{"id":727,"date":"2010-08-11T03:19:44","date_gmt":"2010-08-11T03:19:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=727"},"modified":"2010-08-11T03:19:44","modified_gmt":"2010-08-11T03:19:44","slug":"sonhos-com-a-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/727","title":{"rendered":"Sonhos com a l\u00edngua portuguesa"},"content":{"rendered":"\n<p>As posi\u00e7\u00f5es dominantes em uma sociedade s\u00e3o contradit\u00f3rias, como os sonhos. Nutrem-se ao mesmo tempo de verdades profundas e de ignor\u00e2ncias, de bom senso e preconceitos. \u00c0s vezes estas posi\u00e7\u00f5es v\u00eam imbu\u00eddas de bons valores iluministas, em prol de um olhar mais racional e totalizante, superando velhos h\u00e1bitos cristalizados na cultura e portando projetos de futuro. Outras vezes, trazem os nobres valores do romantismo, com palavras de luta, resgate e defesa do que somos e pelo que somos.<\/p>\n<p>Abaixo, duas interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em defesa da l\u00edngua portuguesa, a de um publicit\u00e1rio e a de um pol\u00edtico. O quanto elas s\u00e3o diferentes? Onde elas convergem?<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira (27\/7), Nizan Guanaes, famoso publicit\u00e1rio e presidente do grupo ABC de marketing \u2013 o 20\u00ba maior do mundo \u2013, publicou no caderno &#8220;Mercado&#8221;,da <em>Folha de S.Paulo<\/em>, um curioso artigo intitulado &#8220;Vamos falar portugu\u00eas&#8221;. Com uma incr\u00edvel e saud\u00e1vel crueza, disse o que muitos gram\u00e1ticos e estudiosos da l\u00edngua titubeiam em afirmar:&#8221;Est\u00e1 provado: a for\u00e7a da l\u00edngua est\u00e1 ligada \u00e0 for\u00e7a da economia.&#8221; \u00c9 para nenhum materialista botar defeito!<\/p>\n<p>O texto de Nizan reflete sobre um passado em que &#8220;nossa maneira de desqualificar as pessoas era dizer: ele s\u00f3 fala portugu\u00eas&#8221;. J\u00e1 a\u00ed temos uma mostra da maravilha que \u00e9 o universo da l\u00edngua, o ba\u00fa de contradi\u00e7\u00f5es e conflitos que ela trabalha: no uso desse pronome possessivo na primeira pessoa do plural (em &#8220;<em>nossa<\/em> maneira&#8221;), pretensamente inclusivo, n\u00e3o nos inclu\u00edmos eu e milh\u00f5es de brasileiros que jamais falar\u00eda<em>mos<\/em> um disparate como esse para desqualificar algu\u00e9m. N\u00e3o esque\u00e7amos, entretanto, o ve\u00edculo e o caderno (o p\u00fablico) para o qual foi escrito <em>&#8220;<\/em>Vamos falar portugu\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>No Brasil de hoje, segue o articulista, os n\u00fameros da economia finalmente s\u00e3o bons e o pa\u00eds encontrou o seu desenho pol\u00edtico, fazendo com que tenhamos &#8220;tempo, foco e motiva\u00e7\u00e3o para cuidar das palavras&#8221;. Nizan, considerado um dos embaixadores do Brasil no cen\u00e1rio internacional dos neg\u00f3cios, defende que se espalhe o portugu\u00eas pelo mundo e diz que nessa not\u00e1vel miss\u00e3o podemos contar tamb\u00e9m com Angola e Mo\u00e7ambique, que devem crescer os mesmos 6% ou 7% que o Brasil em 2010.<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Nova inser\u00e7\u00e3o do Brasil no mundo<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>Acontece que estes nossos irm\u00e3os, com quem compartilhamos um mesmo espa\u00e7o e projeto econ\u00f4mico e social ao longo de muitos e muitos anos de explora\u00e7\u00e3o colonial escravista (sobretudo os angolanos, na maior transfer\u00eancia for\u00e7ada de gentes da hist\u00f3ria), estabelecem hoje &#8220;conosco&#8221; outras rela\u00e7\u00f5es. N\u00f3s &#8220;temos&#8221;, por exemplo, algo que eles n\u00e3o t\u00eam: Votorantim, Camargo Correa, Odebrecht, todas com seus cimentos e tapumes em diversas partes do globo; n\u00f3s &#8220;temos&#8221; uma mineradora como a Vale, doada na Era FHC com financiamento do BNDES a despeito de mais de cem a\u00e7\u00f5es na justi\u00e7a, hoje a maior empresa do mundo em produ\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro.