{"id":7147,"date":"2014-11-27T14:56:55","date_gmt":"2014-11-27T14:56:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7147"},"modified":"2014-12-01T18:38:01","modified_gmt":"2014-12-01T18:38:01","slug":"relembremos-da-historia-do-golpe-de-katia-abreu-contra-camponeses-do-tocantins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7147","title":{"rendered":"Relembremos da hist\u00f3ria do golpe de K\u00e1tia Abreu contra camponeses do Tocantins"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->A presidente da <strong>Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura<\/strong> (<strong>CNA<\/strong>), <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> (PMDB-TO), est\u00e1 sendo convidada pela presidenta <strong>Dilma Rousseff<\/strong> para assumir o comando do Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n<p>Apesar da nomea\u00e7\u00e3o j\u00e1 ser aguardada h\u00e1 algumas semanas, como parte das negocia\u00e7\u00f5es para assegurar o espa\u00e7o do <strong>PMDB<\/strong> no novo governo, diversos setores da sociedade se dizem abismados com a possibilidade de um governo do <strong>PT<\/strong> abrig\u00e1-la num minist\u00e9rio de Estado.<\/p>\n<p><strong>Golpe contra camponeses<\/strong><\/p>\n<p>Por <strong>Leandro Fortes<\/strong><\/p>\n<p>Da <strong>Carta Capital<\/strong><\/p>\n<p>Em dezembro passado, a senadora <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong>, do <strong>DEM<\/strong> Tocantins, assumiu a presid\u00eancia da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura e Pecu\u00e1ria (<strong>CNA<\/strong>) com um discurso pretensamente modernizador.<\/p>\n<p>Previa uma nova inser\u00e7\u00e3o social dos produtores rurais por meio de \u201crupturas\u201d no modo de se relacionar com o mercado, o consumidor, o governo e a economia global. Pretendia, segundo ela mesma, \u201cremover os preconceitos\u201d que teriam isolado os ruralistas do resto da sociedade brasileira e cravado neles a pecha de \u201cprot\u00f3tipos do atraso\u201d. Diante de uma audi\u00eancia orgulhosa da primeira mulher a assumir o comando da <strong>CNA, K\u00e1tia<\/strong> concluiu: \u201cSomos o que somos e n\u00e3o quem nos imaginam (sic)\u201d. Foi efusivamente aplaudida. E tornou-se musa dos ruralistas.<\/p>\n<p>Talvez, em transe corporativo, a plateia n\u00e3o tenha percebido, mas a senadora parecia falar de si mesma. Aos 46 anos,<strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> \u00e9 uma jovem lideran\u00e7a ruralista afeita \u00e0 velha tradi\u00e7\u00e3o dos antigos coron\u00e9is de terras, embora, justi\u00e7a seja feita, n\u00e3o lhe pese nos ombros acusa\u00e7\u00f5es de assassinatos e viol\u00eancias outras no trato das quest\u00f5es agr\u00e1rias que lhes s\u00e3o t\u00e3o caras. A principal arma da parlamentar \u00e9 o discurso da legalidade normalmente v\u00e1lido apenas para justificar atos contra pequenos agricultores.<\/p>\n<p>Com a espada da lei nas m\u00e3os, e com a aquiesc\u00eancia de emin\u00eancias do Poder Judici\u00e1rio, ela tem se dedicado a investir sobre os trabalhadores sem-terra. Acusa-os de serem financiados ilegalmente para invadir terras Brasil afora.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pede uma interven\u00e7\u00e3o federal no estado do Par\u00e1 e acusa a governadora <strong>Ana J\u00falia Carepa<\/strong> de n\u00e3o cumprir os mandados de reintegra\u00e7\u00e3o de posse expedidos pelo Judici\u00e1rio local. O foco no Par\u00e1 tem um objetivo que vai al\u00e9m da pol\u00edtica. A senadora, ao partir para o ataque, advoga em causa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Foram a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico que lhe garantiram praticamente de gra\u00e7a extensas e f\u00e9rteis terras do Cerrado de Tocantins. E mais: <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong>, benefici\u00e1ria de um esquema investigado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, conseguiu transformar terras produtivas em \u00e1reas onde nada se planta ou se cria. Tradu\u00e7\u00e3o: na pr\u00e1tica, a musa do agroneg\u00f3cio age com os acumuladores tradicionais de terras que atentam contra a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista do setor rural brasileiro.