{"id":7210,"date":"2014-12-05T11:09:38","date_gmt":"2014-12-05T11:09:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7210"},"modified":"2017-08-25T00:59:59","modified_gmt":"2017-08-25T03:59:59","slug":"reencontro-com-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7210","title":{"rendered":"Reencontro com o Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>A alegria do reencontro com um povo que amo profundamente foi neutralizada pela consci\u00eancia de que a sociedade brasileira adquiriu caracter\u00edsticas pantanosas. A viol\u00eancia alastra como flagelo nas grandes cidades. Persistem desigualdades ofensivas da condi\u00e7\u00e3o humana. Uma classe dominante repulsiva enfeixa nas m\u00e3os o poder pol\u00edtico, compartilhando o econ\u00f3mico com o imperialismo.<\/p>\n<p>Mas, imaginando um futuro distante, o povo do Brasil aparece-me como uma antecipa\u00e7\u00e3o da humanidade mesti\u00e7a que nascer\u00e1 lentamente da actual. Os chocantes tra\u00e7os negativos do presente acabar\u00e3o quando as causas sociais que os geram forem eliminadas numa distante sociedade socialista. A cordialidade, a ternura, a alegria brasileiras &#8211; essas v\u00e3o permanecer.<\/p>\n<p>Voltei ao Brasil em Novembro. Tinha decidido que seria a minha \u00faltima visita.<\/p>\n<p>Essa certeza contribuiu para que o reencontro fosse muito doloroso.<\/p>\n<p>Estive em S\u00e3o Paulo e no Rio em 2012. Da\u00ed a surpresa.<\/p>\n<p>No breve espa\u00e7o de dois anos, a atmosfera, o comportamento de parcela importante de estamentos sociais da burguesia e os media que formam a opini\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o mudaram muito. Nesta despedida senti-me num pa\u00eds quase desconhecido.<\/p>\n<p>A alegria do reencontro com um povo que amo profundamente foi neutralizada pela consci\u00eancia de que a sociedade brasileira adquiriu caracter\u00edsticas pantanosas.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria absoluta diminuiu durante os governos de Lula e Dilma. Mas, paradoxalmente, o abismo que separa a minoria privilegiada das grandes maiorias aumentou. Os ricos enriqueceram prodigiosamente. Segundo o di\u00e1rio O Estado de S.Paulo o Brasil tem hoje 61 multimilion\u00e1rios cujas fortunas somam mais de 161 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o social \u00e9 transparente. Diferente da que conheci nos anos da ditadura militar. \u00c9 uma tens\u00e3o que n\u00e3o anuncia no imediato uma ascens\u00e3o explosiva da luta de classes.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es objetivas s\u00e3o favor\u00e1veis a grandes lutas sociais. As manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra o governo no Rio, em S\u00e3o Paulo e noutros estados, algumas convocadas pela direita, tornaram-se quase di\u00e1rias. Oposicionistas pediram inclusive o impedimento de Dilma pelo Congresso e a demiss\u00e3o imediata do Governo. Em S\u00e3o Paulo, exigiram nas redes sociais \u00aba demiss\u00e3o de toda a classe politica\u00bb e \u00abo fim do financiamento dos partidos pol\u00edticos\u00bb. Por si s\u00f3 transparece dessas reivindica\u00e7\u00f5es um espontane\u00edsmo inofensivo.<\/p>\n<p>Na atual conjuntura, a justa indigna\u00e7\u00e3o dos trabalhadores expressa apenas a recusa de um sistema apodrecido. A aus\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucionaria com forte implanta\u00e7\u00e3o entre as massas favorece a classe dominante e assinala os limites da contesta\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o social crescente n\u00e3o desembocar\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria pela inexist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n<p><strong>FRAGILIDADE DE DILMA<\/strong><\/p>\n<p>Dilma foi eleita na segunda volta com 52 % dos votos emitidos apos uma campanha dur\u00edssima, caracterizada por um baixo n\u00edvel ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O atual Governo tem 39 ministros, n\u00famero inimagin\u00e1vel em Executivos europeus, e tudo indica que o pr\u00f3ximo ter\u00e1 uma dimens\u00e3o semelhante. \u00c9 intensa a especula\u00e7\u00e3o sobre