{"id":7318,"date":"2015-01-11T12:16:24","date_gmt":"2015-01-11T12:16:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7318"},"modified":"2015-01-11T12:16:24","modified_gmt":"2015-01-11T12:16:24","slug":"o-imperio-e-a-legitimacao-da-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7318","title":{"rendered":"O imp\u00e9rio e a legitima\u00e7\u00e3o da tortura"},"content":{"rendered":"\n<p>O Relat\u00f3rio do Comit\u00e9 de Intelig\u00eancia do Senado dos Estados Unidos descreve de forma minuciosa as diferentes \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio\u201d utilizadas pela CIA. Trata-se da pr\u00e1tica sistem\u00e1tica, b\u00e1rbara e cega da tortura. Com toda a cobertura pol\u00edtica, jur\u00eddica e medi\u00e1tica do poder de Estado. Mas, por horr\u00edvel que seja a informa\u00e7\u00e3o que o Relat\u00f3rio disponibiliza, ele est\u00e1 longe de conter toda a verdade, ou de tirar as devidas conclus\u00f5es do que relata.<\/p>\n<p>ALAI AMLATINA, 12\/12\/2014.- A publica\u00e7\u00e3o do Relat\u00f3rio do Comit\u00e9 de Intelig\u00eancia do Senado dos Estados Unidos dado a conhecer h\u00e1 dias descreve de forma minuciosa as diferentes \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio\u201d utilizadas pela CIA para extrair informa\u00e7\u00e3o relevante na luta contra o terrorismo. O que foi tornado p\u00fablico \u00e9 apenas um resumo, de umas 500 p\u00e1ginas, de um estudo que cont\u00e9m umas 6.700 e cuja primeira e r\u00e1pida leitura produz uma sensa\u00e7\u00e3o de horror, indigna\u00e7\u00e3o e repugn\u00e2ncia como poucas vezes experimentou quem escreve estas linhas. [1] Os adjectivos para qualificar esse l\u00fagubre invent\u00e1rio de horrores e atrocidades n\u00e3o conseguem transmitir a patol\u00f3gica desumanidade do que ali se conta, apenas compar\u00e1vel \u00e0s viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos perpetradas na Argentina pela ditadura c\u00edvico-militar, ou as que no quadro do Plano Condor se consumaram contra milhares de latino-americanos nos anos de chumbo.<\/p>\n<p>O Relat\u00f3rio \u00e9 suscept\u00edvel de m\u00faltiplas leituras, que animar\u00e3o seguramente um significativo debate. Para come\u00e7ar digamos que o simples facto da sua publica\u00e7\u00e3o produz um dano irrepar\u00e1vel para a pretens\u00e3o estado-unidense de se erigir em campe\u00e3o dos direitos humanos, sendo que uma ag\u00eancia do governo, com linha directa para a Presid\u00eancia, perpetrou estas atrocidades ao longo de v\u00e1rios anos com o aval \u2013 caso de George W. Bush &#8211; ou a displicente indiferen\u00e7a do seu sucessor na Casa Branca.<\/p>\n<p>Obviamente, se j\u00e1 antes os Estados Unidos careciam de autoridade moral para julgar terceiros pa\u00edses por presum\u00edveis viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, depois da publica\u00e7\u00e3o deste Relat\u00f3rio o que Barack Obama deveria fazer seria pedir perd\u00e3o \u00e0 comunidade internacional (coisa que desde logo n\u00e3o far\u00e1, ou n\u00e3o o deixar\u00e3o fazer, como o demonstrou o esc\u00e2ndalo da espionagem \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es), interromper definitivamente a publica\u00e7\u00e3o dos relat\u00f3rios anuais sobre a situa\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e do combate al terrorismo onde se qualifica o comportamento de todos os pa\u00edses do mundo (excepto os Estados Unidos, juiz infal\u00edvel que n\u00e3o pode ser julgado) e assegurar-se de que pr\u00e1ticas tipificadas como torturas pelo Relat\u00f3rio senatorial n\u00e3o apenas n\u00e3o voltar\u00e3o a ser utilizadas pela CIA ou pelas for\u00e7as regulares do Pent\u00e1gono como tamb\u00e9m pelo n\u00famero crescente de mercen\u00e1rios alistados para defender os interesses do imp\u00e9rio, o que igualmente n\u00e3o tem demasiada probabilidade de ocorrer.