{"id":7290,"date":"2014-12-27T15:39:40","date_gmt":"2014-12-27T15:39:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7290"},"modified":"2014-12-27T15:39:40","modified_gmt":"2014-12-27T15:39:40","slug":"modernidade-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7290","title":{"rendered":"MODERNIDADE DE MARX"},"content":{"rendered":"\n<p>No Rio de Janeiro, em casa de uma amiga, caiu-me nas m\u00e3os por acaso um daqueles livros raros que nos lan\u00e7am em medita\u00e7\u00e3o inesperada.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da edi\u00e7\u00e3o brasileira, <em>A Armadilha da Globaliza\u00e7\u00e3o,<\/em> n\u00e3o \u00e9 esclarecedor. Foi editado em 1998 pela Globo. Os autores s\u00e3o dois jornalistas alem\u00e3es, Hans Peter Martin e Harald Schumann.<\/p>\n<p>Hans Peter foi um dos tr\u00eas jornalistas convidados a acompanhar um estranho evento internacional realizado num hotel de luxo em S\u00e3o Francisco, em 1995. O promotor do Encontro, que n\u00e3o mereceu aten\u00e7\u00e3o dos <em>media estadunidenses,<\/em> foi Mikhail Gorbatchov. O tema era muito ambicioso: O futuro da Humanidade.<\/p>\n<p>Participaram 500 representantes da chamada elite mundial, entre os quais George Bush pai, Margaret Thatcher, Ted Turner, da CNN, eminentes professores de Harvard e Oxford e economistas e soci\u00f3logos vindos da Europa, de T\u00f3quio e Pequim.<\/p>\n<p>Os debates duraram tr\u00eas dias e as interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o podiam exceder 5 minutos, com os pedidos de apartes limitados a 2 minutos.<\/p>\n<p>Houve consenso relativamente a uma \u00abtese\u00bb de David Packard, o poderoso patr\u00e3o da Hewlett Packard. Apoiado em previs\u00f5es estat\u00edsticas, afirmou com convic\u00e7\u00e3o que em meados do s\u00e9culo XXI 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial ser\u00e1 suficiente, gra\u00e7as aos progressos da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, para garantir o bom funcionamento da economia. Ficou impl\u00edcito que uns 40% das classes m\u00e9dias ent\u00e3o existentes ter\u00e3o uma vida agrad\u00e1vel, mais ou menos ociosa por serem sup\u00e9rfluos para a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o ficou claro, por\u00e9m, qual seria a fun\u00e7\u00e3o dos restantes 40%.<\/p>\n<p>Nenhum participante defendeu a necessidade de eliminar essa fra\u00e7\u00e3o sobrante da humanidade. Mas de algumas interven\u00e7\u00f5es, aplaudidas, transpareceu que guerras, secas, inunda\u00e7\u00f5es e epidemias incontrol\u00e1veis contribuiriam para que a popula\u00e7\u00e3o do planeta Terra fosse reduzida ao n\u00edvel considerado adequado pelos grandes do capital.<\/p>\n<p>Interessado em conhecer a repercuss\u00e3o desse Semin\u00e1rio da elite da Finan\u00e7a mundial, soube por um amigo americano que Gorbatchov foi, no final, efusivamente felicitado.<\/p>\n<p>A HIST\u00d3RIA N\u00c3O ACABOU; E O MARXISMO RENASCE<\/p>\n<p>A previs\u00e3o sobre o Fim da Hist\u00f3ria foi formulada pelo norte-americano Francis Fukuyama em 1989.<\/p>\n<p>Esse funcion\u00e1rio do Departamento de Estado, hegeliano fora de tempo, festejou prematuramente a morte do comunismo, proclamando a eternidade do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Transcorridas d\u00e9cadas, o seu exerc\u00edcio de futurologia \u00e9 ridicularizado inclusive por acad\u00eamicos de direita.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Quanto ao marxismo, voltou a despertar um enorme interesse em escala mundial.<\/p>\n<p><em>O Manifesto Comunista <\/em>tem sido reeditado em dezenas de pa\u00edses. Congressos sobre Marx e a sua obra s\u00e3o promovidos na Europa, na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1sia.