<\/p>\n<p>Vamos, ent\u00e3o, falar o bom portugu\u00eas: a Votorantim, a partir da recente aquisi\u00e7\u00e3o de parte de uma cimenteira portuguesa, come\u00e7ou a entrar na \u00c1frica (como na Europa e na \u00c1sia) e j\u00e1 est\u00e1 em vinte pa\u00edses. A Camargo Correa, a despeito das investiga\u00e7\u00f5es de lavagem de dinheiro no exterior e de ser a empresa que mais levou <em>ouro<\/em> com o Panamericano no Rio e com as obras do PAC, atua em mais de vinte pa\u00edses \u2013 e dentre eles, Angola. A Vale tem presen\u00e7a nos cinco continentes e \u00e9 mais uma das multis brasileiras instaladas em Angola e Mo\u00e7ambique. A Odebrecht, por sua vez, \u00e9 hoje, nada mais nada menos, que a maior empregadora dos angolanos, <em>in loco<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>Nizan tem ou n\u00e3o tem motivos para dizer que o Brasil mudou? Com base nisso, ele sonha uma nova rela\u00e7\u00e3o do empresariado brasileiro com a l\u00edngua portuguesa, um &#8220;sonho que n\u00e3o \u00e9 um sonho&#8221;, como ele diz, e que novamente define de forma crua e certeira: este sonho \u00e9 &#8220;uma a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, industrial, diplom\u00e1tica, pol\u00edtica, desportiva, militar&#8221;. Se tem uma coisa que todo bom publicit\u00e1rio entende \u00e9 de sonhos que n\u00e3o s\u00e3o sonhos. O que esperar desse? Talvez a reforma ortogr\u00e1fica, que tantos protestos gerou em Portugal, seja apenas um sinal desse sonho do empresariado brasileiro em afirmar-se no mercado internacional, no caso, com as grandes editoras de c\u00e1.<\/p>\n<p>O Brasil tem hoje 127 empresas com faturamento maior que 500 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano e quase um ter\u00e7o delas atua no exterior (<em>Exame<\/em>, 9\/9\/2009). No per\u00edodo colonial, o que mais sa\u00eda da Am\u00e9rica portuguesa para a \u00c1frica portuguesa era cacha\u00e7a e tabaco. Em troca, &#8220;recebemos&#8221; aqui cerca de 4 milh\u00f5es de africanos escravizados <em>vivos<\/em> (n\u00e3o esque\u00e7a<em>mos<\/em> todo o &#8220;desperd\u00edcio&#8221; que havia no caminho), dentre outras <em>commodities<\/em> da \u00e9poca como marfim, cobre e ouro \u2013 como afirma o historiador Luiz Felipe Alencastro em <em>O trato dos viventes <\/em>(Companhia das Letras). Hoje, ainda que mantenhamos uma elevad\u00edssima exporta\u00e7\u00e3o de mercadorias de baixo valor agregado, como aquelas do <em>agrobusiness<\/em>, exporta-se capital como nunca antes na hist\u00f3ria deste pa\u00eds, que j\u00e1 \u00e9 crescidinho o bastante para n\u00e3o manter um atrelamento isento de pequenas dissens\u00f5es com o Tio Sam e assim poder fazer dinheiro at\u00e9 mesmo nos pa\u00edses malquistos pelo Tio, como Equador, Venezuela, Bol\u00edvia e Cuba. As empreiteiras brasileiras est\u00e3o a\u00ed com toda a for\u00e7a e sede. Esse novo Brasil, afinal, precisa de empres\u00e1rios como Nizan, que possam exportar, sem pudores, e custando o que custar, o capital, as palavras e os sonhos de alguns brasileiros \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o sonhos para todos.