<\/p>\n<p>De longe, no munic\u00edpio tocantinense de Campos Lindos, a mais de 1,3 mil quil\u00f4metros dos carpetes azulados do Senado Federal, ao saber das inten\u00e7\u00f5es de<strong> K\u00e1tia Abreu<\/strong>, o agricultor <strong>Juarez Vieira Reis<\/strong> tentou materializar com palavras um conceito que, por falta de forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lhe veio \u00e0 boca: contras-senso.<\/p>\n<p>Expulso em 2003 da terra onde vivia, gra\u00e7as a uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e judicial capitaneada pela senadora do <strong>DEM, Reis<\/strong> rumina o nome da ruralista como quem masca capim danado. Ao falar de si mesmo, e quando pronuncia o nome<strong> K\u00e1tia Abreu<\/strong>, o campon\u00eas de 61 anos segue \u00e0 risca o conselho literal da pr\u00f3pria. N\u00e3o \u00e9, nem de longe, quem ela imagina.<\/p>\n<p>Em 2002, <strong>Reis<\/strong> foi expulso das terras onde havia nascido em 1948. Foi despejado por conta de uma reforma agr\u00e1ria invertida, cuja benefici\u00e1ria final foi, exatamente, a senadora. Classificada de &#8220;grilagem p\u00fablica&#8221; pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Tocantins, a tomada das terras de Reis ocorreu numa tarde de abril daquele ano, debaixo da mira das armas de quinze policiais militares sob as quais desfilaram, como num quadro de <strong>Portinari<\/strong>, o agricultor, a mulher<strong>Maria da Concei\u00e7\u00e3o<\/strong>, e dez filhos menores.<\/p>\n<p>Em um caminh\u00e3o arranjado pela Justi\u00e7a de Tocantins, o grupo foi despejado, juntamente com parte da mob\u00edlia e sob um temporal amaz\u00f4nico, nas ruas de Campos Lindos. &#8220;K\u00e1tia Abreu tem um cora\u00e7\u00e3o de serpente&#8221;, resmunga, voz embargada, o agricultor, ao relembrar o pr\u00f3prio desterro.<\/p>\n<p>Em junho de 2005, <strong>Reis<\/strong> reuniu dinheiro doado por vizinhos e amigos e foi de carona a Bras\u00edlia a fim de fazer, pessoalmente, uma reclama\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados. Na capital federal, alojou-se na casa de amigos, no miser\u00e1vel munic\u00edpio goiano de \u00c1guas Lindas, e se alimentou de restos de almo\u00e7o servido numa pens\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Aos t\u00e9cnicos da comiss\u00e3o apresentou documentos para provar que detinha a posse da terra em quest\u00e3o de 545 hectares, desde 1955, parte da fazenda Coqueiros, de propriedade da fam\u00edlia, numa regi\u00e3o conhecida como Serra do Centro. De acordo com a documenta\u00e7\u00e3o apresentada pelo agricultor, uma a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o da fazenda havia sido ajuizada em agosto de 2000.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse ajuizamento, um vizinho de <strong>Reis<\/strong>, o tamb\u00e9m agricultor <strong>Ant\u00f4nio dos Santos<\/strong>, ofereceu-lhe para venda de uma \u00e1rea cont\u00edgua de 62 hectares, sob sua posse havia onze anos, cuja propriedade ele alegava ser reconhecida pelo governo de Tocantins. O neg\u00f3cio foi realizado verbalmente por 25 mil reais como \u00e9 costume na regi\u00e3o at\u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is. Ao estender a propriedade, <strong>Reis<\/strong> pretendia aumentar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos (arroz, feij\u00e3o, milho, mandioca, melancia e abacaxi) de tal maneira de sair do regime de subsist\u00eancia e poder vender o excedente.