{"id":716,"date":"2010-08-06T14:52:24","date_gmt":"2010-08-06T14:52:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=716"},"modified":"2010-08-06T14:52:24","modified_gmt":"2010-08-06T14:52:24","slug":"o-movimento-trabalhista-e-a-luta-socialista-na-venezuela-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/716","title":{"rendered":"O movimento trabalhista e a luta socialista na Venezuela atual"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\"><strong>Em meados de junho de 2010 entrevistamos Pedro Eusse, secret\u00e1rio nacional do Partido Comunista da Venezuela ( <a href=\"http:\/\/www.pcv-venezuela.org\/index.php\" target=\"_blank\">PCV<\/a> ) e membro do comit\u00ea executivo provis\u00f3rio da confedera\u00e7\u00e3o trabalhista Uni\u00f3n Nacional de Trabajadores (UNT). Figuras revolucion\u00e1rias do passado nos fitavam de quadros nas paredes do escrit\u00f3rio do PCV no centro de Caracas. Evitando as interrup\u00e7\u00f5es do constante toque do telefone, Pedro falou apaixonadamente por duas horas acerca da centralidade dos trabalhadores organizados na luta revolucion\u00e1ria e sobre a necessidade de uni\u00e3o no movimento trabalhista. Ele exprimiu suas esperan\u00e7as na reconstru\u00e7\u00e3o da UNT em seu terceiro congresso, planejado para o outono de 2010. <\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Qual \u00e9 sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">Inicialmente eu me filiei \u00e0 Juventude do Partido Comunista da Venezuela no estado de Zulia, basicamente um estado produtor de petr\u00f3leo do oeste do pa\u00eds. Quando me filiei \u00e0 Juventude Comunista, estava justamente terminando a escola secund\u00e1ria e tinha come\u00e7ado a trabalhar numa empresa de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Eu tinha 17 ou 18 anos, e me envolvi no sindicato. Portanto, minha inicia\u00e7\u00e3o no Partido Comunista coincidiu com minha inicia\u00e7\u00e3o no movimento trabalhista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Houve um epis\u00f3dio revelador da pol\u00edtica sindical na Venezuela nesta \u00e9poca. Estive envolvido na organiza\u00e7\u00e3o de uma greve em nossa empresa contra abusos nas horas excessivas de trabalho. Em conseq\u00fc\u00eancia, fui demitido. Dessa \u00e9poca em diante tenho me dedicado em tempo integral ao trabalho pol\u00edtico, e ao trabalho com o movimento trabalhista especificamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com o passar dos anos, assumi responsabilidades dentro do partido a n\u00edvel nacional, como membro da executiva da Juventude Comunista na Venezuela. Isso foi l\u00e1 pelo final dos anos 80, e eu estava em Caracas quando as revoltas do Caracazo ocorreram.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mais ou menos \u00e0 mesma \u00e9poca, assumi tamb\u00e9m responsabilidades na Central Unitaria de Trabajadores de Venezuela (CUTV), fundada em 1963. Comecei atuando com l\u00edder da juventude nesta confedera\u00e7\u00e3o, a partir do final da d\u00e9cada de 80, e mais tarde fui eleito secret\u00e1rio geral. Assim, minhas atividades sindicais estiveram muito integradas com meu trabalho pol\u00edtico. A decis\u00e3o para que me dedicasse a um papel de lideran\u00e7a dentro da CUTV foi do partido. Eu tinha experi\u00eancia em luta sindical e portando era considerado apto para a tarefa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na atual conjuntura, estamos no processo de constru\u00e7\u00e3o de uma corrente sindical chamada La Corriente Clasista de Trabajadores &#8220;Cruz Villegas&#8221; (CCT-CV). Cruz Villegas foi um l\u00edder da CUTV, um l\u00edder sindical comunista veterano na Venezuela, que foi torturado e preso na ditadura de Marco P\u00e9rez Jim\u00e9nez (1952-1958). Cruz Villegas morreu h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, a nova corrente est\u00e1 tentando manter o esp\u00edrito da luta de classes de Cruz Villegas, e a CUTV, vivos. A nova corrente, CCT-CV, foi formada com a id\u00e9ia de unir o movimento trabalhista. Para todos os prop\u00f3sitos pr\u00e1ticos, desativamos a CUTV. A CUTV foi uma central de trabalhadores muito pequena, basicamente composta por comunistas. Foi muito forte na d\u00e9cada de 60, quando foi fundada, e mantida com perspectiva pluralista, porque havia outras correntes envolvidas na corrente comunista. Mas todas as correntes eram de esquerda. A CUTV era a central trabalhista tradicional da esquerda do movimento trabalhista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entretanto, por v\u00e1rias raz\u00f5es, ela come\u00e7ou a encolher em for\u00e7a e em n\u00famero. Uma das causas foi a estrat\u00e9gia adotada pelo partido da Acci\u00f3n Democr\u00e1tica (AD), que estava no poder nesta \u00e9poca, juntamente com a FEDECAMARAS (a federa\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio), o Departamento de Estado dos EUA e as companhias petrol\u00edferas transnacionais, para criar uma nova esp\u00e9cie de sindicato. O acordo pol\u00edtico Punto Fijo, feito em 1958, basicamente necessitava de uma central de trabalhadores que expressasse seus interesses, e esta era a Confederaci\u00f3n de Trabajadores Venezolanos (CTV). A CTV estabeleceu seu controle sobre os trabalhadores do setor p\u00fablico, todas as empresas do estado, e todas as empresas controladas pelo capital transnacional. Esta estrat\u00e9gia foi bem sucedida em reduzir o n\u00famero e a for\u00e7a da CUTV, com o tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O outro fator que contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o da CUTV foi a pol\u00edtica internacional e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio, que foi impingida \u00e0 Venezuela pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, que exigiu uma s\u00e9rie de pol\u00edticas neoliberais. O setor t\u00eaxtil, o metal-mec\u00e2nico