{"id":7267,"date":"2014-12-17T00:07:12","date_gmt":"2014-12-17T00:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7267"},"modified":"2014-12-17T00:07:12","modified_gmt":"2014-12-17T00:07:12","slug":"a-prisao-do-general-alzate-por-parte-das-farc-gera-um-novo-momento-nos-dialogos-de-havana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7267","title":{"rendered":"A pris\u00e3o do general Alzate por parte das FARC gera um novo momento nos di\u00e1logos de Havana"},"content":{"rendered":"\n<p>Sabe-se que escrever no calor da marcha sempre traz riscos. No entanto, uma an\u00e1lise objetiva da hist\u00f3ria e da conjuntura pode oferecer elementos de compreens\u00e3o que n\u00e3o se distanciam muito do que realmente est\u00e1 ocorrendo com o movimento pol\u00edtico contradit\u00f3rio, podendo at\u00e9 orientar alguns desdobramentos imediatos ou de longo prazo da situa\u00e7\u00e3o estudada. Desta maneira, pretendemos contribuir com a an\u00e1lise da conjuntura pol\u00edtica pela qual atravessa a Mesa de Di\u00e1logos de Havana entre o Governo de Juan Manuel Santos e as FARC-EP. Para isso, faz-se necess\u00e1rio um retorno hist\u00f3rico sobre alguns pontos fundamentais das experi\u00eancias anteriores e, em geral, sobre pontos fundamentais do desenvolvimento da guerra.<\/p>\n<p>Ante as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es pol\u00edticas, pretendo expor algumas ideias que permitam articular a hist\u00f3ria com o presente, de frente para constru\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, a mais objetiva poss\u00edvel, da atual situa\u00e7\u00e3o protagonizada pela deten\u00e7\u00e3o do General Alzate por parte das FARC-EP, em 16 de novembro, departamento do Choc\u00f3.<\/p>\n<p>A seguir, tentarei responder algumas das teses centrais sobre as quais se sustentam v\u00e1rias an\u00e1lises que pretendem comparar (de forma equivocada) a ruptura e desdobramentos dos di\u00e1logos de paz entre o Presidente Andr\u00e9s Pastrana e as FARC-EP em San Vicente del Cagu\u00e1n, entre 1999 e 2002.<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as (do pol\u00edtico e do militar) mudou dramaticamente com a finaliza\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos do Cagu\u00e1n. Os erros das FARC fertilizaram o terreno para a chegada de Uribe.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o do panorama pol\u00edtico-militar supostamente apresentou como resultado um contexto expressamente favor\u00e1vel para o Estado, que abriu um novo ciclo no qual a institucionalidade burguesa se sobrep\u00f4s \u00e0 insurg\u00eancia a partir de qualquer ponto de vista. O crescimento da capacidade militar do Estado \u00e9 um fato que em si n\u00e3o pode ser negado. Ainda assim, merece ser tratado com bastante cuidado, pois acreditar na superioridade absoluta do Estado, necessariamente leva a crer em um triunfo definitivo da guerra, coisa que n\u00e3o acontece e, ao que parece, n\u00e3o vai acontecer. No entanto, a causa e consequ\u00eancia da escalada militar com a reestrutura\u00e7\u00e3o das for\u00e7as militares estatais, n\u00e3o pode ser confundida at\u00e9 chegar ao ponto de expressar (como fazem algumas an\u00e1lises) que tal situa\u00e7\u00e3o se deve aos erros pol\u00edticos e fundamentalmente militares das FARC, mais que \u00e0s virtudes do Estado e das for\u00e7as do monop\u00f3lio midi\u00e1tico da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afirmar que no ano de 2002 (com o encerramento dos di\u00e1logos por parte do presidente Pastrana) a insurg\u00eancia n\u00e3o soube analisar o momento, motivo pelo qual priorizou as a\u00e7\u00f5es militares sobre as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, evidencia desconhecimento sobre