{"id":7145,"date":"2014-11-27T14:49:00","date_gmt":"2014-11-27T14:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7145"},"modified":"2017-08-25T00:59:59","modified_gmt":"2017-08-25T03:59:59","slug":"o-complexo-hidreletrico-do-rio-madeira-a-marcha-forcada-sobre-os-territorios-entrevista-especial-com-luis-fernando-novoa-garzon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7145","title":{"rendered":"O Complexo Hidrel\u00e9trico do Rio Madeira. A marcha for\u00e7ada sobre os territ\u00f3rios. Entrevista Especial com Luis Fernando Novoa Garzon"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><strong>\u201cO licenciamento do Complexo Hidrel\u00e9trico do Rio Madeira \u00e9 um fio que nos leva at\u00e9 o processo decis\u00f3rio do capitalismo brasileiro, que se internacionaliza subalternamente, mas se internacionaliza\u201d, frisa o soci\u00f3logo.<\/strong><\/p>\n<p>As <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528431-cheia-recorde-do-rio-madeira-dispara-alerta-em-cidades-de-rondonia\" target=\"_blank\">cheias do rio <strong>Madeira<\/strong><\/a> e os impactos gerados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de <strong>Rond\u00f4nia<\/strong> por conta das hidrel\u00e9tricas de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/509576-jirau-santo-antonio-e-belo-monte-sao-aviso-aos-navegantes-do-tapajos\" target=\"_blank\"><strong>Jirau <\/strong>e<strong> Santo Ant\u00f4nio<\/strong><\/a> recolocam o projeto neodesenvolvimentista do pa\u00eds em discuss\u00e3o e demonstram que o \u201c<strong>Brasil<\/strong> funciona como uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o da pol\u00edtica industrial chinesa e, por isso, cumpre a fun\u00e7\u00e3o que conv\u00e9m claramente a uma ordem internacional dada, a qual o <strong>BRICS<\/strong> procura expressar\u201d, adverte<strong> Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon<\/strong> \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o soci\u00f3logo explica as raz\u00f5es que levam o governo brasileiro a investir na atual pol\u00edtica energ\u00e9tica baseada, essencialmente, na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/518835-projetos-para-construcao-de-hidreletricas-no-rio-tapajos-intensificam-violacoes-de-direitos-no-oeste-do-para\" target=\"_blank\"><strong>constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas<\/strong><\/a>. Segundo ele, \u201co projeto dessas hidrel\u00e9tricas era uma esp\u00e9cie de s\u00edntese empresarial que se escorava no governo <strong>Lula<\/strong>, e esse pacto empresarial se traduziria, no final, em um pacto social de mais crescimento e mais emprego em troca de territ\u00f3rios livres de impedimentos. Ocorre que nesses territ\u00f3rios est\u00e3o os rios, os min\u00e9rios, o petr\u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p>Para ele, a pol\u00edtica brasileira est\u00e1 \u201cn\u00e3o s\u00f3 entregando recursos que podemos utilizar de formas diferenciadas de acordo com os padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos que adquirimos, mas perdendo lotes e blocos inteiros por d\u00e9cadas; essa \u00e9 a grande quest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Garzon<\/strong> esclarece ainda que \u201ctodos os instrumentos governamentais e internacionais, aos quais o governo brasileiro vem se submetendo, imp\u00f5em essa marcha for\u00e7ada sobre os territ\u00f3rios em processo de acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o\u201d. Contudo, adverte, o discurso pol\u00edtico se apropriou do conceito de sustentabilidade, e enfatiza a gera\u00e7\u00e3o de novos empregos por conta dos empreendimentos, levando a um processo de \u201cdespolitiza\u00e7\u00e3o\u201d de parte da popula\u00e7\u00e3o atingida. \u201cPor isso, a popula\u00e7\u00e3o perde a refer\u00eancia de longo prazo, refer\u00eancia dos interesses que est\u00e3o em jogo. Um governo oriundo das lutas populares