os nomes, mas Dilma j\u00e1 confirmou que o ministro da Fazenda ser\u00e1 Joaquim Levy, um banqueiro (foi vice-presidente em Washington do Banco Interamericano de Desenvolvimento) que integrou o governo de Fernando Henrique Cardoso e defende medidas neoliberais exigidas pelo grande capital. As suas declara\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de uma politica de austeridade s\u00e3o esclarecedoras das suas op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Katia Abreu, a futura ministra da Agricultura, \u00e9 uma adversaria da Reforma Agraria e a indica\u00e7\u00e3o do seu nome foi festejada pela \u00abbancada rural\u00bb que representa na Camara dos deputados os interesses do latif\u00fandio e do agro-neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Durante a campanha, intelectuais progressistas definiram Dilma como \u00abo mal menor\u00bb, porque a elei\u00e7\u00e3o de Aecio, apoiado por Washington e pela grande burguesia brasileira, implicaria uma submiss\u00e3o total ao imperialismo norte-americano e ao grande capital transnacional. O advers\u00e1rio de Dilma, um pol\u00edtico com perfil de playboy, ao abordar o tema da pol\u00edtica exterior, foi muito claro: defendeu uma maior aproxima\u00e7\u00e3o com os EUA e uma revis\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com Cuba e os governos progressistas da Venezuela, da Bol\u00edvia e do Equador.<\/p>\n<p><strong>UM MAR DE CORRUP\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um mal end\u00e9mico na Administra\u00e7\u00e3o brasileira. Mas nos governos de Lula e Dilma aumentou desmesuradamente. O esc\u00e2ndalo do Mensal\u00e3o, que levou \u00e0 pris\u00e3o, entre muitos outros, Jos\u00e9 Dirceu, o ex. chefe da Casa Civil de Lula, cargo que no Brasil corresponde a primeiro-ministro, foi agora largamente ultrapassado pelo lama\u00e7al que envolve a Petrobras, a maior empresa do pa\u00eds. O ex. diretor de Servi\u00e7os, Renato Duque, dezenas de executivos do gigante petrol\u00edfero (atualmente um dos grandes produtores do mundo) e dirigentes de algumas das maiores construtoras do Brasil foram j\u00e1 presos por fraudes e crimes de corrup\u00e7\u00e3o cometidos no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es. Muitos senadores e deputados est\u00e3o tamb\u00e9m comprometidos nessas s\u00f3rdidas negociatas.<\/p>\n<p>Por ora n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel avaliar o montante da roubalheira. Mas admite-se que o total das luvas pagas a altos funcion\u00e1rios da Petrobras por contratos ilegais e fraudes que favoreceram empreiteiras exceda o equivalente a muitos milhares de milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>O povo brasileiro reagiu com satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s pris\u00f5es j\u00e1 realizadas pela Policia Federal no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, mais conhecida como Ju\u00edzo Final.<\/p>\n<p>Dilma, informada dessas pris\u00f5es em Brisbane, quando na Austr\u00e1lia participava na Reuni\u00e3o do G- 20, manifestou regozijo pela a\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. \u00abElas demonstram \u2013 declarou &#8211; que o Brasil est\u00e1 acabando com a impunidade (\u2026) Acho que isto pode de fato mudar o Pa\u00eds para sempre\u00bb.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o n\u00e3o impressionou a oposi\u00e7\u00e3o. Nos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social mais influentes chovem cr\u00edticas \u00e0 presidente a quem negam credibilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 ali\u00e1s convic\u00e7\u00e3o generalizada que os principais respons\u00e1veis pelos crimes que fizeram cair brutalmente as ac\u00e7\u00f5es da Petrobras n\u00e3o ser\u00e3o punidos; as condena\u00e7\u00f5es atingir\u00e3o sobretudo funcion\u00e1rios subalternos.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Marta Suplicy de se demitir de ministra da Cultura, anunciada no auge do esc\u00e2ndalo, foi interpretada como pr\u00f3logo do aprofundamento da crise do PT com o qual ela, uma oportunista ambiciosa, estaria prestes a romper.