as transforma\u00e7\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o subversiva e a confronta\u00e7\u00e3o armada. Basta mencionar dois pontos fundamentais na hist\u00f3ria das FARC para compreender os principais movimentos pol\u00edticos que realizaram, chamando a aten\u00e7\u00e3o que um deles se situa precisamente no marco dos di\u00e1logos de 1999-2002. O primeiro, que j\u00e1 \u00e9 de amplo conhecimento, \u00e9 a proposta da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica. N\u00e3o cabe aqui mencionar a import\u00e2ncia e qualidade pol\u00edtica do movimento guerrilheiro no per\u00edodo, por\u00e9m deve ser dito que talvez tenha sido o auge no campo \u201cestritamente pol\u00edtico\u201d. O segundo momento foi o lan\u00e7amento de diferentes estruturas \u201cpol\u00edticas\u201d que, de acordo com os planos estrat\u00e9gicos, seriam os canais atrav\u00e9s dos quais se avan\u00e7aria na constru\u00e7\u00e3o para a denominada \u201cNova Col\u00f4mbia\u201d por parte das FARC articulada com o povo. O lan\u00e7amento do Partido Comunista Clandestino Colombiano (PCCC), assim como o do Movimento Bolivariano pela Nova Col\u00f4mbia (MB), constituem uma reestrutura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica frente ao reconhecimento da luta pol\u00edtica competente e massificada. Diferente dos anos anteriores, as FARC j\u00e1 n\u00e3o se colocam como um ap\u00eandice do Partido Comunista Colombiano (PCC). Estruturam suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para o que denominam uma \u201ccombina\u00e7\u00e3o de todas as formas de luta\u201d, para a tomada do poder. Desde ent\u00e3o e at\u00e9 os nossos dias, tais estruturas clandestinas mant\u00e9m a\u00e7\u00f5es permanentes em quase todo o territ\u00f3rio nacional, independente que tenhamos conhecimento delas, sejam compartilhadas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece que um dos momentos de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de maior envergadura no interior da insurg\u00eancia foi na conjuntura dos di\u00e1logos de Cagu\u00e1n, ao contr\u00e1rio do que vem sendo afirmado pelos diferentes setores atrav\u00e9s de diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode passar despercebido que o fortalecimento do Estado se d\u00e1 gra\u00e7as \u00e0 reengenharia pol\u00edtico-militar planejada a partir de Bogot\u00e1 e Washington, por meio do Plano Col\u00f4mbia posto em marcha imediatamente ap\u00f3s da ruptura dos di\u00e1logos de paz do Cagu\u00e1n. A maior estrat\u00e9gia militar da institucionalidade colombiana, uma das reestrutura\u00e7\u00f5es mais evidentes na hist\u00f3ria recente, foi produzida durante os anos de 2001 e 2002, sendo orientada pelo capital monopolista que, com o discurso antinarc\u00f3tico, combate frontalmente as guerrilhas e, inclusive, as express\u00f5es pol\u00edticas legais.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o que no campo pol\u00edtico o presidente Pastrana colocava como principal conquista da luta antissubversiva a inclus\u00e3o das FARC na lista de organiza\u00e7\u00f5es terroristas. O pr\u00f3prio presidente Pastrana reconhecia a crescente capacidade (pol\u00edtica e militar) com a qual os insurgentes violavam o poder do Estado, frente ao qual, era necess\u00e1rio gerar respostas contundentes. N\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m que a maior for\u00e7a militar das FARC se deu em fins da d\u00e9cada de 1990, condi\u00e7\u00e3o que mudou posteriormente \u00e0 ruptura do Cagu\u00e1n, sem querer dizer com isso que a guerrilha tenha se submetido.