{"id":7227,"date":"2014-12-08T22:03:37","date_gmt":"2014-12-08T22:03:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7227"},"modified":"2014-12-08T22:29:44","modified_gmt":"2014-12-08T22:29:44","slug":"paraguai-ha-150-anos-a-grande-guerra-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7227","title":{"rendered":"Paraguai: H\u00e1 150 Anos &#8211; A Grande Guerra do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>No Paraguai travou-se a maior guerra lutada pelo Brasil, de mais perenes desdobramentos para sua pol\u00edtica externa. Cinco anos de luta; recursos materiais ingentes; dezenas de milhares de mortos. Uma guerra livrada pelo Estado imperial em primeira pessoa, com a colabora\u00e7\u00e3o marginal do Uruguai, j\u00e1 sob o tac\u00e3o de Venancio Flores, e aporte decrescente da Argentina <em>unit\u00e1ria<\/em>, ocupada em impor, a ferro e fogo, o dom\u00ednio portenho semi-colonial sobre o pa\u00eds. Em <em>Cinco anos de guerra civi<\/em>l (1865-1871), Le\u00f3n Pomer prop\u00f5e mais argentinos mortos na luta interna do que no Paraguai! [Buenos Aires: Amorrortu, 1986.]<\/p>\n<p>M\u00e1rio Maestri<\/p>\n<p>Entretanto, a <em>guerra do Paraguai<\/em> \u00e9 semi-desconhecida no Brasil e pouco abordada pela nossa historiografia tradicional. Por d\u00e9cadas, foi esp\u00e9cie de <em>reserva de ca\u00e7a<\/em> da historiografia fardada, sobretudo do Ex\u00e9rcito, que produziu o trabalho cl\u00e1ssico do general Tasso Fragoso &#8211;<em> Hist\u00f3ria da Guerra<\/em> e<em>ntre tr\u00edplice alian\u00e7a e o Paraguai<\/em>[Rio de Janeiro: Imprensa do EME, 1934]. N\u00e3o h\u00e1 obra semelhante sobre a participa\u00e7\u00e3o da marinha imperial, de a\u00e7\u00e3o <em>reticente<\/em> no conflito, ainda sem explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel. A historiografia tradicional manteve explica\u00e7\u00e3o m\u00edtico-patri\u00f3tica sobre a pugna.<\/p>\n<p>Em 1979, no in\u00edcio da &#8220;abertura&#8221;, J.J. Chiavenato apresentou livro-reportagem sobre a guerra, trazendo ao Brasil, em forma pioneira e aproximativa, vis\u00f5es revisionistas publicadas havia anos no Prata. Em<em>Genoc\u00eddio Americano<\/em>: a guerra do Paraguai [S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1979], de enorme sucesso, o jornalista abra\u00e7ou teses sobre o desenvolvimento paraguaio, sobre Solano L\u00f3pez, sobre guerra lutada por delega\u00e7\u00e3o da Inglaterra, etc. j\u00e1 superadas pela historiografia platina cr\u00edtica.<\/p>\n<p>O livro ensejou moderniza\u00e7\u00e3o restauradora da historiogr\u00e1fica nacional-patri\u00f3tica. Para ela, o <em>ditador <\/em>demonizado, aproximado faz pouco a Hitler, com sede de domina\u00e7\u00e3o, sem aviso, apoderara-se do navio imperial Marqu\u00eas de Olinda, em 12 de novembro de 1864, e invadira o sul do Mato Grosso, Corrientes e o Rio Grande. Armado at\u00e9 os dentes, atacara na\u00e7\u00f5es semi-desarmadas, como o Brasil! A Tr\u00edplice Alian\u00e7a formara-se para combater o <em>ditador<\/em> e jamais o povo paraguaio. Proposta que contraditava com a decis\u00e3o da Alian\u00e7a de abocanhar enormes territ\u00f3rios disputados com o Paraguai e exigir indeniza\u00e7\u00e3o fara\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>Raz\u00f5es do Conflito<\/strong><\/p>\n<p>O conflito foi deflagrado pela invas\u00e3o do Uruguai pelo Imp\u00e9rio do Brasil, sem declara\u00e7\u00e3o de guerra, em outubro de 1864, para manter direitos semi-coloniais impostos quando de invas\u00e3o anterior, em 1851! Agress\u00e3o exigida pelos estancieiros sulinos, general Netto \u00e0 cabe\u00e7a, que mantinham a escravid\u00e3o no norte do Uruguai que dominavam, apesar de abolida naquele pa\u00eds em 1842-46!<\/p>\n<p>O dom\u00ednio de Montevideo, pelo Brasil, e de Buenos Aires, pelos unit\u00e1rios argentinos, deixaria o Paraguai sem sa\u00edda ao mar, \u00e0 merc\u00ea das exig\u00eancias leoninas do Imp\u00e9rio e da Argentina unit\u00e1ria. Desde 1810, Buenos Aires sonhava em reduzir o Paraguai \u00e0 prov\u00edncia argentina. Apesar de propor guerra apenas ao tirano horr\u00edvel, o Imp\u00e9rio do Brasil saqueou Asunci\u00f3n, em 5 de janeiro de 1869, e manteve a ocupa\u00e7\u00e3o militar do pa\u00eds, de 1869 a 1876.. Por d\u00e9cadas, a inger\u00eancia brasileira nos assuntos paraguaios apoiou-se na amea\u00e7a de repres\u00e1lia ao n\u00e3o pagamento da d\u00edvida de guerra.