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, um Semin\u00e1rio sobre O MARXISMO NO S\u00c9CULO XXI, promovido na Sorbonne por Jean Salem, \u00e9 acompanhado na Internet por umas 30 000 pessoas. Nos \u00faltimos anos, Salem tem corrido o mundo para falar sobre Marx em universidades europeias, asi\u00e1ticas, africanas e latino-americanas.<\/p>\n<p>Ensaios sobre o pensamento do autor de <em>O Capital <\/em>s\u00e3o editados em muitas l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Marxistas como o h\u00fangaro Istv\u00e1n Meszaros, o italiano Domenico Losurdo, o ingl\u00eas David Harvey, o alem\u00e3o Michael Krakte, o argentino Claudio Katz, os franceses Georges Labica, Jean Salem e R\u00e9my Herrera adquiriram prest\u00edgio mundial com a publica\u00e7\u00e3o de trabalhos que confirmam a extraordin\u00e1ria atualidade da obra de Marx.<\/p>\n<p>A ofensiva do capital contra as grandes conquistas dos trabalhadores posteriores \u00e0 da II Guerra Mundial, desencadeada ap\u00f3s 1973, acentuou-se depois do fim da URSS. A contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal, liderada por Thatcher e Reagan, tirou da gaveta as teses ultramontanas de Hayek e em poucos anos desmantelou na Uni\u00e3o Europeia o chamado \u00abestado do bem-estar social\u00bb.<\/p>\n<p>A DESIGUALDADE AUMENTOU<\/p>\n<p>Os mais ricos enriqueceram prodigiosamente, as massas oprimidas empobreceram e uma percentagem consider\u00e1vel vegeta hoje na pobreza ou numa mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da ONU divulgado em 1990 informava que 358 bilion\u00e1rios concentravam na \u00e9poca um patrim\u00f3nio equivalente \u00e0 renda total de 45% dos cidad\u00e3os mais pobres do mundo, 2.300 milh\u00f5es de pessoas. Os tr\u00eas primeiros da lista tinham fortunas superiores ao PIB de pa\u00edses com 600 milh\u00f5es de habitantes. Desde ent\u00e3o o fosso aprofundou-se, mas houve mudan\u00e7as na pir\u00e2mide dos bilion\u00e1rios. Hoje o homem mais rico do mundo \u00e9 o mexicano Slim, que ultrapassou o americano Bill Gates, da Microsoft. Essa troca de lugares \u00e9 por si s\u00f3 esclarecedora do n\u00edvel da explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidos os trabalhadores do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de poder alteraram-se profundamente no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo. A URSS desagregou-se, a R\u00fassia e os pa\u00edses da Europa Oriental n\u00e3o s\u00e3o mais socialistas; a China, sob a dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista, \u00e9 um gigante mundial que pratica um capitalismo at\u00edpico; e os EUA, incapazes de superar a crise estrutural do capitalismo, desencadeiam guerras de saque na \u00c1sia e na \u00c1frica no \u00e2mbito de uma estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um sistema midi\u00e1tico perverso, que desinforma a Humanidade, tornou-se o instrumento de poder fundamental para o imperialismo. O desencadeamento das agress\u00f5es contra pa\u00edses que os EUA pretendem ocupar e saquear \u00e9 sempre precedido de campanhas que as justificam em defesa das liberdades, da democracia, dos direitos humanos\u2026<\/p>\n<p>Desmontar a falsifica\u00e7\u00e3o da Historia \u00e9, portanto, hoje uma exig\u00eancia na luta contra a aliena\u00e7\u00e3o dos povos.<\/p>\n<p>Nunca foi t\u00e3o necess\u00e1rio compreender o mundo e a estrat\u00e9gia da ideologia hegem\u00f4nica, o capitalismo.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o favoreceu o \u00abrenascimento\u00bb do marxismo. Da\u00ed a import\u00e2ncia dos intelectuais que contribuem para a modernidade de Marx neste in\u00edcio do seculo XXI.