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da autocracia uribista n\u00e3o corresponde ent\u00e3o aos erros militares das FARC, mas a um cuidadoso plano estrat\u00e9gico iniciado com Pastrana e articulado com George Bush, que desdobra a n\u00edvel mundial a doutrina antiterrorista, como suposta resposta ao ocorrido em Wall Street, no 11 de setembro de 2001. O fim dos di\u00e1logos e a doutrina antiterrorista s\u00e3o o melhor panorama com o qual poderia se encontrar Uribe V\u00e9lez, que soube aproveitar o momento para intensificar a guerra. Ao anterior, soma-se o fortalecimento do paramilitarismo que, durante os anos de 1990, vinha em uma escalada militar. Assim, o contexto que se tem \u00e9 a fus\u00e3o do narcotr\u00e1fico e a pol\u00edtica reacion\u00e1ria, criando e fortalecendo a m\u00e1quina paramilitar que vinha sendo pensada antes mesmo do Cagu\u00e1n. Em 2002, geraram-se todas as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares para a ofensiva belicista do Estado.<\/p>\n<p>No marco da guerra frontal iniciada por parte da nova reengenharia militar legal (ex\u00e9rcito e pol\u00edcia) e ilegal (paramilitares), a popula\u00e7\u00e3o civil \u00e9 que se viu mais afetada, sofrendo com os massacres, desparecimentos, remo\u00e7\u00f5es e assassinatos (chamados de falsos positivos). Ante este panorama, o pensamento cr\u00edtico \u00e9 asfixiado dentro e fora dos centros acad\u00eamicos, at\u00e9 o ponto de eliminar do debate pol\u00edtico a an\u00e1lise das motiva\u00e7\u00f5es e dos atores da guerra. Estar\u00edamos equivocados em acreditar (e se assim o fiz\u00e9ssemos, estar\u00edamos caindo em uma ilus\u00e3o abstrata) que, diante deste contexto, as organiza\u00e7\u00f5es sociais e a popula\u00e7\u00e3o em geral assumiriam publicamente o respaldo a um projeto revolucion\u00e1rio. Ante a amea\u00e7a das for\u00e7as militares e paraestatais, a primeira resposta generalizada \u00e9 a abstra\u00e7\u00e3o \u2013 entenda-se aqui como absten\u00e7\u00e3o \u2013 de uma opini\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o civil frente \u00e0 guerra. Este fato n\u00e3o pode ser confundido com legitima\u00e7\u00e3o (para o Estado) ou refra\u00e7\u00e3o (para a insurg\u00eancia). O que pretendo expressar \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o civil poderia se identificar e, talvez, acompanhar um ou outro ator armado. Identificar-se sem expressar publicamente ou simplesmente abster-se de uma posi\u00e7\u00e3o determinada. Seria um grande erro afirmar que a balan\u00e7a pol\u00edtica estava claramente inclinada para um dos dois lados (insurg\u00eancia ou Estado), ainda que a campanha antissubversiva ocorresse permanentemente atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Neste caso, se o que se trata \u00e9 de interpretar o sentir popular e os verdadeiros interesses da grande maioria da classe trabalhadora, parece-me que a principal afirma\u00e7\u00e3o v\u00e1lida \u00e9 o fim da guerra e o melhoramento das condi\u00e7\u00f5es de vida tanto no campo como na cidade. Querendo ou n\u00e3o, de maneira consciente ou inconsciente, deve-se reconhecer que <em>per se<\/em>, estes objetivos da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o se tornam vulner\u00e1veis e antag\u00f4nicos aos interesses do Estado e da classe hegem\u00f4nica.