como o <strong>PT<\/strong>, deveria, no m\u00ednimo, colocar o tema em discuss\u00e3o para que pud\u00e9ssemos debater\u201d, frisa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/7928-para-quem-interessa-a-energia-proveniente-do-rio-madeira-entrevista-especial-com-luis-fernando-novoa-garzon\" target=\"_blank\"><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon<\/strong><\/a> \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Sociais e mestre em Ci\u00eancias Pol\u00edticas pela <strong>Universidade de Campinas &#8211; Unicamp<\/strong>. Atualmente \u00e9 professor do <strong>Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de Rond\u00f4nia &#8211; UNIR<\/strong>. \u00c9 membro da <strong>Rede Brasil<\/strong> sobre<strong> Institui\u00e7\u00f5es Financeiras Multilaterais<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que rela\u00e7\u00f5es estabelece entre a cheia hist\u00f3rica de 2014 no rio Madeira e as hidrel\u00e9tricas de Santo Ant\u00f4nio e Jirau?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> As <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528517-acre-pode-ficar-isolado-do-pais-por-causa-da-cheia-do-madeira\" target=\"_blank\"><strong>cheias do Madeira<\/strong><\/a> foram uma esp\u00e9cie de <strong>\u201cfresta\u201d<\/strong>, de grande fissura em um modelo de apropria\u00e7\u00e3o acelerada dos rios <strong>Amaz\u00f4nicos<\/strong> como fontes de gera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica monopolisticamente definidas.<\/p>\n<p>No<strong> Brasil<\/strong> se trata a <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong> como o planeta das \u00e1guas, por conta da sua grande capacidade de reservar e de disponibilizar \u00e1gua, mas, por tr\u00e1s desse discurso, se permitem expans\u00f5es desordenadas das fronteiras econ\u00f4micas, de acordo com a disponibilidade da regi\u00e3o. A fronteira mineral, por exemplo, prosseguiu e radicaliza a sua marcha <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528517-acre-pode-ficar-isolado-do-pais-por-causa-da-cheia-do-madeira\" target=\"_blank\"><strong>territ\u00f3rios adentro em toda Amaz\u00f4nia<\/strong><\/a>, e o mesmo se repete com a fronteira el\u00e9trica.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais c\u00ednico nessa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 que a <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong> j\u00e1 tinha passado por um ciclo que foi considerado desastroso nacional e internacionalmente. Depois disso, era poss\u00edvel imaginar que n\u00f3s, brasileiros democratas, n\u00e3o permitir\u00edamos que crimes e atrocidades iguais aos da ditadura e <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529446-crime-ambiental-belo-monte-some-com-madeira-retirada-de-obras\" target=\"_blank\"><strong>crimes ambientais pudessem se repetir<\/strong><\/a>. Mas o <strong>Madeira<\/strong> mostra que se repetiu a atrocidade. O mesmo m\u00e9todo da ditadura militar \u00e9 reproduzido agora em um discurso democr\u00e1tico e participativo e produz os mesmos efeitos desastrosos sobre os mesmos segmentos. A solu\u00e7\u00e3o final \u00e9 recriada em constante e eterno retorno. As solu\u00e7\u00f5es finais s\u00e3o recriadas, especialmente num pa\u00eds que quer se especializar em apropria\u00e7\u00e3o e processamento de recursos naturais.