<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Uma ignor\u00e2ncia muito grande quanto \u00e0 vida da l\u00edngua<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>Por falar em <em>agrobusiness<\/em>, esta \u00e9 uma excelente oportunidade de lembrarmos outro grande defensor da \u00faltima flor do L\u00e1cio, o deputado Aldo Rebelo, que este ano se destacou pelo empenho patri\u00f3tico na dura luta contra &#8220;as a\u00e7\u00f5es que contrariam os interesses do Brasil em favor dos interesses externos&#8221;, enquadrando o discurso ecol\u00f3gico como alien\u00edgena. Al\u00e9m desse surpreendente feito para quem o cr\u00ea (ainda) <em>comunista<\/em>, lembro ainda de outro, tamb\u00e9m grav\u00edssimo, de 2004, quando ele ostentava o pomposo t\u00edtulo de &#8220;Secret\u00e1rio de Coordena\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e Assuntos Institucionais da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica&#8221; e foi respons\u00e1vel por costurar um pacto entre governo e militares para restringir as investiga\u00e7\u00f5es sobre os desaparecidos pol\u00edticos do regime de 1964. &#8220;As feridas hist\u00f3ricas precisam ser fechadas&#8221;, justificou no programa <em>Roda Viva<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 de fato um sonhador, o deputado, que em 1999 tamb\u00e9m se comportou a favor de fechamentos, esquecimentos e sil\u00eancio, ainda que de outra forma. Aparecendo nacionalmente como grande defensor da l\u00edngua portuguesa, no sonho de uma l\u00edngua fechada a estrangeirismos, acabava nos pedindo para esquecer que todo o nosso l\u00e9xico portugu\u00eas \u00e9 fruto de trocas e empr\u00e9stimos, assim como nos pedia sil\u00eancio em rela\u00e7\u00e3o a novas trocas e empr\u00e9stimos, querendo frear o desenvolvimento da nossa l\u00edngua usando uma vers\u00e3o chinfrim do discurso anti-imperialista. Quanto \u00e0s polpudas doa\u00e7\u00f5es de campanha que recebeu das exportadoras de capitais Vale, CSN, Camargo Correa e Votorantim, o deputado n\u00e3o \u00e9 contra. Doa\u00e7\u00f5es estas que tamb\u00e9m podem ser consideradas trocas e empr\u00e9stimos, dada a forma como a pol\u00edtica brasileira funciona&#8230;<\/p>\n<p>O sonho de Aldo com a l\u00edngua portuguesa materializou-se no projeto de lei 1676\/99, que declarava lesivo ao patrim\u00f4nio cultural brasileiro &#8220;todo e qualquer uso de palavra ou express\u00e3o em l\u00edngua estrangeira&#8221; (art. 4\u00ba) e determinava a sua substitui\u00e7\u00e3o em 90 dias da publica\u00e7\u00e3o da lei (art. 5\u00ba).<\/p>\n<p>O deputado ignorou os v\u00e1rios apelos da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Lingu\u00edstica (Abralin), da Associa\u00e7\u00e3o de Lingu\u00edstica Aplicada do Brasil (Alab), assim como os que vinham da Academia Brasileira de Letras e de diversos escritores que usaram os espa\u00e7os da m\u00eddia para tentar fazer um debate com as propostas do parlamentar. O que quase todos falavam \u00e9 que por tr\u00e1s das (quem sabe?) boas inten\u00e7\u00f5es do seu patriotismo contra os abusos do emprego de estrangeirismos, encontrava-se uma ignor\u00e2ncia muito grande quanto \u00e0 vida real da l\u00edngua. Uma excelente fonte de consulta \u00e0s obje\u00e7\u00f5es colocadas pelos estudiosos da linguagem \u00e9 o livro <em>Estrangeirismos, guerras em torno da l\u00edngua<\/em>, organizado por Carlos Alberto Faraco (Par\u00e1bola Editorial), mas podemos tamb\u00e9m lembrar aqui, mais uma vez, a maior contribui\u00e7\u00e3o de Nizan Guanaes em seu recente artigo: &#8220;Est\u00e1 provado: a for\u00e7a da l\u00edngua est\u00e1 ligada \u00e0 for\u00e7a da economia.&#8221;<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Um novo Policarpo Quaresma?