{"id":6908,"date":"2014-10-28T02:35:01","date_gmt":"2014-10-28T02:35:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6908"},"modified":"2015-04-20T03:16:27","modified_gmt":"2015-04-20T03:16:27","slug":"revolucionarios-sem-rosto-uma-historia-da-acao-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6908","title":{"rendered":"Revolucion\u00e1rios sem rosto: uma hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular"},"content":{"rendered":"\n<p>O <em>Volume 1: Primeiros Tempos <\/em>do livro<em> Revolucion\u00e1rios sem rosto: uma hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular, <\/em>do jornalista Otto Filgueiras, estar\u00e1 nas livrarias em setembro.<\/p>\n<p>Com um total de 86 cap\u00edtulos, divididos em dois volumes, o livro narra a saga dos 18 anos de atua\u00e7\u00e3o da A\u00e7\u00e3o Popular, mas n\u00e3o \u00e9 um livro-reportagem e muito menos de mem\u00f3rias. Otto n\u00e3o \u00e9 personagem. Al\u00e9m de ser cabotinagem, ele diz que sua breve milit\u00e2ncia n\u00e3o teve qualquer import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 baseado principalmente na hist\u00f3ria documental da A\u00e7\u00e3o Popular e tamb\u00e9m, quando comprovado pelo autor, no relato oral de antigos dirigentes, militantes, simpatizantes e familiares dos personagens.<\/p>\n<p>Ele comprovou documentalmente que, ao longo de sua trajet\u00f3ria, a A\u00e7\u00e3o Popular aglutinou mais de 25 mil militantes, simpatizantes e pelo menos um milhar deles deslocados para trabalhar em f\u00e1bricas e no campo. A organiza\u00e7\u00e3o foi uma das espinhas-dorsais da resist\u00eancia ao regime militar.<\/p>\n<p>A pesquisa e entrevistas para o livro foram iniciadas h\u00e1 28 anos, em 1986, mas ele s\u00f3 conseguiu concretiz\u00e1-las a partir de 2001, quando come\u00e7ou a trabalhar em tempo integral no projeto, viajou uns 100 mil quil\u00f4metros pelo Brasil, principalmente de \u00f4nibus, entrevistou mais de 200 ex-dirigentes, ex-militantes e ex-simpatizantes da AP, familiares de militantes, advogados e ativistas de outras organiza\u00e7\u00f5es, resultando em mais de 700 horas de fitas gravadas e todas transcritas.<\/p>\n<p>Embora as entrevistas sejam importantes no resgate da hist\u00f3ria oral, e particularmente para captar a emo\u00e7\u00e3o dos personagens envolvidos com a AP, o jornalista teve o cuidado de checar o que disseram mais de duas centenas de entrevistados sobre v\u00e1rios epis\u00f3dios, e s\u00f3 usa as informa\u00e7\u00f5es apuradas nos relatos orais quando a pessoa de fato participou dos acontecimentos que narra, mas sempre os subordinando ao contexto da hist\u00f3ria do pensamento te\u00f3rico, ideol\u00f3gico, pol\u00edtico e pr\u00e1tico da organiza\u00e7\u00e3o. E, mesmo assim, depois de confirmados os relatos orais por outras entrevistas e, principalmente, pela hist\u00f3ria documental, que inclui centenas de documentos da organiza\u00e7\u00e3o e jornais das v\u00e1rias fases da AP.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, Otto recolheu material documental dos arquivos dos antigos DOPS de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Paran\u00e1, Rio Grande do Sul e de outros estados; pesquisou o arquivo de Jair Ferreira de S\u00e1 (principal dirigente da AP), depositado no Arquivo P\u00fablico do Rio de Janei, e recebeu da fam\u00edlia dele o arquivo pessoal; examinou o arquivo de Jean Marc, militante da AP e presidente da UNE; estudou 49 processos da ditadura contra militantes da AP e outro tanto dispon\u00edveis no acervo Brasil Nunca Mais, depositado no Instituto Edgard Leuenroth, na Universidade de Campinas (UNICAMP). Percorreu ainda o arquivo do ex-dirigente da AP Duarte Brasil Lago Pacheco Pereira, tamb\u00e9m depositado na UNICAMP, onde resgatou e transcreveu a sua entrevista filmada de sete horas para Armando Boito, professor daquela universidade. E escarafunchou pap\u00e9is do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Afinal, como diz um conto samurai, \u201co pincel da escrita \u00e9 um bra\u00e7o que se alonga da sepultura\u201d.