar num verdadeiro membro da NATO. Sejamos claros.<\/p>\n<p>O governo ucraniano gostaria de vir a ser um membro oficial da NATO, mas tornar-se num membro oficial significa alterar a constitui\u00e7\u00e3o ucraniana. Entretanto, a NATO est\u00e1 relutante em aceitar a Ucr\u00e2nia como membro formal mas, por outro lado, est\u00e1 ansiosa por envolver a Ucr\u00e2nia em todas as guerras e alian\u00e7as estrat\u00e9gicas poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Por exemplo, vejam a Crimeia. Mesmo no tempo de Yanukovych, j\u00e1 havia discuss\u00f5es sobre correr com os russos e deixar entrar os americanos. A NATO j\u00e1 tinha anunciado a inten\u00e7\u00e3o de construir a sua sede em Sebastopol, substituindo ali a frota russa do Mar Negro. Mas, no \u00faltimo momento, alguns setores da elite ucraniana ficaram preocupados, porque perceberam que iam perder a sua ind\u00fastria. Foi uma apressada viragem de 180 graus \u2013 em Setembro de 2013 \u2013 quando Yanukovych decidiu n\u00e3o assinar o Acordo de Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que incendiou os protestos na Pra\u00e7a Maidan em Novembro passado? <\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/PYvYVgAQ8R6WvO5f5IYTjwUITuI5g1wcrgpnbPGFHpJIy_t3WxJmTKhg134q59OUCIRSWfKXRh2oZXIga5dt9toiLiv2W9I2FHDQq7FfXiKReX2kkDzhKA=s0-d-e1-ft#http:\/\/resistir.info\/ucrania\/imagens\/fascistas_ucranianos_80pc.jpg\" alt=\"'.\" border=\"0\" \/>Na Ucr\u00e2nia ocidental, as pessoas estavam a ficar desempregadas em massa e marginalizadas, enquanto na Ucr\u00e2nia oriental a ind\u00fastria continuava a funcionar. Foi precisamente sobre os recursos de leste que se travou a luta. O ocidente n\u00e3o produzia muito e s\u00f3 consumia recursos, mas s\u00f3 a um n\u00edvel muito baixo, porque preferiam n\u00e3o investir recursos em benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<p>O centro, que \u00e9 Kiev, estava a explorar o leste e desenvolvia uma economia muito parasit\u00e1ria, tentando evoluir para uma verdadeira capital europeia, enquanto fazia pobres investimentos no ocidente do pa\u00eds e o mantinha mais ou menos sob controlo. Percebe-se portanto porque \u00e9 que Kiev est\u00e1 em conflito com o resto da Ucr\u00e2nia. Em grande parte, \u00e9 esta economia parasit\u00e1ria de Kiev que est\u00e1 a gerar o apoio ao novo governo atual, e \u00e9 Kiev que precisa de manter o pa\u00eds unido, para poder continuar a explorar o leste.<\/p>\n<p>Os oligarcas que possuem empresas na Ucr\u00e2nia de leste vivem nos seus luxuosos pal\u00e1cios de Kiev, com ex\u00e9rcitos de criados, incluindo lacaios ideol\u00f3gicos. Enquanto no leste temos uma popula\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria que vive com sal\u00e1rios muito baixos, que se sentem muito frustrados e irritados e que s\u00e3o de l\u00edngua russa, o que significa que fizeram com que eles se sintam humilhados em termos econ\u00f3micos, sociais e culturais. A Ucr\u00e2nia de leste \u00e9 a parte mais produtiva do pa\u00eds, produzindo cerca de 80 por cento do PIB, mas recebem menos do que qualquer outra regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o p\u00f4de continuar enquanto Yanukovych e a sua gente, que tamb\u00e9m era do leste, conseguiu manter o controlo da popula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de redes paternalistas e clientelistas. A situa\u00e7\u00e3o geral foi-se deteriorando mas, pelo menos, sempre se ia dando qualquer coisa aos patr\u00f5es dos sindicatos e, por vezes, at\u00e9 aos trabalhadores, mesmo que n\u00e3o passassem de promessas. As pessoas do leste continuaram a ter esperan\u00e7a de que, enquanto Yanukovych estivesse no poder, n\u00e3o seriam totalmente esquecidas. Mas, quando a extrema-direita alinhou com as elites neoliberais de Kiev, as coisas ficaram fora de controlo.<\/p>\n<p>Os protestos foram provocados pela atitude repentina de Yanukovych de n\u00e3o assinar o Acordo de Associa\u00e7\u00e3o, mas passaram muito para al\u00e9m disso. Juntaram-se multid\u00f5es na Pra\u00e7a Maidan em Novembro de 2013. N\u00e3o estavam muito preocupados com ideologias, foi pol\u00edtica pura. Os grupos olig\u00e1rquicos queriam sobrepor-se uns aos outros. O importante para perceber o golpe de estado que ocorreu em Fevereiro passado, \u00e9 que a economia da Ucr\u00e2nia ocidental ficou arruinado por causa das pol\u00edticas do mercado livre. A produ\u00e7\u00e3o industrial que ali foi montada a fim de se encaixar no sistema planeado pan-ucraniano foi destru\u00edda depois de 1990 e a maior parte das pessoas ficou no desemprego. H\u00e1 toda uma gera\u00e7\u00e3o de jovens que nunca trabalhou e nunca conseguiu arranjar trabalho. Quando muito, arranjavam trabalhos prec\u00e1rios. Portanto, tornaram-se alvos muito f\u00e1ceis para a extrema-direita, que come\u00e7ou a dar-lhes algum sentido \u00e0 vida, organizando-os e pagando-os para formarem grupos nazis.