<\/p>\n<p><strong>DEMOCRACIA DE FACHADA<\/strong><\/p>\n<p>Tal como em Portugal, os pol\u00edticos do sistema abusam no Brasil da palavra democracia para caracterizar o regime.<\/p>\n<p>Mentem. Na realidade o pa\u00eds est\u00e1 submetido a uma ditadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O funcionamento do sistema tem facetas caricaturais.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es \u2013 presidenciais, legislativas e as realizadas para os governos estaduais &#8211; foram disputadas por 28 partidos que elegeram 553 deputados federais<\/p>\n<p>As coliga\u00e7\u00f5es, regulamentadas por uma legisla\u00e7\u00e3o absurda, permitiram em alguns casos a elei\u00e7\u00e3o de candidatos de partidos opostos ao do cidad\u00e3o votante.<\/p>\n<p>Poucos confiam na promessa de Dilma de \u00abreorganizar a sociedade brasileira, conferindo o papel de dire\u00e7\u00e3o \u00e0queles eles vivem do seu trabalho e da cultura\u00bb.<\/p>\n<p>No primeiro mandato ela esqueceu sistematicamente os compromissos assumidos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica o governo quase neoliberal da PT renunciou h\u00e1 muito ao programa que levou Lula \u00e0 Presid\u00eancia. Na pr\u00e1tica acredita que administra melhor o capitalismo do que a direita tradicional. O populismo de Dilma, como o de Lula, engana cada vez menos os trabalhadores, mas parcela ponder\u00e1vel do povo brasileiro, modelada por uma media alienante, ainda n\u00e3o assimilou essa evid\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>CRISE MULTIPLA<\/strong><\/p>\n<p>O pa\u00eds caiu em recess\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Em Outubro a balan\u00e7a comercial apresentou um d\u00e9fice de 1200 milh\u00f5es de d\u00f3lares. A quebra do PIB reflete a diminui\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas, base das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A taxa oficial de desemprego carece de credibilidade. Os despedimentos no setor privado n\u00e3o esbarram com obst\u00e1culos legais. Um exemplo: o HSBC, o gigante brit\u00e2nico \u2013 o maior banco do mundo &#8211; anunciou para breve o despedimento de aproximadamente mil trabalhadores das suas ag\u00eancias no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na ind\u00fastria autom\u00f3vel, uma das mais importantes do mundo, a produ\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos caiu 16% em rela\u00e7\u00e3o ao ano passado.<\/p>\n<p>A incapacidade das prefeituras (camaras municipais em Portugal) para responder satisfatoriamente \u00e0s exig\u00eancias de moradia digna para as pessoas em busca de emprego que afluem \u00e0s grandes megal\u00f3polis brasileiras contribui para a vaga de ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No centro de S\u00e3o Paulo a atmosfera \u00e9 hoje muito diferente da que conheci ali nos meus anos de exilio.<\/p>\n<p>Pr\u00e9dios degradados constru\u00eddos entre as duas guerras mundiais foram ocupados por fam\u00edlias ligadas ao Movimento dos Sem Teto.<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios e influentes pol\u00edticos exigem que os ocupantes sejam desalojados, mas o prefeito n\u00e3o lhes tem atendido os apelos, temendo aumento da tens\u00e3o social.<\/p>\n<p>Mais grave \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de drogados em alguns bairros residenciais. No Jaguar\u00e9, a uma centena de metros de um grande supermercado, dezenas de toxico- dependentes permanecem noite e dia nos passeios, remexendo em montes de lixo. Vi alguns injetando-se.<\/p>\n<p>O lugar \u00e9 conhecido como a Cracolandia, nome derivado do crack que consomem.<\/p>\n<p>As favelas tamb\u00e9m n\u00e3o desapareceram de S\u00e3o Paulo (tr\u00eas milh\u00f5es vivem em favelas e corti\u00e7os). Mas \u00e9 no Rio de Janeiro que a sua prolifera\u00e7\u00e3o impressiona mais o forasteiro. Semeadas pela cidade, implantadas inclusive em morros que envolvem bairros de luxo da orla mar\u00edtima, elas s\u00e3o o rosto de uma trag\u00e9dia social e configuram um desafio para o qual os governantes n\u00e3o encontraram ate hoje uma solu\u00e7\u00e3o eficaz.