{"id":729,"date":"2010-08-11T03:55:43","date_gmt":"2010-08-11T03:55:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=729"},"modified":"2017-09-17T11:27:22","modified_gmt":"2017-09-17T14:27:22","slug":"avanca-o-monopolio-da-terra-para-producao-de-agrocombustiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/729","title":{"rendered":"Avan\u00e7a o monop\u00f3lio da terra para produ\u00e7\u00e3o de agrocombust\u00edveis"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/cortadores_cana.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Maria Luisa Mendon\u00e7a*<\/p>\n<p>O monop\u00f3lio da terra segue como tema central diante do avan\u00e7o do capital sobre recursos estrat\u00e9gicos em todo o mundo. Nesse contexto, a produ\u00e7\u00e3o de agrocombust\u00edveis cumpre o papel de justificar este processo, a pretexto de servir como suposta alternativa para a crise clim\u00e1tica. Por\u00e9m, quando falamos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, estamos realmente nos referindo a mudan\u00e7as no uso do solo, com a expans\u00e3o dos monocultivos, da minera\u00e7\u00e3o, das grandes barragens, e outros projetos de controle de recursos energ\u00e9ticos, que est\u00e3o na raiz da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>No Brasil, os velhos usineiros, agora travestidos de empres\u00e1rios &#8220;modernos&#8221;, em consequ\u00eancia da propaganda sobre as supostas vantagens do etanol, intensificam suas campanhas internacionais para vender o produto. Recentemente, ganharam um refor\u00e7o especial, com o an\u00fancio do governo sobre acordos trabalhistas e de zoneamento ambiental. Por\u00e9m, um breve relato sobre as atuais tend\u00eancias do setor \u00e9 suficiente para mostrar que estas s\u00e3o apenas medidas de fachada.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas que historicamente marcaram a oligarquia rural no Brasil permanecem inalteradas. Ou seja, o monop\u00f3lio da terra, a explora\u00e7\u00e3o do trabalho e de recursos naturais estrat\u00e9gicos. A principal mudan\u00e7a tem sido a presen\u00e7a crescente do capital internacional na ind\u00fastria dos agrocombust\u00edveis. H\u00e1 alguns anos verifica-se um aumento do ritmo de aquisi\u00e7\u00f5es no setor sucroalcooleiro, com um crescimento na participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras e um aumento na concentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico de determinados grupos.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras na ind\u00fastria da cana no Brasil cresceu de 1% em 2000 para 20% em 2010. Existem cerca de 450 usinas no Brasil, controladas por 160 empresas nacionais e estrangeiras. De acordo com estudo do grupo KPMG Corporate Finance, de 2000 a setembro de 2009, ocorreram 99 fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es de usinas no Brasil. Entre estas, 45 negocia\u00e7\u00f5es aconteceram no per\u00edodo de 2007 a 2009, sendo que em 22 casos ocorreu a compra de uma usina nacional por um grupo estrangeiro.<\/p>\n<p>Em outubro de 2009, a empresa francesa Louis Dreyfus Commodities anunciou a compra de cinco usinas da Santelisa Vale, de Ribeir\u00e3o Preto (SP). A fus\u00e3o criou o grupo LDC-SEV Bioenergia, tornando-se o segundo maior produtor mundial de a\u00e7\u00facar e etanol. O grupo pretende produzir 40 milh\u00f5es de toneladas de cana-de-a\u00e7\u00facar por ano e tem participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria das fam\u00edlias Biaggi e Junqueira, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social) e do banco Goldman Sachs.