<\/p>\n<p>Cerca de 10 a 15 mil jovens desempregados do ocidente foram levados para Kiev e pagos para ali viverem, durante meses, a fim de protestar na Pra\u00e7a Maidan. O que \u00e9 preciso perceber \u00e9 que, para aquela gente, era o \u00fanico trabalho que jamais haviam tido em toda a vida. Muitos deles n\u00e3o queriam ir-se embora e alguns deles ainda ali vivem, porque n\u00e3o t\u00eam para onde ir. Por fim, agarraram em armas. A viol\u00eancia, inicialmente, n\u00e3o fazia parte do plano dos neoliberais. H\u00e1 muitas raz\u00f5es para pensar que ela aconteceu espontaneamente.<\/p>\n<p>As pot\u00eancias ocidentais fizeram tudo para apoiar este golpe de estado, sem ter uma estrat\u00e9gia clara do que fazer a seguir. Na altura em que Yanukovych percebeu que o Ocidente queria que ele sa\u00edsse, fugiu. Foi neste vazio do poder que se instalou o grupo rival.<\/p>\n<p>Mas os EUA tamb\u00e9m haviam apoiado Yanukovych anteriormente. Foi exatamente por isso que Yanukovych ficou t\u00e3o fraco. Estava \u00e0 espera de ter um apoio ocidental sustentado e, de repente, percebeu que o Ocidente tinha deixado de o apoiar e come\u00e7ara a apoiar os seus advers\u00e1rios; ficou com os nervos num feixe, por isso fugiu para a R\u00fassia. Quando Yanukovych fugiu, os seus clientes pol\u00edticos foram ao ar, o que teve um efeito tremendo na classe oper\u00e1ria ucraniana. Porque, depois de este sistema ter desabado, milh\u00f5es de pessoas ficaram sem controlo; n\u00e3o apenas milhares de mercen\u00e1rios, mas milh\u00f5es de trabalhadores. \u00c9 uma coisa muito diferente. Houve com\u00edcios em toda a Ucr\u00e2nia de leste.<\/p>\n<p>Curiosamente, um dos slogans da Pra\u00e7a Maidan era \u201co sudeste tem que se erguer\u201d, i.e., o sudeste tem que se erguer e apoiar a rebeli\u00e3o contra Yanukovych. Claro que o fizeram! Quando isso aconteceu, Kiev enviou tanques, avi\u00f5es e artilharia contra eles. Inicialmente, foi um levantamento pac\u00edfico por todo o lado, com manifesta\u00e7\u00f5es, com\u00edcios, forma\u00e7\u00e3o de conselhos, e com representantes locais a votar contra a confian\u00e7a no governo de Kiev.<\/p>\n<p>O problema tamb\u00e9m foi que, nessa altura, o novo governo de Poroshenko \u2013 formado pelos que ganharam o golpe de estado \u2013 tamb\u00e9m foi mal calculado, porque subestimaram a capacidade de o leste se revoltar. A primeira coisa que fizeram foi votar para cancelar a legisla\u00e7\u00e3o que garantia os direitos da l\u00edngua \u00e0s pessoas de l\u00edngua n\u00e3o ucraniana. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa do que proibir a l\u00edngua russa ou outra qualquer, porque anteriormente havia garantias legais que foram assim abolidas. Aplica-se n\u00e3o apenas aos russos, mas aos h\u00fangaros, polacos, romenos \u2013 a qualquer l\u00edngua n\u00e3o ucraniana.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 que ningu\u00e9m no governo ucraniano fala ucraniano, a n\u00e3o ser talvez o l\u00edder do partido fascista. Muitos nacionalistas ucranianos mal conseguem proferir meia d\u00fazia de palavras em ucraniano. As pessoas riam-se com os folhetos do Setor da Direita, que \u00e9 uma coliga\u00e7\u00e3o de grupos da extrema-direita, porque esses folhetos apelavam para que o ucraniano fosse a \u00fanica l\u00edngua no pa\u00eds, mas tinham tantos erros e uma gram\u00e1tica t\u00e3o pobre que eram os de l\u00edngua russa que corrigiam esses folhetos. Esta aprova\u00e7\u00e3o provocou protestos enormes.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a natureza do levantamento na Ucr\u00e2nia de leste? Quem s\u00e3o os opolch\u00e9nios? <\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, houve um levantamento armado, que foi reprimido militarmente, em Abril. Havia um acampamento em Odessa, organizado pelos que exigiam uma Ucr\u00e2nia federal, mas o acampamento foi atacado pela extrema-direita. As pessoas foram for\u00e7adas a fugir para os edif\u00edcios dos sindicatos junto ao acampamento, mas o edif\u00edcio foi incendiado. As pessoas tentaram fugir mas os que conseguiram foram mortos na rua. A estimativa oficial dos mortos foi de 46, mas a estimativa n\u00e3o oficial foi de cem ou mais. Os que escaparam foram detidos e metidos na pris\u00e3o, enquanto os que fizeram a matan\u00e7a foram considerados uns her\u00f3is.