{"id":6921,"date":"2014-11-02T23:27:47","date_gmt":"2014-11-02T23:27:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6921"},"modified":"2014-12-01T18:38:51","modified_gmt":"2014-12-01T18:38:51","slug":"o-pd-de-renzi-despreza-os-sindicatos-e-promove-solucoes-neoliberais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6921","title":{"rendered":"O PD de Renzi despreza os sindicatos e promove solu\u00e7\u00f5es neoliberais"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->de Achille Lollo, de Roma, para o Correio da Cidadania \u2013 Sexta, 31 Outubro, 2014<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o susto que o referendum separatista escoc\u00eas deu no governo conservador da Gr\u00e3 Bretanha, a relativa \u201cpaz social\u201d foi interrompida pelas greves dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos &#8211; com destaque o pessoal da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade \u2013, que, de forma unit\u00e1ria, manifestaram na capital Londres e em todo o pa\u00eds para exigir o fim das medidas de austeridade. Medidas que, desde 2008, congelaram seus sal\u00e1rios, al\u00e9m de impor individualmente uma redu\u00e7\u00e3o de cerca 2.500 euro por anos (cerca de 7.500 reais). De fato, apesar do bom desempenho da economia, o n\u00edvel de vida para as fam\u00edlias brit\u00e2nicas, onde somente o pai ou a m\u00e3e s\u00e3o empregados, baixou consideravelmente nos \u00faltimos seis anos. Um fator que explica o crescente abandono, por parte dos jovens, das escolas secundaristas, para procurar um trabalho e o desemprego que afeta cada vez mais as camadas juvenis.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es que paralisaram todas as grandes cidades da Gr\u00e3 Bretanha, de Belfast at\u00e9 Glasgow, passando por Manchester e Londres, na realidade estremeceram o governo conservador de Nick Cameron, por\u00e9m n\u00e3o ao ponto de determinar mudan\u00e7as concretas na agenda institucional dos ministros de Down Street.<\/p>\n<p>Os compromissos assumidos com a Tr\u00edade (FMI, Banco Mundial e BCE) e em n\u00edvel de Uni\u00e3o Europeia com \u00c2ngela Merkel, bem como a depend\u00eancia da constante valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar estadunidense, devem manter a Gr\u00e3 Bretanha, a Fran\u00e7a e os demais pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia fieis \u00e0s regras ditadas pelo mercado.<\/p>\n<p>Um contexto onde a crise econ\u00f4mica e social &#8211; excluindo, obviamente, a Alemanha, que, al\u00e9m de ser dona das d\u00edvidas soberanas dos outros estados, \u00e9 tamb\u00e9m quem define a pol\u00edtica econ\u00f4mica da Uni\u00e3o Europeia -, na realidade, atingiu n\u00edveis alarmantes, tanto que, nos 28 pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, se contam 126 milh\u00f5es de pobres e 43 milh\u00f5es de famintos (dados elaborados na campanha \u201cMis\u00e9ria Ladra\u201d). Mesmo assim, os governos europeus ficam impass\u00edveis e at\u00e9 desinteressados em escutar as reivindica\u00e7\u00f5es das camadas populares atingidas com as medidas recessivas do chamado \u201cFiscal Compact\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, na pr\u00f3spera Alemanha houve muitas greves que n\u00e3o modificaram, em nada, a pol\u00edtica do governo. De fato, as regi\u00f5es de Lipsia, Halle, Hamburgo, Hannover, Berlin, Monaco e Frankfurt ficaram paralisadas durante uma semana a partir do dia 20, \u00e0 causa da greve dos condutores de trens, cujo l\u00edder, Claus Weselsky, al\u00e9m de reivindicar o aumento salarial de 4,5%, queria reabrir o debate sobre as negocia\u00e7\u00f5es que os governos de \u00c2ngela Merkel e a poderosa HDE (Fiesp alem\u00e3) realizaram no passado, enjaulando os sindicatos e todos os movimentos de lutas.