<\/p>\n<p>Uma nova caracter\u00edstica da ind\u00fastria do etanol, se comparada ao Pr\u00f3-Alcool da d\u00e9cada de 1970, \u00e9 a alian\u00e7a entre setores do agroneg\u00f3cio com empresas petroleiras, automotivas, de biotecnologia, minera\u00e7\u00e3o, infraestrutura e fundos de investimento. Neste cen\u00e1rio, n\u00e3o existe nenhuma contradi\u00e7\u00e3o destes setores com a oligarquia latifundista, que se beneficia da expans\u00e3o do capital no campo e do abandono de um projeto de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 2009, a empresa petroleira brit\u00e2nica British Petroleum (BP) anunciou que ir\u00e1 produzir etanol no Brasil, com um investimento de US$ 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares nos pr\u00f3ximos dez anos. A BP ir\u00e1 atuar atrav\u00e9s da Tropical Bioenergia, em associa\u00e7\u00e3o com o Grupo Maeda e a Santelisa Vale, em Goi\u00e1s, que contam com uma \u00e1rea de 60 mil hectares para a produ\u00e7\u00e3o de cana no estado.<\/p>\n<p>Em julho de 2009, a Syngenta divulgou a aquisi\u00e7\u00e3o de terras para produzir mudas de cana-de-a\u00e7\u00facar na regi\u00e3o de It\u00e1polis (SP). O projeto inclui a produ\u00e7\u00e3o de mudas transg\u00eanicas e pretende se expandir para outros estados, como Goi\u00e1s, Minas Gerais, Paran\u00e1 e Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2010, ocorreram novas fus\u00f5es. Em janeiro, a multinacional agr\u00edcola Bunge anunciou a compra de quatro usinas do Grupo Moema, incluindo a usina Itapagipe que tinha participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria de 43,75% da empresa norte-americana Cargill. Com a negocia\u00e7\u00e3o, a Bunge passar\u00e1 a controlar 89% da produ\u00e7\u00e3o de cana do Grupo Moema, estimada em 15,4 milh\u00f5es de toneladas por ano.<\/p>\n<p>Em fevereiro, foi anunciada a fus\u00e3o da ETH Bioenergia, do grupo Odebrecht, com a Companhia Brasileira de Energia Renov\u00e1vel (Brenco), que pretende se tornar a maior empresa de etanol no Brasil, com capacidade para produzir tr\u00eas bilh\u00f5es de litros por ano. Alguns dos acionistas da Brenco s\u00e3o Vinod Khosla (fundador da Sun Microsystems), James Wolfensohn (ex-presidente do Banco Mundial), Henri Philippe Reichstul (ex-presidente da Petrobr\u00e1s), al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o do BNDES. J\u00e1 a Odebrecht tem sociedade com a empresa japonesa Sojitz. O novo grupo ir\u00e1 controlar cinco usinas: Alc\u00eddia (SP), Conquista do Pontal (SP), Rio Claro (GO), Eldorado (MS) e Santa Luzia (MS).<\/p>\n<p>O conglomerado ainda participa da constru\u00e7\u00e3o de um alcoolduto entre o Alto Taquari e o porto de Santos, e pretende instalar usinas na \u00c1frica. A empresa pretende captar R$ 3,5 bilh\u00f5es at\u00e9 2012, dos quais pelo menos 20% vir\u00e3o do BNDES, al\u00e9m de outros R$ 2 bilh\u00f5es que o banco j\u00e1 investiu anteriormente na Brenco.<\/p>\n<p>Nesta mesma linha, em fevereiro de 2010, a gigante petroleira holandesa Shell anunciou uma associa\u00e7\u00e3o com a Cosan para a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de etanol, com o objetivo de produzir 4 bilh\u00f5es de litros at\u00e9 2014. Ao divulgar a opera\u00e7\u00e3o, a nota da Shell afirmava que pretende criar &#8220;um rio de etanol, correndo desde as planta\u00e7\u00f5es no Brasil at\u00e9 a Am\u00e9rica do Norte e a Europa&#8221;. Apesar da repercuss\u00e3o internacional da pr\u00e1tica de trabalho escravo na Cosan, a empresa segue como l\u00edder no setor.<\/p>\n<p>Seguindo esta tend\u00eancia, a Vale anunciou que pretende produzir diesel a partir do \u00f3leo de palma na regi\u00e3o amaz\u00f4nica a partir de 2014, atrav\u00e9s de uma parceria com a empresa Biopalma da Amaz\u00f4nia S.A. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 produzir 500 mil toneladas de \u00f3leo de palma por ano. Parte do combust\u00edvel ser\u00e1 utilizada nas locomotivas da estrada de ferro e nas minas de Caraj\u00e1s, no Par\u00e1.<\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o do monocultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar<\/strong><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o territorial do monocultivo de cana, dados da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que, em 2006, eram 4,5 milh\u00f5es de hectares e, em 2008, chegaram a 8,5 milh\u00f5es de hectares. Na a safra de 2009 houve um aumento de 7,1% em rela\u00e7\u00e3o a 2008. Esta expans\u00e3o \u00e9 estimulada por recursos p\u00fablicos. Entre 2008 e 2009, estima-se que o setor sucroalcooleiro tenha recebi do mais de R$ 12 bilh\u00f5es do BNDES. Esta verba \u00e9 extra\u00edda, em grande medida, do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).