<\/p>\n<p>Depois disso, Donetsk e Lugansk criaram uma for\u00e7a de autodefesa, ocupando edif\u00edcios e dep\u00f3sitos de armas. O local est\u00e1 cheio de armas desde os tempos sovi\u00e9ticos porque \u00e9 um dos centros de produ\u00e7\u00e3o e fabrico militar.<\/p>\n<p>Os combatentes s\u00e3o oper\u00e1rios, camponeses, mineiros e agora h\u00e1 um n\u00famero cada vez maior de intelectuais a juntar-se-lhes, na sua maioria vindos da R\u00fassia e de outras partes da Ucr\u00e2nia. Inicialmente, lutavam por uma autonomia maior, mas as duas rep\u00fablicas populares, Donetsk e Lugansk, <a href=\"http:\/\/rt.com\/news\/158160-lugansk-donetsk-referendum-vote\/\" target=\"_blank\">declararam a independ\u00eancia em Abril passado<\/a> .<\/p>\n<p>A princ\u00edpio estavam dispostos a negociar a aceita\u00e7\u00e3o de qualquer tipo de acordo federal com a Ucr\u00e2nia. Mas, depois, as tropas ucranianas bombardearam e lan\u00e7aram o caos nesses territ\u00f3rios. Na \u00faltima vez que nos encontr\u00e1mos com representantes de Donetsk e Lugansk, eles disseram que &#8220;depois do que a Ucr\u00e2nia nos fez, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o nos consideram como seus concidad\u00e3os. Eles n\u00e3o encaram estes territ\u00f3rios como seus. E n\u00f3s n\u00e3o queremos continuar neste pa\u00eds, a n\u00e3o ser \u2013 a n\u00e3o ser \u2013 que este governo seja dissolvido&#8221;.<\/p>\n<p>Portanto, houve dois pontos de viragem. O primeiro foi a 2 de Maio, quando as pessoas foram for\u00e7adas a pegar em armas. Em certo sentido, isso foi um \u00eaxito para o novo governo em Kiev, porque localizaram a rebeli\u00e3o. Inicialmente era uma rebeli\u00e3o pac\u00edfica, n\u00e3o armada, de toda a Ucr\u00e2nia de leste e, por fim, conseguiram concentrar a rebeli\u00e3o em duas regi\u00f5es. O segundo ponto de viragem foram as elei\u00e7\u00f5es organizadas (ou seja, compradas) por um dos oligarcas, Poroshenko, de alcunha o &#8220;rei do chocolate&#8221; porque possui uma grande ind\u00fastria de confeitaria. Poroshenko tamb\u00e9m nomeou v\u00e1rios outros oligarcas para determinadas prov\u00edncias. Cada oligarca ficou com a prov\u00edncia onde possui mais ativos.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 um caso extremo de dom\u00ednio olig\u00e1rquico, como num pa\u00eds feudal. Poroshenko ganhou a maioria nas elei\u00e7\u00f5es porque aqueles que se opuseram ao golpe foram impedidos de se candidatar. Tamb\u00e9m gastou o triplo do dinheiro de todos os outros em conjunto e, segundo consta, tamb\u00e9m subornou as comiss\u00f5es eleitorais. Por fim, parecia ser o mais moderado dos candidatos que puderam concorrer.<\/p>\n<p>Poroshenko tem estado no poder desde junho, data depois da qual tem havido um ataque militar maci\u00e7o ao leste, compar\u00e1vel a uma opera\u00e7\u00e3o da II Guerra Mundial, com centenas de tanques, avia\u00e7\u00e3o, bombardeamentos, artilharia maci\u00e7a, etc. N\u00e3o \u00e9 uma guerra de guerrilha, \u00e9 uma guerra a s\u00e9rio. Mas as<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/People%27s_Militia_%28Soviet_Union%29\" target=\"_blank\"><em>opolchenie<\/em><\/a> \u2013 mil\u00edcias \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o correta \u2013 criaram uma for\u00e7a de combate formid\u00e1vel. Claro que h\u00e1 muitos volunt\u00e1rios russos e alguns deles t\u00eam uma grande experi\u00eancia militar.<\/p>\n<p>O governo russo, obviamente, permite que muni\u00e7\u00f5es e alimentos atravessem a fronteira, e tamb\u00e9m deixa passar os volunt\u00e1rios. H\u00e1 organiza\u00e7\u00f5es militares russas a cooperar abertamente com as <em>opolchenie <\/em>e h\u00e1 tropas russas que entraram em Donetsk e Lugansk e est\u00e3o posicionadas ao longo da fronteira para controlar os dois lados, mas n\u00e3o est\u00e3o a tomar parte no combate ativo. Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 verdade que o governo russo esteja a dirigir essas opera\u00e7\u00f5es das <em>opolchenie. <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um conflito permanente entre as elites russas, em especial depois da primeira vaga de san\u00e7\u00f5es contra a Ucr\u00e2nia. Sec\u00e7\u00f5es da elite russa come\u00e7aram a entrar em p\u00e2nico e tamb\u00e9m detestam estas rep\u00fablicas populares porque s\u00e3o muito amea\u00e7adoras para o estado russo, provocando debates sobre nacionaliza\u00e7\u00f5es, derrube da oligarquia, etc.