<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a raz\u00e3o pela qual eu escrevo <em>agrobusiness<\/em>, e n\u00e3o &#8220;agroneg\u00f3cio&#8221;, em portugu\u00eas, \u00e9 econ\u00f4mica, visto que este fil\u00e3o \u00e9, em grande parte, pertencente a bancos estrangeiros. \u00c9 melhor chamar as coisas pelo seu nome mais apropriado, o que acaba mostrando o furo ideol\u00f3gico da patriotada de Aldo <em>Agrobusiness<\/em> Rebelo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel imaginar que l\u00edngua falar\u00edamos se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos trocas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais? Ou melhor, quem ser\u00edamos n\u00f3s? De onde vem, afinal, o idioma oficial do pa\u00eds? O que nossa forma\u00e7\u00e3o social colonial e escravista fez com ele? O que o poder econ\u00f4mico de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro \u2013 herdeiro do velho papel da corte na unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das regi\u00f5es americanas colonizadas por Portugal \u2013 faz com as v\u00e1rias l\u00ednguas faladas e distintas formas de falar a l\u00edngua oficial em todo o pa\u00eds? Todos os dias, todas as horas, a l\u00edngua em seus usos \u00e9 cen\u00e1rio de conflitos encarni\u00e7ados, nos quais os detentores dos meios e seus repetidores adoram dizer que o brasileiro n\u00e3o sabe falar direito&#8230; E a\u00ed, Nizan, aquela sua antiga maneira de desqualificar as pessoas, aparece aqui de modo mais corriqueiro e mais duro, afirmando que o brasileiro n\u00e3o fala bem o portugu\u00eas, uma &#8220;l\u00edngua muito dif\u00edcil&#8221;!<\/p>\n<p>Dentre as dificuldades do portugu\u00eas, aquelas que certamente mais afetam o povo n\u00e3o s\u00e3o as que impedem uma boa leitura de Cam\u00f5es e Machado de Assis. A desgra\u00e7a mesmo est\u00e1 na nossa dificuldade em lidar com a l\u00edngua dos m\u00e9dicos, dos advogados, da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, dos ministros da Fazenda, dos projetos de lei e dos pol\u00edticos em geral. Estas, sim, l\u00ednguas bem estrangeiras, muitas vezes utilizadas de m\u00e1-f\u00e9, abusando das nossas defici\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Uma infinidade de palavras estrangeiras aportaram por aqui, sobretudo pela for\u00e7a econ\u00f4mica das modas e das tecnologias, mas aqui elas foram transformadas pela criatividade espont\u00e2nea do seu uso cotidiano. A vida na periferia seria melhor caso tiv\u00e9ssemos menos acesso \u00e0s palavras dos povos que hoje s\u00e3o, tecnol\u00f3gica e economicamente, mais poderosos?<\/p>\n<p>O deputado do PCdoB paulista, caso siga com essas patriotadas, pode acabar tendo o triste fim de Policarpo Quaresma. N\u00e3o podemos negar o idealismo do personagem de Lima Barreto. O que \u00e9 preciso ver \u00e9 o quanto ideais deste tipo quase sempre se prestam a nada, a simples exotismos, a diversionismos, e algumas vezes, acabam se prestando ao oposto do que parecem enunciar.<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Viol\u00eancia simb\u00f3lica<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>Por exemplo, o governo fascista do Estado Novo (1937-45) tentou &#8220;depurar&#8221; o pa\u00eds das culturas e idiomas n\u00e3o oficiais, e quis impor palavras como <em>ludop\u00e9dio <\/em>ao povo, cria\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rio baseada na disseca\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver do latim, em substitui\u00e7\u00e3o a um estrangeirismo ent\u00e3o muito popular, <em>football<\/em>. O que aconteceu, afinal? Hoje somos &#8220;o pa\u00eds do futebol&#8221; \u2013 o que certamente n\u00e3o deve escapar da estrat\u00e9gia de Nizan Guanaes para avan\u00e7armos sobre o mundo.