{"id":7228,"date":"2014-12-08T22:08:14","date_gmt":"2014-12-08T22:08:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7228"},"modified":"2014-12-08T22:29:10","modified_gmt":"2014-12-08T22:29:10","slug":"ditador-medici-guardou-em-casa-provas-de-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7228","title":{"rendered":"Ditador M\u00e9dici guardou em casa provas de tortura"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>M\u00e9dici guardou at\u00e9 a morte, em meio a 32 caixas de manuscritos, um caderno de capa de couro preta com o nome do ex-presidente timbrado em letras douradas na frente. Dentro, a revela\u00e7\u00e3o: tr\u00eas prontu\u00e1rios m\u00e9dicos de presas pol\u00edticas atendidas no Hospital Central do Ex\u00e9rcito (HCE). S\u00e3o elas: Dalva Bonet, Francisca Abigail Paranhos, al\u00e9m dos documentos de Vera S\u00edlvia Magalh\u00e3es \u2014 conhecida por sua participa\u00e7\u00e3o no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.<\/p>\n<p>O arquivo pessoal de M\u00e9dici, doado pela fam\u00edlia h\u00e1 10 anos, integra o acervo do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB) e foi disponibilizado para pesquisa da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, que localizou os prontu\u00e1rios. \u201cQuanto mais temos acesso aos documentos, confirmamos que a cadeia de comando das torturas e desaparecimentos come\u00e7ava no Pal\u00e1cio do Planalto\u201d, afirma Wadih Damous, presidente da CEV-Rio. C\u00f3pias dos documentos ser\u00e3o entregues \u00e0s fam\u00edlias em audi\u00eancia p\u00fablica na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira.<\/p>\n<p>O prontu\u00e1rio de Vera S\u00edlvia detalha cada medicamento utilizado por ela durante os dois per\u00edodos de interna\u00e7\u00e3o registrados. Presa em 6 de mar\u00e7o de 1970, ela chegou pela primeira vez ao HCE transferida do Hospital Souza Aguiar no dia seguinte devido a um \u201ctraumatismo craniano encef\u00e1lico por proj\u00e9til de arma de fogo\u201d. Tratada na unidade, ela foi liberada dias depois para interrogat\u00f3rio no DOI-Codi.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ejesa.statig.com.br\/bancodeimagens\/12\/ib\/pd\/12ibpd2jzaubz9gcshyq0mnn2.jpg?w=747\" border=\"0\" \/>Em 18 de maio foi internada novamente, e a descri\u00e7\u00e3o do quadro d\u00e1 a medida do sofrimento de Vera. \u201cPaciente acentuadamente desnutrida, subfebril. O exame neurol\u00f3gico acusa sens\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a muscular nos membros inferiores&#8230;h\u00e1 acentuada hipertrofia muscular nos membros inferiores\u201d, registra o prontu\u00e1rio. O diagn\u00f3stico, por\u00e9m, foi de que ela estava com uma paralisia nas pernas devido a raz\u00f5es psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico legista Levi Inima, que auxilia a pesquisa da CEV-Rio, disse que a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cfalsa\u201d. \u201cAs altera\u00e7\u00f5es em termos de hipotrofia muscular demonstram a tortura em pau de arara. Ela estava bastante desnutrida, o que mostra os maus-tratos\u201d, explicou. Vera deixou o Brasil em junho de 1970, trocada pelo embaixador alem\u00e3o. Ela retornou ap\u00f3s a anistia e morreu devido a um c\u00e2ncer em 2007.<\/p>\n<p>Choque el\u00e9trico provocou crises convulsivas<\/p>\n<p>Ao saber que seu prontu\u00e1rio m\u00e9dico fazia parte do arquivo pessoal do presidente M\u00e9dici, a tradutora Maria Dalva Bonet, 68 anos, olha para alto e respira fundo. \u201cVou precisar de um tempo para poder falar sobre isso. \u00c9 inacredit\u00e1vel\u201d, desabafa Dalva.