<\/p>\n<p><strong>Modelo neodesenvolvimentista<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um financiamento em todos os n\u00edveis, em todas as esferas, ou seja, uma pol\u00edtica deliberada sobre os desastres do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/524909-do-neoliberalismo-ao-neodesenvolvimentismo-analise-critica-de-uma-decada\" target=\"_blank\"><strong>neodesenvolvimentismo<\/strong><\/a>, independente de qual segmento pol\u00edtico e de que alian\u00e7as intercapitalistas e interempresariais esse segmento faria. O modelo neodesenvolvimentista \u00e9 um modelo matricial que nos foi dado por uma trajet\u00f3ria de acoplamento, que vem a partir dos anos 1990 do mercado internacional de forma passiva, seja no arranjo mais hemisf\u00e9rico em um determinado per\u00edodo, isto \u00e9, norte-americano, seja em um processo mais planet\u00e1rio, mais subalternizado, com ramifica\u00e7\u00f5es na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/532712-africanos-veem-na-america-latina-e-no-brasil-novo-eldorado-para-imigracao\" target=\"_blank\"><strong>Am\u00e9rica do Sul, \u00c1frica e Brasil<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o <strong>Brasil<\/strong> funciona como uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o da <strong>pol\u00edtica industrial chinesa<\/strong> e, por isso, cumpre a fun\u00e7\u00e3o que conv\u00e9m claramente a uma ordem internacional dada, a qual o <strong>BRICS<\/strong> procura expressar. Ou seja, trata-se de uma ordem em que o Brasil \u00e9 um espelho. Esse \u00e9 o modelo chin\u00eas, que a <strong>China<\/strong> contrap\u00f5e ao velho imperialismo norte-americano, que vem sofrendo reveses nos \u00faltimos dec\u00eanios da decad\u00eancia europeia. \u00c9 muito triste ver o Brasil ser jogado de um lado para outro. \u00c9 lament\u00e1vel ver exatamente o fracasso de um Brasil que poderia ter sido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em horas de desastres, como das cheias deste ano, temos de apontar esse modelo ao inv\u00e9s de fazer de conta que ele n\u00e3o existe, como tentam demonstrar os acordos internos. Que acordos s\u00e3o esses que impedem que se verifique com isen\u00e7\u00e3o e rigor aquilo que produziu enormes e irrevers\u00edveis danos a regi\u00f5es consideradas, no discurso, regi\u00f5es estrat\u00e9gicas de interesse nacional, de grande valia, de diversidade, de preserva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Importante essa contextualiza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o complexo hidrel\u00e9trico teve alguma influ\u00eancia direta nas cheias por conta de alguma influ\u00eancia ambiental?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> Essa contextualiza\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o \u00e9 para demonstrar que os estudos feitos para que fossem aprovados os empreendimentos do <strong>Madeira<\/strong> partiam de um planejamento econ\u00f4mico stricto sensu, o qual o governo Lula precisava demonstrar para os investidores \u2014 muito h\u00e1beis em <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3657&amp;secao=351\" target=\"_blank\"><strong>investir em infraestrutura<\/strong><\/a>. Isso porque a infraestrutura \u00e9 a pauta geral, ou seja, todas as fra\u00e7\u00f5es do capital t\u00eam interesse em infraestrutura, porque ela \u00e9 o \u201ctiro de largada\u201d que permite a constru\u00e7\u00e3o de estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrel\u00e9tricas. Assim, o territ\u00f3rio brasileiro fica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das apostas daqueles que est\u00e3o nesse mercado e querem ocupar novas fronteiras no setor de mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>Infelizmente, o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/cepat\/cepat-conjuntura\/507033-conjuntura-da-semana-qbrasil-maiorq-politica-industrial-e-a-crise-mundial-\" target=\"_blank\"><strong>Brasil<\/strong> <strong>\u00e9 especializado em produtos prim\u00e1rios<\/strong><\/a>, em converter biomas em elementos sintetiz\u00e1veis e convertidos em mercadoria, em converter comunidades. As <strong>hidrel\u00e9tricas do Madeira<\/strong> foram uma esp\u00e9cie de sacrif\u00edcio, porque h\u00e1 tempo estamos tentando demonstrar como \u00e9 falsa a tentativa de construir as hidrel\u00e9tricas, porque os estudos t\u00e9cnicos n\u00e3o resistiam a uma avalia\u00e7\u00e3o minimamente rigorosa.