<\/p>\n<p>Mais de 80% dos favelados s\u00e3o trabalhadores, cidad\u00e3os tranquilos, abertos ao conv\u00edvio, refletindo a cordialidade brasileira; mas \u00e9 a minoria dos marginais, dos criminosos e drogados que projeta a imagem da favela.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o militar de algumas nos meses que precederam a Copa do Mundo de Futebol n\u00e3o resolveu, como se temia, o problema social cuja imagem degradante \u00e9 identific\u00e1vel no polo de mis\u00e9ria que s\u00e3o as favelas cariocas, onde o crime organizado se encontra solidamente instalado, com a cumplicidade de pol\u00edcias corruptos.<\/p>\n<p>Que fazer? Aquela terr\u00edvel realidade d\u00f3i. Mas n\u00e3o me atrevo sequer a abordar o tema do invent\u00e1rio dos debates gerados pela chaga social das favelas.<\/p>\n<p>Nas grandes cidades brasileiras &#8211; como nas capitais da Col\u00f4mbia, do Peru, do M\u00e9xico, de San Salvador, entre outras &#8211; o problema da viol\u00eancia angustia a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem diminu\u00eddo.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas s\u00e3o alarmantes. Em 2013 foram assassinadas no pa\u00eds 53 000 pessoas. A cada 4 minutos uma mulher \u00e9 estuprada.<\/p>\n<p>Claude Levy Strauss escreveu nos Tristes Tr\u00f3picos que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds da decad\u00eancia do inacabado. Utilizando essa express\u00e3o transmitiu a impress\u00e3o causada pelo facto de grandes edif\u00edcios residenciais e obras monumentais apresentarem falhas de constru\u00e7\u00e3o, envelhecendo antes de conclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Nestas semanas, ao revisitar em correria o Brasil, a contradi\u00e7\u00e3o ostensiva entre a modernidade e o arca\u00edsmo fez-me recordar o coment\u00e1rio de Levy Strauss<\/p>\n<p>Em m\u00faltiplos ramos do sector avan\u00e7ado, o Brasil situa-se na vanguarda mundial do progresso t\u00e9cnico e cient\u00edfico. Mas essa transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds onde vivi quase duas d\u00e9cadas antes da Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa coexiste com o outro Brasil, mesmo em \u00e1reas urbanas, nas favelas e corti\u00e7os, nomeadamente &#8211; onde tive a sensa\u00e7\u00e3o do tempo parado.<\/p>\n<p>Na imensid\u00e3o do gigante sul-americano, \u00e0 medida que nos afastamos dos grandes centros do litoral somos projetados no espa\u00e7o para cen\u00e1rios de estagna\u00e7\u00e3o, para um passado remoto.<\/p>\n<p>Em sert\u00f5es do Nordeste e na espessura das matas amaz\u00f3nicas, a vida mudou pouco em enormes regi\u00f5es; ali os homens e as coisas empurram a mem\u00f3ria e a imagina\u00e7\u00e3o para arca\u00edsmos africanos. Um caboclo do alto rio Negro ou do Madeira est\u00e1 culturalmente mais pr\u00f3ximo do morador de um Kimbo do Kuando Kubango que de um oper\u00e1rio paulista ou carioca.<\/p>\n<p><strong>CONTRADI\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p>Conhe\u00e7o poucos pa\u00edses onde as contradi\u00e7\u00f5es marquem tao profundamente o fluir da vida.<\/p>\n<p>Uma das que mais surpreende os estrangeiros \u00e9 a que distancia nas chamadas elites uma intelectualidade brilhante e criativa de uma colmeia de aventureiros ambiciosos e med\u00edocres (muitos corruptos) que exerce uma influ\u00eancia decisiva no mundo apodrecido da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O Brasil onde surgiram intelectuais como Niemeyer e Florestan Fernandes gerou figuras p\u00fablicas s\u00f3rdidas como J\u00e2nio Quadros, Adhemar de Barros e Maluf, produz em serie deputados e senadores que tipificam admiravelmente aquilo a que Marx chamou \u00abo cretinismo parlamentar\u00bb.<\/p>\n<p>O contraste entre esses dois Brasis, coexistentes e antag\u00f3nicos, \u00e9 identific\u00e1vel \u2013 mais um exemplo &#8211; numa simples visita \u00e0s grandes livrarias de S\u00e3o Paulo e do Rio.<\/p>\n<p>Nas estantes encontra-se o que de melhor o homem criou desde a antiguidade nos dom\u00ednios do pensamento, da arte, da ci\u00eancia. As principais editoras lan\u00e7am tamb\u00e9m no mercado, traduzidas, obras inovadoras, recentes, sejam ensaios ou novelas publicadas na Europa, nos EUA, em diferentes pa\u00edses definidos como emergentes.