<\/p>\n<p>Precisamente, a ideia de nutrir cada vez mais as for\u00e7as do Pent\u00e1gono com mercen\u00e1rios recrutados pelos seus aliados no Golfo P\u00e9rsico (Arabia Saudita, Emiratos, Qatar, etc.) ou por companhias especializadas, como Academi (a tenebrosa ex Blackwater) \u00e9 libertar o governo dos Estados Unidos de qualquer responsabilidade por viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos que estes \u201ccontratistas\u201d, como eufemisticamente s\u00e3o denominados, possam cometer. Ao \u201cterceirizar\u201d deste modo as suas opera\u00e7\u00f5es militares no exterior a aplica\u00e7\u00e3o de torturas contra presum\u00edveis, ou verdadeiros, terroristas realiza-se \u00e0 margem do que a Conven\u00e7\u00e3o de Genebra estipula, ao estabelecer que os prisioneiros de guerra devem ter garantias jur\u00eddicas de defesa e ser tratados de modo humanit\u00e1rio. Os mercen\u00e1rios ou \u201ccontratistas\u201d, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o bandos contratados por Washington para opera\u00e7\u00f5es especiais, actuando \u00e0 margem de qualquer lei. N\u00e3o t\u00eam prisioneiros mas \u201cdetidos\u201d, que podem manter sob cust\u00f3dia todo o tempo que considerem necess\u00e1rio, negando-lhes o direito \u00e0 defesa e deixando-os \u00e0 merc\u00ea dos maus-tratos ou das torturas que os seus captores decidam aplicar-lhes, gozando para isso de total impunidade.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o relat\u00f3rio evita considerar que a tortura foi legalizada pelo Presidente George W. Bush. Tal como apont\u00e1mos num estudo publicado em 2009, a tortura como uma pr\u00e1tica habitual vinha sendo utilizada desde h\u00e1 muito tempo pela CIA e outras ag\u00eancias do governo federal. No referido texto diz\u00edamos que \u201ca partir dos atentados de 11 de Setembro e da nova doutrina estrat\u00e9gica estabelecida pelo presidente George W. Bush no ano seguinte (\u201cguerra contra o terrorismo\u201d, \u201cguerra infinita\u201d, etc.) as torturas a prisioneiros, sejam estes supostos combatentes inimigos ou simples suspeitos, tornaram-se pr\u00e1tica habitual nos interrogat\u00f3rios, tal como tamb\u00e9m os tratos desumanos ou degradantes infligidos \u00e0s pessoas sob cust\u00f3dia das tropas estado-unidenses. A fim de evitar as consequ\u00eancias legais que decorrem desta situa\u00e7\u00e3o Washington adoptou como uma das suas pol\u00edticas a transfer\u00eancia dos seus prisioneiros para pris\u00f5es situadas em pa\u00edses onde a tortura \u00e9 legal ou nos quais as autoridades n\u00e3o t\u00eam interesse algum em impedi-la, sobretudo se se trata de favorecer os planos estado-unidenses; ou envi\u00e1-los para o Afeganist\u00e3o, Iraque ou a pr\u00f3pria base norte-americana de Guant\u00e1namo, onde se pode interrogar brutalmente qualquer prisioneiro sem qualquer tipo de acompanhamento judicial e sem a presen\u00e7a de observadores inc\u00f3modos como, por exemplo, a Cruz Vermelha Internacional.