e outros setores na economia da Venezuela praticamente entraram em colapso. E essas eram \u00e1reas onde a CUTV havia tido presen\u00e7a significativa. \u00c0 medida que a ind\u00fastria se reduzia mais e mais, a CUTV acabou se vendo com quase nenhum afiliado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, quando Hugo Ch\u00e1vez ganhou a presid\u00eancia em 1998, e iniciou a Assembl\u00e9ia Constituinte em 1999, e todo este processo de mudan\u00e7a, todos n\u00f3s na esquerda progressista e radical decidimos colocar um esfor\u00e7o tremendo para destruir o poder na CTV no movimento trabalhista. Quer\u00edamos defender os interesses dos trabalhadores e o processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, decidimos que continuar a trabalhar por meio da CUTV n\u00e3o seria a melhor maneira de contribuir para essa renova\u00e7\u00e3o do movimento trabalhista, mas, ao inv\u00e9s disso, deveria ser criada uma nova corrente sindical que operaria em espa\u00e7os mais amplos. Ent\u00e3o criamos esta nova corrente, e desativamos, ou deixamos suspensa, a CUTV.<\/p>\n<p align=\"justify\">Isso \u00e9 parte da est\u00f3ria de como eu me formei politicamente, Hoje, sou membro da lideran\u00e7a provis\u00f3ria da nova confedera\u00e7\u00e3o trabalhista, Uni\u00f3n Nacional de Trabajadores (UNT). Ainda n\u00e3o houve elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Trabalhamos bastante para que a UNT regulasse suas fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, de modo que se tornasse uma aut\u00eantica central trabalhista, com capacidade de luta, uni\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u2013 de modo que seja independente do estado, do partido e dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">E, juntamente com outras correntes, conseguimos alcan\u00e7ar algum n\u00edvel de reativa\u00e7\u00e3o da UNT. Estamos capacitados a promover um congresso nacional no qual finalmente transcenderemos as divis\u00f5es. \u00c9 normal e inevit\u00e1vel que haja conflitos internos, o problema \u00e9 quando esses conflitos se tornam paralisantes, divisores e destrutivos.<\/p>\n<p align=\"justify\">No passado, este tipo de divis\u00e3o destrutiva esteve claramente evidente na UNT. N\u00e3o sei o quanto voc\u00ea est\u00e1 ao par disso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Pode nos falar sobre os acontecimentos que levaram \u00e0 derrocada da UNT? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">A UNT tinha o que se pode chamar de um defeito de origem. A UNT foi criada de modo muito burocr\u00e1tico, com pouco debate entre os pr\u00f3prios trabalhadores, e com pouca participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Foi basicamente criada de cima, sendo essencialmente produto da vontade de alguns lideres.<\/p>\n<p align=\"justify\">A primeira lideran\u00e7a da UNT foi simplesmente determinada de cima. N\u00e3o foi produto de consultas \u00e0s bases. N\u00e3o havia elei\u00e7\u00f5es. As posi\u00e7\u00f5es eram simplesmente distribu\u00eddas. Portanto, nesta primeira fase, n\u00f3s [a CCT] decidimos n\u00e3o participar da UNT, porque este tipo de pr\u00e1tica n\u00e3o era v\u00e1lida. Nossas a\u00e7\u00f5es tinham que acompanhar nossas palavras. Se est\u00e1vamos promovendo o sindicalismo democr\u00e1tico \u2013 n\u00e3o apenas uma democracia formal mas uma democracia de classe \u2013 se quer\u00edamos um sindicalismo que rompesse com os esquemas burocr\u00e1ticos e elitistas do passado, caracter\u00edsticos da velha CTV, n\u00e3o dever\u00edamos participar da UNT da forma em que ela estava inicialmente se formando. Quer\u00edamos criar um sindicalismo que acenderia uma nova esperan\u00e7a para os trabalhadores venezuelanos, e isso n\u00e3o iria acontecer com as caracter\u00edsticas que a UNT mostrava no in\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O primeiro congresso da UNT, por exemplo, n\u00e3o foi um congresso aut\u00eantico porque n\u00e3o haviam delegados eleitos. N\u00e3o houveram documentos preliminares submetidos ao debate. Havia basicamente um consenso de que a primeira tentativa era problem\u00e1tica, ent\u00e3o um segundo congresso foi realizado em 2006, a fim de debater realmente o projeto, os estatutos e os princ\u00edpios da central dos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">O segundo congresso foi um desastre, entretanto, que acabou em golpes. O descontentamento tinha sido alimentado por muito tempo. As diferentes fac\u00e7\u00f5es viam a UNT como &#8220;sua&#8221; organiza\u00e7\u00e3o, e tratavam outras fac\u00e7\u00f5es como inimigos irreconcili\u00e1veis. A situa\u00e7\u00e3o era ainda mais lament\u00e1vel dado que havia representantes internacionais do movimento trabalhista presentes ao congresso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Participei do congresso como convidado. Na \u00e9poca est\u00e1vamos num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, tentando nos unir \u00e0 UNT. Mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m para conversarmos. Se se queria falar com a UNT, tinha-se que falar com todas as diferentes tend\u00eancias separadamente, j\u00e1 que n\u00e3o havia lideran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O congresso fez com que uma das correntes mais importantes, a Fuerza Bolivariana de Trabajadores (FBT), deixasse a UNT, junto com a corrente trotskista liderada por Orlando Chirino, e v\u00e1rias outras correntes, dividindo o movimento trabalhista.