{"id":7035,"date":"2014-11-10T05:59:30","date_gmt":"2014-11-10T05:59:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7035"},"modified":"2014-12-01T18:38:35","modified_gmt":"2014-12-01T18:38:35","slug":"o-principal-estado-terrorista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7035","title":{"rendered":"O principal Estado terrorista"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;\u00c9 oficial: Os EUA s\u00e3o o principal Estado terrorista do mundo, e orgulhosos disso&#8221;.<\/p>\n<p>Esta deveria ter sido a manchete da not\u00edcia principal no<em>New York Times <\/em>de 15 de Outubro, a qual foi polidamente intitulada: &#8220;Estudo da CIA da ajuda encoberta alimenta cepticismo acerca do apoio a rebeldes s\u00edrios&#8221;.<\/p>\n<p>O artigo informa sobre uma revis\u00e3o da CIA das recentes opera\u00e7\u00f5es encobertas dos EUA a fim de determinar a sua efic\u00e1cia. A Casa Branca concluiu que infelizmente os \u00eaxitos foram t\u00e3o raros que alguma reconsidera\u00e7\u00e3o desta pol\u00edtica era pertinente.<\/p>\n<p>O artigo citava o presidente Barack Obama a dizer que pedira \u00e0 CIA para efectuar a revis\u00e3o a fim de descobrir casos de &#8220;financiamento e fornecimento de armas a insurg\u00eancias num pa\u00eds que realmente tivesse funcionado bem. E eles n\u00e3o puderam sugerir muito&#8221;. Assim, Obama tem alguma relut\u00e2ncia quanto \u00e0 continua\u00e7\u00e3o de tais esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>O primeiro par\u00e1grafo do artigo do <em>Times <\/em>menciona tr\u00eas grandes exemplos de &#8220;ajuda encoberta&#8221;: Angola, Nicar\u00e1gua e Cuba. Cada caso foi de facto uma grande opera\u00e7\u00e3o terrorista dirigida pelos EUA.<\/p>\n<p>Angola foi invadida pela \u00c1frica do Sul, a qual, segundo Washington, estava a defender-se de um dos &#8220;mais not\u00f3rios grupos terroristas&#8221; do mundo \u2013 o African National Congress, de Nelson Mandela. Isso foi em 1988.<\/p>\n<p>Nessa altura a administra\u00e7\u00e3o Reagan estava virtualmente isolada no seu apoio ao regime do apartheid, violando mesmo san\u00e7\u00f5es do Congresso quanto ao aumento do com\u00e9rcio com o seu aliado sul-africano.<\/p>\n<p>Enquanto isso Washington somava-se \u00e0 \u00c1frica do Sul ao proporcionar apoio crucial ao ex\u00e9rcito terrorista de Jonas Savimbi, em Angola. Washington continuou a fazer isso mesmo depois de Savimbi ter sido completamente derrotado numa elei\u00e7\u00e3o livre cuidadosamente monitorada e de a \u00c1frica do Sul ter retirado seu apoio. Savimbi foi um &#8220;monstro cuja sede de poder trouxe mis\u00e9ria espantosa ao seu povo&#8221;, nas palavras de Marrack Goulding, embaixador brit\u00e2nico em Angola.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias foram horrendas. Em 1989 uma investiga\u00e7\u00e3o da ONU estimava que as depreda\u00e7\u00f5es sul-africanas levaram a 1,5 milh\u00e3o de mortes em pa\u00edses vizinhos, sem falar no que estava a acontecer dentro da pr\u00f3pria \u00c1frica do Sul. For\u00e7as cubanas finalmente repeliram os agressores sul-africanos e obrigaram-nos a retirarem-se da Nam\u00edbia ocupada ilegalmente. Os EUA sozinhos continuaram a apoiar o monstro Savimbi.<\/p>\n<p>Em Cuba, ap\u00f3s a fracassa invas\u00e3o da Baia dos Porcos, em 1961, o presidente John F. Kennedy lan\u00e7ou uma campanha assassina e destrutiva para levar &#8220;os terroristas da terra&#8221; para Cuba \u2013 palavras de um colaborador pr\u00f3ximo de Kennedy, o historiador Arthur Schlesinger, na sua biografia semi-oficial de Robert Kennedy, ao qual foi atribu\u00edda responsabilidade pela guerra terrorista.<\/p>\n<p>As atrocidades contra Cuba foram graves. Os planos eram para que o terrorismo culminasse num levantamento em Outubro de 1962, o qual levaria a uma invas\u00e3o dos EUA. Nesta altura, meios acad\u00e9micos reconhecem que isto foi uma das raz\u00f5es porque o primeiro-ministro russo Nikita Khruschev instalou m\u00edsseis em Cuba, iniciando uma crise que esteve perigosamente pr\u00f3xima da guerra nuclear. O secret\u00e1rio da Defesa dos EUA Robert McNamara posteriormente reconheceu que se tivesse estado no lugar de um l\u00edder cubano &#8220;podia ter esperado uma invas\u00e3o estado-unidense&#8221;.<\/p>\n<p>Ataques americanos contra Cuba continuaram durante mais de 30 anos. O custo para os cubanos foi naturalmente rude. Os relatos das v\u00edtimas, que dificilmente alguma vez s\u00e3o ouvidos nos EUA, foram relatados em pormenor pela primeira vez num estudo de 2010 do acad\u00e9mico canadiano Keith Bolender, &#8220;Voices From the Other Side: an Oral History of Terrorism Against Cuba&#8221;.