<\/p>\n<p>Segundo a CONAB, 45,08% da safra foi destinada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e 54,9% \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de etanol, que resultou em 25,87 bilh\u00f5es de litros do produto. A expans\u00e3o da \u00e1rea plantada foi de 6,7%, ou cerca de 473 mil hectares. A maior expans\u00e3o ocorreu na regi\u00e3o do Cerrado, principalmente em Mato Grosso do Sul (38,80%) e Goi\u00e1s (50,10%).<\/p>\n<p>Dados do Laborat\u00f3rio de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goi\u00e1s, indicam que o ritmo atual de desmatamento do Cerrado poder\u00e1 elevar de 39% para 47% o percentual devastado do bioma at\u00e9 2050. A pesquisa demonstra ainda que a destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado coloca em risco a disponibilidade de recursos h\u00eddricos para o Pantanal e a Amaz\u00f4nia, pois estes biomas est\u00e3o interligados.<\/p>\n<p><strong>Trabalho escravo<\/strong><\/p>\n<p>As usinas de cana se tornaram campe\u00e3s em trabalho escravo nos \u00faltimos anos. De acordo com dados da Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Escravo da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), em 2007, dos 5.974 trabalhadores resgatados da escravid\u00e3o no campo brasileiro, 3.060, ou 51%, foram encontrados no monocultivo da cana de a\u00e7\u00facar. Em 2008, dos 5.266 resgatados, 2.553, ou 48% dos trabalhadores mantidos escravos no pa\u00eds estavam em planta\u00e7\u00f5es de cana. De janeiro a junho de 2009, este n\u00famero era de 951 trabalhadores, que representavam 52% do total. Ao final de 2009, o Minist\u00e9rio do Trabalho registrou a liberta\u00e7\u00e3o de 1.911 trabalhadores nas usinas de cana nos estados de Goi\u00e1s, Mato Grosso, Pernambuco, Esp\u00edrito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em 2009, o Minist\u00e9rio do Trabalho inclui grandes usinas na chamada &#8220;lista suja&#8221; do trabalho escravo. Uma delas foi a Brenco, que tem participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria de 20% do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social). Entre 2008 e 2009, o BNDES liberou R$ 1 bilh\u00e3o para usinas da Brenco em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goi\u00e1s. Ao mesmo tempo, o Grupo M\u00f3vel expediu 107 autos de infra\u00e7\u00e3o contra a empresa, que \u00e9 presidida pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul. Apesar da pr\u00e1tica de trabalho escravo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciou a continuidade do financiamento para a Brenco.<\/p>\n<p>Em 31 de dezembro de 2009, foi a vez do grupo Cosan &#8211; a maior empresa do setor sucroalcooleiro do pa\u00eds, com produ\u00e7\u00e3o anual de 60 milh\u00f5es de toneladas de cana. Apesar da pr\u00e1tica de trabalho escravo, a Cosan recebeu R$ 635,7 milh\u00f5es do BNDES em junho de 2009, para a constru\u00e7\u00e3o de uma usina de etanol em Goi\u00e1s. O BNDES manteve o financiamento para a Cosan, mesmo ap\u00f3s a evid\u00eancia de trabalho escravo. A Cosan possui 23 usinas, controla os postos da Exxon (Esso do Brasil) e teve um faturamento de R$ 14 bilh\u00f5es de reais em 2008.<\/p>\n<p>Em outubro de 2009, o Grupo M\u00f3vel libertou 55 trabalhadores escravizados na Destilaria Araguaia (chamada anteriormente de Gameleira), no Mato Grosso. Segundo o auditor fiscal Leandro de Andrade Carvalho, que coordenou a opera\u00e7\u00e3o, os trabalhadores estavam sem receber sal\u00e1rio h\u00e1 tr\u00eas meses. Esta foi a terceira liberta\u00e7\u00e3o realizada em oito anos na mesma usina. A Destilaria Araguaia pertence ao Grupo Eduardo Queiroz Monteiro (EQM) &#8211; um grande conglomerado econ\u00f4mico com sede em Pernambuco. O grupo controla outras usinas em Pernambuco, Tocantins e Maranh\u00e3o, al\u00e9m de participar como acionista em ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o como o jornal Folha de Pernambuco, a R\u00e1dio Folha de Pernambuco, Folha Digital de Pernambuco e Ag\u00eancia Nordeste.