<\/p>\n<p align=\"justify\">A FBT \u00e9 uma das mais importantes \u2013 embora problem\u00e1tica \u2013 correntes no movimento trabalhista venezuelano porque foi o instrumento sindical do Movimiento Quinta Rep\u00fablica, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Ch\u00e1vez na \u00e9poca. Depois de sua separa\u00e7\u00e3o, a FBT come\u00e7ou o trabalho de construir uma central de trabalhadores inteiramente nova e diferente, sobre a qual eles queriam controle total e incondicional. Essa nova central, que eles chamaram de Central Socialista de Trabajadores ( CST) n\u00e3o foi constitu\u00edda na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">A nova central proposta seria uma amea\u00e7a ao movimento trabalhista independente, porque a FBT \u00e9 contra qualquer confronto com o estado. O estado venezuelano continua a ser um estado burgu\u00eas, ainda que tenha se submetido a algumas mudan\u00e7as durante o per\u00edodo Ch\u00e1vez. Eles argumentam que o movimento trabalhista n\u00e3o deveria confrontar o estado porque o pr\u00f3prio estado ainda est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o. Sua falta de independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao estado tem sido manifestada v\u00e1rias vezes. Por exemplo, durante a greve da Sidor (Sider\u00fargica de Orinoco C.A.), a FBT defendeu os patr\u00f5es e abandonou os trabalhadores, Fizeram isso abertamente. Neste per\u00edodo, o ministro do Trabalho, Jose Ram\u00f3n Rivero, um militante da FBT, tinha rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com o governador Rangel G\u00f3mez no estado de Bol\u00edvar, onde se situa a Sidor. G\u00f3mez \u00e9 totalmente direitista \u2013 apesar de ser ostensivamente parte do processo bolivariano, como muitos outros &#8220;no processo&#8221; ele est\u00e1 realmente \u00e0 direita.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, Rivero tomou o lado da multinacional argentina propriet\u00e1ria da Sidor, contra os trabalhadores. E a FBT se alinhou com Rivero, deixando de mostrar o menor sinal de solidariedade com os trabalhadores que foram violentamente reprimidos pela pol\u00edcia e pela Guarda Nacional.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro exemplo \u00e9 a greve que ocorreu em 2009 na f\u00e1brica da Mitsubishi em Anzo\u00e1tegui. Neste caso, houve um ataque da pol\u00edcia aos trabalhadores, que resultou em duas mortes. E o Minist\u00e9rio do Trabalho deu luz verde para que a Mitsubishi demitisse 11 dos 15 l\u00edderes sindicais na f\u00e1brica, desestabilizando o sindicato. Um n\u00famero desconhecido de trabalhadores tamb\u00e9m foi demitido. O objetivo do Minist\u00e9rio do Trabalho e da Mitsubishi era destruir a capacidade de resist\u00eancia do sindicato. Ao inv\u00e9s de ficar ao lado dos trabalhadores, a FBT condenou o sindicato, dizendo que ele estava cheio de anarquistas que sabotaram a companhia. Em nenhum momento expressaram solidariedade aos trabalhadores, ou questionaram a posi\u00e7\u00e3o tomada pela companhia, ou os horr\u00edveis assassinatos de trabalhadores que aconteceram. Nem rejeitou ou condenou os disparos feitos a l\u00edderes sindicais e outros trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dados esses fatos, como dever\u00edamos trabalhar com esta corrente sindical? Ela deve ser derrotada. Ent\u00e3o, com todos os problemas evidentes na UNT, n\u00e3o obstante \u00e9 essencial que trabalhemos em constru\u00ed-la, de modo a que ela se torne um instrumento aut\u00eantico para os trabalhadores, com independ\u00eancia dos patr\u00f5es, do estado e do partido.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Partido Comunista, e a corrente que o representa na UNT, tem feito v\u00e1rias propostas, que est\u00e3o em discuss\u00e3o com as bases, numa tentativa de criar conscientiza\u00e7\u00e3o, entre os trabalhadores, sobre seu papel na sociedade. Temos defendido o estabelecimento de conselhos socialistas dos trabalhadores. H\u00e1 tamb\u00e9m uma proposta de lei em defesa desta posi\u00e7\u00e3o, atualmente sob delibera\u00e7\u00e3o da Assembl\u00e9ia Nacional.<\/p>\n<p align=\"justify\">O outro problema com a UNT desde o in\u00edcio foi a proposta para o extremo oposto do sindicalismo horizontal, sob o qual ningu\u00e9m teria responsabilidades de lideran\u00e7a; todos patrocinariam igualmente a UNT. N\u00f3s [a CCT] nunca concordamos com isso, tamb\u00e9m. E, felizmente, desde que nos unimos \u00e0 UNT combatemos esta id\u00e9ia atrav\u00e9s da luta e do debate aberto.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o concordamos com o horizontalismo porque um movimento sindical tem que ser um instrumento de combate, de luta. Deve ter a capacidade de responder, e de manter a unidade. No per\u00edodo em que n\u00e3o houve qualquer lideran\u00e7a, e todas as se\u00e7\u00f5es na UNT eram iguais, cada um dos coordenadores falava por si mesmo como se estivessem falando pela UNT. Assim um representante da UNT diria alguma coisa, e outro l\u00edder o denunciaria. Isso era absurdo. Tornou imposs\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de um movimento sindical efetivo e de largo alcance. Tornou-se uma situa\u00e7\u00e3o de permanente confronto, e gerou conflitos irreconcili\u00e1veis. A UNT acabou destruindo-se a si mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 verdade que hoje na Venezuela existe uma democracia participante e protagonista, sem d\u00favida, mas isso n\u00e3o nega a representa\u00e7\u00e3o \u2013 seja ao n\u00edvel do estado ou em organiza\u00e7\u00f5es sociais. Por exemplo, quando uma comunidade elege um porta-voz para seu conselho comunit\u00e1rio est\u00e3o elegendo um representante que est\u00e1 subordinado \u00e0 soberania e vontade das decis\u00f5es populares atrav\u00e9s da assembl\u00e9ia comunit\u00e1ria. E \u00e9 assim que deveria ser. Mas deve ser entendido que esta \u00e9 uma forma de representa\u00e7\u00e3o. Em resumo, necessitamos de representantes, mas n\u00e3o de representantes que usurpem o poder da coletividade. Representantes que expressem as posi\u00e7\u00f5es a que o debate entre as bases chegou, atrav\u00e9s de mecanismos estabelecidos na assembl\u00e9ia da UNT.