\u201d [2]<\/p>\n<p>Para assombro de pr\u00f3prios e alheios, mesmo depois de ter sido dado a conhecer o Relat\u00f3rio do Senado o porta-voz da Casa Branca fez apelo a rid\u00edculos eufemismos quando transmitiu o rep\u00fadio do presidente Obama pelo que nele \u00e9 revelado: condenou os \u201cduros e atrozes interrogat\u00f3rios\u201d praticados pela CIA, evitando utilizar o termo correcto para definir o que segundo a Conven\u00e7\u00e3o Contra a Tortura e outros Tratos ou Penas Cru\u00e9is, Desumanas ou Degradantes \u00e9 pura e simplesmente isso: tortura. No seu artigo primeiro a Conven\u00e7\u00e3o estabelece que \u201cSe entender\u00e1 pelo termo \u2018tortura\u2019 todo acto pelo qual se inflija intencionadamente a uma pessoa dores ou sofrimentos graves, sejam f\u00edsicos ou mentais, com o fim de obter dela ou de um terceiro informa\u00e7\u00e3o ou uma confiss\u00e3o; de a castigar por um acto que haja cometido, ou se suspeite que tenha cometido; ou de intimidar ou coagir essa pessoa ou outras, ou por qualquer raz\u00e3o baseada em qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o, quando as referidas dores ou sofrimentos sejam infligidos por um funcion\u00e1rio p\u00fablico ou outra pessoa em exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, sob instiga\u00e7\u00e3o sua, ou com o seu consentimento ou aquiesc\u00eancia. N\u00e3o se considerar\u00e3o torturas as dores ou sofrimento que sejam consequ\u00eancia unicamente de san\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, ou que sejam inerentes ou decorrentes destas.\u201d [3]<\/p>\n<p>De acordo com esta defini\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel sustentar que pr\u00e1ticas tais como a \u201creidrata\u00e7\u00e3o rectal\u201d, a \u201chipotermia\u201d, a \u201calimenta\u00e7\u00e3o rectal\u201d, suspender a v\u00edtima de uma barra, amea\u00e7ar violar a sua esposa ou filhas, a proibi\u00e7\u00e3o de dormir ou o \u201csubmarino\u201d (\u201cwaterboarding\u201d, como se lhe chama em ingl\u00eas) aplicadas cruelmente durante horas y dias para interrogar suspeitos de terrorismo n\u00e3o constituem flagrantes casos de tortura. [4]<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante tudo isto, em Mar\u00e7o de 2008 o presidente Bush vetou uma lei do Congresso que proibia a aplica\u00e7\u00e3o do \u201csubmarino\u201d a presum\u00edveis terroristas, dando cumprimento a um an\u00fancio pr\u00e9vio no qual advertia que vetaria qualquer pe\u00e7a legislativa que impusesse limita\u00e7\u00f5es ao uso da tortura como m\u00e9todo v\u00e1lido e legal de interrogat\u00f3rio. Em resposta aos seus cr\u00edticos a Casa Branca disse que seria absurdo obrigar a CIA a respeitar os preceitos estabelecidos pela legisla\u00e7\u00e3o internacional porque os seus agentes n\u00e3o se confrontavam com combatentes legais, for\u00e7as regulares de um estado operando em conformidade com os princ\u00edpios tradicionais, mas com terroristas que actuam com total desprezo por qualquer norma \u00e9tica. Deste modo Bush e a sua pandilha tentaram justificar a viola\u00e7\u00e3o permanente dos direitos humanos sob o pretexto do \u201ccombate ao terrorismo\u201d. N\u00e3o apenas isso: o seu Secretario da Defesa, Donald Rumsfeld, autorizou explicitamente em Dezembro de 2002 a utiliza\u00e7\u00e3o de pelo menos nove \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio\u201d que s\u00f3 em virtude de um perverso eufemismo podem deixar de ser qualificadas como torturas. O interessante do caso \u00e9 que os Estados Unidos aderiram em 1994 \u00e0 citada Conven\u00e7\u00e3o (que conta com 145 estados participantes) mas tratou cuidadosamente de n\u00e3o ratificar o Protocolo que outorga faculdades de controlo ao Comit\u00e9 da Tortura das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Por outras palavras, a simples ades\u00e3o \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o foi uma jogada demag\u00f3gica, carente de consequ\u00eancias pr\u00e1ticas na luta contra a tortura.