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria russa tamb\u00e9m est\u00e1 a fornecer sobressalentes para as for\u00e7as armadas ucranianas e Poroshenko teve que reconhecer que, sem o fluxo regular de sobressalentes e t\u00e9cnicos da R\u00fassia, n\u00e3o teria sido poss\u00edvel que o ex\u00e9rcito ucraniano continuasse a combater.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a natureza das rep\u00fablicas populares de Donetsk e Lugansk e quais s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es da R\u00fassia com elas? <\/strong><\/p>\n<p>Pouco depois de Donetsk, e a seguir Lugansk, se terem declarado rep\u00fablicas, surgiu uma grande discuss\u00e3o sobre o seu futuro. Por um lado, elas surgiram dado o apoio maci\u00e7o dos oper\u00e1rios mas, por outro lado, n\u00e3o podem sobreviver sem a coopera\u00e7\u00e3o de Moscovo e do governo russo. As elites russas est\u00e3o a usar todas as oportunidades para influenciar, manipular e subverter essas for\u00e7as.<\/p>\n<p>No interior das rep\u00fablicas, tamb\u00e9m h\u00e1 tend\u00eancias contradit\u00f3rias. A exig\u00eancia geral \u00e9 para o bem-estar, a institui\u00e7\u00e3o duma rep\u00fablica popular social \u2013 n\u00e3o uma rep\u00fablica socialista, mas social \u2013 o que significa que um estado social deve ser incorporado nas estruturas institucionais do sistema. H\u00e1 muitas exig\u00eancias de nacionaliza\u00e7\u00f5es e, por exemplo, foram suspensas as &#8220;reformas&#8221; na sa\u00fade com vista \u00e0 sua comercializa\u00e7\u00e3o (privatiza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>S\u00e3o estas as reivindica\u00e7\u00f5es dos combatentes no terreno. Simultaneamente, as rep\u00fablicas s\u00e3o inst\u00e1veis e ineficazes e a sua legitimidade tamb\u00e9m \u00e9 questionada (pelo poder olig\u00e1rquico a n\u00edvel mundial, no seio das elites russas e no Ocidente, claro). Portanto, h\u00e1 um conflito pol\u00edtico permanente dentro dessas rep\u00fablicas.<\/p>\n<p>Embora haja exig\u00eancias progressivas, por um lado, por parte das bases, tamb\u00e9m h\u00e1 elementos burgueses no seio dos l\u00edderes republicanos e uma press\u00e3o permanente de Moscovo para n\u00e3o se avan\u00e7ar numa dire\u00e7\u00e3o mais progressista, usando a sua capacidade de controlar a fronteira e de fornecer ou n\u00e3o mantimentos e muni\u00e7\u00f5es para chantagear as rep\u00fablicas. Por exemplo, tentaram a todo o custo, infelizmente com algum sucesso, bloquear os programas de nacionaliza\u00e7\u00f5es que foram anunciados nos dois pa\u00edses. Se avan\u00e7assem, Moscovo cortar-lhes-ia os abastecimentos. Portanto, h\u00e1 uma luta permanente. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma luta permanente, e \u00e9 um movimento crescente, para apoiar essas mesmas exig\u00eancias. Portanto, \u00e9 uma luta que vai continuar dos dois lados da fronteira.<\/p>\n<p>O problema para os que est\u00e3o a tentar controlar Donetsk e Lugansk a partir de Moscovo \u00e9 que a <em>opolchenie <\/em>est\u00e1 a ficar mais radicalizada e \u00e9 alimentada por volunt\u00e1rios que s\u00e3o muito radicais e da ala esquerda, na sua maioria. Claro que s\u00e3o nacionalistas, mas mesmo os que s\u00e3o nacionalistas, apoiam basicamente as exig\u00eancias sociais.<\/p>\n<p>Portanto, em sentido pol\u00edtico, Moscovo est\u00e1 a travar uma batalha dif\u00edcil. Mas ainda t\u00eam instrumentos muito importantes. Se fecharem a fronteira, as rep\u00fablicas ser\u00e3o derrotadas. Por isso \u00e9 que at\u00e9 agora tem havido uma situa\u00e7\u00e3o de empate. Mesmo as medidas progressistas que foram declaradas n\u00e3o foram implementadas. Em parte por causa do estado de guerra, porque \u00e9 preciso concentrarem-se na parte militar; mas o facto de a <em>opolchenie <\/em>se estar a radicalizar \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>Uma das figuras mais populares na <em>opolchenie <\/em>foi Igor Strelkov, que n\u00e3o era nada de esquerda \u2013 na verdade, ele afirma ser mon\u00e1rquico, adora o imp\u00e9rio russo e \u00e9 um rom\u00e2ntico em rela\u00e7\u00e3o aos czares russos, etc \u2013 mas, enquanto comandante da <em>opolchenie <\/em>em Donetsk, arregimentou todo o tipo de radicais da esquerda. Tamb\u00e9m conseguiu afastar da <em>opolchenie <\/em>muitos nacionalistas e gente de direita \u2013 mas, por raz\u00f5es t\u00e9cnicas: disse que eram maus combatentes, n\u00e3o obedeciam a ordens, n\u00e3o respeitavam o comando da rep\u00fablica popular, etc.<\/p>\n<p>A certa altura, come\u00e7ou a tornar-se vis\u00edvel que Strelkov estava a ficar muito mais popular na R\u00fassia do que Putin. A popularidade de Strelkov ia aumentando \u00e0 medida que a popularidade de Putin diminu\u00eda, porque este n\u00e3o tomava uma posi\u00e7\u00e3o firme contra o Ocidente.