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sabia, mas as engrenagens da m\u00e1quina de triturar sua fam\u00edlia haviam sido acionadas uns poucos anos antes, em 1996, por um decreto do ent\u00e3o governador do Tocantins <strong>Siqueira Campos (PSDB)<\/strong>. O ato do tucano, m\u00edtico criador do estado que governou por tr\u00eas mandatos, declarou de \u201cutilidade p\u00fablica\u201d, por suposta improdutividade, um \u00e1rea de 105 mil hectares em Campos Lindos para fins de desapropria\u00e7\u00e3o. Protocolada pela comarca de Goiatins, munic\u00edpio ao qual Campos Lindos foi ligado at\u00e9 1989, a desapropria\u00e7\u00e3o das terras foi t\u00e3o apressada que o juiz respons\u00e1vel pela decis\u00e3o, <strong>Edimar de Paula<\/strong>, chegou \u00e0 regi\u00e3o em um avi\u00e3o fretado apenas para decretar o processo. O magistrado acolheu um valor de indeniza\u00e7\u00e3o irris\u00f3rio (10 mil reais por hectare), a ser pago somente a 27 produtores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro lado da cerca ficaram 80 fam\u00edlias de pequenos agricultores. A maioria ocupava as terras a pelo menos 40 anos de forma \u201cmansa e pac\u00edfica\u201d, como classifica a legisla\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, cujas posses foram convertidas em \u00e1rea de reserva legal, em regime de condom\u00ednio, sob o controle de grandes produtores de soja. Na pr\u00e1tica, os posseiros de Campos Lindos passaram a viver como refugiados ilegais nessas reservas, torr\u00f5es perdidos na paisagem de fauna e flora devastados de um Cerrado em franca extin\u00e7\u00e3o. Sobre as ru\u00ednas dessas fam\u00edlias, o governador <strong>Siqueira Campos<\/strong> montou uma confraria de latifundi\u00e1rios alegremente formada por amigos e aliados. A esse movimento foi dado um nome: <strong>Projeto Agr\u00edcola de Campos Lindos<\/strong>.<\/p>\n<p>Em 1999, quatro felizardos foram contemplados com terras do projeto ao custo de pouco menos de 8 reais o hectare (10 mil metros quadrados), numa lista preparada pela Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Estado do Tocantins (<strong>Faet<\/strong>). A federa\u00e7\u00e3o teve o apoio da Companhia de Promo\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola (<strong>Campo<\/strong>), entidade fundada em 1978, fruto do acordo entre cons\u00f3rcios que implantaram o Programa de Coopera\u00e7\u00e3o Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (<strong>Prodecer<\/strong>) em parceria com o Banco do Brasil e com cooperativas de produtores.<\/p>\n<p>Escr\u00fapulos \u00e0s favas, os dirigentes de ambas as institui\u00e7\u00f5es se esbaldaram nas posses de Campos Lindos. \u00c0 \u00e9poca, a presidente da <strong>Faet<\/strong> era ningu\u00e9m menos que <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong>, ent\u00e3o deputada federal pelo ex-<strong>PFL<\/strong>. No topo da lista, a parlamentar ficou com um lote de 1,2 mil hectares. O irm\u00e3o dela, <strong>Luiz Alfredo Abreu,<\/strong> abocanhou uma \u00e1rea do mesmo tamanho. O presidente da <strong>Campo, Emiliano Botelho<\/strong>, tamb\u00e9m n\u00e3o foi esquecido: ficou com 1,7 mil hectares.<\/p>\n<p>Dessa forma, um ambiente de agricultura familiar mantido ao longo de quase meio s\u00e9culo por um esquema de produ\u00e7\u00e3o de alimentos de forma ecologicamente sustent\u00e1vel foi remarcado em glebas de latif\u00fandio e entregue a dezenas de indiv\u00edduos ligados ao governador <strong>Siqueira Campos<\/strong>. Entre elas tamb\u00e9m figuraram <strong>Dejandir Dalpasquale<\/strong>, ex-ministro da Agricultura do governo <strong>Itamar Franco, Casildo Maldaner,<\/strong> ex-governador de Santa Catarina, e o brigadeiro <strong>Adyr da Silva<\/strong>, ex-presidente da <strong>Infraero<\/strong>. Sem falar numa trupe de pol\u00edticos locais, entre os quais brilhou, acima de todos, a atual presidente da <strong>CNA<\/strong>.<\/p>\n<p>O resultado dessa pol\u00edtica pode ser medido em n\u00fameros. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (<strong>IBGE<\/strong>), a produ\u00e7\u00e3o de soja em Campos Lindos cresceu de 9,3 mil toneladas, em 1999, para 127,4 mil toneladas em 2007. Um crescimento de 1.307% em apenas oito anos. O mesmo <strong>IBGE<\/strong>, contudo revela a face desastrosa desse modelo de desenvolvimento. No <strong>Mapa da Pobreza e Desigualdade<\/strong>, divulgado tamb\u00e9m em 2007, o munic\u00edpio apareceu como o mais pobre do Pa\u00eds. Segundo o <strong>IBGE<\/strong>, 84% da popula\u00e7\u00e3o vivia da pobreza, dos quais 62,4% em estado de indig\u00eancia.