<\/p>\n<p>A historiografia tradicional brasileira limitou-se sobretudo \u00e0 descri\u00e7\u00e3o dos combates, encobrindo sua ignor\u00e2ncia da sociedade paraguaia com mitos ainda vigentes &#8211; fanatismo paraguaio; pa\u00eds semi-b\u00e1rbaro, sem cidadania, forte popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, etc. Paradoxo compartilhado por estudos mais recentes que, no m\u00e1ximo, lembram retoricamente a necessidade de conhecer aquela realidade. Segue-se discutindo a guerra a pa\u00eds fantasmag\u00f3rico. Da\u00ed o uso abusivo de &#8220;guarani&#8221; como sin\u00f4nimo de &#8220;paraguaio&#8221;: &#8220;na\u00e7\u00e3o guarani&#8221;, &#8220;ex\u00e9rcito guarani&#8221;, etc.<\/p>\n<p>Entretanto, a forma\u00e7\u00e3o social paraguaia parece ser a chave para a compreens\u00e3o de fen\u00f4menos cruciais como a dificuldade aliancista de vencer a pequena na\u00e7\u00e3o, de popula\u00e7\u00e3o e ex\u00e9rcitos limitados. Em 1864, o Paraguai era o \u00fanico Estado-na\u00e7\u00e3o sul-americano, assentado sobre vasta popula\u00e7\u00e3o camponesa, de ra\u00edzes hispano-guaranis. Nacionalidade consolidada durante a longa ordem democr\u00e1tico-popular de Jos\u00e9 Gaspar de Francia [1813-1840].<\/p>\n<p><strong>Uma Guerra Platina<\/strong><\/p>\n<p>Ultimamente, tem-se produzido valiosos estudos tem\u00e1ticos sobre a guerra, no geral restritos ao Brasil e despreocupados com a apreens\u00e3o essencial do conflito &#8211; o arrolamento; a log\u00edstica; os jornais; as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, etc. Entre eles, destaca-se a retomada da tese do general Werneck Sodr\u00e9, em <em>Hist\u00f3ria militar do Brasil <\/em>[Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1965], Prop\u00f5e a forma\u00e7\u00e3o no Paraguai de ex\u00e9rcito imperial, democr\u00e1tico, popular e inter-classista, protagonista na Aboli\u00e7\u00e3o e Rep\u00fablica. No entanto, est\u00e1 se comprovando o tratamento olig\u00e1rquico e desp\u00f3tico tradicional dos <em>pra\u00e7as de pr\u00e9<\/em> do ex\u00e9rcito e da armada, durante e ap\u00f3s o conflito.<\/p>\n<p>Imp\u00f5em-se estudos que integrem a resist\u00eancia nacional, no Uruguai, e federalista, na Argentina, como partes essenciais de conflito visto como mera luta contra o Paraguai. Uma nova vis\u00e3o que elucide o papel do campesinato paraguaio na guerra, reticente quando das expedi\u00e7\u00f5es al\u00e9m-fronteiras, incondicional na defesa do territ\u00f3rio nacional e das conquistas consolidadas na era francista. Envolvimento que reduzir\u00e1 o protagonismo dos fatos pelo <em>mariscal<\/em> L\u00f3pez.<\/p>\n<p>Sem estudo das raz\u00f5es profundas desses sucessos, ficaremos eternamente impossibilitados at\u00e9 mesmo de compreender a dificuldade dos aliancistas de vencer na\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o inferior \u00e0s tropas da Guarda Nacional do Imp\u00e9rio, em 1864!<\/p>\n<p>* Mario Maestri \u00e9 professor do PPGH-UPF. \u00c9 autor de: <em>A guerra no Papel<\/em>: historia e historiografia da guerra contra o Paraguai [2013] e <em>Paraguai<\/em>: a Rep\u00fablica camponesa [1810-1865] [Porto Alegre: FCM, 2013 e 2014]. [<a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br.\/\" target=\"_blank\">https:\/\/clubedeautores.com.br.<\/a>] &#8211; publicado originalmente no Caderno de S\u00e1bado do Correio do Povo, POA, RS, 6 de 12 de 2015.<\/p>\n<p>http:\/\/www.diarioliberdade.org\/opiniom\/opiniom-propia\/52968-paraguai-h%C3%A1-150-anos-a-grande-guerra-do-brasil.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7227\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[35],"tags":[],"class_list":["post-7227","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c40-paraguai"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Sz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7227\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}