<\/p>\n<p>O sindicato dos condutores de trens (GdL) conseguiu lograr um aumento salarial de 0,25% em fun\u00e7\u00e3o da intermedia\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do partido socialdemocrata (SPD), que agora na Alemanha \u00e9 considerado o \u201cbombeiro social\u201d da coaliz\u00e3o chefiada por \u00c2ngela Merkel. De fato, antes de o sindicato GdL iniciar as negocia\u00e7\u00f5es com a diretoria do HDE, os chef\u00f5es da SPD contatavam as TVs e os principais jornais para se vangloriar de terem conseguido restabelecer a \u201cpaz social\u201d. Nesse clima de perfeita manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica alem\u00e3, n\u00e3o podia faltar a poderosa confedera\u00e7\u00e3o sindical DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund), que, ap\u00f3s ter arrefecido o l\u00edder da GdL, Claus Weselsky com promessas formais (que, na realidade, nunca ser\u00e3o realizadas), voltava a apoiar a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo.<\/p>\n<p><strong>Contra o trabalho com o \u201cJobs Act\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Se na Alemanha e na Gr\u00e3 Bretanha o argumento central das lutas dos trabalhadores \u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o das perdas salariais sofridas, na It\u00e1lia o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o pr\u00f3prio emprego, no momento que o desemprego, atualmente atinge 12,3% da for\u00e7a de trabalho ativa. De fato, segundo o ISTAT (Sistema Estat\u00edstico Nacional), de 2008 a 2014 o desemprego dos Under-35 (os jovens entre 25 e 34 anos) passou de 5.129.000 para 7.236.000. O que na pr\u00e1tica significa que, nos \u00faltimos seis anos, o desemprego dos Under-35 italianos aumentou de 39,2% para 51,2%, com mais 2.107.000 jovens que ficaram na rua e sem nenhuma perspectiva de trabalho.<\/p>\n<p>Por isso, nas principais cidades industriais da It\u00e1lia, os oper\u00e1rios, os trabalhadores prec\u00e1rios, os desempregados e os estudantes (que ser\u00e3o os desempregados do futuro pr\u00f3ximo) come\u00e7aram a exigir das adormecidas confedera\u00e7\u00f5es sindicais (CGIL, UIL e CISL) uma resposta firme. Como sempre, a CISL se distanciou dos trabalhadores, assumindo uma posi\u00e7\u00e3o oportunamente associada ao projeto neoliberal do governo de Matteo Renzi, que, no dia 15 de outubro, lan\u00e7ou a nova Lei do Trabalho \u201cJobs Act\u201d.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da UIL, em fun\u00e7\u00e3o de sua tradi\u00e7\u00e3o progressista, com medo de ficar seriamente contestada pela base, decidiu apoiar o protesto da CGIL do dia 25 de outubro contra as medias recessivas do governo, mantendo, por\u00e9m, uma porta aberta para \u201crenegociar com o governo um eventual melhoramento do Jobs Act\u201d.<\/p>\n<p>Por sua parte, a dire\u00e7\u00e3o da CGIL e a pr\u00f3pria secret\u00e1ria-geral da Confedera\u00e7\u00e3o, Susanna Camusso, decidiram jogar todo seu peso pol\u00edtico na manifesta\u00e7\u00e3o do dia 25 de outubro, em Roma, na esperan\u00e7a de convencer o primeiro-ministro, Matteo Renzi, e, sobretudo, a maioria dos deputados do PD que apoiam o governo em retirar o decreto lei sobre a aboli\u00e7\u00e3o do Art. 18 do Estatuto dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>Um decreto-lei que \u2013 ao permitir \u00e0s empresas italianas desempregar com a m\u00e1xima liberdade \u2013 finalmente agrada os comiss\u00e1rios da Comiss\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e a Confindustria (FIESP italiana), que desde 1996 exigiam dos governos italianos a modifica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que Silvio Berlusconi, durante os 15 anos em que chefiou governos de direita e de centro-direita, sempre quis impor a aboli\u00e7\u00e3o do Art. 18, mas nunca conseguiu. A \u00faltima vez que tentou, aos 23 de mar\u00e7o de 2002, a CGIL respondeu com uma greve geral nacional, ocupando o centro da cidade de Roma com cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de trabalhadores. Uma manifesta\u00e7\u00e3o que obrigou Berlusconi n\u00e3o s\u00f3 a retirar a proposta de lei, mas a resenhar suas demiss\u00f5es.<\/p>\n<p>De fato, quando Berlusconi agora tenta de explicar por qual motivo apoia e sustenta o governo de Matteo Renzi, n\u00e3o hesita em dizer\u201d&#8230;o nosso apoio ao governo Renzi \u00e9 para ele poder fazer aquelas reformas que os sindicatos e a esquerda comunista nunca nos deixou fazer. Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma forma para evitar que a CGIL realize o mesmo golpe de Estado que os comunistas fizeram em 2002 contra o nosso governo!\u201d.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que , por traz do aparente jogo de palavras do primeiro-ministro Matteo Renzi, da vice-secret\u00e1ria do PD, D\u00e9bora Serrachiani, e do ministro da economia, P\u00eder Carlo Paduan, h\u00e1 um formid\u00e1vel e bem concentrado ataque pol\u00edtico e midi\u00e1tico contra o mundo do trabalho e contra todos aqueles que defendem os trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>A Leopolda e o novo PD<\/strong><\/p>\n<p>O enfrentamento entre o governo e o mundo do trabalho come\u00e7ou no dia 24 de outubro, quando a USB (Confedera\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos), \u00e0 causa da hist\u00f3rica rela\u00e7\u00e3o litigiosa que mant\u00e9m com a CGIL, proclamou uma manifesta\u00e7\u00e3o no centro de Roma que foi um sucesso, al\u00e9m de realizar uma greve de 4 horas dos transportes p\u00fablicos (trens regionais, metro e \u00f4nibus de Roma). Por sua parte, os movimentos sociais optavam por realizar em Roma, Mil\u00e3o, Turim, Bolonha e N\u00e1poles manifesta\u00e7\u00f5es nos bairros suburbanos para protestar contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo.<\/p>\n<p>Depois, no dia 25, a poderosa Confedera\u00e7\u00e3o Geral Italiana dos Trabalhadores (CGIL) realizou uma manifesta\u00e7\u00e3o nacional em Roma, onde a l\u00edder, Susanna Camusso, diante de mais de um milh\u00e3o de trabalhadores, dava o aviso ao governo, prometendo uma greve nacional geral caso o mesmo continuasse mantendo o pacote de leis que praticamente desmonta o antigo Estatuto dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>Nessa manifesta\u00e7\u00e3o, participaram todos os parlamentares do PD \u201ccontr\u00e1rios a Renzi\u201d que, pela primeira vez, ousaram enfrentar diretamente a nova maioria do PD constru\u00edda por Matteo Renzi e logicamente homenageada pela m\u00eddia e v\u00e1rios setores do empresariado.<\/p>\n<p>Para legitimar a exist\u00eancia de dois PD e, talvez, promover uma cis\u00e3o partid\u00e1ria, Matteo Renzi pediu apoio aos empres\u00e1rios que \u201cofereceram\u201d dois milh\u00f5es de euros para realizar, em Firenze, um encontro \u201cinterclassista\u201d no tradicional local denominado \u201cLeopolda\u201d, nos mesmos dias (24, 25 e 26) em que a USB, a CGIL e os movimentos manifestavam contra a austeridade e a pol\u00edtica recessiva do governo.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil dizer que a m\u00eddia aclamou e louvou o encontro de Leopolda, que foi realizado com a presun\u00e7osa etiqueta de querer \u201c&#8230;debater as raz\u00f5es da crise e individuar as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para a ind\u00fastria voltar a crescer&#8230;\u201d. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um cientista pol\u00edtico para entender que a turma de Matteo Renzi organizou o encontro \u201cLeopolda 2014\u201d, primeiro, para desqualificar a minoria de esquerda do PD e, em segundo lugar, para silenciar todos os defensores do mundo do trabalho, sejam eles parlamentares, juristas, sindicalistas, intelectuais, jornalistas. Uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito arriscada, do momento que 65% dos votos do PD s\u00e3o origin\u00e1rios da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>De fato, na Leopolda o \u201cguru\u201d de turno n\u00e3o foi um intelectual de esquerda, mas, sim, o banqueiro Daniele Serra que, juntamente aos representantes dos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios, simbolizou o \u201cnovo amor\u201d entre Matteo Renzi e o mercado, tanto que a Confindustria (FIESP italiana), ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do pacote de lei \u201canti-trabalhista\u201d (Jobs Act), saudou o PD de Renzi como o novo Partido Nacional. E como se se tratasse de um roteiro de novela, o primeiro-ministro e, tamb\u00e9m, secret\u00e1rio geral do