<\/p>\n<p align=\"justify\">Agora que esta orienta\u00e7\u00e3o horizontalista foi derrotada, os debates e lutas atuais giram em torno das diferentes correntes que tentam consolidar mais influ\u00eancia e lideran\u00e7a dentro da UNT. Isto \u00e9 normal e n\u00e3o deve ser visto como problem\u00e1tico. S\u00f3 se torna um problema quando a luta por lideran\u00e7a termina por destruir a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Qual tem sido o papel do movimento trabalhista no processo? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">A fraqueza mais importante do processo revolucion\u00e1rio na Venezuela atualmente \u00e9 a aus\u00eancia de um movimento trabalhista protagonista, com independ\u00eancia, com for\u00e7a, com prop\u00f3sitos, com suas pr\u00f3prias exig\u00eancias. Ainda se necessita construir um movimento de trabalhadores com objetivos revolucion\u00e1rios \u2013 sem que se renuncie \u00e0 import\u00e2ncia das exig\u00eancias por reformas.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 revolucion\u00e1rios em todos os setores do movimento trabalhista, tal como em Guayana. H\u00e1 muitos sindicatos conduzidos por reacion\u00e1rios ou reformistas, mas a base dos trabalhadores em Guayana tem feito grandes avan\u00e7os em sua conscientiza\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s do Plano Socialista para Guayana tem havido uma experi\u00eancia de gest\u00e3o direta por trabalhadores nessas empresas, determinando como os trabalhadores controlar\u00e3o os meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os trabalhadores do setor petrol\u00edfero tamb\u00e9m avan\u00e7aram, mas ainda h\u00e1 uma grande influ\u00eancia da burocracia. As correntes revolucion\u00e1rias no setor petrol\u00edfero ainda s\u00e3o fracas. Muitos diriam, &#8220;sim, estamos com Ch\u00e1vez, estamos com o processo&#8221;, mas eles n\u00e3o se perguntaram qual \u00e9 o papel transformador dos trabalhadores no processo. Voc\u00ea est\u00e1 com Ch\u00e1vez porque ele est\u00e1 aumentando seus sal\u00e1rios e melhorando as condi\u00e7\u00f5es de trabalho em seu setor, ou voc\u00ea est\u00e1 com Ch\u00e1vez porque vamos abolir o modo capitalista e produ\u00e7\u00e3o e construir o socialismo?<\/p>\n<p align=\"justify\">Ainda que haja alguns bols\u00f5es de atividade, muitos dos sindicatos atuais na Venezuela se descrevem como bolivarianos, revolucion\u00e1rios e mesmo socialistas, mas s\u00e3o reformistas na pr\u00e1tica. Esses sindicatos, portanto, n\u00e3o v\u00eam seu papel na sociedade como transformadores da mesma e dos meios de produ\u00e7\u00e3o, mas simplesmente como obtenedores de melhorias econ\u00f4micas pouco significativas para os trabalhadores, melhores sal\u00e1rios e contratos coletivos para seus membros. Eles n\u00e3o v\u00eam seu papel como lutadores pela transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Este \u00e9 um grande problema de temos que enfrentar, j\u00e1 que a aus\u00eancia de um movimento como este [sindicato revolucion\u00e1rio] permitiu que outros setores sociais, outras classes sociais tivessem influ\u00eancia no processo revolucion\u00e1rio. Estes setores t\u00eam conflitos espec\u00edficos com o imperialismo norte-americano, com as transnacionais, mas tamb\u00e9m se op\u00f5em ao socialismo. A burguesia nunca ser\u00e1 favor\u00e1vel ao socialismo, assim como a pequena burguesia. H\u00e1, naturalmente, indiv\u00edduos da burguesia ou pequena burguesia que apoiar\u00e3o os objetivos de construir o socialismo, mas eles s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. Como classes, como instrumentos sociais, essas classes ir\u00e3o defender seus interesses \u2013 suas posi\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios \u2013 e esses interesses s\u00e3o evidentemente contradit\u00f3rios com os interesses da classe trabalhadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">A pequena burguesia capturou o controle da maior parte da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e das empresas estatais. E assim temos essas camadas controlando a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, sem qualquer tipo de controle social ou trabalhista e da comunidade, na ind\u00fastria petroqu\u00edmica, as empresas estatais em Guayana, e assim por diante. E eles agem no seu pr\u00f3prio interesse, atrav\u00e9s de mecanismos de corrup\u00e7\u00e3o, acumulando riquezas e recursos econ\u00f4micos. Obviamente, este setor n\u00e3o promover\u00e1 a submiss\u00e3o dessas empresas ao controle social, no qual s\u00f3 teriam a perder.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Presidente Ch\u00e1vez, especialmente nos \u00faltimos dois anos, tentou mudar a economia, o modo de produ\u00e7\u00e3o e a forma de estado. Mas o problema \u00e9 que se esses objetivos n\u00e3o forem assumidos com for\u00e7a, paix\u00e3o e intelig\u00eancia pelos pr\u00f3prios trabalhadores, a burocracia na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 a pequena burguesia que tem controle sobre partes importantes do estado venezuelano \u2013 impedir\u00e1 a consecu\u00e7\u00e3o desses objetivos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se uma empresa \u00e9 nacionalizada e depois gerida da mesma forma que uma empresa privada antes dela, os trabalhadores n\u00e3o sentir\u00e3o que este \u00e9 um projeto deles. Acontece freq\u00fcentemente que os chefes nas empresas p\u00fablicas cometem contra os trabalhadores tantos abusos quando os chefes privados. Obviamente, esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 automaticamente resolvida pela nacionaliza\u00e7\u00e3o. Somos favor\u00e1veis \u00e0 continuidade das nacionaliza\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocorrido, e que continue esse processo de expropria\u00e7\u00f5es, mas as contradi\u00e7\u00f5es t\u00eam que ser admitidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por exemplo, apoiamos o movimento do governo de expropriar alguns dos monop\u00f3lios que atualmente controlam a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no pa\u00eds, como a Polar. Mas o problema \u00e9 que as empresas do estado que foram criadas para produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos atingem apenas uma pequena propor\u00e7\u00e3o das necessidades nacionais. N\u00e3o superamos a extrema depend\u00eancia de importa\u00e7\u00e3o de alimentos, Ent\u00e3o h\u00e1 ainda um pequeno grupo de empresas que controlam aproximadamente 80% do alimento produzido no pa\u00eds, assim como o do alimento importado.