<\/p>\n<p>Militante do Partido Comunista Revolucion\u00e1rio Brasileiro (PCBR), ela diz que foi presa no fim de janeiro de 1970 junto com a amiga insepar\u00e1vel, Abigail. \u201cForam 72 horas de pancadaria. Eu estava com a pele toda descascada do choque e me jogaram no ch\u00e3o de cimento. Foi quando eu comecei a ter hemorragia. Os presos pressionaram e eles me levaram para o HCE\u201d, conta Dalva.<\/p>\n<p>Ela diz que ficou cinco meses sem andar devido \u00e0 tortura no pau de arara. Al\u00e9m disso, os choques desenvolveram um quadro de epilepsia. Por isso, como o pr\u00f3prio prontu\u00e1rio encontrado registra, foram realizados exames neurol\u00f3gicos. \u201cEles queriam dizer que as convuls\u00f5es que eu passei a ter eram preexistentes. Mas eu nunca tive nada\u201d, diz ela. Dalva disse que sofreu com crises convulsivas durante 10 anos.<\/p>\n<p>Segundo o diagn\u00f3stico feito no HCE, a paralisia de suas pernas tamb\u00e9m seria emocional \u2014 como a de Vera.\u201cN\u00e3o apresenta vontade de locomover-se; procura queixar-se de tudo e de todos; \u00e9 impertinente e astuciosa. Costuma ser acometida por pesadelos\u201d, descreve o documento.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico legista Levi Inima tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o para a quantidade de tranquilizantes, ansiol\u00edticos e sedativos como Mandrix e Kiatrium ministrados. \u201c \u00c9 uma associa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios medicamentos. Isso tudo faz parte de um cen\u00e1rio m\u00e9dico exatamente para suprimir a quest\u00e3o da tortura\u201d, explica Inima.<\/p>\n<p>&#8216;N\u00e3o deseja recuperar-se&#8217;<\/p>\n<p>A advogada Francisca Abigail Paranhos tamb\u00e9m teve a sua passagem pelo Hospital Central do Ex\u00e9rcito guardada por M\u00e9dici. No relat\u00f3rio que segue com o prontu\u00e1rio ela \u00e9 descrita como \u201cindiciada em inqu\u00e9rito policial-militar pelos crimes praticados como membro do PCBR, alegou paralisa\u00e7\u00e3o dos membros inferiores\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o diagn\u00f3stico diz que Abigail, como era conhecida, n\u00e3o ajudava na melhora de seu quadro de sa\u00fade. \u201cOs exames revelaram que Abigail \u00e9 portadora de depress\u00e3o neur\u00f3tica, que n\u00e3o deseja recuperar-se n\u00e3o colaborando para o sucesso do tratamento que lhe \u00e9 ministrado\u201d, finaliza o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Dalva diz que elas deixaram a pris\u00e3o cerca de um ano e meio depois. Abigail morreu de c\u00e2ncer em 1994.<\/p>\n<p>Dalva &#8211; O Dia &#8211; 7 dez 14.jpg<\/p>\n<p>http:\/\/odia.ig.com.br\/noticia\/brasil\/2014-12-07\/ditador-medici-guardou-em-casa-provas-de-tortura.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nComiss\u00e3o da Verdade do Rio encontra prontu\u00e1rios m\u00e9dicos de presos no arquivo do ex-presidente\nPor Juliana Dal Piva\nRio &#8211; Durante d\u00e9cadas a c\u00fapula do governo militar negou a pr\u00e1tica de tortura contra presos pol\u00edticos na ditadura. N\u00e3o importavam as den\u00fancias das fam\u00edlias, as marcas ou sequelas das v\u00edtimas. Quase 30 anos ap\u00f3s o fim do regime, surgem agora as primeiras provas documentais de que no auge da repress\u00e3o pol\u00edtica \u2014 1970 \u2014 o pr\u00f3prio general e ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici sabia em detalhes sobre a viol\u00eancia dos quart\u00e9is e suas consequ\u00eancias f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7228\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-7228","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1SA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7228"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7228\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}