<\/p>\n<p><strong>Internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O projeto dessas hidrel\u00e9tricas era uma esp\u00e9cie de s\u00edntese empresarial que se escorava no <strong>governo Lula<\/strong>, e esse pacto empresarial se traduziria, no final, em um pacto social de mais crescimento e mais emprego em troca de territ\u00f3rios livres de impedimentos. Ocorre que nesses territ\u00f3rios est\u00e3o os rios, os min\u00e9rios, o petr\u00f3leo. Ou seja, n\u00f3s estamos n\u00e3o s\u00f3 entregando recursos que podemos utilizar de formas diferenciadas de acordo com os padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos que adquirimos, mas estamos perdendo lotes e blocos inteiros por d\u00e9cadas; essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. O licenciamento do<strong> Madeira<\/strong> \u00e9 um fio que nos leva at\u00e9 o processo decis\u00f3rio do capitalismo brasileiro que se internacionaliza subalternamente, mas se internacionaliza.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 em <strong>Jirau<\/strong>? A <strong>Suez<\/strong>, uma multinacional francesa, e a <strong>Odebrecht<\/strong>, a maior multinacional brasileira. Portanto, o <strong>Complexo do Madeira<\/strong> demonstra o desastre social, ambiental e financeiro de um pacto econ\u00f4mico pol\u00edtico que ruiu e certamente est\u00e1 se repactuando. A quest\u00e3o \u00e9 que no final das contas quem paga pelos custos e pelos ajustes desses pactos que s\u00e3o feitos e refeitos \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o, que foi desconsiderada desde o in\u00edcio do projeto. Ou seja, n\u00f3s n\u00e3o temos os seguros que os senhores investidores do projeto t\u00eam. As popula\u00e7\u00f5es que viviam em volta do<strong> Rio Madeira<\/strong>, no <strong>Brasil<\/strong> e na <strong>Bol\u00edvia<\/strong>, est\u00e3o tendo de reconstruir suas vidas de uma forma absolutamente radical: elas t\u00eam de conviver em \u00e1reas urbanas com suas fam\u00edlias, em situa\u00e7\u00e3o de absoluta vulnerabilidade, para usar um termo aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor avalia a reelei\u00e7\u00e3o da presidente Dilma tendo em vista tais projetos hidrel\u00e9tricos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> As hidrel\u00e9tricas est\u00e3o sendo constru\u00eddas num contexto de despolitiza\u00e7\u00e3o e de apropria\u00e7\u00e3o capitalista em bloco. Nas audi\u00eancias p\u00fablicas, representantes do governo diziam que as usinas eram sin\u00f4nimo de empregos. Por isso, a popula\u00e7\u00e3o perde a refer\u00eancia de longo prazo, refer\u00eancia dos interesses que est\u00e3o em jogo. Um governo oriundo das lutas populares como o<strong> PT<\/strong>, deveria, no m\u00ednimo, colocar o tema em discuss\u00e3o para que pud\u00e9ssemos debater.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o governo da presidente <strong>Dilma<\/strong> demonstra um enorme desejo de manter o sacrif\u00edcio inicial feito pelo primeiro governo <strong>Lula<\/strong>, de estabelecer esse pacto neoliberal existente, que estava entrando em crise no final do governo de <strong>Fernando Henrique<\/strong>, em troca de ter maior margem para ampliar pol\u00edticas sociais. Foi feita uma combina\u00e7\u00e3o que foi eficiente enquanto durou o ciclo de commodities.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O secret\u00e1rio geral da presid\u00eancia, Gilberto Carvalho, deu uma declara\u00e7\u00e3o p\u00f3s-elei\u00e7\u00f5es dizendo que o governo n\u00e3o vai abrir m\u00e3o do complexo hidrel\u00e9trico do Tapaj\u00f3s. Como v\u00ea essas declara\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando Garzon \u2013<\/strong> \u00c9 triste. O <strong>Banco do BRICS<\/strong> coloca a infraestrutura como prioridade de seus investimentos e aportes. O <strong>Brasil<\/strong> tamb\u00e9m colocou o <strong>BNDES<\/strong> como suporte priorit\u00e1rio de seus programas de infraestrutura: o <strong>PAC3<\/strong> e o programa integrado de log\u00edstica. Ent\u00e3o, todos os instrumentos governamentais e internacionais, aos quais o governo brasileiro vem se submetendo, imp\u00f5em essa marcha for\u00e7ada sobre os territ\u00f3rios em processo de acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o. O <strong>Brasil<\/strong> virou especialista nisso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O projeto energ\u00e9tico brasileiro est\u00e1 diretamente ligado ao BRICS, ou seja, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o do BRICS?