<\/p>\n<p align=\"justify\">A \u00fanica maneira pela qual o governo pode assegurar que esses pequenos grupos n\u00e3o usem seu poder para especular, e para se engajar politicamente de maneira contra-revolucion\u00e1ria, \u00e9 atrav\u00e9s da expropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estamos propondo a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos, de modo a que os interesses privados n\u00e3o controlem o acesso aos recursos financeiros, e de modo a que esses recursos possam ser usados para fortalecer os setores produtivos fundamentais da economia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estamos ainda pedindo por nacionaliza\u00e7\u00f5es mais profundas e de maior alcance, que incluam novas formas de gest\u00e3o, envolvendo controle coletivo sobre a tomada de decis\u00f5es. Precisamos nos mover al\u00e9m da estatiza\u00e7\u00e3o e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que os setores que eu mencionei \u2013 a burguesia e a pequena burguesia que o controlam \u2013 resistem a esta transi\u00e7\u00e3o. Eles dizem &#8220;Certo, vamos nacionalizar as empresas, mas n\u00f3s pr\u00f3prios as controlaremos&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o fundamental num n\u00edvel geral que n\u00e3o ser\u00e1 resolvida em favor dos trabalhadores, numa dire\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria, sem um movimento trabalhista como o que eu sugeri que exig\u00edssemos. \u00c9 por isso que propusemos coisas como conselhos socialistas dos trabalhadores, e constru\u00edmos um movimento de trabalhadores com orienta\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, um movimento de trabalhadores que incorpore trabalhadores de setores p\u00fablicos, privados e mistos da economia, e um movimento que incorpore todas as correntes que est\u00e3o no processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os conselhos comunit\u00e1rios, de um lado, e o movimento trabalhista, de outro? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 muito pouco relacionamento entre os dois. O movimento trabalhista \u00e9 muito fraco para estabelecer relacionamento com as comunidades, que s\u00e3o parte importante do processo bolivariano.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 entretanto exemplos isolados. Algumas comunas come\u00e7aram a construir resid\u00eancias, por exemplo, e tentaram estabelecer rela\u00e7\u00f5es com sindicatos da constru\u00e7\u00e3o. Mas freq\u00fcentemente \u00e9 um relacionamento muito complicado e conflituoso, porque os sindicatos da constru\u00e7\u00e3o na Venezuela est\u00e3o muito deteriorados. Alguns deles mal podem ser chamados de sindicatos, e seriam melhor descritos como m\u00e1fias que controlam o acesso ao trabalho. Muitas vezes, os sindicatos tentam estabelecer controle sobre a comuna para determinar quem trabalha nos projetos de constru\u00e7\u00e3o. Isso ocorreu quando as comunidades tentaram construir suas pr\u00f3prias escolas, cl\u00ednicas m\u00e9dicas, centros esportivos e assim por diante. E criou-se uma din\u00e2mica na qual as comunas tentam evitar rela\u00e7\u00f5es com os sindicatos da constru\u00e7\u00e3o. Porque, muitas vezes, os sindicatos da constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o atenderam os interesses nem dos trabalhadores nem da comunidade, mas apenas dos l\u00edderes sindicais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nossa posi\u00e7\u00e3o, que expressamos a camaradas nos conselhos comunais e a trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 que os sindicatos existentes precisam se transformar para que possam trabalhar efetivamente com as comunas. S\u00f3 o fato de os sindicatos serem hoje controlados por uma m\u00e1fia n\u00e3o justifica uma perspectiva de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o em geral. Ter sindicatos \u00e9 importante porque freq\u00fcentemente a infra-estrutura e a constru\u00e7\u00e3o de moradias nas comunas \u00e9 contratada fora \u2013 seja pela pr\u00f3pria comuna seja pelo Minist\u00e9rio de Obras P\u00fablicas e Moradia \u2013 de empresas privadas. Ent\u00e3o essas empresas privadas que possuem a maquinaria, tecnologia e recursos necess\u00e1rios tentam empregar trabalhadores ao menor custo poss\u00edvel a fim de lucrar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, mesmo que isso signifique viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos trabalhadores. As comunas deveriam usar o trabalho sindicalizado, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhum relacionamento planejado, organizado e pol\u00edtico entre as comunas e o movimento trabalhista, o que \u00e9 uma enorme fraqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Para fins de esclarecimento, em sua perspectiva quais s\u00e3o as for\u00e7as sociais mais importantes no processo bolivariano? