{"id":7309,"date":"2015-01-06T00:50:11","date_gmt":"2015-01-06T00:50:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7309"},"modified":"2017-08-25T01:02:17","modified_gmt":"2017-08-25T04:02:17","slug":"os-desafios-da-luta-anticapitalista-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7309","title":{"rendered":"Os desafios da luta anticapitalista no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>As ilus\u00f5es constru\u00eddas em torno do mote \u201cMuda Mais\u201d durante a campanha eleitoral de Dilma Rousseff n\u00e3o duraram muito mais que alguns dias ap\u00f3s o fim das elei\u00e7\u00f5es. O imagin\u00e1rio do eleitorado que votou na candidata do PT acreditando que seria poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda pol\u00edtica que de fato atendesse \u00e0s demandas e as reivindica\u00e7\u00f5es dos setores populares e da classe trabalhadora esvaiu-se na fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a do &#8216;retorno do projeto neoliberal&#8217; expresso na figura de A\u00e9cio Neves acabou por unificar alguns setores da esquerda socialista em torno da candidatura de Dilma e levou as ruas milhares de militantes de movimentos sociais e populares que jogaram um peso decisivo em sua recondu\u00e7\u00e3o \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Contudo, este fator foi superestimado e \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o um elemento que a t\u00e1tica petista fez &#8216;desaparecer&#8217; como um passe de m\u00e1gicas do processo de constru\u00e7\u00e3o de campanha em 2014. Uma das bases fundamentais da reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff foi o apoio de amplos setores da burguesia que apostaram pesado na reelei\u00e7\u00e3o do projeto petista.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa que a campanha de Dilma recebeu R$ 318 milh\u00f5es de reais financiados pelo capital monopolista. Este dado simboliza e expressa didaticamente que o projeto em curso no Brasil est\u00e1 submetido aos interesses do capital, no qual os trabalhadores e os setores populares entram a reboque, como elementos importantes para legitima\u00e7\u00e3o de um projeto desenvolvimentista do capital, no qual a classe trabalhadora deve ser submetida, controlada e apassivada para que o capitalismo avance tranquilamente seu curso, sem maiores sobressaltos.<\/p>\n<p>A agenda pol\u00edtica do &#8216;novo&#8217; governo Dilma expressa essa configura\u00e7\u00e3o. O aumento da taxa de juros, a anunciada austeridade nas contas p\u00fablicas, no sentido de preservar o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica e a restri\u00e7\u00e3o de direitos previdenci\u00e1rios, que afetam diretamente os trabalhadores, s\u00e3o pontas de um iceberg. A composi\u00e7\u00e3o ministerial s\u00f3 pode fazer espantar aqueles que compraram a ilus\u00e3o de que seria poss\u00edvel uma guinada \u00e0 esquerda. O lulodilmismo, express\u00e3o pol\u00edtica de um projeto de desenvolvimento capitalista sustentado pela &#8216;pactua\u00e7\u00e3o&#8217; entre capital e trabalho, procura sua manuten\u00e7\u00e3o, realizando agora os ajustes necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia e crescimento do capital.<\/p>\n<p>Para a continuidade do lulodilmismo \u00e9 preciso conservar as apar\u00eancias, refor\u00e7ando uma falsa dicotomia entre PT e PSDB, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio de amea\u00e7as da direita, o que mant\u00eam na defesa do governo amplos setores dos movimentos sociais e sindicais cooptados como base social do projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes. As pautas de &#8216;golpe da direita&#8217;, &#8216;onda conservadora&#8217;, &#8216;m\u00eddia golpista&#8217;, &#8216;amea\u00e7as externas&#8217;, &#8216;reforma pol\u00edtica&#8217; s\u00e3o, em verdade, cortinas de fuma\u00e7a que conseguem matar dois coelhos com uma cajadada s\u00f3. Ao mesmo tempo que retiram o foco da verdadeira luta a ser travada (contra o capital) conseguem manter amplos setores dos movimentos sociais, populares e sindicais mobilizados e amarrados ao projeto pol\u00edtico em curso.<\/p>\n<p>A ideia de um governo em disputa dentro da institucionalidade, irradiado nos primeiros anos do governo Lula, j\u00e1 perdeu o sentido. Por\u00e9m, essa no\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo reoxigenada, com outro matiz. Agora a disputa pelos rumos do governo deve se dar nas ruas, no qual os movimentos sociais e os trabalhadores devem pressionar o governo pr\u00f3-mudan\u00e7as \u00e0 esquerda. A t\u00e1tica petista se refor\u00e7a com discursos de lideran\u00e7as nacionais do PT, como os de Lula e Tarso Genro, que vem declarando que \u00e9 preciso reconstruir alian\u00e7as com a esquerda socialista, que os jovens devem se manter nas ruas, etc. Tais discursos t\u00eam como plano de fundo refor\u00e7ar a hegemonia petista nos movimentos de massa, duramente amea\u00e7ada pelas jornadas de junho de 2013.