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o da <strong>China<\/strong>, primeiramente. Quando falamos <strong>BRICS<\/strong>, estamos diante do \u00fanico pa\u00eds capaz de se contrapor \u00e0 pot\u00eancia hegem\u00f4nica dos <strong>Estados Unidos<\/strong>. Ent\u00e3o, \u00e9 como se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos no vazio da primazia norte-americana no final dos anos 1990 na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <strong>Porto Velho<\/strong> estamos vivendo uma grande sobra: o que fazer com os 40 mil homens que vieram construir as usinas? N\u00e3o se pensa nas consequ\u00eancias, \u00e9 como se injetasse fatores de desorganiza\u00e7\u00e3o social e territorial e deixasse que esses fatores aumentassem. No final, se repete a hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o de <strong>Rond\u00f4nia<\/strong>: despejaram imigrantes do <strong>Centro-Sul<\/strong> em Rond\u00f4nia e deixaram que a regi\u00e3o se tornasse o estado que mais devastou a floresta <strong>Amaz\u00f4nica<\/strong> na hist\u00f3ria e, por isso, hoje lidera o ranking de queimadas. Nesse sentido, o <strong>Complexo do Rio Madeira<\/strong> reitera essa hist\u00f3ria tr\u00e1gica de ocupa\u00e7\u00e3o de fronteiras com um discurso de participa\u00e7\u00e3o e de sustentabilidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel estimar quantas pessoas foram prejudicadas por causa das cheias deste ano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> N\u00f3s fizemos uma contabilidade que apontou, em <strong>Rond\u00f4nia<\/strong>, mais de 50 mil pessoas afetadas. Nem todas foram afetadas pela \u00e1gua, mas pelo isolamento, e n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es de permanecer no local.<\/p>\n<p>A defesa civil fez um c\u00e1lculo muito restrito e uma matem\u00e1tica muito med\u00edocre. Em <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528431-cheia-recorde-do-rio-madeira-dispara-alerta-em-cidades-de-rondonia\" target=\"_blank\"><strong>Rond\u00f4nia as cheias atingiram tr\u00eas regi\u00f5es<\/strong><\/a> do estado, a fronteira com a<strong> Bol\u00edvia<\/strong> e a regi\u00e3o de <strong>Porto Velho<\/strong>. Ent\u00e3o, a <strong>Defesa Civil<\/strong> cumpriu com esse papel vergonhoso de converter os afetados em desabrigados. Aquele que \u00e9 afetado pelo modelo econ\u00f4mico vira, nas m\u00e3os do Estado, agora um desabrigado, objeto de aten\u00e7\u00e3o e de ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>De imediato, foram retiradas tr\u00eas mil fam\u00edlias, as quais s\u00e3o reconhecidas oficialmente pelos estudos, mas h\u00e1 um c\u00e1lculo que se multiplica, apontando pessoas que n\u00e3o foram contabilizadas. Por isso, nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 de que em torno de 10 mil pessoas foram impactadas diretamente pelas hidrel\u00e9tricas, e as cheias multiplicaram esse n\u00famero para 50 mil. Isso significa que boa parte dessa segunda contabilidade tem a ver com a primeira, e que justamente os que j\u00e1 foram inicialmente afetados pelas hidrel\u00e9tricas, foram novamente afetados. E aqueles que estavam sob restri\u00e7\u00e3o, sob diminui\u00e7\u00e3o de suas atividades produtivas relacionadas ao rio, n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como atingidos.