{"id":7271,"date":"2014-12-19T00:17:14","date_gmt":"2014-12-19T00:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7271"},"modified":"2017-08-25T00:47:57","modified_gmt":"2017-08-25T03:47:57","slug":"las-raizes-da-crise-na-china-capitalistar-uma-tese-polemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7271","title":{"rendered":"\u00abAs ra\u00edzes da crise na China capitalista\u00bb Uma tese pol\u00e9mica"},"content":{"rendered":"\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o actual da China exige estudo e debate aprofundado \u00e0 luz do marxismo. Em tal evolu\u00e7\u00e3o \u2013 no quadro do proclamado princ\u00edpio de \u201cum pa\u00eds, dois sistemas\u201d- os elementos especificamente capitalistas parecem adquirir um peso cada vez maior. Se se viesse a verificar que dos \u201cdois sistemas\u201d fosse o capitalista a adquirir um peso dominante, tal seria tr\u00e1gico. Para o povo chin\u00eas, em primeiro lugar. Para os povos de todo o mundo tamb\u00e9m, porque desapareceria uma for\u00e7a cujos interesses actuais s\u00e3o incompat\u00edveis com os dos EUA. E o imperialismo estado-unidense permanece o grande inimigo da humanidade.<\/p>\n<p>Desmontar \u00abpe\u00e7a a pe\u00e7a essa mentira desavergonhada, mostrar \u00e0 China, que se mascara com coqueteria de marxismo, de socialismo e comunismo, o seu verdadeiro rosto de G\u00f3rgona estatista e capitalista, e isso desde o in\u00edcio\u00bb &#8211; \u00e9 o objetivo de um livro que est\u00e1 a gerar compreens\u00edvel pol\u00e9mica em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se poderia crer por essa afirma\u00e7\u00e3o, a autora, Myl\u00e8ne Gaulart n\u00e3o \u00e9 anticomunista.<\/p>\n<p>Assumindo-se pelo contr\u00e1rio como marxista \u00e9 nessa condi\u00e7\u00e3o, recorrendo ao pensamento, ao m\u00e9todo e \u00e0 obra de Marx que essa jovem francesa, professora da Universidade de Grenoble, afirma que \u00aba dire\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (a China) pelo partido comunista nunca empreendeu, na verdade, uma rutura com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u00bb.<\/p>\n<p>As ideias defendidas no doutoramento foram posteriormente retomadas e desenvolvidas num livro que tem sido tema de interessantes debates*<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 ineg\u00e1vel que um pa\u00eds no qual o assalariamento continua em vigor, separando os trabalhadores e os seus meios de produ\u00e7\u00e3o &#8211; escreve &#8211; e no qual se encoraja um processo de produ\u00e7\u00e3o baseado nesse assalariamento e no fosso crescente entre o valor gerado pelo trabalho e a remunera\u00e7\u00e3o deste, um tal pa\u00eds somente pode ser analisado como capitalista\u00bb.<\/p>\n<p>Enumerando o conjunto das categorias espec\u00edficas do capitalismo, Myl\u00e8ne afirma que se imp\u00f5e uma conclus\u00e3o: \u00aba China \u00e9 plenamente capitalista\u00bb.<\/p>\n<p>Refletindo sobre os diferentes modos de produ\u00e7\u00e3o desde o asi\u00e1tico e o romano ao feudal e ao instaurado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial, a autora nega categoricamente \u00abo car\u00e1cter comunista da revolu\u00e7\u00e3o de 1949\u00bb. Segundo ela, \u00abas elites pol\u00edticas dos PCC situam-se, num pa\u00eds onde a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 rural, mais no acompanhamento da l\u00f3gica da burguesia ascendente do que numa oposi\u00e7\u00e3o frontal a esta\u00bb.<\/p>\n<p>No desenvolvimento da sua tese sublinha que \u00aba ades\u00e3o massiva dos funcion\u00e1rios do Kuomitang ao Partido garantiu o controlo de um aparelho de estado j\u00e1 fortemente burocr\u00e1tico\u00bb. E lembra que a quase totalidade dos militares de Chiang Kai-Shek, incluindo generais, aderiu ao novo Estado.