<\/p>\n<p>Em junho de 2009, fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho e do Minist\u00e9rio P\u00fablico detectaram irregularidades em usinas fiscalizadas na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto, em S\u00e3o Paulo, entre elas a Bazan, Andrade, Central Energ\u00e9tica Moreno A\u00e7\u00facar e \u00c1lcool, e Nardini Agroindustrial. As usinas n\u00e3o forneciam equipamento adequado (como luvas, sapatos e caneleiras) e foram constatadas irregularidades no pagamento da jornada de trabalho. Os trabalhadores declararam que cortam cerca de 20 toneladas de cana por dia. Os fiscais tamb\u00e9m registraram condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de moradia, como superlota\u00e7\u00e3o, locais com risco de inc\u00eandio e falta de condi\u00e7\u00f5es de higiene.<\/p>\n<p>Ainda em 2009, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) conseguiu uma liminar que obriga a usina S\u00e3o Martinho, em Limeira (SP), a corrigir irregularidades trabalhistas. Durante fiscaliza\u00e7\u00f5es nas safras de 2007 e 2008, o MPT constatou a falta de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, de seguran\u00e7a no trabalho, de cuidados m\u00e9dicos, de condi\u00e7\u00f5es de higiene e de alimenta\u00e7\u00e3o adequadas. A a\u00e7\u00e3o judicial inclui ainda a condena\u00e7\u00e3o da empresa ao pagamento de R$2 milh\u00f5es aos trabalhadores por dano moral.<\/p>\n<p><strong>Desemprego e trabalho degradante<\/strong><\/p>\n<p>A expans\u00e3o de monocultivos para a produ\u00e7\u00e3o de agroenergia gera desemprego, pois causa a expuls\u00e3o de camponeses de suas terras, impede que outros setores econ\u00f4micos se desenvolvam e gera depend\u00eancia dos trabalhadores a empregos prec\u00e1rios e tempor\u00e1rios.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Alves \u00e9 cortador de cana no interior de S\u00e3o Paulo e explica, &#8220;Esse servi\u00e7o \u00e9 muito ruim, a gente s\u00f3 vem porque precisa mesmo. Eu vim de Minas e l\u00e1 n\u00e3o tem outro servi\u00e7o. Mas a gente nunca sabe quanto vai receber, porque tem muito desconto do sal\u00e1rio. Eu recebo uma m\u00e9dia de $700 por m\u00eas, mas tudo \u00e9 caro &#8211; aluguel, alimenta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o sobra nada. A gente sabe que a usina rouba no pagamento, mas temos que ficar calados.\u201d<\/p>\n<p>A expans\u00e3o e a crescente mecaniza\u00e7\u00e3o do setor canavieiro t\u00eam gerado maior explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. A maioria dos trabalhadores n\u00e3o tem controle da pesagem de sua produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. &#8220;A gente nunca sabe quanto vai ganhar e o pagamento vem com muitos descontos. A usina rouba no peso ou na qualidade da cana cortada. Por exemplo, uma cana que vale $5 reais a tonelada, eles pagam s\u00f3 $3 reais. \u00c9 assim que a usina engana os trabalhadores&#8221;, denuncia D.S., cortador de cana em Engenheiro Coelho, SP.[1]<\/p>\n<p>Outro trabalhador da regi\u00e3o, Jacir Pereira, confirma a den\u00fancia: &#8220;A gente ganha pouco e o sal\u00e1rio n\u00e3o confere com o que a gente corta, nem com o acordo coletivo. O acordo diz que o pre\u00e7o da tonelada \u00e9 $5,85, mas a usina paga s\u00f3 $3,87. Eu tenho que cortar 18 toneladas de cana por dia, trabalhando de segunda a s\u00e1bado. S\u00f3 de aluguel eu pago $700,00 e n\u00e3o sobra quase nada&#8221;.<\/p>\n<p>As mulheres, apesar de discriminadas pelas usinas, tamb\u00e9m se arriscam no trabalho pesado, como conta a trabalhadora Odete Mendes, &#8220;Eu corto dez toneladas de cana por dia e ganho $190 reais por semana. S\u00f3 de aluguel, eu gasto $270 por m\u00eas. Eu vim do Paran\u00e1, mas n\u00e3o quero ficar mais aqui. A gente vive num quarto muito pequeno, tem que dormir no ch\u00e3o. Eu j\u00e1 quebrei o bra\u00e7o e nem aguento mais pegar no fac\u00e3o. Sinto falta de ar, \u00e0s vezes parece que vou morrer&#8221;.