<\/p>\n<p>O conflito tornou-se evidente no in\u00edcio de julho, quando Strelkov retirou de Sloviansk, quando as suas tropas foram cercadas pelas tropas ucranianas e se esperava que ele fosse morto. Ele saiu de Sloviansk, organizou a defesa de Donetsk e dominou uma conspira\u00e7\u00e3o para entregar Donetsk \u00e0s tropas ucranianas, uma conspira\u00e7\u00e3o que foi ali organizada por figuras pr\u00f3-Kremlin.<\/p>\n<p>Tornou-se \u00f3bvio assim que eles iam entregar Donetsk, provavelmente de acordo com Poroshenko, em troca da garantia de que a Crimeia ficaria a s\u00e3o e salvo nas m\u00e3os da R\u00fassia. Esta conspira\u00e7\u00e3o foi derrotada e toda essa gente pr\u00f3-Kremlin foi corrida de Donetsk. N\u00e3o prenderam ningu\u00e9m, s\u00f3 lhes pediram delicadamente que sa\u00edssem da cidade e, em resultado, Strelkov passou a ser inimigo do Kremlin. Por fim, conseguiram ver-se livres dele, cortando-lhe os abastecimentos e, quando ele ficou sem muni\u00e7\u00f5es e sem mantimentos, foi for\u00e7ado a ir a Moscovo. Nessa altura, parece que ficou detido e depois apresentou a sua carta de demiss\u00e3o. Se a assinou ou foi for\u00e7ado a assin\u00e1-la, ningu\u00e9m sabe mas depois desapareceu e ningu\u00e9m conhece o seu paradeiro.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 cerca de um m\u00eas. Surgiram muitas lendas, incluindo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=L5x7D0AlZPc\" target=\"_blank\">um v\u00eddeo falso que o mostra em Ferguson<\/a> . Isto d\u00e1-nos uma ideia de qu\u00e3o intensa \u00e9 a luta em torno destas rep\u00fablicas e de como a luta ainda est\u00e1 no in\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>Como devemos analisar o futuro das rep\u00fablicas em rela\u00e7\u00e3o ao resto da Ucr\u00e2nia? A luta das rep\u00fablicas ainda \u00e9 pela autonomia? <\/strong><\/p>\n<p>Vai haver uma real necessidade de formar l\u00edderes pol\u00edticos representativos. O povo que est\u00e1 a lutar considera muito mais a Nova R\u00fassia do que estas duas rep\u00fablicas. Porque a Nova R\u00fassia tamb\u00e9m \u00e9 Kharkov, Odessa e todo o sudeste.<\/p>\n<p>Mas, quando Putin apela a um cessar-fogo, a quest\u00e3o \u00e9 se a <em>opolchenie <\/em>vai deixar de lutar. Especialmente porque est\u00e3o a ganhar. Conseguiram ganhar contra um ex\u00e9rcito que provavelmente tem 60 vezes mais tanques, etc, em parte por causa das suas t\u00e1ticas de guerrilha. Mas tamb\u00e9m porque a moral das tropas ucranianas \u00e9 muito baixa, desertam e n\u00e3o querem ir para a guerra. Por vezes desertam com armas e tudo e passam-se para a <em>opolchenie, <\/em>enquanto outros apenas fogem. J\u00e1 desertaram milhares. Centenas passaram-se para o lado da <em>opolchenie <\/em>e agora est\u00e3o a formar batalh\u00f5es de desertores ucranianos. Querem formar um regimento. Portanto, h\u00e1 gente suficiente para formar um regimento e provavelmente ainda mais.<\/p>\n<p>Por outro lado, a forma como os generais ucranianos se comportam \u00e9 terr\u00edvel porque est\u00e3o a enviar gente como carne para canh\u00e3o. As baixas s\u00e3o incr\u00edveis, semelhantes \u00e0s baixas durante a II Guerra Mundial. A <em>opolchenie <\/em>\u00e9 sobretudo formada por volunt\u00e1rios e por gente que teve forma\u00e7\u00e3o militar, muitos dos quais lutaram na Chech\u00e9nia ou no Afeganist\u00e3o. S\u00e3o combatentes que s\u00e3o mais ou menos competentes para o combate. Enquanto do lado da Ucr\u00e2nia est\u00e3o a enviar recrutas que ainda n\u00e3o tiveram um treino adequado. Portanto, as baixas s\u00e3o muito altas e isso tamb\u00e9m deita abaixo o moral das tropas ucranianas e origina muito descontentamento.<\/p>\n<p>Agora os generais ucranianos por tr\u00e1s das linhas da frente t\u00eam que usar coletes \u00e0 prova de bala para n\u00e3o serem alvejados pelos seus pr\u00f3prios soldados. Penso que \u00e9 por isso que o movimento se vai espalhar ao resto da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>A luta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pela autonomia, porque agora est\u00e3o a exigir a independ\u00eancia. Acho que se a Nova R\u00fassia passasse a ser um novo pa\u00eds na Europa, seria uma coisa boa. O terreno em comum que t\u00eam com o resto da Ucr\u00e2nia \u00e9 que querem ver-se livres do governo de Kiev.