<\/p>\n<p>No meio das terras presenteadas por <strong>Siqueira Campos<\/strong> a <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> estava justamente o torr\u00e3o de <strong>Reis<\/strong>, a fazenda Coqueiro. Mas, ao contr\u00e1rio dos demais posseiros empurrados para as reservas do Cerrado, o agricultor n\u00e3o se deu por vencido. Tinha a favor dele documentos de propriedade, um deles datado de 6 de setembro de 1958 e origin\u00e1rio da Secretaria da Fazenda de Goi\u00e1s, antes da divis\u00e3o do estado. O documento reconhece as terras da fam\u00edlia em nome do pai, <strong>Mateus Reis<\/strong>, a partir dos recibos dos impostos territoriais de ent\u00e3o. De posse dos pap\u00e9is, o pequeno agricultor tentou barrar a desapropria\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a. A hoje senadora partiu para a ofensiva.<\/p>\n<p>Em 11 de dezembro de 2002, <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> entrou com uma a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse em toda a \u00e1rea, inclusive dos 545 hectares onde <strong>Reis<\/strong> vivia havia cinco d\u00e9cadas. Ela ignorou a a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o em andamento, que dava respaldo legal \u00e0 perman\u00eancia dos <strong>Reis<\/strong> na terra. Para fundamentar o pedido de reintegra\u00e7\u00e3o de posse, a ent\u00e3o deputada alegou em ju\u00edzo que <strong>Reis<\/strong>, nascido e criado no local, tinha a posse da fazenda Coqueiro por menos de um ano e um dia, providencial adequa\u00e7\u00e3o ao crit\u00e9rio usado na desapropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para comprovar o fato, convocou testemunhas que moravam a mais de 800 quil\u00f4metros da \u00e1rea de lit\u00edgio. Incrivelmente, a Justi\u00e7a de Tocantins acatou os termos da a\u00e7\u00e3o e determinou que a expuls\u00e3o da fam\u00edlia de <strong>Reis<\/strong> da fazenda Coqueiro e dos 62 hectares rec\u00e9m-comprados. Ignorou, assim, que a maior parte das terras utilizada h\u00e1 50 anos ou, no m\u00ednimo, h\u00e1 mais de dois anos, como ajuizava o documento referente ao processo de usucapi\u00e3o. <strong>Reis<\/strong> foi expulso sem direito a indeniza\u00e7\u00e3o por qualquer das benfeitorias constru\u00eddas ao longo das cinco d\u00e9cadas de ocupa\u00e7\u00e3o da terra, a\u00ed inclu\u00eddos a casa onde vivia a fam\u00edlia, cisternas planta\u00e7\u00f5es (mandioca, arroz e milho), \u00e1rvores frut\u00edferas, pastagens, galinhas, jumentos e porcos.<\/p>\n<p>A exemplo da <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong>, os demais agraciados com as terras tomadas dos agricultores assumiram o compromisso de transformar as terras produtivas em dois anos. O prazo serviu de \u00e1libi para uma a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos novos produtores sobre o Cerrado e a instala\u00e7\u00e3o desordenada de empresas e grupos ligados ao mercado da soja. At\u00e9 hoje a quest\u00e3o do licenciamento ambiental da \u00e1rea abrangida pelo Projeto Agr\u00edcola Campos Lindos n\u00e3o foi resolvida por \u00f3rg\u00e3os ambientais locais. Mas nem isso a senadora fez.<\/p>\n<p>Signat\u00e1rio, com outros tr\u00eas colegas, de um pedido de interven\u00e7\u00e3o federal no Tocantins em 2003, justamente por causa da distribui\u00e7\u00e3o de terras de Campos Lindos feita por <strong>Siqueira Campos<\/strong> a amigos e aliados, o procurador federal <strong>Alvaro Manzano<\/strong> ainda espera uma provid\u00eancia. \u201cHouve uma invers\u00e3o total do processo de reforma agr\u00e1ria. A desapropria\u00e7\u00e3o foi feita para agradar amigos do rei.