<\/p>\n<p>Os movimentos repetitivos no corte da cana causam tendinites e problemas de coluna, descolamento de articula\u00e7\u00f5es e c\u00e2imbras, provocadas por perda excessiva de pot\u00e1ssio. Carlita da Costa, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cosm\u00f3polis, conta que &#8220;Quando come\u00e7a a safra, voc\u00ea vai na ro\u00e7a e v\u00ea o pessoal todo com o pulso enfaixado, porque abre o pulso e eles n\u00e3o conseguem movimentar a m\u00e3o, n\u00e3o aguentam a dor. O pessoal tem muita tosse, muita dor de cabe\u00e7a, muita c\u00e2imbra&#8221;.<\/p>\n<p>Os ferimentos e mutila\u00e7\u00f5es causados por cortes de fac\u00e3o s\u00e3o frequentes. Por\u00e9m, raramente as empresas reconhecem estes casos como acidentes de trabalho. Muitos trabalhadores doentes ou mutilados, apesar de impedidos de trabalhar, n\u00e3o conseguem aposentadoria por invalidez. &#8220;J\u00e1 quebrei o bra\u00e7o duas vezes. Quando algu\u00e9m passa mal durante o trabalho, n\u00e3o recebe atendimento. Outro dia um companheiro feriu o olho e a enfermeira da usina n\u00e3o quis atender. Querem o nosso servi\u00e7o, mas n\u00e3o temos assist\u00eancia m\u00e9dica quando algu\u00e9m se machuca&#8221;, diz J. S., trabalhador da usina Ester em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Como forma de evitar que os trabalhadores morram de exaust\u00e3o, as usinas passaram a distribuir estimulantes com sais minerais, ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de dezenas de casos de morte nos canaviais. &#8220;Um dos trabalhadores que cortava mais cana na usina Ester era o Luquinha, conhecido como &#8220;pod\u00e3o de ouro&#8221;. Em pouco tempo, ele ficou doente, sentia dores em todo o corpo, n\u00e3o conseguia comer nem andar. Morreu aos 34 anos. O sistema do pagamento por produ\u00e7\u00e3o \u00e9 que causa a morte dos trabalhadores&#8221;, explica Carlita da Costa, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cosm\u00f3polis, SP.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 comum ouvir tosse e gritos nos canaviais. Temos que inalar os agrot\u00f3xicos e a cinza da cana queimada o dia todo. Uma vez eu ca\u00ed no monte de cana e senti um gosto de sangue na boca. Percebi que o corte da cana estava me matando&#8221;, completa Carlita.<\/p>\n<p><strong>Migra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo (maior produtor do Pa\u00eds), a maioria dos trabalhadores no corte da cana \u00e9 formada por migrantes. O desemprego causado pelo modelo agr\u00edcola baseado no monocultivo e no latif\u00fandio aumenta o contingente de trabalhadores que se submetem a trabalhar em lugares distantes de sua origem, em condi\u00e7\u00f5es degradantes. Estes trabalhadores s\u00e3o aliciados por &#8220;gatos&#8221; ou &#8220;turmeiros&#8221;, que realizam o transporte e fazem a intermedia\u00e7\u00e3o das contrata\u00e7\u00f5es com as usinas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do trabalhador E. S. ilustra a situa\u00e7\u00e3o dos migrantes, &#8220;Tenho 27 anos e vim da Para\u00edba, porque l\u00e1 n\u00e3o tem trabalho. Tem muito nordestino aqui. A gente ganha uns $20 reais por dia, mas o custo de vida \u00e9 muito alto. A usina baixa o pre\u00e7o da cana e n\u00e3o temos controle&#8221;.<\/p>\n<p>Ana C\u00e9lia tem uma hist\u00f3ria parecida, &#8220;Tenho 24 anos e vim de Pernambuco. A usina rouba no peso da cana. A gente corta 60 quilos e recebemos somente por 50 quilos. Tenho problema na coluna, sinto dor no corpo todo. J\u00e1 emagreci nove quilos nessa safra. Meu marido cortava cana, mas foi afastado porque ficou doente. Quero ir embora&#8221;.