<\/p>\n<p>De origem crist\u00e3, principalmente com influ\u00eancia de pensadores cat\u00f3licos humanistas <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emmanuel_Mounier\" target=\"_blank\">Emmanuel Mounier<\/a>, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teilhard_de_Chardin\" target=\"_blank\">Teilhard de Chardin<\/a>, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jacques_Maritain\" target=\"_blank\">Jacques Maritain<\/a>, do <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Padre_Lebret\" target=\"_blank\">padre Louis-Joseph Lebret<\/a> e do padre brasileiro Henrique Lima Vaz, mas tamb\u00e9m influenciada por pensadores te\u00f3ricos progressistas da igreja presbiteriana, a exemplo do pastor estadunidense Richard Shaull, a AP come\u00e7ou a ser articulada pela esquerda cat\u00f3lica a partir de 1961, em Minas Gerais, quando surgiu o jornal A\u00e7\u00e3o Popular.<\/p>\n<p>Inicialmente, a A\u00e7\u00e3o Popular era considerada apenas um movimento, mas com o tempo seus articuladores realizaram duas reuni\u00f5es nacionais em 1962, primeiro em Belo Horizonte e depois em S\u00e3o Paulo, quando elaboraram os textos <em>Estatuto Ideol\u00f3gico <\/em>e <em>Esbo\u00e7o do Estatuto Ideol\u00f3gico.<\/em> Mas o seu congresso de funda\u00e7\u00e3o s\u00f3 aconteceu no carnaval de 1963, em Salvador (BA), na Escola de Veterin\u00e1ria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), quando foi aprovado o seu \u201cDocumento Base\u201d. Assim, a AP passou a ter um referencial te\u00f3rico e se constituiu nacionalmente como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora sem registro legal jur\u00eddico.<\/p>\n<p>O livro esmi\u00fa\u00e7a toda a hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular, os tantos embates internos que a leva da Igreja ao marxismo-leninismo. Entre as mais de 200 entrevistas que realizou, Otto conseguiu depoimentos de personagens hist\u00f3ricos, a exemplo do Padre Henrique Lima Vaz, na \u00e9poca fil\u00f3sofo e principal te\u00f3rico da esquerda cat\u00f3lica, cujas ideias s\u00e3o decisivas para a funda\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e para a reda\u00e7\u00e3o do <em>Documento Base<\/em> aprovado no primeiro congresso da AP, em 1963.<\/p>\n<p>Com base na documenta\u00e7\u00e3o encontrada nos arquivos, foi poss\u00edvel esclarecer tamb\u00e9m os assassinatos dos militantes e dirigentes da AP Jorge Leal Gon\u00e7alves, Raimundo Eduardo da Silva, Luiz Hirata, Paulo Stuart Wright, Jos\u00e9 Carlos da Mata Machado, Gildo Lacerda, Humberto C\u00e2mara, Honestino Guimar\u00e3es, Eduardo Collier e Fernando Santa Cruz. O caso de Paulo Stuart Wright \u00e9 um dos mais importantes: Paulo foi um dos principais dirigentes da AP, tamb\u00e9m tinha origem crist\u00e3, a exemplo de v\u00e1rios outros dirigentes, no caso dele presbiteriana, e incorporou no seu pensamento as ideias do marxismo.<\/p>\n<p>Otto narra no livro detalhadamente toda a articula\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o, comandada pelo Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito, CIE, que levou \u00e0 pris\u00e3o mais de 40 pessoas da AP, em agosto, setembro e outubro de 1973, e particularmente \u00e0 pris\u00e3o de Paulo Wright, entre os dias 4 e 5 de setembro daquele ano e, posteriormente, o seu assassinato e o assassinato de seis outros militantes da organiza\u00e7\u00e3o. Depois de assassinado no DOI-CODI de S\u00e3o Paulo, Paulo Stuart Wright foi enterrado pela pol\u00edcia no Cemit\u00e9rio de Perus com o nome de Pedro Tim, mas seu corpo nunca foi encontrado e at\u00e9 hoje ele \u00e9 dado como \u201cdesaparecido\u201d.