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 cinco meses, o agricultor <strong>Reis<\/strong> voltou \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados. Ele luta pra for\u00e7ar o Tribunal de Justi\u00e7a de Tocantins a julgar tanto a a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o de 2000 como o pedido de liminar impetrado h\u00e1 seis anos para garantir a volta da fam\u00edlia, hoje acrescida de 23 netos, \u00e0 fazenda Coqueiro. \u201cN\u00e3o tem for\u00e7a no mundo, mo\u00e7o, que fa\u00e7a essa Justi\u00e7a andar\u201d, reclama o agricultor. Ele atribuiu a lentid\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia da senadora no Judici\u00e1rio local. Procurada por <em>Carta Capital<\/em>, <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> n\u00e3o respondeu ao pedido de entrevista.<\/p>\n<p>Quatro anos atr\u00e1s, a fam\u00edlia <strong>Reis<\/strong> conseguiu se alojar numa ch\u00e1cara de 42 hectares ocupada por um dos filhos h\u00e1 dez anos. L\u00e1, quase vinte pessoas vivem amontoadas em uma casa de dois c\u00f4modos, feita de sap\u00ea e coberta de palha de baba\u00e7u em meio a porcos, galinhas e cachorros. No terreiro coberto da resid\u00eancia, infestado de moscas, as refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o irregulares, assim como os ingredientes dos pratos, uma mistura aleat\u00f3ria de arroz, mandioca, pequi, abacaxi, feij\u00e3o e farinha.<\/p>\n<p>Toda vez que um motor de carro \u00e9 ouvido nas redondezas, todos se re\u00fanem instintivamente nos fundos da casa, apavorados com a possibilidade de um novo despejo. Cercado de filhos e netos, <strong>Reis<\/strong> n\u00e3o consegue esconder os olhos marejados quando fala do pr\u00f3prio drama. \u201cFizeram carni\u00e7a da gente. Mas n\u00e3o vou desistir at\u00e9 recuperar tudo de novo.\u201d<\/p>\n<p>Em 19 de junho, um dia ap\u00f3s a \u00faltima visita de <strong>Reis<\/strong> \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados, o presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos, <strong>Luiz Couto (PT-PB),<\/strong> encaminhou um of\u00edcio endere\u00e7ado ao <strong>Conselho Nacional de Justi\u00e7a<\/strong> para denunciar a influ\u00eancia de <strong>K\u00e1tia Abreu<\/strong> na Justi\u00e7a do Tocantins e pedir celeridade nos processos de <strong>Reis<\/strong>. O pedido somente agora entrou na pauta do <strong>CNJ<\/strong>, mas ainda n\u00e3o foi tomada nenhuma medida a respeito. Nos pr\u00f3ximos dias, corregedor do conselho, <strong>Gilson Dipp<\/strong>, vai tornar p\u00fablico o relat\u00f3rio de uma inspe\u00e7\u00e3o realizada no Tribunal de Justi\u00e7a do Tocantins, no qual ser\u00e1 denunciada, entre outros males, a morosidade deliberada em casos cujos r\u00e9us s\u00e3o figuras pol\u00edticas proeminentes no estado.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas meses, ao lado de um irm\u00e3o e um filho, <strong>Reis<\/strong> voltou \u00e0 fazenda Coqueiro para averiguar o estado das terras depois da ocupa\u00e7\u00e3o supostamente produtiva da senadora. Descobriu que nem um p\u00e9 de soja &#8211; nem nada \u2013 havia sido plantado no lugar. \u201cDesgra\u00e7aram minha vida e da minha fam\u00edlia para deixar o mato tomar conta de tudo\u201d, conta<strong>Reis<\/strong>.<\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio de outros filhos, recolheu tijolos velhos da casa destru\u00edda pelos tratores da parlamentar do <strong>DEM<\/strong> e montou um barraco sem paredes, coberto de lona pl\u00e1stica e palha. Decidiu por uma retomada simb\u00f3lica da terra, onde reiniciou um ro\u00e7ado de mandioca. Na ch\u00e1cara do filho, onde se mant\u00e9m como chefe da fam\u00edlia, ainda tem tempo para rir das pirra\u00e7as de uma neta de apenas 4 anos. Quando zangada, a menina n\u00e3o hesita em disparar, sem d\u00f3 nem piedade, na presen\u00e7a do av\u00f4: \u201cMeu nome \u00e9 K\u00e1tia Abreu\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7147\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-7147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Rh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}