<\/p>\n<p>Mesmo preocupado com o real excesso do uso de palavras do ingl\u00eas pelas empresas, que exploram o capital simb\u00f3lico da suposta distin\u00e7\u00e3o e sofistica\u00e7\u00e3o de quem usa este vocabul\u00e1rio \u2013 atraindo consumidores assim influenci\u00e1veis \u2013, e muitas vezes abusam das lacunas de nossa forma\u00e7\u00e3o escolar, Aldo se mostra despreocupado com formas de presen\u00e7a muito mais efetivas e s\u00e9rias do imperialismo no pa\u00eds. Um exemplo foi o seu not\u00e1vel empenho na aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Biosseguran\u00e7a, em 2005, que facilitou a vida das multinacionais dos transg\u00eanicos no Brasil (leia-se Bayer, Syngenta e Monsanto). H\u00e1 que se ver tamb\u00e9m o quanto Aldo, quando ocupou nada mais nada menos que a presid\u00eancia da C\u00e2mara, n\u00e3o se notabilizou como defensor da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica ou defensor das l\u00ednguas ind\u00edgenas que o pa\u00eds deixa morrer a cada dia. Ao inv\u00e9s de promover o conhecimento das 180 l\u00ednguas aut\u00f3ctones que resistem a duras penas, Aldo se preocupa com o que para ele n\u00e3o dever\u00edamos falar ou usar tanto.<\/p>\n<p>Entre o empres\u00e1rio materialista que diz claramente o que pensa e o pol\u00edtico idealista que se finge de louco \u2013 mas n\u00e3o rasga dinheiro \u2013 pessoalmente prefiro o primeiro, ainda que n\u00e3o embarque em nenhum dos dois &#8220;sonhos&#8221;. Eles, em sua superf\u00edcie, podem at\u00e9 ser a narra\u00e7\u00e3o de boas inten\u00e7\u00f5es, de afirma\u00e7\u00e3o cultural, mas carregam uma viol\u00eancia simb\u00f3lica projet\u00e1vel no exterior e no territ\u00f3rio nacional, a ser imposta aos povos em suas diversidades.<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>As invas\u00f5es dos anglicismos<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>O sonho que n\u00e3o \u00e9 sonho de Nizan Guanaes assim se apresenta no final do artigo &#8220;Vamos falar portugu\u00eas&#8221;: &#8220;N\u00f3s somos brasileiros, n\u00e3o \u00e9 nossa natureza colonizar ningu\u00e9m. Mas, em vez de subjug\u00e1-los com nossa l\u00edngua, podemos ilumin\u00e1-los.&#8221; O objeto indireto referido na \u00faltima senten\u00e7a, os seres a quem podemos iluminar, s\u00e3o principalmente os falantes de espanhol e em seguida os de italiano e franc\u00eas, primos de l\u00edngua. A publicidade das ag\u00eancias de Guanaes pode ser um exemplo do que entende por ilumina\u00e7\u00e3o, e a expans\u00e3o progressiva dos capitais de alguns brasileiros no mundo deve abrir mercado para estas luzes de neon. Sim, os discursos imperialistas est\u00e3o sempre carregados de belas justificativas civilizat\u00f3rias.<\/p>\n<p>O sonho que n\u00e3o \u00e9 sonho de Aldo Rebelo, \u00e9 por sua vez uma pol\u00edtica 100% reacion\u00e1ria. Ignora o internacionalismo que caracteriza historicamente os comunistas mais s\u00e9rios. E ignora a forma como Marx entendeu a linguagem: consci\u00eancia pr\u00e1tica dos homens, que se desenvolve e se realiza nos interc\u00e2mbios, na necessidade fundamental de interc\u00e2mbios entre os seres.<\/p>\n<p>Este sonho de Aldo \u00e9 mais um exemplo de sua reiterada loucura em querer (ou fingir que quer) unificar diferen\u00e7as muitas vezes antag\u00f4nicas, como as que op\u00f5em os pequenos produtores da agricultura familiar e o <em>agrobusiness<\/em>, os torturados e os torturadores, a esquerda e a direita, na base de pressupostos sempre equivocados e resultados que, no caso de terem chances de se concretizar, apontam mesmo para prop\u00f3sitos mal-intencionados.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de &#8220;defender a l\u00edngua&#8221; do processo de globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, deveria preocupar-se o deputado com alguns dr\u00e1sticos efeitos deste processo sobre &#8220;os falantes&#8221; brasileiros, exatamente o que n\u00e3o fez quando facilitou o ingresso das multinacionais dos transg\u00eanicos no pa\u00eds. As invas\u00f5es dos anglicismos s\u00e3o t\u00e3o perigosas como o foram os galicismos cem anos atr\u00e1s, os empr\u00e9stimos do franc\u00eas que nos ofereceram suti\u00e3s, mai\u00f4s e abajures!