<\/p>\n<p>Considero indispens\u00e1vel uma refer\u00eancia especial \u00e0 Editorial paulista Boitempo, de Ivana Jinkings, que lan\u00e7ou no Brasil, al\u00e9m de obras dos principais cl\u00e1ssicos do Marxismo, autores contempor\u00e2neos tao importantes como o h\u00fangaro Istvan Meszaros e o ingl\u00eas David Harvey.<\/p>\n<p>Mas, num pa\u00eds onde a contra cultura exportada pelos EUA pesa decisivamente na mentalidade e nos gostos da pequena burguesia, os livros mais vendidos s\u00e3o outros: o lixo impresso sobre temas do g\u00e9nero como enriquecer, como mudar de profiss\u00e3o ou personalidade, como conquistar amigos, sobre ocultismo, quest\u00f5es astrais, religi\u00f5es ex\u00f3ticas e outras imbecilidades.<\/p>\n<p><strong>ESPERAN\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p>Quatro dias em Minas Gerais, revisitando Ouro Preto, Mariana e Congonhas do Campo, proporcionaram-me uma estranha viagem pela Historia e pela minha vida, recordando algu\u00e9m que viveu no meu corpo.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 mais de 40 anos. Andei ent\u00e3o pelas serranias e vales onde o bandeirante Fern\u00e3o Dias Pais descobriu o ouro que, passando por Portugal, contribuiu para financiar a revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa.<\/p>\n<p>Acompanhei nessa visita dois historiadores amigos: o franc\u00eas Albert Soboul e o portugu\u00eas Barradas de Carvalho.<\/p>\n<p>Muitos dos casar\u00f5es setecentistas de Ouro Preto amea\u00e7avam na \u00e9poca desmoronar-se. Foram recuperados e a cidade \u00e9 hoje um polo tur\u00edstico onde aflui gente de todo o mundo.<\/p>\n<p>O Aleijadinho, o arquiteto e escultor que conferiu dimens\u00e3o internacional ao barroco mineiro, n\u00e3o teve em vida reconhecido o seu g\u00e9nio. Morreu pobre e quase ignorado pelos seus contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Meditando sobre o tempo morto nas suas igrejas, ou acariciando a pedra escura dos Profetas de Congonhas, percorrendo as salas do Museu da Inconfid\u00eancia em Ouro Preto atravessei neste inverno da vida a ponte invis\u00edvel que liga o Brasil que caminhava para a Independ\u00eancia para o Brasil gigante de hoje, um pais e um povo ent\u00e3o inimagin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para onde vai esta terra irrepet\u00edvel, que ainda n\u00e3o se construiu como na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o ouso responder \u00e0 pergunta.<\/p>\n<p>No Brasil persistem desigualdades ofensivas da condi\u00e7\u00e3o humana. Uma classe dominante repulsiva enfeixa nas m\u00e3os o poder pol\u00edtico, compartilhando o econ\u00f3mico com o imperialismo.<\/p>\n<p>Sendo sombrio o presente e nevoento o futuro imediato, admito que o Brasil est\u00e1 vocacionado para desempenhar um papel significante no amanh\u00e3 da humanidade.<\/p>\n<p>Amo profundamente \u2013 repito &#8211; a gente brasileira. A viol\u00eancia, que hoje alastra como flagelo nas grandes cidades, vai acabar quando as causas sociais que a geram forem eliminadas numa distante sociedade socialista. A cordialidade, a ternura, a alegria brasileiras &#8211; essas v\u00e3o permanecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o identifico no ca\u00f3tico sincretismo brasileiro um pr\u00f3logo de futuras desgra\u00e7as. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Imaginando um futuro distante, o povo do Brasil aparece-me como uma antecipa\u00e7\u00e3o da humanidade mesti\u00e7a que nascer\u00e1 lentamente da atual.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 29 de Novembro de 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7210\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-7210","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Si","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7210","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7210"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7210\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}