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 diversas for\u00e7as sociais atuantes no processo bolivariano, como sugeri antes. A pequena burguesia tem a maior parte da influ\u00eancia no processo, setores progressistas da pequena burguesia na maioria dos casos, Esses setores foram radicalizados pela sua experi\u00eancia com o neoliberalismo nos anos 80 e 90, quando setores da burguesia, a pequena burguesia e as classes m\u00e9dias foram jogadas em condi\u00e7\u00f5es sociais de mis\u00e9ria, \u00e0 medida em que eram substitu\u00eddas por fra\u00e7\u00f5es mais poderosas da burguesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta din\u00e2mica foi o que ajudou a criar uma base muito grande para a oposi\u00e7\u00e3o contra as pol\u00edticas da AD e COPEI. E Ch\u00e1vez portanto recebeu um n\u00edvel impressionante de apoio, e n\u00e3o apenas dos setores mais empobrecidos da popula\u00e7\u00e3o \u2013 camponeses, trabalhadores e o lumpen-proletariat \u2013 mas tamb\u00e9m camadas da classe m\u00e9dia e da pequena burguesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, quando as discuss\u00f5es giram sobre a necessidade de que esse processo transite para o socialismo, as contradi\u00e7\u00f5es sobem \u00e0 superf\u00edcie. Essas camadas da classe m\u00e9dia, a pequena burguesia, e parte da burguesia nacional somente querem se fortalecer frente a fazer alian\u00e7as com as transnacionais com apoio do estado venezuelano. E elas receberam esse apoio atrav\u00e9s das rendas do petr\u00f3leo, Ent\u00e3o quando for\u00e7as populares exigem a socializa\u00e7\u00e3o das rendas do petr\u00f3leo, dos meios de produ\u00e7\u00e3o e do processo pol\u00edtico, esses setores armam uma oposi\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. Essa din\u00e2mica cria uma situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">No geral, quando olhamos o processo bolivariano, o setor com mais influ\u00eancia tem sido a pequena burguesia, tanto em seus componentes civis como militares. H\u00e1 muitos oficiais comprometidos com a defesa do Presidente Ch\u00e1vez que s\u00e3o profissionais da classe m\u00e9dia. Alguns deles constituem parte da pequena burguesia porque possuem alguma terra, e possuem propriedades.<\/p>\n<p align=\"justify\">A principal coisa a confrontar \u00e9 que se n\u00e3o h\u00e1 qualquer comprometimento real com um novo modo de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, um novo modo de gest\u00e3o econ\u00f4mica, que \u00e9 participativo e democr\u00e1tico e subordinado \u00e0 vontade dos trabalhadores e das comunidades, essas contradi\u00e7\u00f5es objetivas ser\u00e3o expressas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas se n\u00e3o h\u00e1 posi\u00e7\u00e3o clara sobre o papel do estado, as institui\u00e7\u00f5es e as empresas p\u00fablicas, para revolucionar a forma de gest\u00e3o e lideran\u00e7a, as contradi\u00e7\u00f5es objetivas da situa\u00e7\u00e3o continuar\u00e3o a evitar o aprofundamento do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que pode resolver esta situa\u00e7\u00e3o? Um movimento trabalhista forte, em alian\u00e7a com as comunas, pode levar o processo a uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Um dos obst\u00e1culos \u00e9 que muitas das pessoas trabalhando com as comunas n\u00e3o partilham desta perspectiva. Elas v\u00eaem a forma\u00e7\u00e3o dos conselhos comunit\u00e1rios meramente como um modo de atender exig\u00eancias imediatas e de muito curto prazo das suas comunidades. Elas n\u00e3o v\u00eaem seu papel como transcendendo essas quest\u00f5es, como transformadoras da estrutura total da sociedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os conselhos comunit\u00e1rios, os trabalhadores e os camponeses precisam confrontar os monop\u00f3lios que ainda controlam grandes setores dos meios de produ\u00e7\u00e3o, assim como a burocracia na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Se os conselhos comunit\u00e1rios s\u00e3o formados apenas para receber dinheiro do estado e para suprir necessidades b\u00e1sicas de suas comunidades, n\u00e3o desempenhar\u00e3o papel revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tamb\u00e9m \u00e9 o caso de haver pessoas que trabalham atrav\u00e9s de conselhos comunit\u00e1rios para se apropriar do dinheiro que est\u00e1 vindo do estado e \u00e9 destinado \u00e0 comunidade. Isso explica porque em algumas comunidades h\u00e1 intensas lutas internas sobre quem controlar\u00e1 os recursos provenientes do estado. Esses conflitos s\u00e3o express\u00e3o de valores capitalistas residuais, e em particular de valores associados com um capitalismo passado que foi extremamente dependente do estado e da renda do petr\u00f3leo. Essa tradi\u00e7\u00e3o de luta por rendas petrol\u00edferas gerou esses tipos de deforma\u00e7\u00f5es e valores, que v\u00e3o contra a produ\u00e7\u00e3o, e gravitam, ao contr\u00e1rio, somente para capturar os recursos do estado.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Mudando de assunto por um momento, quais s\u00e3o os pontos fortes e fracos do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) como partido? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">Come\u00e7ando com os pontos fortes, certamente h\u00e1 o caso de que Ch\u00e1vez e a revolu\u00e7\u00e3o precisaram e ainda precisam de uma maneira de unificar indiv\u00edduos e correntes pol\u00edticas que ap\u00f3iam Ch\u00e1vez, e que n\u00e3o est\u00e3o inclinadas a se unirem ao Partido Comunista da Venezuela (PCV) ou outros partidos existentes \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p align=\"justify\">Antes do PSUV, havia o Movimiento Quinta Rep\u00fablica (MVR), mas este n\u00e3o teve caracter\u00edsticas de um partido. Foi fundamentalmente um instrumento eleitoral. Al\u00e9m disso, havia muitos movimentos fora do MVR que apoiavam o processo mas estavam isolados, e que est\u00e3o agora integrados ao PSUV. Estes s\u00e3o desenvolvimentos positivos que permitiram, entre outras coisas, importantes vit\u00f3rias eleitorais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas as fraquezas do PSUV, do nosso ponto de vista, t\u00eam a ver com o fato de que \u00e9 um partido policlassista que