<\/p>\n<p>Uma vez derrotado o governo de Poroshenko, eles v\u00e3o negociar. E ter\u00e3o que decidir se querem uma federa\u00e7\u00e3o ou um pa\u00eds independente \u2013 ou talvez a Ucr\u00e2nia se desintegre em v\u00e1rios pa\u00edses. Neste caso, talvez o ocidente se divida e talvez a Hungria apanhe uma regi\u00e3o qualquer. Mas o terreno comum entre os povos do sudeste e os movimentos \u00e9 que, primeiro, precisam de se livrar do governo de Kiev e, depois, t\u00eam que arranjar forma de negociar pacificamente e numa base democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Se conseguirem livrar-se do atual governo, ent\u00e3o a possibilidade de a Ucr\u00e2nia se manter unida \u00e9 maior. Poroshenko vai tentar manter-se, mas est\u00e1 a perder terreno e a extrema-direita est\u00e1 cada vez mais contra ele. O ex\u00e9rcito da Nova R\u00fassia est\u00e1 a ganhar, o seu ex\u00e9rcito \u00e9 cada vez menos leal e ele est\u00e1 dependente apenas dos servi\u00e7os secretos e dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a. Mas dificilmente nos podemos manter no poder apenas com os servi\u00e7os de seguran\u00e7a a apoiar-nos. Portanto, a base do poder dele est\u00e1 a diminuir muito rapidamente. O seu trunfo \u00e9 que ele tem o apoio dos EUA e da UE. Mas isso n\u00e3o ser\u00e1 suficiente se ele n\u00e3o tiver qualquer tipo de apoio interno.<\/p>\n<p><strong>Quais foram os avan\u00e7os militares da <em>opolchenie <\/em>nas \u00faltimas semanas? \u00c9 um ponto de viragem? <\/strong><\/p>\n<p>Penso que \u00e9 um ponto de viragem. As tropas ucranianas t\u00eam estado em fuga aberta e a <em>opolchenie <\/em>avan\u00e7a em toda a linha da frente. H\u00e1 muitas tropas ucranianas cercadas. A posi\u00e7\u00e3o da <em>opolchenie <\/em>tem sido desarmar os combatentes ucranianos e depois deix\u00e1-los ir embora. N\u00e3o mant\u00eam muitos prisioneiros em parte porque n\u00e3o t\u00eam comida suficiente. Mas tamb\u00e9m pensam que \u00e9 uma boa propaganda para eles. Por vezes mant\u00eam-nos durante algumas semanas, e depois pedem aos pais para irem buscar os recrutas. Quando os pais chegam, voltam para casa com os filhos. Portanto, temos todas essas imagens de tropas ucranianas a ir-se embora, desarmadas. Ou partem para a R\u00fassia mas, claro, a R\u00fassia manda-os de volta para a Ucr\u00e2nia. Mas o que tamb\u00e9m acontece \u00e9 que, depois de passar algum tempo com a <em>opolchenie, <\/em>muitos deles preferem ali ficar e lutar do outro lado.<\/p>\n<p>Estamos a assistir a centenas de tropas a recuar, desarmadas e \u00e9 uma derrota moral esmagadora \u2013 seria uma total derrota moral para qualquer ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>As fronteiras entre as rep\u00fablicas e a R\u00fassia est\u00e3o nas m\u00e3os dos revoltosos, o que significa que haver\u00e1 um fluxo de material \u2013 alimentos e muni\u00e7\u00f5es para as rep\u00fablicas \u2013 e tamb\u00e9m se torna muito mais dif\u00edcil o controlo do governo russo porque, enquanto controlarem toda a fronteira, haver\u00e1 sempre incurs\u00f5es. O alvo seguinte foi Mariupol, que \u00e9 um grande porto e que j\u00e1 est\u00e1 cercado, mas a <em>opolchenie <\/em>n\u00e3o quer tomar a cidade, porque infligiria uma pesada destrui\u00e7\u00e3o e baixas entre a popula\u00e7\u00e3o civil, o que a <em>opolchenie <\/em>est\u00e1 a tentar evitar.<\/p>\n<p>Em abril passado, havia um apoio maci\u00e7o a Donetsk em Mariupol, mas agora est\u00e1 a aumentar o ceticismo entre as pessoas por causa da lideran\u00e7a ca\u00f3tica em Donetsk. Apesar disso, os revoltosos est\u00e3o a tentar convencer as tropas ucranianas a sair da cidade. Depois de assegurar Mariupol \u2013 ou mesmo antes disso \u2013 avan\u00e7ar\u00e3o para Berdyansk, outra importante cidade, que j\u00e1 fica fora da \u00e1rea das rep\u00fablicas Donetsk e Lugansk. Tanto quanto sei do <a href=\"http:\/\/cassad-eng.livejournal.com\/\" target=\"_blank\">servi\u00e7o de not\u00edcias Coronel Cassad<\/a> , a tend\u00eancia \u00e9 que eles pensem que Moscovo, mais cedo ou mais tarde, os for\u00e7ar\u00e1 a parar.<\/p>\n<p>A 6 de setembro j\u00e1 havia um acordo de cessar-fogo imposto \u00e0 <em>opolchenie <\/em>por Moscovo. Mas n\u00e3o \u00e9 minimamente garantido que v\u00e1 durar. Os revoltosos est\u00e3o a tentar avan\u00e7ar o mais poss\u00edvel para desgastar o regime de Poroshenko e impedir as hip\u00f3teses de Moscovo e de Kiev de fazer um acordo nas suas costas.