PD, Matteo Renzi, na sua \u00faltima interven\u00e7\u00e3o em Leopolda, declarou: \u201c&#8230;De fato o futuro do PD corre cada vez mais em dire\u00e7\u00e3o de se tornar o Partido da Na\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Um futuro dif\u00edcil do momento que a manipula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do PD e de suas ra\u00edzes pol\u00edticas com a classe oper\u00e1ria e os trabalhadores em geral est\u00e1 por ser desestruturada por esse novo PD de Matteo Renzi, que faz de tudo para enterrar uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que representa a hist\u00f3ria da esquerda italiana. De fato, depois da manifesta\u00e7\u00e3o da CGIL, que levou a Roma um milh\u00e3o de trabalhadores, a posi\u00e7\u00e3o de Renzi e do seu PD-Partido da Na\u00e7\u00e3o se tornou ainda mais dura com os sindicatos, ao ponto de declarar publicamente \u201c&#8230;Uma manifesta\u00e7\u00e3o de rua da CGIL n\u00e3o pode, de forma alguma, modificar o que n\u00f3s, que somos o governo, decidimos e que o Parlamento aprovou. Por isso tudo n\u00f3s vamos em frente&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>A este ponto, Susana Camusso, secret\u00e1ria-geral da CGIL, diante da arrog\u00e2ncia de Renzi e da maioria de seus ministros (que deveriam ser companheiros do mesmo partido!), ao ser entrevistada pelo jornal La Repubblica \u2013 que \u00e9 o principal suporte do governo \u2013. Declarou \u201c&#8230;Renzi est\u00e1 no Parlamento porque foram os poderes ocultos que o decidiram e quem confirmou isso foi o pr\u00f3prio Marchionne, o administrador geral da FIAT que nunca desmentiu ter dito que Renzi estava no governo porque eles o colocaram l\u00e1, para desbloquear as leis trabalhistas&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>A resposta do governo veio logo, no dia 29, mas com os cassetetes da pol\u00edcia, que na esta\u00e7\u00e3o de trem de Roma massacrou os metal\u00fargicos da AST de Terni, que pretendiam protestar diante do Parlamento para denunciar o fechamento de outra f\u00e1brica metal\u00fargica por parte da multinacional alem\u00e3, ThyssenKrupp. A ordem do ministro do interior, Angelino Alfano, foi t\u00e3o en\u00e9rgica que nem o secret\u00e1rio geral da Federa\u00e7\u00e3o dos Metal\u00fargicos (FIOM), Maurizio Landini, escapou das porradas policiais. Em resposta, a FIOM anunciou uma greve geral do setor metal\u00fargico para dia 11, chamando para a greve os movimentos sociais, as outras federa\u00e7\u00f5es e em particular a pr\u00f3pria a CGIL.<\/p>\n<p><strong>Um novo outono quente?<\/strong><\/p>\n<p>Quando, no dia 29, as unidades da pol\u00edcia antimotim atacaram os oper\u00e1rios que estavam saindo da esta\u00e7\u00e3o de trem de Roma com as bandeiras vermelhas da FIOM, muitos se lembraram do \u201coutono quente\u201d de 1969, altura em que os governos da Democracia Crist\u00e3 tentaram silenciar com a viol\u00eancia da pol\u00edcia a voz dos oper\u00e1rios e dos estudantes.<\/p>\n<p>Infelizmente, a verossimilhan\u00e7a se limita, apenas, \u00e0 din\u00e2mica agressiva e selvagem dos cassetetes policiais do momento que, em termos pol\u00edticos, tudo mudou: a classe oper\u00e1ria j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a mesma, a crise econ\u00f4mica depende de fatores mundiais, o capitalismo nacional foi suplantado pelas transnacionais, a classe pol\u00edtica \u00e9 mera express\u00e3o dos poderosos lobbies, enquanto a soberania do Estado \u00e9 cada vez mais dependente dos interesses do mercado.<\/p>\n<p>Hoje, na Uni\u00e3o Europeia e, em particular, na It\u00e1lia, estamos assistindo ao \u00faltimo combate entre as duas principais doutrinas econ\u00f4micas que simbolizaram o sucesso do capitalismo no mundo inteiro: o keynesianismo e o neoliberalismo. Este \u00faltimo, na realidade, come\u00e7ou a ganhar quando, da intransig\u00eancia de Ronald Reagan e de Margareth Thatcher, se passou \u00e0s sofisticadas tem\u00e1ticas do social-neoliberalismo com a Terceira Via de Tony Blair, a quem se deve juntar a famosa \u201cCarta aos Brasileiros\u201d de In\u00e1cio Lula da Silva (que abriu as portas do Planalto ao PT lulista) e a \u201cGrande Coaliz\u00e3o\u201d da poderosa socialdemocracia alem\u00e3 (SPD). Manobras pol\u00edticas que permitiram, sobretudo nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, a realiza\u00e7\u00e3o de uma aut\u00eantica contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal que, antes de tudo, derrubou a soberania dos Estados, para permitir que, em cada na\u00e7\u00e3o, fossem privilegiadas, em termos institucionais, as leis do mercado.