<\/p>\n<p>O horror que o Relat\u00f3rio desperta n\u00e3o deveria levar-nos a pensar que ali se encontra toda a verdade. Embora destrua o argumento central da CIA no sentido de que essas \u201cduras t\u00e1cticas de interrogat\u00f3rio\u201d eram necess\u00e1rias para prevenir novos ataques terroristas contra os Estados Unidos, o certo \u00e9 que a estimativa do n\u00famero de detidos e torturados se situa muito abaixo daquilo que outras fontes documentais permitem inferir. No Relat\u00f3rio, por exemplo, diz-se que \u201ca CIA manteve detidas 119 pessoas, 26 das quais apreendidas ilegalmente\u201d. Entretanto, \u00e9 sabido que para perpetrar estas viola\u00e7\u00f5es os direitos humanos Estados Unidos instalaram numerosas pris\u00f5es secretas na Polonia, Litu\u00e2nia, Rom\u00e9nia, Afeganist\u00e3o e Tail\u00e2ndia; e contaram com a colabora\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Egipto, S\u00edria, L\u00edbia, Paquist\u00e3o, Jord\u00e2nia, Marrocos, Gambia, Som\u00e1lia, Uzbequist\u00e3o, Eti\u00f3pia e Djibouti para realizar os seus interrogat\u00f3rios, ao mesmo tempo que algumas exemplares \u201cdemocracias\u201d europeias, como \u00c1ustria, Alemanha, B\u00e9lgica, Chipre, Cro\u00e1cia, Dinamarca, Espanha, Finl\u00e2ndia, Irlanda, It\u00e1lia, Litu\u00e2nia, Polonia, Portugal, Reino Unido, Rep\u00fablica Checa, Rom\u00e9nia e Su\u00e9cia, bem como outros pa\u00edses extra-europeus, colaboraram em facilitar a entrega e a transfer\u00eancia de prisioneiros sabendo o que aguardava essas pessoas. [5] O n\u00famero de v\u00edtimas supera largamente as 119 do Relat\u00f3rio. Tenha-se presente que segundo Human Rights First, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental estado-unidense, o n\u00famero total de detidos que passaram pela pris\u00e3o de Guant\u00e1namo desde a sua inaugura\u00e7\u00e3o \u00e9 de 779 pessoas. [6] Por outro lado, um relat\u00f3rio especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas assegura que s\u00f3 no Afeganist\u00e3o a CIA deteve 700 pessoas, e no Iraque 18.000, todos sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cterroristas\u201d. [7] Nem falemos do ocorrido no campo de deten\u00e7\u00e3o de Abu Ghraib, tema que examin\u00e1mos em detalhe no nosso livro. [8]<\/p>\n<p>Para finalizar, tr\u00eas conclus\u00f5es. Primeiro, o Relat\u00f3rio p\u00f5e o acento na inefectividade das torturas omitindo imprescind\u00edveis considera\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter \u00e9tico ou pol\u00edtico. Das vinte conclus\u00f5es que s\u00e3o apresentadas nas primeiras p\u00e1ginas do Relat\u00f3rio s\u00f3 uma, a vig\u00e9sima, expressa alguma preocupa\u00e7\u00e3o marginal sobre o tema ao lamentar-se que as torturas aplicadas pela CIA \u201cprovocaram danos \u00e0 imagem dos Estados Unidos no mundo ao mesmo tempo que ocasionaram significativos custos monet\u00e1rios e n\u00e3o-monet\u00e1rios.