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as perspetivas para o movimento conseguir uma mudan\u00e7a social? E quem lidera este movimento? <\/strong><\/p>\n<p>O que est\u00e1 a acontecer na Nova R\u00fassia \u00e9 um movimento revolucion\u00e1rio, embora ainda n\u00e3o seja uma revolu\u00e7\u00e3o em termos de mudan\u00e7a social. Mas \u00e9 preciso ganhar a guerra. Se a guerra for ganha, ainda \u00e9 preciso ganhar na frente pol\u00edtica. Mas isso \u00e9 s\u00f3 uma possibilidade. Nunca desde h\u00e1 muitos anos \u2013 talvez desde a revolu\u00e7\u00e3o espanhola \u2013 assistimos a milhares, ou mesmo centenas de milhares, de oper\u00e1rios mobilizados.<\/p>\n<p>H\u00e1 milhares de oper\u00e1rios em armas. E, claro, os oligarcas de Moscovo est\u00e3o com medo que isso se espalhe \u00e0 R\u00fassia. H\u00e1 muita gente a falar de socialismo. Outros falam duma vers\u00e3o comprometida duma rep\u00fablica social, o que significa um estado social, prioridades sociais e uma certa socializa\u00e7\u00e3o de propriedade, incluindo f\u00e1bricas, minas e caminhos-de-ferro. A atual lideran\u00e7a da rep\u00fablica de Donetsk estava relutante em implementar as mudan\u00e7as que eles mesmos declararam necess\u00e1rias. Por exemplo, em vez de nacionalizar a propriedade dos oligarcas, colocaram cartazes em Donetsk dizendo que a rep\u00fablica combater\u00e1 os oligarcas.<\/p>\n<p>\u00c9 normal que haja uma lideran\u00e7a burguesa dum movimento que, na sua composi\u00e7\u00e3o e \u00edmpeto, embora n\u00e3o seja necessariamente prolet\u00e1ria, \u00e9 plebeia, \u00e9 um movimento popular. Estas lideran\u00e7as burguesas fazem o poss\u00edvel para minimizar o potencial para mudan\u00e7as sociais, e limitar a expans\u00e3o do movimento. Mas pode acontecer que estas lideran\u00e7as acabem por ser substitu\u00eddas, como aconteceu na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e na Revolu\u00e7\u00e3o Russa que come\u00e7aram com l\u00edderes muito moderados. O importante para a esquerda \u00e9 criar a for\u00e7a pol\u00edtica e o enquadramento pol\u00edtico para levar por diante a pr\u00f3xima fase da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 a teoria estalinista das fases; o que significa \u00e9 que \u00e9 preciso radicalizar a revolu\u00e7\u00e3o e avan\u00e7ar. Embora haja uma presen\u00e7a muito forte de for\u00e7as progressistas, n\u00e3o significa que toda a gente seja de esquerda \u2013 h\u00e1 todo o tipo de elementos conservadores dentro do movimento. Por exemplo, tivemos aquele projeto com ativistas pol\u00edticos em Belgorod durante quase tr\u00eas meses e descobrimos que, em geral, essas pessoas s\u00e3o muito progressistas em termos sociais, defendem o estado social, os direitos sociais, o poder popular, etc. mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o muito conservadoras culturalmente. D\u00e3o valor aos valores da fam\u00edlia, s\u00e3o positivos em rela\u00e7\u00e3o ao cristianismo como sistema nuclear de valores \u2013 embora nem sempre pratiquem a religi\u00e3o \u2013 e a maior parte deles s\u00e3o homof\u00f3bicos, etc.<\/p>\n<p>Mas, simultaneamente, isto \u00e9 uma coisa que pode ser remediada. Que mais se pode esperar duma sociedade que foi inundada de propaganda reacion\u00e1ria e que sobreviveu a uma terr\u00edvel derrota do socialismo ao estilo sovi\u00e9tico? \u00c9 muito natural que as pessoas tenham todas essas ilus\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es e problemas. Temos que trabalhar com eles e contribuir para as suas lutas, porque esses problemas podem ser ultrapassados com a pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Recordo o que o subcomandante Marcos disse sobre todos esses esquerdistas que foram para a selva e tentaram educar os \u00edndios; descobriram que havia muitas coisas que tinham a aprender com os \u00edndios. N\u00e3o vejo porque \u00e9 que os intelectuais n\u00e3o devam aprender com os oper\u00e1rios e camponeses e com as pessoas da classe m\u00e9dia em Donetsk ou Kharkov ou Odessa. Isto \u00e9 uma luta para durar. Mas n\u00e3o podemos lutar e ganhar a luta se n\u00e3o exprimirmos uma solidariedade b\u00e1sica com a causa. Porque o que alguma esquerda est\u00e1 a fazer \u00e9 dizer que o movimento n\u00e3o \u00e9 homog\u00e9neo e t\u00eam que provar que o movimento \u00e9 genuinamente progressista.