<\/p>\n<p>Uma nova hegemonia nos movimentos de massa que vem sendo constru\u00edda pela base atrav\u00e9s de movimentos e organiza\u00e7\u00f5es, que seguem combativos e que n\u00e3o se renderam ao lulodilmismo, tem sofrido algumas respostas por parte do governismo: a repress\u00e3o estatal por um lado e a coopta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por outro. Essa l\u00f3gica tem por finalidade desestruturar qualquer alternativa que se oponha de fato ao sistema e que esteja fora do &#8216;pacto&#8217; entre as classes.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio da luta de classes no Brasil \u00e9 \u00e1rduo e complexo para as for\u00e7as anticapitalistas. A luta contra a hegemonia burguesa passa pelo combate ao governismo, ao reformismo e aos setores pol\u00edticos conservadores (para al\u00e9m daqueles que se aliaram ao projeto petista) que ter\u00e3o na institucionalidade e nos canais da grande m\u00eddia um palanque permanente para fazerem &#8216;oposi\u00e7\u00e3o&#8217;, caracterizada por um falso discurso de mudan\u00e7as e que em verdade n\u00e3o se diferencia em nada ao atual programa pol\u00edtico e da forma de condu\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Os partidos, movimentos e organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o embarcaram no &#8216;canto da sereia&#8217; do projeto petista constru\u00edram nos \u00faltimos dez anos uma s\u00e9rie de formula\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas e mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que voltadas para a base dos movimentos sociais e populares, conseguiram construir um potencial de lutas e de organiza\u00e7\u00e3o que teve como sua principal express\u00e3o as jornadas de junho de 2013. N\u00e3o podemos esquecer que as amplas mobiliza\u00e7\u00f5es tiveram sua origem na organiza\u00e7\u00e3o e no trabalho de massa desenvolvido por uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es que, apesar de apresentar uma diversidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, t\u00eam como ponto de unidade o anticapitalismo.<\/p>\n<p>A luta anticapitalista vem sendo duramente atacada. Os partidos da ordem atrav\u00e9s dos mecanismos de repress\u00e3o do Estado tem procurado reprimir os movimentos de massa. O petismo atrav\u00e9s da permanente coopta\u00e7\u00e3o busca inserir pautas governistas como bandeiras a serem levantadas, confundindo a luta. J\u00e1 os setores ligados \u00e0 extrema-direita tentam construir um movimento de massas que d\u00ea sustenta\u00e7\u00e3o ao projeto de fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>O desafio das for\u00e7as anticapitalistas \u00e9 manter-se nas ruas, mobilizando e organizando as pautas populares e da classe trabalhadora, n\u00e3o se deixando intimidar e cooptar pelos falsos discursos e pelas bandeiras plantadas para dispersar e confundir o que deve ser a luta central: derrotar o capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de um programa e de uma agenda pol\u00edtica anticapitalista, que n\u00e3o vise as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, mas sim a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa pol\u00edtica e hist\u00f3rica, que pode ter no Poder Popular a principal bandeira para a unidade das diferentes organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o vasto campo anticapitalista no pa\u00eds. A frente anticapitalista deve deixar de ser um enunciado para concretizar-se.<\/p>\n<p>O ano de 2015 promete ser um ano intenso. Tudo aponta para o recrudescimento das pol\u00edticas de austeridade, a perda de direitos dos trabalhadores e o aumento da repress\u00e3o e da criminaliza\u00e7\u00e3o de quem luta. Em contrapartida, pode-se apostar no crescimento das mobiliza\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es de corte classista e popular, que ser\u00e3o alvo de disputa entre as for\u00e7as reformistas e anticapitalistas.<\/p>\n<p>O terreno eleitoral, j\u00e1 est\u00e1 demonstrado, \u00e9 de dom\u00ednio da burguesia e n\u00e3o deve haver ilus\u00f5es. Nossa luta \u00e9 nas ruas, junto aos movimentos de massa e as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Se os ricos t\u00eam os meios, as ruas s\u00e3o e devem ser, cada vez mais, nossas!<\/p>\n<p><em>*Rodrigo Lima \u00e9 mestre em Sociologia. \u00c9 professor do IFSC e da rede p\u00fablica estadual de Santa Catarina e membro do Comit\u00ea Regional do PCB\/SC. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRodrigo Lima*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7309\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-7309","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1TT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7309","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7309"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7309\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}