\u201d [9] N\u00e3o existe nenhuma reflex\u00e3o sobre o que significa para um pa\u00eds que presume orgulhosamente de ser uma democracia &#8211; ou a mais importante democracia do mundo, segundo alguns dos seus mais entusiastas publicistas \u2013 para al\u00e9m de \u201cl\u00edder do mundo livre\u201d, incorrer em pr\u00e1ticas monstruosas que s\u00f3 podem qualificar-se como pr\u00f3prias do terrorismo de estado ao estilo do que conhecemos no passado em Am\u00e9rica Latina e no Caribe. A tortura n\u00e3o degrada e destr\u00f3i s\u00f3 a humanidade de quem a sofre; tamb\u00e9m degrada e destr\u00f3i o regime pol\u00edtico que ordena execut\u00e1-la, a justifica ou a consente. Por isso \u00e9 que este novo epis\u00f3dio demonstra, pela en\u00e9sima vez, o car\u00e1cter de farsa da \u201cdemocracia norte-americana\u201d. Da\u00ed que a express\u00e3o que melhor conv\u00e9m para retratar a sua verdadeira natureza \u00e9 a de \u201cregime plutocr\u00e1tico.\u201d Regime, porque quem manda \u00e9 um poder de facto, o complexo militar-financeiro-industrial que ningu\u00e9m elegeu e que n\u00e3o presta contas a ningu\u00e9m; e plutocr\u00e1tico, porque o conte\u00fado material do regime \u00e9 a colus\u00e3o de gigantescos interesses corporativos que s\u00e3o, como h\u00e1 dias anotou Jeffrey Sachs, quem investe centenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares para financiar as campanhas e as carreiras dos pol\u00edticos e dos lobbies que se movimentam a favor dos sus interesses e que logo obt\u00eam como compensa\u00e7\u00e3o dos seus esfor\u00e7os benef\u00edcios econ\u00f3micos de todo o tipo que se medem em milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Tudo esto, ali\u00e1s, justificado por uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que legalizou os donativos ilimitados que, na sua enorme maioria, podem beneficiar de anonimato. [10]<\/p>\n<p>Segundo, o Relat\u00f3rio abst\u00e9m-se de recomendar a responsabiliza\u00e7\u00e3o legal dos respons\u00e1veis pelas monstruosidades perpetradas pela CIA. Ante uma descri\u00e7\u00e3o que parece inspirada nas mais horr\u00edveis cenas do Inferno de Dante, os autores abst\u00eam-se de recomendar ao Premio Nobel da Paz que fa\u00e7a intervir a justi\u00e7a no assunto. Mas o pacto de impunidade est\u00e1 consagrado, e ante a inac\u00e7\u00e3o da Casa Branca os torturadores e os seus numerosos c\u00famplices, dentro e fora da Administra\u00e7\u00e3o Bush, sa\u00edram a apoiar abertamente as torturas e a acusar os redactores do Relat\u00f3rio de parcialidade ideol\u00f3gica, tudo esto por entre uma desaforada exalta\u00e7\u00e3o do chauvinismo estado-unidense e uma cuidadosa oculta\u00e7\u00e3o das mentiras utilizadas por Bush e sua pandilha, desde as que dizem respeito ao que foi que realmente ocorreu no 11-S, onde h\u00e1 mais inc\u00f3gnitas do que certezas, at\u00e9 \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o ao Iraque de possuir armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva. Dado que Obama deu a entender que n\u00e3o processar\u00e1 os respons\u00e1veis materiais e intelectuais destes crimes a conclus\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o s\u00f3 se legaliza mas que tamb\u00e9m se legitima e se aprova a tortura, talvez como um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d mas justificado. Perante isto seria bom que algum tribunal do estrangeiro, actuando segundo o princ\u00edpio da jurisdi\u00e7\u00e3o universal em mat\u00e9ria de delitos de lesa-humanidade, tratasse de fazer justi\u00e7a ali onde o regime norte-americano ampara a impunidade dos criminosos e consagra a pervers\u00e3o e a maldade como uma virtude.