<\/p>\n<p>Segundo \u00aba interpreta\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas &#8211; afirma Myl\u00e8ne &#8211; a bandeira da Republica Popular da China \u00e9, ali\u00e1s, identificada por um fundo vermelho que simboliza a revolu\u00e7\u00e3o e cinco estrelas amarelas que representam a uni\u00e3o do Partido Comunista com as quatro classes sociais do pa\u00eds, os trabalhadores prolet\u00e1rios, os camponeses, a pequena burguesia (comerciantes) e os capitalistas patriotas\u00bb.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Leu Shaoqui, logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o, criticou \u00abos camaradas que, a arrepio do bom senso, querem atacar a burguesia\u00bb e condenou \u00abos instintos destruidores de um proletariado de hooligans\u00bb.<\/p>\n<p>Grande parte do livro \u00e9 dedicada ao estudo da atual estrutura de classes na China, nomeadamente \u00e0 nova classe m\u00e9dia, ao papel do Estado e do Partido Comunista, e a temas econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da autora, \u00abo desenvolvimento da burguesia chinesa tinha j\u00e1 tinha sido t\u00e3o encorajado pelo Estado que este \u00faltimo podia retirar-\u00acse progressivamente da esfera da produ\u00e7\u00e3o, para ceder o lugar a essa nova classe dominante\u00bb.<\/p>\n<p>Recorrendo amplamente a estat\u00edsticas oficiais, informa que a participa\u00e7\u00e3o do Estado no PIB, que era de 31,2% em l978 caiu para 18% em 2012.<\/p>\n<p>Sublinhando que, apesar da redu\u00e7\u00e3o da pobreza ter diminu\u00eddo, a desigualdade social aumenta em vez de decrescer, alerta para o fato de a maioria dos bens de consumo dur\u00e1veis serem somente acess\u00edveis a 100 milh\u00f5es de pessoas, numa popula\u00e7\u00e3o total de 1300 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios aumentaram mais do que a produtividade nos \u00faltimos quinze anos, mas as elevadas taxas de crescimento da economia que guindaram o pa\u00eds a primeiro exportador mundial somente s\u00e3o poss\u00edveis porque o custo da m\u00e3o-de-obra \u00e9 ainda baix\u00edssimo, comparativamente aos EUA e aos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Citando Marx, Lenin e Rosa Luxemburgo a prop\u00f3sito das consequ\u00eancias dos fen\u00f3menos de superprodu\u00e7\u00e3o, reflete sobre os \u00eaxitos da ind\u00fastria chinesa e as suas fragilidades.<\/p>\n<p>A China, salienta, \u00e9 respons\u00e1vel atualmente por 85% da produ\u00e7\u00e3o mundial de tratores, de 75% dos rel\u00f3gios, de 70 % dos brinquedos, de 55% das camaras fotogr\u00e1ficas, mas a produtividade est\u00e1 em decl\u00ednio apesar do enorme aumento da taxa de investimento (48% do PIB em 2012). A participa\u00e7\u00e3o das empresas estatais na produ\u00e7\u00e3o industrial que atingia 80% em 1979 n\u00e3o ultrapassava 35% em 2012. Somente os EUA t\u00eam hoje mais bilion\u00e1rios, alguns membros do Comit\u00e9 Central do Partido.<\/p>\n<p>Um cap\u00edtulo inteiro \u00e9 dedicado \u00e0 baixa da taxa de lucro e \u00e0 inquietante bolha imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Myl\u00e8ne, ao analisar esses fen\u00f3menos, conclui que as causas das crises c\u00edclicas do capitalismo s\u00e3o j\u00e1 identific\u00e1veis na China cujos fundos de investimento figuram entre os mais importantes do mundo.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos seus colossais excedentes comerciais, a China possui as maiores reservas cambiais do mundo, avaliadas em 3 240 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, grande parte em t\u00edtulos do Tesouro dos EUA. Tamanha acumula\u00e7\u00e3o de capital \u00e9 perigosa se permanecer entesourada. Dai os recentes e gigantescos investimentos chineses em \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina, no Sudeste Asi\u00e1tico, na Europa e nos EUA.