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia foi o pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia que, mais que os outros, resistiu ao \u201cforcing\u201d do social-neoliberalismo. Por\u00e9m, em julho de 2012, o governo, liderado por Mario Monti, gra\u00e7as ao apoio do PD, conseguiu a aprova\u00e7\u00e3o da nova lei constitucional que obriga o governo a providenciar a paridade or\u00e7amental conforme decidido pela Tr\u00edade (FMI, Banco Mundial e BCE). Uma lei que anula o artigo 81 da Constitui\u00e7\u00e3o italiana, com base na qual o Estado jogava um papel determinante no desenvolvimento do pa\u00eds e que, a partir de agora, \u00e9 definido com base em regras e interesses do mercado.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Matteo Renzi, em pouco menos de seis meses, se tornou secret\u00e1rio-geral do PD, para depois fazer cair o primeiro-ministro, Letta (um keynesiano do PD), e exigir do presidente Napolitano o cargo de primeiro-ministro. Feito isso, ele come\u00e7ou a promover: 1) a total depend\u00eancia estrat\u00e9gica aos EUA; 2) o ataque ao mundo do trabalho, invalidando o Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores; 3) a apropria\u00e7\u00e3o do PD para transform\u00e1-lo em um partido semelhante ao partido Democrata de Bill Clinton; 4) a desqualifica\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas da esquerda e da classe oper\u00e1ria, consideradas algo de \u201cantigo\u201d; 5) a afirma\u00e7\u00e3o de um modelo econ\u00f4mico orientado e monitorado pelas lobbies das transnacionais e dos conglomerados financeiros.<\/p>\n<p>Uma verdadeira contrarrevolu\u00e7\u00e3o que assustou at\u00e9 o Pr\u00eamio Nobel pela economia de 2008, Paul Krugman, e o fil\u00f3sofo moderado J\u00fcrgen Habermas. De fato, para Krugman \u201c&#8230;A decis\u00e3o de realizar primeiro a uni\u00e3o monet\u00e1ria dos pa\u00edses europeus, no lugar de tornar efetiva a uni\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social, foi uma consequ\u00eancia da mentalidade mercantilista do setor financeiro\u201d. Por sua parte, o fil\u00f3sofo Habermas foi mais a fundo, alertando: \u201c&#8230;os lobbies industriais e sobretudo as financeiras pretendem desqualificar o poder decis\u00f3rio dos povos, para impor democracias de fachada no continente europeu&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O grande problema \u00e9 que a afirma\u00e7\u00e3o desse novo modelo econ\u00f4mico vai determinar a consequente consolida\u00e7\u00e3o de um tipo de sociedade perfeitamente estruturada para servir os interesses dos mercados e sem instrumentos de defesa. Por isso tudo, a greve geral proclamada pela FIOM para dia 11 de novembro, em termos pol\u00edticos, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia, podendo determinar o surgimento de uma nova esquerda ou o definitivo sucesso da contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do &#8220;Correio da Cidadania&#8221;<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o deste texto \u00e9 livre, desde que citada a fonte e o endere\u00e7o eletr\u00f4nico da p\u00e1gina do Correio da Cidadania<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6921\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[101],"tags":[],"class_list":["post-6921","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c114-italia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ND","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6921"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6921\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}