<\/p>\n<p>O custo da longa guerra terrorista foi ampliado por um embargo esmagador, o qual continua ainda hoje em desafio ao mundo. Em 28 de Outubro, a ONU, pela 23\u00aa vez, endossou &#8220;a necessidade de acabar o bloqueio econ\u00f3mico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba&#8221;. A vota\u00e7\u00e3o foi de 188 contra 2 (EUA, Israel), com absten\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ilhas do Pac\u00edfico dependentes dos EUA.<\/p>\n<p>H\u00e1 agora alguma oposi\u00e7\u00e3o ao embargo em altos postos nos EUA, informa a ABC News, porque &#8220;j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais \u00fatil&#8221; (citando o novo livro de Hillary Clinton, &#8220;Hard Choices&#8221;). O acad\u00e9mico franc\u00eas Salim Lamrani analisou os custos amargos para os cubanos no seu livro de 2013, &#8220;The Economic War Against Cuba&#8221;.<\/p>\n<p>A Nicar\u00e1gua nem precisaria ser mencionada. A guerra terrorista do presidente Ronald Reagan foi condenada pelo Tribunal Mundial, o qual ordenou aos EUA que terminassem o seu &#8220;uso ilegal da for\u00e7a&#8221; e pagassem repara\u00e7\u00f5es substanciais.<\/p>\n<p>Washington respondeu escalando a guerra e vetando uma resolu\u00e7\u00e3o de 1986 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU conclamando todos os estados \u2013 o que significava os EUA \u2013 a cumprirem o direito internacional.<\/p>\n<p>Outro exemplo de terrorismo ser\u00e1 assinalado em 16 de Novembro, o 25\u00ba anivers\u00e1rio do assassinato de seis padres jesu\u00edtas em San Salvador por uma unidade terrorista do ex\u00e9rcito salvadorenho, armada e treinada pelos EUA. Por ordens do alto comando militar, os soldados invadiram a universidade jesu\u00edta para assassinar os padres e quaisquer testemunhas \u2013 incluindo o caseiro do pr\u00e9dio e sua filha.<\/p>\n<p>Este evento culminou nas guerras terroristas dos EUA na Am\u00e9rica Central na d\u00e9cada de 1980, embora os efeitos ainda estejam nas primeiras p\u00e1ginas de hoje em reportagens sobre &#8220;imigrantes ilegais&#8221;, a fugirem em n\u00e3o pequena medida das consequ\u00eancias daquela carnificina e a serem deportados dos EUA para sobreviverem, se puderem, nas ru\u00ednas dos seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>Washington tamb\u00e9m emergiu como o campe\u00e3o mundial na gera\u00e7\u00e3o de terror. O antigos analista da CIA Paul Pillar adverte do &#8220;impacto da gera\u00e7\u00e3o de ressentimentos devido aos ataques estado-unidenses&#8221; na S\u00edria, os quais mais uma vez induzem as organiza\u00e7\u00f5es jihadistas Jabhat al-Nusra e Islamic State a &#8220;emendar suas viola\u00e7\u00f5es do ano passado e fazerem campanha em conjunto contra a interven\u00e7\u00e3o dos EUA retratando-a como uma guerra contra o Isl\u00e3o!<\/p>\n<p>Isto agora \u00e9 uma consequ\u00eancia habitual das opera\u00e7\u00f5es dos EUA que ajudaram a alastrar o jihadismo de um canto do Afeganist\u00e3o para grande parte do mundo.<\/p>\n<p>A actual manifesta\u00e7\u00e3o mais tem\u00edvel de jihadismo \u00e9 o Estado Isl\u00e2mico, ou ISIS, o qual estabeleceu seu califado assassino em grandes \u00e1reas do Iraque e da S\u00edria.<\/p>\n<p>&#8220;Penso que os Estados Unidos s\u00e3o um dos criadores chave desta organiza\u00e7\u00e3o&#8221;, relata o antigo analista da CIA Graham Fuller, um eminente comentador acerca da regi\u00e3o. &#8220;Os Estados Unidos n\u00e3o planearam a forma\u00e7\u00e3o do ISIS&#8221;, acrescenta, &#8220;mas suas interven\u00e7\u00f5es destrutivas no M\u00e9dio Oriente e a Guerra do Iraque foram as causas b\u00e1sicas do nascimento do ISIS&#8221;.<\/p>\n<p>A isto podemos acrescentar a maior campanha terrorista do mundo: o projecto global de Obama de assass\u00ednio de &#8220;terroristas&#8221;. Os &#8220;impactos da gera\u00e7\u00e3o de ressentimentos&#8221; com os ataques de drones e for\u00e7as especiais s\u00e3o demasiado bem conhecidos para exigirem coment\u00e1rios adicionais.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 um recorde a ser contemplado com algum pavor.<\/p>\n<p>03\/Novembro\/2014<\/p>\n<p><strong>[*] Professor em\u00e9rito de lingu\u00edstica e filosofia no Massachusetts Institute of Technology, in Cambridge. Seu livro mais recente \u00e9<a href=\"http:\/\/www.bookdepository.com\/Power-Systems-Institute-Professor-Department-Linguistics-Philosophy-Noam-Chomsky\/9780805096156\" target=\"_blank\"><em>Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire. Interviews with David Barsamian<\/em><\/a> .<\/strong><\/p>\n<p>http:\/\/www.resistir.info\/eua\/chomsky_03nov14.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nNoam Chomsky*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7035\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7035","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Pt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7035"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7035\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}