<\/p>\n<p>Essa pujan\u00e7a financeira n\u00e3o oculta, na opini\u00e3o de Myl\u00e8ne, as debilidades de uma economia amea\u00e7ada por atividades especulativas, pela corrup\u00e7\u00e3o e pelo crescimento desmesurado do setor imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Desde a \u00abtomada do Poder pelo Partido Comunista \u2013 enfatiza &#8211; o aparelho produtivo chin\u00eas caracteriza-se pela sua forte intensidade capital\u00edstica, cavando um fosso cada vez maior entre os sectores mais modernos da economia e os mais tradicionais (\u2026). A economia chinesa depende alem disso de maneira dramaticamente crescente dos seus mercados exteriores e n\u00e3o de uma demanda interior que cont\u00ednua insuficiente, e isso torna-a muito sens\u00edvel \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas internacionais\u00bb<\/p>\n<p>A autora encara o futuro do pa\u00eds a medio prazo sem otimismo.<\/p>\n<p>V\u00ea a China cada vez mais integrada no sistema global do capitalismo onde \u00abnada ocorre por acaso e menos ainda pela livre vontade dos indiv\u00edduos ou dos Estados. \u00c9 convic\u00e7\u00e3o sua que a crise atual somente pode desembocar num aprofundamento nocivo e nefasto, com a perspetiva de um encadeamento de ciclos mundiais de crises econ\u00f3micas e de guerras cada vez mais destruidoras, as \u00fanicas capazes de regenerar o capitalismo (\u2026)\u00bb<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o do livro \u00e9 ing\u00e9nua, quase rom\u00e2ntica. Perante o horizonte sombrio que esbo\u00e7a, Myl\u00e8ne enxerga a sa\u00edda num \u00abmovimento que um dia conduziria \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da verdadeira comunidade humana (\u2026)\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o emito uma opini\u00e3o sobre a tese central de Myl\u00e8ne Gaulart. Limito-me a chamar a aten\u00e7\u00e3o para o seu livro pol\u00e9mico.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive a oportunidade de visitar a China. Acompanho de longe, com absorvente interesse, as suas transforma\u00e7\u00f5es e o seu rumo, marcado por guinadas imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Como comunista, identifico no socialismo cient\u00edfico, criado por Marx e Engels, a alternativa para o capitalismo, o sistema que conduz \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo futuro para o chamado socialismo de mercado.<\/p>\n<p>O livro de Myl\u00e8ne Gaulart trouxe-me \u00e0 mem\u00f3ria a teoria da \u00abl\u00f3gica difusa\u00bb concebida por Loffy Zadek (nascido cidad\u00e3o sovi\u00e9tico em Baku em 1921) hoje amplamente utilizada no desenho de toda a aparelhagem e sistemas. A realidade difere da vis\u00e3o que dela tinha Arist\u00f3teles. Para Zadek a realidade \u00e9 difusa e dial\u00e9ctica, e quer m\u00e1quinas quer sistemas funcionam como o mundo, s\u00e3o parte dele \u00e0 semelhan\u00e7a da natureza e de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Como lembra o meu amigo e camarada Rui Rosa, a l\u00f3gica difusa apresenta pontos de contacto com o materialismo dial\u00e9ctico e o budismo. Essa proximidade, creio, estar\u00e1 presente na brumosa tese de Myl\u00e8ne Gaulart.<\/p>\n<p>A China aparece-me como o pa\u00eds do imprevis\u00edvel. Evito critic\u00e1-la porque os seus interesses nacionais, independentemente da ideologia, s\u00e3o incompat\u00edveis com os dos EUA. A confronta\u00e7\u00e3o entre Washington e Pequim \u00e9 inevit\u00e1vel. E para mim o imperialismo estado-unidense \u00e9 o grande inimigo da humanidade.<\/p>\n<p>V.N de Gaia, 11 de Dezembro de 2014<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p>* Myl\u00e8ne Gaulart, Karl Marx \u00e0 Pekin- Les Racines de la Crise en Chine Capitaliste, Editions Demopolis, 260 paginas, Paris, 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7271\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-7271","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Th","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7271\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}