<\/p>\n<p>A trabalhadora Edite Rodrigues resume a situa\u00e7\u00e3o no corte da cana. &#8220;Tenho 31 anos e vim de Minas Gerais. Tenho tr\u00eas filhos e preciso trabalhar, mas a gente n\u00e3o v\u00ea a hora de ir embora. Quando termina o dia, o corpo est\u00e1 todo quebrado, sinto c\u00e2imbra e \u00e2nsia de v\u00f4mito. Mas no outro dia, come\u00e7a tudo de novo. A cinza da cana ataca o pulm\u00e3o e n\u00e3o sara nunca. A terra fica seca com o sol quente e vem aquele p\u00f3. \u00c0s vezes s\u00f3 ganho $50 reais por semana porque a usina engana a gente.&#8221;<\/p>\n<p>Carlita da Costa conclui que, &#8220;Vai continuar morrendo gente, o roubo vai continuar at\u00e9 o dia que acabar o trabalho por produ\u00e7\u00e3o. Esse m\u00e9todo de pagamento mata os trabalhadores&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Luta camponesa<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ocupar apenas um quarto da \u00e1rea, o Censo mais recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) constatou que a agricultura camponesa responde por 38% do valor da produ\u00e7\u00e3o (ou R$ 54,4 bilh\u00f5es). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de empregos, de cada dez trabalhadores no campo, sete est\u00e3o na agricultura camponesa, que emprega 15,3 pessoas por 100 hectares. No caso da agricultura extensiva, em cada 100 hectares s\u00e3o gerados apenas dois empregos.<\/p>\n<p>Segundo an\u00e1lise de Frei Sergio G\u00f6rgen, dirigente do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), &#8220;No Plano Safra 2009\/2010 foram destinados R$ 93 bilh\u00f5es para o agroneg\u00f3cio e R$15 bilh\u00f5es para a agricultura camponesa, sendo que 1 hectare da agricultura camponesa teve, em m\u00e9dia, uma renda de R$ 677,00, enquanto que 1 hectare do agroneg\u00f3cio teve, em m\u00e9dia, uma renda de apenas R$ 368,00. Daquilo que vai para a mesa dos brasileiros, 70% \u00e9 produzido pelos pequenos agricultores&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de receber subs\u00eddios de forma desproporcional, o latif\u00fandio se beneficia com outras formas de privil\u00e9gio, como a Medida Provis\u00f3ria que legaliza a grilagem de terras na Amaz\u00f4nia, a &#8220;flexibiliza\u00e7\u00e3o&#8221; da legisla\u00e7\u00e3o ambiental e trabalhista, a continuidade da pr\u00e1tica de trabalho escravo, entre outras. O monop\u00f3lio da terra impede que outros setores econ\u00f4micos se desenvolvam, gerando desemprego, estimulando a migra\u00e7\u00e3o e a submiss\u00e3o de trabalhadores a condi\u00e7\u00f5es degradantes. Este cen\u00e1rio significa que a resist\u00eancia dos camponeses \u00e9 estrat\u00e9gica, j\u00e1 que se encontram no centro da disputa por recursos estrat\u00e9gicos, com o avan\u00e7o do capital no meio rural.<\/p>\n<p><strong>Nota:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Estas entrevistas foram realizadas em setembro de 2009. Alguns nomes de trabalhadores foram substitu\u00eddos por suas iniciais, para evitar retalia\u00e7\u00e3o por parte das usinas. A autora agradece o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cosm\u00f3polis, ao Movimento Sem Terra e a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra pelo apoio a pesquisa.<\/p>\n<p><strong>[Fonte: Revista Caros Amigos \/ Minga Informativa]<\/strong><\/p>\n<p><strong>[*] Jornalista e coordenadora da Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Reproduzido de<a href=\"http:\/\/www.adital.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> www.adital.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><strong>Esta p\u00e1gina<\/strong>tra-se em <a href=\"http:\/\/www.cecac.org.br\/MATERIAS\/monopolio_terra_m.l.mendonca-3.8.10.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.cecac.org.br<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: cecac.org.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nMaria Luisa Mendon\u00e7a*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/729\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-729","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-bL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=729"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}