<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>Com a suspens\u00e3o dos di\u00e1logos, produto da deten\u00e7\u00e3o do General Alzate, Santos demonstra o controle que o governo tem sobre a mesa de Havana (sobre a qual supostamente teve a iniciativa pol\u00edtica e militar), enquanto a insurg\u00eancia deve manter todo o custo das conversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>N\u00e3o corresponde a uma an\u00e1lise objetiva negar o forte impacto pol\u00edtico e militar gerado pelo Estado atrav\u00e9s do Plano Col\u00f4mbia e a estrat\u00e9gia belicista de Uribe V\u00e9lez. Agora, tampouco \u00e9 poss\u00edvel sobredimensionar suas capacidades e verdadeiros alcances, at\u00e9 colocar as for\u00e7as militares e o Estado em seu conjunto como o grande vitorioso da guerra interna. Sendo assim, n\u00e3o haveria possibilidade alguma de instalar uma mesa de di\u00e1logos em Havana, pois ningu\u00e9m negocia com seu inimigo quando j\u00e1 conseguiu domin\u00e1-lo. A abertura dos di\u00e1logos demonstra a incapacidade m\u00fatua (Estado e Guerrilha) de submeter seu advers\u00e1rio atrav\u00e9s da via armada. Ainda que o Plano Col\u00f4mbia e os dois governos de Uribe tenham redimensionado a din\u00e2mica da guerra, o que fica claro \u00e9 que o Estado, em companhia da maior for\u00e7a militar do mundo (as for\u00e7as militares estadunidenses), empreendeu sua m\u00e1xima energia poss\u00edvel, obtendo resultados bem diferentes aos esperados. Apesar das promessas pretensiosas de acabar com as guerrilhas em 6 meses, depois de quase 10 anos de arremetida frontal, saltou \u00e0 vista p\u00fablica o \u00f3bvio: a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e0 guerra \u00e9 a via do di\u00e1logo. A estrat\u00e9gia guerrerista do Estado foi um fracasso absoluto.<\/p>\n<p>Parece que a suposta iniciativa do governo de Santos no in\u00edcio da mesa de Havana pode ser relativizada, a n\u00e3o ser que se pense que as FARC entraram no processo como consequ\u00eancia direta do suposto enfraquecimento militar ou como a \u00faltima alternativa de incid\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds. Ambas as hip\u00f3teses s\u00e3o epid\u00e9rmicas, pois basta observar as estat\u00edsticas (inclusive estatais) das consequ\u00eancias da guerra, como por exemplo, n\u00famero de combates, feridos e mortos de ambas as partes. Le\u00f3n Valencia, um liberal convicto, atrav\u00e9s de sua funda\u00e7\u00e3o fez um interessante e interessado levantamento de dados a esse respeito, que se n\u00e3o mostram de forma definida o panorama da guerra, trazem consigo algumas informa\u00e7\u00f5es interessantes.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o parece t\u00e3o clara a iniciativa e o controle de Santos no in\u00edcio da mesa de di\u00e1logos, ser\u00e1 poss\u00edvel pensar que o suposto dom\u00ednio foi gerado no transcurso das conversa\u00e7\u00f5es? N\u00e3o acredito e, ao contr\u00e1rio, penso que se evidenciou o enfrentamento profundo entre o governo e as FARC. Este fato pode ser percebido ao longo dos comunicados conjuntos, os informes parciais e, finalmente, com a publica\u00e7\u00e3o dos 3 pontos pr\u00e9-acordados que, hoje em dia, s\u00e3o documentos de f\u00e1cil acesso na web. Nos documentos de conhecimento p\u00fablico se expressa o resultado de um claro enfrentamento pol\u00edtico entre posi\u00e7\u00f5es diametralmente opostas, que conseguiram encontrar alguns pontos m\u00ednimos que podem permitir o fim da guerra e algumas reformas pol\u00edtico-econ\u00f4micas urbanas e fundamentalmente rurais na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Conhecendo a estirpe e a consci\u00eancia de classe do presidente Santos e, al\u00e9m disso, recordando sua atua\u00e7\u00e3o nas diferentes inst\u00e2ncias governamentais que desempenhou, com especial destaque ao Minist\u00e9rio de Defesa durante o governo de Uribe, dificilmente pode-se argumentar que o expresso nos acordos parciais de Havana corresponde a sua plena vontade. Tampouco o que ali se proclamou corresponde \u00e0s posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas das FARC. N\u00e3o acredito equivocar-me ao reconhecer na mesa e nos pr\u00e9-acordos de Havana um verdadeiro campo de enfrentamento, em uma batalha pol\u00edtica da qual sai um ator vitorioso e incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Crer que a suspens\u00e3o dos di\u00e1logos por parte de Santos, como consequ\u00eancia da deten\u00e7\u00e3o do general Alzate, \u00e9 uma mostra de superioridade e controle por parte do governo, obedece a uma leitura parcial da totalidade do que tem sido o processo dos di\u00e1logos. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar que em dado momento, as FARC tamb\u00e9m propuseram uma pausa (tendo como motivo as escutas feitas por um hacker acerca dos integrantes da mesa) e, inclusive, introduziram temas transcendentais sobre os quais o presidente Santos tomou uma atitude de desaten\u00e7\u00e3o ou de contradi\u00e7\u00e3o (por exemplo, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o Hist\u00f3rica da Verdade, diferente da Comiss\u00e3o da Verdade proposta pelo governo). Se o \u00e2ngulo da an\u00e1lise se desenvolve sob a mesma perspectiva com a qual se compreende uma suposta domina\u00e7\u00e3o de Santos na mesa, desde j\u00e1 seria poss\u00edvel dizer que o referendo (\u00faltimo ponto de debate na Mesa de Havana) obrigatoriamente ser\u00e1 um Referendo e n\u00e3o uma Assembleia Constituinte, tema que, independente de seus resultados, certamente ser\u00e1 rico em contradi\u00e7\u00f5es e desafios.<\/p>\n<p>Deve ficar claro que as determina\u00e7\u00f5es do conflito colombiano obedecem a crit\u00e9rios pol\u00edticos que se expressam no campo militar. Ambos elementos andam juntos e de forma simult\u00e2nea. Se tal afirma\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, deve-se discutir a tese que sustenta a suposta prioridade militar que as FARC t\u00eam dado aos confrontos. O desenvolvimento do conflito armado mostra de forma clara que todos os atores da guerra teceram com rigor planos estrat\u00e9gicos e desenvolvimentos t\u00e1ticos de \u00edndole pol\u00edtica e militar, seja para manter-se no poder ou para gerar sua derrota.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito na hip\u00f3tese da guerra como um fim em si mesmo (pelo menos para as insurg\u00eancias, sejam elas FARC, ELN ou EPL). Para os camponeses do sul do Tolima ou dos \u201csantanderes\u201d, que durante os anos 60 formaram os grupos guerrilheiros, a guerra foi uma resposta ante as m\u00faltiplas agress\u00f5es. Para seus sucessores, esta ainda se mant\u00e9m como uma das poucas alternativas atrav\u00e9s das quais se enfrenta o poder hegem\u00f4nico. Caso se trate de considerar a guerra como um fim em si mesmo, nossa vis\u00e3o deve se dirigir ao Estado, pois hoje mais que nunca encontra no \u201ckeynesianismo militar\u201d um salva-vidas que permite manter-se \u00e0 tona em meio \u00e0 crise (sist\u00eamica) em que se encontra.<\/p>\n<p>Agora, considerando o anterior, o que significa a deten\u00e7\u00e3o do general Alzate pelas FARC?<\/p>\n<p>Seria errado defender que a deten\u00e7\u00e3o do general Alzate seja um indicador direto do aumento e fortalecimento militar da guerrilha nos \u00faltimos anos. Embora, seja necess\u00e1rio considerar que \u00e9 a primeira vez que um general da rep\u00fablica cai nas m\u00e3os de uma organiza\u00e7\u00e3o insurgente. Neste caso (apesar do militar se encontrar desempenhando suas fun\u00e7\u00f5es), n\u00e3o se pode perder de vista que a deten\u00e7\u00e3o se deu em condi\u00e7\u00f5es at\u00edpicas no marco da guerra. Assim, tampouco \u00e9 poss\u00edvel defender que simplesmente seja quest\u00e3o de azar ou m\u00e1 sorte do militar, pois o fato objetivo \u00e9 que as FARC t\u00eam uma incid\u00eancia pol\u00edtica e certo controle territorial em Choc\u00f3, como em tantas outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Uma organiza\u00e7\u00e3o insurgente que diariamente desempenha a\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-militares deve ser reconhecida, como fez o governo de Santos, como uma organiza\u00e7\u00e3o que, ao modo da ci\u00eancia pol\u00edtica, constitui um fator real de poder.