<\/p>\n<p><strong>Implica\u00e7\u00f5es ambientais<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e3o barrando um enorme rio, que tem m\u00faltiplas <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4231&amp;secao=382\" target=\"_blank\"><strong>vincula\u00e7\u00f5es com outros biomas<\/strong><\/a>, com culturas, com cidades, e esse barramento n\u00e3o \u00e9 calculado nesses termos integrais. Calcula-se apenas aquilo que pode ser o dano mais agudo, que tem de ser sanado e tratado da forma como a defesa civil tratou, por exemplo. Ent\u00e3o isso despolitiza as pessoas.<\/p>\n<p>Tudo isso indica que existe um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/530910-a-exploracao-ambiental-na-amazonia-e-a-promessa-de-desenvolvimento-entrevista-especial-com-horacio-antunes-de-santana-junior\" target=\"_blank\"><strong>modelo de incorpora\u00e7\u00e3o r\u00e1pida da Amaz\u00f4nia<\/strong><\/a>, o qual tem a ver com a posi\u00e7\u00e3o do <strong>Brasil<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento. Por isso rediscutir a <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong> \u00e9 discutir a ponta do sistema que o <strong>Brasil<\/strong> adotou. Estamos diante de um processo que procura tornar invis\u00edveis os la\u00e7os de poder: os fios de decis\u00e3o se tornam invis\u00edveis e com isso fica muito simples inviabilizar aqueles atores coletivos que tinham saber sobre seu territ\u00f3rio e que poderiam transmitir o conhecimento tradicional. Mas a ci\u00eancia brasileira tamb\u00e9m chancelou esse modelo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as evid\u00eancias de que h\u00e1 elevados n\u00edveis de assoreamento no rio Madeira e que isso pode resultar em uma cheia de propor\u00e7\u00f5es similares no pr\u00f3ximo ano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Fernando <strong>Novoa <\/strong>Garzon \u2013<\/strong> Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3ximos anos. J\u00e1 nos indicaram que existe assoreamento no rio. Estudos foram realizados, mas ainda n\u00e3o foram divulgados. Os movimentos sociais de <strong>Rond\u00f4nia<\/strong> e a academia independente dos laborat\u00f3rios dos pesquisadores fazem uma reivindica\u00e7\u00e3o para que estudos sejam feitos e divulgados.<\/p>\n<p>De todo modo, n\u00e3o se trata de discutir cent\u00edmetros ou metros e taxas m\u00e1ximas de recorr\u00eancia ou taxas m\u00ednimas de recorr\u00eancia. Trata-se de tentar entender que h\u00e1 um saber acumulado, chamado \u201csaber tradicional por conven\u00e7\u00e3o\u201d, que percebeu uma mudan\u00e7a na din\u00e2mica das cheias. Mas isso n\u00e3o deve ser de interesse dos senhores engenheiros, da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/530883-governo-cobica-energia-de-florestas-protegidas\" target=\"_blank\"><strong>Empresa Brasileira de Pesquisa Energ\u00e9tica<\/strong><\/a>, do<strong> Minist\u00e9rio de Minas de Energia<\/strong>, que t\u00eam interesses mais urgentes, como estamos vendo nas recentes investiga\u00e7\u00f5es policiais. Ent\u00e3o, discutir planejamento territorial de forma democr\u00e1tica com um grupo que tem pr\u00e1ticas similares a grupos de crime organizado \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00f3s lidamos com <strong>Camargo Corr\u00eaa<\/strong> de um lado e <strong>Odebrecht<\/strong> do outro. Ent\u00e3o, d\u00e1 para se ter uma ideia do que vai acontecer.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/537716-neodesenvolvimentismo-brasileiro-e-uma-marcha-forcada-sobre-os-territorios<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7145\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-7145","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Rf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7145","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7145"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7145\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}