tenta juntar interesses de classe irreconcili\u00e1veis. H\u00e1 indiv\u00edduos e setores dentro do partido afiliados a fra\u00e7\u00f5es da burguesia urbana, assim como \u00e0 classe de propriet\u00e1rios rurais, e fazendeiros. H\u00e1 dentro do partido propriet\u00e1rios de pequenos, m\u00e9dios e at\u00e9 mesmo grandes empresas privadas. Esses setores coexistem com camponeses sem terra, trabalhadores, setores super-explorados da popula\u00e7\u00e3o, setores progressivos da classe m\u00e9dia e intelectuais revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 portanto setores no partido cujos interesses os conduzem \u00e0 necessidade de revolu\u00e7\u00e3o e socialismo, e outros cujos interesses est\u00e3o em manter o capitalismo, ainda que um capitalismo reformado. Todos esses interesses coexistem dentro do PSUV. Da mesma forma, h\u00e1 um n\u00edvel similar de diversidade ideol\u00f3gica no partido.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta tens\u00e3o interna e essas contradi\u00e7\u00f5es permanentes tornam muito dif\u00edcil para o partido organizar os setores populares e construir o socialismo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essas contradi\u00e7\u00f5es internas se expressam em diferentes momentos, incluindo por exemplo os per\u00edodos eleitorais. Ent\u00e3o temos representantes do PSUV que conquistaram prefeituras e governos que est\u00e3o claramente alinhados com fra\u00e7\u00f5es da burguesia e da pequena burguesia. E uma vez que conquistaram essas posi\u00e7\u00f5es, eles usam seu poder institucional para real\u00e7ar as contradi\u00e7\u00f5es internas do partido. Isto \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando efectuaram elei\u00e7\u00f5es internas, procederam precisamente como qualquer partido burgu\u00eas faria. Cada candidato defende sua posi\u00e7\u00e3o contra os outros, e quem quer que tenha mais dinheiro para promover suas causas atrav\u00e9s de propaganda e outros, ganha dos candidatos que n\u00e3o t\u00eam esses recursos. A ideologia do partido \u00e9 tamb\u00e9m confusa devido aos interesses e correntes que competem, e assim por diante. Harmonizar e construir uma ideologia hegem\u00f4nica dentro do partido \u00e9 praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">Somos aliados do PSUV a despeito dessas fraquezas, desde que o partido tenha o apoio das massas, o que lhe permite vencer elei\u00e7\u00f5es. Ao n\u00edvel eleitoral o PSUV conseguiu um patamar importante de efici\u00eancia. No momento atual, isso \u00e9 uma necessidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas olhando al\u00e9m da conjuntura imediata em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, as fraquezas internas do PSUV podem muito bem colocar o processo revolucion\u00e1rio em risco.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Podemos ver que h\u00e1 uma nova contraofensiva do imperialismo que est\u00e1 sendo lan\u00e7ada na Am\u00e9rica Latina, com o golpe em Honduras, as novas bases militares dos EUA na Col\u00f4mbia, a elei\u00e7\u00e3o do direitista Sebastian Pi\u00f1era no Chile, as campanhas de desestabiliza\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia e no Equador, e assim por diante. Qual \u00e9 a estrat\u00e9gia imperialista em rela\u00e7\u00e3o ao processo bolivariano na Venezuela? <\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 evidente que h\u00e1 uma estrat\u00e9gia imperialista multifacetada contra a Venezuela. De um lado h\u00e1 uma estrat\u00e9gia para distorcer a opini\u00e3o p\u00fablica contra o processo revolucion\u00e1rio atrav\u00e9s da m\u00eddia privada mundial e dento do pa\u00eds. Os instrumentos de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica s\u00e3o armas mortais, n\u00e3o somente contra a revolu\u00e7\u00e3o venezuelana mas contra os processos revolucion\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina. Eles est\u00e3o continuamente gerando uma falsa imagem do processo \u2013 que Ch\u00e1vez \u00e9 um ditador, que quer uma ditadura, que viola direitos humanos, etc, etc.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nos \u00faltimos anos tem havido uma campanha de propaganda que diz que o Presidente Ch\u00e1vez ap\u00f3ia o terrorismo, e que o processo revolucion\u00e1rio est\u00e1 conectado ao tr\u00e1fico de drogas. \u00c9 o mesmo conjunto de instrumentos usado no passado contra outros processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">Este aspecto da estrat\u00e9gia imperialista n\u00e3o tem tido tanto \u00eaxito quanto se esperava dados os esfor\u00e7os nela investidos. Ch\u00e1vez provou ser muito \u00e1gil em construir rela\u00e7\u00f5es internacionais diretas e de amplo alcance, o que tem ajudado imensamente o processo. Ent\u00e3o esta campanha imperialista para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica internacional est\u00e1 colidindo diretamente com a orienta\u00e7\u00e3o internacional da lideran\u00e7a do processo bolivariano.<\/p>\n<p align=\"justify\">A outra possibilidade, al\u00e9m da campanha medi\u00e1tica para satanizar Ch\u00e1vez, \u00e9 o ataque militar direto. N\u00e3o podemos nunca excluir a possibilidade da ofensiva militar contra a Venezuela. Esta possibilidade est\u00e1 clara na constru\u00e7\u00e3o de for\u00e7as militares que praticamente cercam a Venezuela \u2013 na Col\u00f4mbia h\u00e1 sete bases com presen\u00e7a militar estadunidense, eles mantiveram presen\u00e7a no Peru e Paraguai, e no Caribe com a reativa\u00e7\u00e3o da Quarta Frota. Isso deve continuar a aumentar, porque n\u00e3o h\u00e1 nenhuma descontinuidade nos neg\u00f3cios externos do estado norte-americano ente Bush e Obama \u2013 talvez haja diferen\u00e7as nas formas de diplomacia pol\u00edtica, mas h\u00e1 uma profunda continuidade nos n\u00edveis de estrat\u00e9gias militares e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nunca tivemos ilus\u00f5es de que a pol\u00edtica externa de Obama seria diferente. O presidente dos Estados Unidos \u00e9 um empregado do imperialismo, seja ele preto ou branco.