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que t\u00eam que provar o que quer que seja a um punhado de intelectuais em Moscovo ou em Paris? \u00c9 exatamente o contr\u00e1rio. A esquerda tem que provar aos oper\u00e1rios e mineiros e camponeses e ao povo trabalhador que merece a aten\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que a esquerda no Ocidente deve fazer e como podemos desenvolver movimentos de solidariedade? <\/strong><\/p>\n<p>Temos que montar campanhas de solidariedade mas estas t\u00eam que estar ligadas a outras campanhas de solidariedade para alargar a luta. Penso que seria bom se desfrald\u00e1ssemos a bandeira da Nova R\u00fassia juntamente com a bandeira da Palestina, por exemplo. As campanhas de solidariedade n\u00e3o devem estar isoladas umas das outras, t\u00eam que estar integradas. Est\u00e3o a aparecer tarefas n\u00e3o militares, e s\u00e3o necess\u00e1rios m\u00e9dicos, engenheiros, trabalhadores solid\u00e1rios e programas humanit\u00e1rios, como noutros lugares.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam que ir para a regi\u00e3o para ver quantos danos t\u00eam sido causados pela guerra; e tem que haver ajuda material, forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, etc. N\u00f3s na R\u00fassia podemos facilitar isso. J\u00e1 h\u00e1 volunt\u00e1rios de Fran\u00e7a e de Espanha, mas penso que n\u00e3o s\u00e3o precisos mais combatentes; pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o precisos trabalhadores solid\u00e1rios, pessoas que ajudem na reconstru\u00e7\u00e3o, em especial \u00e0 medida que as tropas governamentais v\u00e3o recuando e v\u00e3o sendo libertadas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Penso que a <em>opolchenie <\/em>tem que registar mais vit\u00f3rias e a sociedade russa tem que desenvolver mais movimentos de solidariedade juntamente com as sociedades ocidentais, que tamb\u00e9m t\u00eam que fazer o mesmo. Penso que temos que olhar para estes acontecimentos da mesma forma que olhamos para a Palestina, por exemplo. H\u00e1 todo o tipo de contradi\u00e7\u00f5es no seio do movimento, tal como na Palestina \u2013 n\u00e3o \u00e9 um movimento homog\u00e9neo. Nem todos os elementos do movimento s\u00e3o progressistas.<\/p>\n<p>O mesmo se passa na Nova R\u00fassia. N\u00e3o \u00e9 um movimento homog\u00e9neo, progressista, revolucion\u00e1rio. \u00c9 uma coliga\u00e7\u00e3o, que envolve diferentes elementos. O movimento come\u00e7ou com pessoas a proteger as est\u00e1tuas de Lenine, alguns deles desfraldaram bandeiras vermelhas, etc., mas h\u00e1 elementos de nacionalismo russo e tamb\u00e9m h\u00e1 elementos mais conservadores que querem que a Nova R\u00fassia seja como a Ucr\u00e2nia antes da crise.<\/p>\n<p>Temos que apoiar a esquerda no seio da Nova R\u00fassia e no seio da <em>opolchenie. <\/em>Est\u00e3o a ficar mais fortes mas precisam do nosso apoio e solidariedade. E temos tamb\u00e9m que importar este movimento revolucion\u00e1rio ucraniano para a R\u00fassia, o que estamos a fazer com algum \u00eaxito \u2013 porque cada vez h\u00e1 mais gente envolvida no movimento solid\u00e1rio, o que est\u00e1 a tornar-se numa for\u00e7a por si mesma e j\u00e1 est\u00e1 a come\u00e7ar a influenciar a pol\u00edtica russa e a opini\u00e3o p\u00fablica russa.<\/p>\n<p>Isto significa que temos que instituir a solidariedade para l\u00e1 das fronteiras e temos que ligar estes movimentos de solidariedade na R\u00fassia com os movimentos antiguerra, anti NATO e anti-imperialista no Ocidente.<\/p>\n<p>28\/Setembro\/2014<\/p>\n<p>[NT] &#8220;Neoliberalismo&#8221; \u00e9 um r\u00f3tulo usado na R\u00fassia e noutros s\u00edtios, incluindo os EUA, para um agressivo capitalismo de mercado livre.<\/p>\n<p><strong>[*] Boris Yulyevich Kagarlitsky: te\u00f3rico marxista e soci\u00f3logo russo. \u00c9 coordenador do projeto Crise Global <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Transnational_Institute\" target=\"_blank\">Transnational Institute<\/a> e diretor do Institute of Globalization and Social Movements (IGSO) em Moscovo. Kagarlitsky ganhou o Pr\u00e9mio Deutscher Memorial pelo seu livro <em>The Thinking Reed: Intellectuals and the Soviet State <\/em>(Verso, 1988). <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em: <a href=\"http:\/\/www.counterfire.org\/interview\/17422-ukraine-s-uprising-against-nato-neoliberals-and-oligarchs-an-interview-with-boris-kagarlitsky\" target=\"_blank\">www.counterfire.org\/&#8230;<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta entrevista encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nBoris Kagarlitsky* entrevistado por Feyzi Ismail \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6855\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[125],"tags":[],"class_list":["post-6855","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c138-ucrania"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Mz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6855"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6855\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}