{"id":7242,"date":"2014-12-11T19:20:12","date_gmt":"2014-12-11T19:20:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7242"},"modified":"2014-12-11T19:20:12","modified_gmt":"2014-12-11T19:20:12","slug":"operacao-condor-diplomacia-cumplicidade-entre-brasil-e-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7242","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o Condor &#8211; Diplomacia: Cumplicidade entre Brasil e Argentina"},"content":{"rendered":"\n<p>Embaixadores brasileiros e argentinos, articulados com os servi\u00e7os de intelig\u00eancia, operaram juntos durante anos em opera\u00e7\u00f5es das ditaduras dos dois pa\u00edses<\/p>\n<p>Dar\u00edo Pignotti, de Buenos Aires\u201cDepois de analisar milhares de documentos no Brasil, estamos em condi\u00e7\u00f5es de dizer que a articula\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica foi importante para o funcionamento da articula\u00e7\u00e3o repressora\u201d conhecida como Opera\u00e7\u00e3o Condor. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma fonte do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores argentino durante uma entrevista \u00e0 Carta Maior em Buenos Aires, onde foi lan\u00e7ado um buscador virtual que compila pap\u00e9is in\u00e9ditos sobre a trama criminosa sul-americana.<\/p>\n<p>H\u00e1 um m\u00eas, o chanceler argentino, H\u00e9ctor Timerman, colocou no ar o site onde se pode ter acesso ao material desclassificado durante cinco anos nas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas do Brasil, assim como nas embaixadas de outros pa\u00edses cujas ditaduras se associaram, com a ben\u00e7\u00e3o de Washington, especialmente de Henry Kissinger, que j\u00e1 estava na Casa Branca em 1970, quando Jefferson Cardim Osorio foi sequestrado em Buenos Aires. O coronal Osorio foi torturado por elementos da Pol\u00edcia Federal argentina com o consentimento do embaixador brasileiro Francisco Azeredo da Silveira, depois promovido a chanceler pelo presidente Ernesto Geisel. Este caso \u00e9 um dos primeiros da associa\u00e7\u00e3o entre brasileiros e argentinos, orquestrada com a participa\u00e7\u00e3o de altos membros do Itamaraty e do Pal\u00e1cio San Mart\u00edn (chancelaria portenha).<\/p>\n<p>Embaixadores brasileiros e argentinos, articulados com os servi\u00e7os de intelig\u00eancia, operaram durante anos nas sombras, montando uma engrenagem cuja reconstru\u00e7\u00e3o ser\u00e1 facilitada a partir das informa\u00e7\u00f5es obtidas pelo governo da presidenta Cristina Kirchner.<\/p>\n<p>\u201cIsto que recuperamos na Embaixada de Bras\u00edlia e nos consulados de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro \u00e9 parte de um grande quebra-cabe\u00e7a. A verdade sobre o terrorismo de Estado est\u00e1 aparecendo em partes. H\u00e1 muito trabalho pela frente, estamos agora diante da ponto do iceberg sobre o qual a diplomacia atuou. Estou seguro de que, com esta decis\u00e3o pol\u00edtica do nosso governo, de investigar e publicar o que encontrarmos, estamos acrescentando parte da verdade sobre a articula\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o\u201d, explica nosso entrevistado enquanto saboreia um caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 meio-dia de uma calorosa sexta-feira, estamos em um restaurante localizado a poucos metros do Pal\u00e1cio San Mart\u00edn. Em Buenos Aires, ainda se respira a efervesc\u00eancia do cl\u00e1ssico em que o River venceu o Boca Juniors por um a zero, jogado na noite de quinta-feira pela Copa Sul-americana no Est\u00e1dio Monumental, o mesmo que recebeu a final da Copa de 1978, organizada pela ditadura, com apoio de Jo\u00e3o Havelange e a visita de Kissinger.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o volumoso arsenal de dados liberados pelo chanceler H\u00e9ctor Timerman (um dos funcion\u00e1rios mais hostilizados pela velha m\u00eddia portenha) talvez permita jogar luz, ou pelo menos conceder mais elementos, sobre o tecido de complica\u00e7\u00f5es constru\u00eddo pelos ditadores Ernesto Geisel e Jorge Rafael Videla para vigiar e, eventualmente, eliminar o presidente Jo\u00e3o Goulart, falecido em 1976 na prov\u00edncia de Corrientes, Argentina, quando estava cercado pela Opera\u00e7\u00e3o Condor. O laudo dos laborat\u00f3rios que analisaram seus restos, divulgado recentemente, n\u00e3o permite assegurar que faleceu de causas naturais.