<\/p>\n<p>O autor recolheu material in\u00e9dito que ilustra o livro, inclusive fotos de militantes da AP, presos, alguns assassinados, e importantes documentos da repress\u00e3o policial, entre eles os do Centro Nacional de Informa\u00e7\u00e3o da Marinha (CENIMAR), do Centro de Informa\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito (CIE), do Centro de Informa\u00e7\u00e3o da Aeron\u00e1utica (CISA), do DOI-CODI de S\u00e3o Paulo e dos antigos DOPS, que esclarecem como ocorreu o cerco que os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura fizeram sobre a AP durante a sua trajet\u00f3ria e sobre v\u00e1rias pris\u00f5es e assassinatos de militantes da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, o jornalista mergulhou nas centenas de milhares de p\u00e1ginas de depoimentos de presos pol\u00edticos, de processos e de relat\u00f3rios dos \u00f3rg\u00e3os da pol\u00edcia pol\u00edtica do regime militar. Uma leitura que revela a grandeza e a mis\u00e9ria do comportamento dos militantes massacrados pela tortura. O relato disso tudo \u00e9, talvez, a mais perturbadora viagem \u00e0s pris\u00f5es do governo militar.<\/p>\n<p>Otto n\u00e3o faz concess\u00f5es, n\u00e3o cede, n\u00e3o capitula, n\u00e3o transige com a verdade ou com os princ\u00edpios. Dos quantos livros sobre esse riqu\u00edssimo per\u00edodo da hist\u00f3ria, o livro de Otto talvez seja o mais aut\u00eantico testemunho da generosidade, da entrega e da bravura de uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros. Sem espa\u00e7os para o arrependimento, as lam\u00farias, a auto-complac\u00eancia ou demonstra\u00e7\u00f5es de hero\u00edsmo. E, notadamente, sem a fatuidade e a ligeireza que impedem uma reconstitui\u00e7\u00e3o da verdade dos fatos, como, desgra\u00e7adamente, \u00e9 o caso de v\u00e1rias obras sobre os anos 60, 70 e 80.<\/p>\n<p>Mais ainda: ao historiar a trajet\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular, Otto faz a cr\u00f4nica da pr\u00f3pria esquerda brasileira, seus caminhos e descaminhos, as idas e vindas em um pa\u00eds e em um mundo convulsionados. E, ao iluminar o passado, Otto clareia o presente e mostra que a hist\u00f3ria de luta de AP n\u00e3o se conclui com sua extin\u00e7\u00e3o. Ela est\u00e1 nas ruas do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p>O livro conta ainda em detalhes as viagens de v\u00e1rias delega\u00e7\u00f5es de militantes e dirigentes da AP \u00e0 Rep\u00fablica Popular da China, nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, para participar de cursos na Academia Militar de Nankin. Otto conseguiu, com um dos integrantes das delega\u00e7\u00f5es, Euler Ivo Vieira, em 2001, uma foto de militantes e dirigentes da AP com o primeiro-ministro chin\u00eas Chou En Lai.<\/p>\n<p>Como base nos documentos encontrados na pesquisa, e tamb\u00e9m em livros autobiogr\u00e1ficos j\u00e1 publicados, ele recuperou a trajet\u00f3ria de pessoas j\u00e1 mortas e que desempenharam papel importante na hist\u00f3ria da AP, a exemplo do soci\u00f3logo Herbert Jos\u00e9 de Souza, o Betinho.<\/p>\n<p>O volume 1 aborda o per\u00edodo de 1930 a setembro de 1968. E o volume 2 vai at\u00e9 1986. O primeiro volume tem 561 p\u00e1ginas e o volume 2 um outro tanto; O pref\u00e1cio \u00e9 do historiador M\u00e1rio Maestri.<\/p>\n<p>Na foto: Otto Filgueiras.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Benedito Pires Trindade \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n<p>Correio da Cidadania<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJos\u00e9 Benedito Pires Trindade\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6908\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-6908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Nq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6908\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}