<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Trevas que imobilizam e amedrontam<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>O que nos dignificar\u00e1 enquanto povo \u00e9 a possibilidade de, num futuro pr\u00f3ximo, afirmarmos e assegurarmos, com todas as letras \u2013 sejam as do portugu\u00eas, do ingl\u00eas ou do nheengatu \u2013, nossa avers\u00e3o \u00e0s guerras, \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e0s contamina\u00e7\u00f5es e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, no territ\u00f3rio nacional e no mundo. Isso far\u00e1 de n\u00f3s um povo melhor, um povo n\u00e3o tutelado pelos projetos e pela l\u00edngua dos brasileiros que nos dirigem na economia e na pol\u00edtica, e que com isso n\u00e3o se contentam, querendo tamb\u00e9m nos dirigir na l\u00edngua.<\/p>\n<p>Chega de imposi\u00e7\u00f5es e tutela. Com mais educa\u00e7\u00e3o e respeito saberemos lidar de forma mais humana e generosa com os povos com os quais j\u00e1 estivemos em condi\u00e7\u00f5es de maior igualdade, como os da Am\u00e9rica hisp\u00e2nica e, sobretudo, os da \u00c1frica \u2013 que hoje os nossos empres\u00e1rios tentam recolonizar. Com educa\u00e7\u00e3o e respeito, lidaremos melhor tanto com as luzes de neon da publicidade, como com o abuso de estrangeirismos nos produtos comerciais, mas tamb\u00e9m, e principalmente, com os abusos feitos no nosso pr\u00f3prio idioma. Educa\u00e7\u00e3o para o consumo, para a pol\u00edtica, para ter poder sobre a pr\u00f3pria l\u00edngua, na qual todos somos poliglotas, visto que sempre negociamos entre o que dizemos aqui e o que dizemos ali, n\u00e3o com base em cursinhos privados, mas na nossa sensibilidade e vontade de acertar.<\/p>\n<p>Que possamos falar o que quisermos, do jeito que quisermos, nas l\u00ednguas que pudermos. E que possamos estudar o m\u00e1ximo, para saber direitinho todas as l\u00ednguas do poder, de modo a podermos nos expressar com dignidade e intelig\u00eancia, sem ceder \u00e0s luzes que ofuscam interesses de uns poucos, nem \u00e0s trevas que nos imobilizam e amedrontam diante de falsas amea\u00e7as, no instante mesmo em que as reais passeiam livremente em meio \u00e0 nossa cegueira s\u00fabita.<\/p>\n<p><strong> <\/p>\n<p>Arroubo de bom materialismo<\/p>\n<p> <\/strong><\/p>\n<p>Nizan e Aldo demonstram uma concep\u00e7\u00e3o de l\u00edngua bastante artificial, tal como \u00e9 a l\u00edngua dos publicit\u00e1rios e a l\u00edngua dos gram\u00e1ticos. De um lado, uma l\u00edngua que fala demais (diz muito mais do que diz, jogando com nossos desejos e preconceitos); de outro, uma l\u00edngua que fala de menos (mero formalismo, inculcando uma culpa por n\u00e3o sabemos &#8220;falar direito&#8221;).<\/p>\n<p>Mas vamos terminar com isso falando um portugu\u00eas mais claro, num arroubo de bom materialismo. O que une estes dois sonhos com a l\u00edngua portuguesa s\u00e3o os vultosos capitais das empreiteiras e demais empresas que l\u00e1 fora abrem mercados e aqui dentro reproduzem mandatos. Enquanto o publicit\u00e1rio e o pol\u00edtico discutem as palavras, os donos da Votorantim, Camargo Correa &amp; Cia fazem as festas que quiserem. E pagam bem, sem reclamar.<\/p>\n<p>Fointe: http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=601JDB009<\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: www.webartigos.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Rodrigo Oliveira Fonseca em 3\/8\/2010\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/727\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-727","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-bJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=727"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/727\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}