<\/p>\n<p>J\u00e1 Lenin dizia que n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa sem teoria.<\/p>\n<p>DAVID HARVEY<\/p>\n<p>Em recente visita ao Brasil, Ivana Jinkings ofereceu-me parte da monumental obra de David Harvey, nomeadamente a segunda edi\u00e7\u00e3o de \u00abOs Limites do Capital\u00bb.<\/p>\n<p>Publicado em 1982, esse livro n\u00e3o se desatualizou, pelo contr\u00e1rio. Ajuda-nos a compreender uma humanidade diferente, amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o por um sistema que, sob a m\u00e1scara da democracia, \u00e9 t\u00e3o perigoso como o nazismo.<\/p>\n<p>Harvey n\u00e3o \u00e9 um revisionista. Em <em>Os Limites do Capital <\/em>prop\u00f5e-se a facilitar o entendimento dos textos do genial fil\u00f3sofo alem\u00e3o, \u00ab adapt\u00e1-los de maneira que possam lidar com as complexidades da nossa \u00e9poca\u00bb.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 compreender um tempo em que o capitalismo, como ele afirma, se consolidou em pa\u00edses como o M\u00e9xico, a \u00c1frica do Sul e a India e conseguiu implantar- se na R\u00fassia e na China.<\/p>\n<p>Harvey nos lembra que \u00abo significado do Estado mudou dramaticamente nos \u00faltimos 30 anos e que o principal agente de press\u00e3o nessa mudan\u00e7a foi algo chamado globaliza\u00e7\u00e3o\u00bb. Alinha com aqueles que \u00abconsideram o Estado como <em>um momento <\/em>vital na dial\u00e9tica e na fun\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria da acumula\u00e7\u00e3o do capital\u00bb.<\/p>\n<p>Noutro dos seus livros, o ge\u00f3grafo e pensador brit\u00e2nico define o novo imperialismo como \u00abfus\u00e3o contradit\u00f3ria da pol\u00edtica do Estado e do imp\u00e9rio e dos processos moleculares da acumula\u00e7\u00e3o do capital no espa\u00e7o e no tempo\u00bb.<\/p>\n<p>Harvey, creio, cumpre hoje um papel que lembra o do franc\u00eas Georges Politser no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando tornou o marxismo acess\u00edvel a milh\u00f5es de oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Harvey dirige-se a um p\u00fablico diferente, de intelectuais e jovens estudiosos do marxismo, mas isso n\u00e3o retira import\u00e2ncia \u00e0 sua obra.<\/p>\n<p>Nestes dias de confus\u00e3o ideol\u00f3gica em que partidos como o Syriza grego e o Podemos espanhol semeiam a confus\u00e3o em meios progressistas ao surgirem com m\u00e1scara de esquerda, os livros de David Harvey representam uma valiosa contribui\u00e7\u00e3o para o <em>regresso <\/em>de Marx.<\/p>\n<p>Verifiquei, sem surpresa, no Brasil que a intelectualidade burguesa promove ali com entusiasmo o livro <em>O Capital no seculo XX, <\/em>de Thomas Pikkety. Tal como em Portugal, tentam apresentar o autor como um continuador de Marx quando, na realidade, o acad\u00eamico franc\u00eas \u00e9 um reformador do capitalismo com uma mundivid\u00eancia antag\u00f4nica \u00e0 marxista.<\/p>\n<p>Neste tempo de barb\u00e1rie capitalista e de luta creio que a leitura da obra de David Harvey seria \u00fatil a dirigentes de partidos comunistas europeus que acreditam ingenuamente na possibilidade de contribu\u00edrem para a futura constru\u00e7\u00e3o do socialismo utilizando as institui\u00e7\u00f5es criadas pela burguesia.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, dezembro de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n(Miguel Urbano Rodrigues)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7290\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-7290","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1TA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7290\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}