<\/p>\n<p>A novidade n\u00e3o \u00e9 um militar cair em poder da guerrilha, sendo \u201cdado de baixa\u201d ou ferido. Neste caso, a novidade \u00e9 que seja um general. Uma semana antes da deten\u00e7\u00e3o de Alzate em Choc\u00f3, ocorreu a pris\u00e3o de dois soldados rasos em Arauca, fato que tamb\u00e9m foi devidamente veiculado e que foi resolvido depois de alguns dias, quando as FARC libertaram os prisioneiros atrav\u00e9s da Cruz Vermelha Internacional e dos delegados dos pa\u00edses garantidores do processo de paz (Cuba e Noruega).<\/p>\n<p>Ambos os casos (a pris\u00e3o dos dois soldados e do general Alzate), a partir da perspectiva que questionamos, constituiriam graves erros militares que, no marco dos di\u00e1logos de paz, se traduzem em erros pol\u00edticos. E se esta linha de racioc\u00ednio for levada at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, toda a\u00e7\u00e3o militar se desdobraria em feitos repudi\u00e1veis, como efetivamente o mostra a grande imprensa, chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que a pr\u00f3pria exist\u00eancia da insurg\u00eancia significa um erro pol\u00edtico-militar ou, talvez, um desvio irresoluto na luta de classes.<\/p>\n<p>Sem estender-me em explica\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas, basta recordar que \u00e9 a forma na qual se desenvolveu pol\u00edtica e economicamente o pa\u00eds, que gera as condi\u00e7\u00f5es e motivos estruturais que abrem caminho para a guerra. O que neste momento deve ser posto como principal tema de debate \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o com a qual se comporta o Estado frente \u00e0 Mesa de Di\u00e1logos. Pois, enquanto organizam uma arremetida militar para submeter as guerrilhas atrav\u00e9s das armas, mostram-se ante o mundo como a principal v\u00edtima, ao serem alcan\u00e7ados pelas a\u00e7\u00f5es insurgentes no marco da guerra.<\/p>\n<p>A proposta do cessar-fogo bilateral, reiterada pela insurg\u00eancia e exigida por diversos setores sociais, certamente ser\u00e1 ponto central no debate, uma vez que sejam retomadas as conversa\u00e7\u00f5es em Havana. J\u00e1 se fez expl\u00edcito o inconformismo das FARC ao defender que com o ocorrido, o governo de Santos acabou com a confian\u00e7a no processo, situa\u00e7\u00e3o ante a qual Timole\u00f3n Jimenez, m\u00e1ximo comandante das FARC-EP, afirma que \u201c<em>as coisas no poder\u00e3o ser retomadas assim, \u00e9 preciso fazer diversas considera\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es sociais e os diferentes setores pol\u00edticos democr\u00e1ticos e de esquerda devem gerar um processo de apropria\u00e7\u00e3o ou reapropria\u00e7\u00e3o com participa\u00e7\u00e3o direta na Mesa, exigindo uma sa\u00edda pol\u00edtica \u00e0 guerra e a instaura\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es profundas que o pa\u00eds necessita.<\/p>\n<p>N\u00c3O NOS FICA OUTRA ALTERNATIVA SEN\u00c3O EXIGIR A CONTINUIDADE DOS DI\u00c1LOGOS, O CESSAR-FOGO BILATERAL, O FIM DA GUERRA E A CONSTRU\u00c7\u00c3O DE UMA DEMOCRACIA PROFUNDA.<\/p>\n<p>*Militante de Marcha Patri\u00f3tica.<\/p>\n<p><em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nSergio Andr\u00e9s Quintero Londo\u00f1o*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7267\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-7267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Td","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}