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m da estrat\u00e9gia da m\u00eddia e da eleva\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a militar norte-americana na Am\u00e9rica Latina, cercando a Venezuela, h\u00e1 ainda a estrat\u00e9gia de mover paramilitares da Col\u00f4mbia para a Venezuela. O estado colombiano \u00e9 um operador pol\u00edtico contra os processos revolucion\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina; foi ativado para este prop\u00f3sito. E, al\u00e9m do movimento dos paramilitares, h\u00e1 uma provoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aberta contra a Venezuela, que pode se tornar uma provoca\u00e7\u00e3o militar. A lideran\u00e7a colombiana sob a presid\u00eancia de Juan Manuel Santos \u00e9 uma amea\u00e7a porque ele pode provocar um conflito militar com a Venezuela a fim de justificar uma interven\u00e7\u00e3o imperialista. Isto \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 tamb\u00e9m a estrat\u00e9gia da intromiss\u00e3o imperialista nas contradi\u00e7\u00f5es internas do processo, por exemplo entre os militares da Venezuela. Os militares venezuelanos foram criados com a vis\u00e3o imperialista de que seu papel era policiar o pa\u00eds contra amea\u00e7as internas; h\u00e1 oficiais que se op\u00f5em ao processo e que ainda compartilham dessa vis\u00e3o. Naturalmente, eles foram substancialmente enfraquecidos, porque Ch\u00e1vez construiu as for\u00e7as revolucion\u00e1rias com os militares. Mas alguns oficiais dizem que est\u00e3o com o processo mas est\u00e3o esperando o momento oportuno para se reativarem. Esta \u00e9 uma possibilidade muito real. J\u00e1 tivemos a experi\u00eancia da tentativa de golpe de abril de 2002. Pessoal militar que parecia estar ao lado do presidente foram os operadores por tr\u00e1s do golpe de estado. Ent\u00e3o esta pode ser uma das linhas de a\u00e7\u00e3o das quais o imperialismo tenta tirar vantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">E, naturalmente, o imperialismo usa as for\u00e7as internas de oposi\u00e7\u00e3o na Venezuela para fomentar instabilidade de desestabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, para se envolver em especula\u00e7\u00f5es, e assim por diante. Sabemos que h\u00e1 contra-revolucion\u00e1rios ocupando posi\u00e7\u00f5es no estado. Eles podem ser ativados em momentos oportunos, Os problemas que t\u00eam ocorrido na ind\u00fastria aliment\u00edcia s\u00e3o provavelmente n\u00e3o o resultado de mera irresponsabilidade e corrup\u00e7\u00e3o, mas sim sabotagem intencional.<\/p>\n<p align=\"justify\">Todos esses componentes fazem parte de um conjunto de linhas de a\u00e7\u00e3o que objetivam enfraquecer o processo interno e fomentar um golpe de fora do processo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por estas raz\u00f5es \u00e9 importante fortalecer a revolu\u00e7\u00e3o. O papel do PSUV, a despeito de todas as suas fraquezas, ser\u00e1 importante. Que o PSUV possa ativar massas populares nestes momentos ser\u00e1 importante, para destruir quaisquer iniciativas contra-revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p align=\"justify\">Temos argumentado, todavia, que a revolu\u00e7\u00e3o pode se proteger por meio de uma uni\u00e3o coletiva com sua lideran\u00e7a. Ent\u00e3o Ch\u00e1vez pode se alinhar ao PSUV, mas tamb\u00e9m ao PCV.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 importante construirmos um tipo de frente abrangente, com lideran\u00e7a coletiva, de forma que Ch\u00e1vez possa liderar junto com o PSUV, o PCV e outros fatores da revolu\u00e7\u00e3o que podem ser pequenos mas t\u00eam uma natureza revolucion\u00e1ria. Podemos estabelecer uma frente politico-social, para transformar o estado e neutralizar a contraofensiva dos inimigos deste processo.<\/p>\n<p align=\"justify\">At\u00e9 o momento, n\u00e3o nos unimos nesta frente. H\u00e1 unidade quando h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o durante o resto do tempo. Esta \u00e9 uma grande fraqueza do processo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>[*] Susan Spronk leciona na School of International Development and Global Studies na Universidade de Ottawa. \u00c9 pesquisadora associada do Projeto de Servi\u00e7os Municipais e publicou diversos artigos sobre forma\u00e7\u00e3o e classes e pol\u00edtica de \u00e1guas na Bol\u00edvia. Jeffery R. Webber ensina pol\u00edtica na Universidade de Regina. \u00c9 autor de Red October: Left-Indigenous Struggles in Modern Bolivia (Outubro vermelho: As lutas da esquerda ind\u00edgena na Bol\u00edvia moderna &#8211; Brill, 2010), e Rebellion to Reform in Bolivia: Class Struggle, Indigenous Liberation and the Politics of Evo Morales (Rebeli\u00e3o para reformas na Bol\u00edvia: A luta de classes, a libera\u00e7\u00e3o ond\u00edgena e a pol\u00edtica de Evo Morales &#8211; Haymarket, 2011). <\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.socialistproject.ca\/bullet\/394.php\" target=\"_blank\">http:\/\/www.socialistproject.ca\/bullet\/394.php<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de RMP. <\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Esta entrevista encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/http:\/\/resistir.info\/venezuela\/eusse_22jul10_p.html\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/venezuela\/eusse_22jul10_p.html<\/a><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Pedro Eusse entrevistado por Susan Spronk e Jeffery R. Webber [*] \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/716\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-by","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}