<\/p>\n<p>Por outro lado, os documentos localizados no buscador argentino podem dar novas pistas sobre o plano do Planalto e da Casa Rosada, que desembocou no desaparecimento do guerrilheiro \u00edtalo-argentino Domingo Horacio Campiglia, sequestrado em 1980 no Aeroporto do Gale\u00e3o em uma opera\u00e7\u00e3o de que fez parte o famoso coronel Paulo Malh\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Ditadura no Brasil foi pioneira<\/strong><\/p>\n<p>Sabe-se que a ditadura brasileira foi a primeira a implementar a Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional na regi\u00e3o, e que seu governo de fato foi pioneiro na forma\u00e7\u00e3o de uma equipe diplom\u00e1tica \u00e0 servi\u00e7o do terrorismo de Estado sob o pretexto da \u201cguerra sem fronteiras contra o comunismo\u201d.<\/p>\n<p>Uma d\u00e9cada antes do golpe dado em 1976 pelas for\u00e7as armadas argentinas, o Brasil j\u00e1 havia estruturado, dentro do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, um esquema de espionagem cuja primeira miss\u00e3o seria seguir o presidente deposto Jo\u00e3o Goulart, exilado no Uruguai desde 1964.<\/p>\n<p>O Centro de Informa\u00e7\u00f5es no Exterior (CIEX) foi concebido pelo embaixador Manoel Pio Correa (suspeito de trabalhar para a CIA), que, em meados dos anos 60, atuou como chefe da miss\u00e3o diplom\u00e1tica no Uruguai, antes de ser transferido para a Argentina, onde trabalhou entre 1967 e 1969, durante o governo do general Juan Carlos Ongan\u00eda, outro ac\u00f3lito da Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional.<\/p>\n<p>Nos arquivos do CIEX, revelados em 2007 pelo jornalista Cl\u00e1udio Dantas Sequeira, h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre o sequestro e posterior desaparecimento no Aeroporto Internacional de Ezeiza (Buenos Aires) do militante Edmur Pericles Camargo, o \u201cGauch\u00e3o\u201d, ocorrido em 1971. No acervo do CIEX, que desmentiu o mito de que o Itamaraty esteve alheio ao terrorismo de Estado, tamb\u00e9m h\u00e1 fichas sobre o militar e guerrilheiro Onofre Pinto (participou no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick), assassinado pouco tempo depois de retornar ao Brasil procedente da Argentina.<\/p>\n<p>O coronel Paulo Malh\u00e3es foi um dos elementos vinculados com a persegui\u00e7\u00e3o na Argentina e a posterior execu\u00e7\u00e3o de Onofre Pinto no Parque Nacional de Foz do Igua\u00e7u, junto de outros militantes, em julho de 1974.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o deste ano, Paulo Malh\u00e3es falou por horas diante da Comiss\u00e3o da Verdade, explicando como torturou, assassinou e eliminou cad\u00e1veres de oposicionistas (um deles possivelmente foi Onofre Pinto), mas n\u00e3o se aprofundou sobre sua atua\u00e7\u00e3o na teia de aranha da espionagem e morte costurada na Argentina durante anos.<\/p>\n<p>A suspeitosa morte de Malh\u00e3es (queima de arquivo?), ocorrida um m\u00eas depois de suas confiss\u00f5es diante da Comiss\u00e3o, deixou muitas quest\u00f5es em aberto, que talvez possam ser solucionadas com a ajuda dos documentos ventilados pela Chancelaria portenha. As investiga\u00e7\u00f5es cruzadas de pa\u00eds a pa\u00eds s\u00e3o a chave para dar forma ao esqueleto ainda incompleto da Opera\u00e7\u00e3o Condor, em particular da Condor diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cO que propomos \u00e9 que haja a maior transpar\u00eancia poss\u00edvel, acredito que este trabalho de recompila\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de arquivos n\u00e3o tem antecedentes na Am\u00e9rica Latina e talvez haja poucos iguais no mundo\u201d, disse o diplomata ao encerrar sua conversa com Carta Maior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nCarta Maior &#8211; 08\/12\/2014\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7242\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-7242","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1SO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7242"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7242\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}