<\/p>\n<p>Terceiro e \u00faltimo: a deplor\u00e1vel cumplicidade da imprensa. Todos sabiam que a CIA e outras for\u00e7as especiais do Pent\u00e1gono t\u00eam incorporada a tortura de prisioneiros como um SOP (\u201cstandard operating procedure\u201d, um procedimento estandardizado de opera\u00e7\u00e3o no jarg\u00e3o militar dos servi\u00e7os norte-americanos), como foi dito antes. Mas os grandes media &#8211; n\u00e3o apenas os pasquins raivosamente direitistas da cadeia de Rupert Murdoch e muitos outros desse tipo, dentro e fora dos Estados Unidos \u2013 conspiraram, voluntariamente ou n\u00e3o, \u00e9 irrelevante, para n\u00e3o chamar a coisa pelo seu nome e para utilizar em vez disso todo o g\u00e9nero de eufemismos que permitiram suavizar a noticia e manter enganada a popula\u00e7\u00e3o norte-americana. Para o Washington Post, o New York Times e a Ag\u00eancia Reuters eram m\u00e9todos de interrogat\u00f3rio \u201cbrutais\u201d, \u201cduros\u201d ou \u201catrozes\u201d, mas n\u00e3o torturas; para a cadeia televisiva CBS eram \u201ct\u00e9cnicas extremas de interrogat\u00f3rio\u201d e para Candy Crowley, a chefe dos correspondentes de pol\u00edtica da CNN em Washington, eram \u201ctorturas, conforme quem as descreva\u201d. Para o canal de noticias MSNBC (fus\u00e3o da Microsoft com a NBC) eram, segundo Mika Brzezinski, filha do estratega imperial Zbigniew Brzezinski e, pelo visto, fiel disc\u00edpula dos ensinamentos do seu pai, \u201ct\u00e1cticas de interrogat\u00f3rio utilizadas pela CIA\u201d. \u00c9 esta a gente que \u00e9 depois apontada pelos pol\u00edticos e pelos intelectuais da direita para nos dar li\u00e7\u00f5es de democracia e de liberdade de imprensa na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. Seria bom registar a sua cumplicidade com estes crimes e a sua absoluta car\u00eancia de virtudes morais para dar li\u00e7\u00f5es seja a quem for.<\/p>\n<p><em>Notas<\/em><\/p>\n<p><em>[1] O Relat\u00f3rio pode ser consultado no seguinte endere\u00e7o: <a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/doc\/249652086\/Senate-Torture-Report\" target=\"_blank\">https:\/\/es.scribd.com\/doc\/249652086\/Senate-Torture-Report<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>[2] Cf. Atilio A. Boron e Andrea Vlahusic, El Lado Oscuro del Imperio. La Violaci\u00f3n de los Derechos Humanos por Estados Unidos (Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2009), pp. 43-44.<\/em><\/p>\n<p><em>[3] Ibid., p. 44.<\/em><\/p>\n<p><em>[4] Sobre o tema da tortura o livro de Roberto Montoya, La impunidad imperial. Como os Estados Unidos legalizaram a tortura e \u201cblindaram\u201d os seus militares, agentes e mercen\u00e1rios face \u00e0 justi\u00e7a (Madrid: La esfera de los libros, 2005) \u00e9 uma fonte absolutamente imprescind\u00edvel pela meticulosidade da sua investiga\u00e7\u00e3o e a s\u00f3lida fundamenta\u00e7\u00e3o dos casos examinados. Particularmente instrutiva \u00e9 a sua an\u00e1lise das 35 \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio\u201d, as quais, como dizem os membros de uma Comiss\u00e3o ad-hoc convocada pelo Secretario da Defesa Donald Rumsfeld, poderiam ter como resultado \u201cque pessoal estado-unidense envolvido no uso dessas t\u00e9cnicas pudesse ser em outros pa\u00edses objecto de processos por viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos ou que pudesse ser entregue a inst\u00e2ncias internacionais, como o Tribunal Penal Internacional. Isto teria impacto em futuras opera\u00e7\u00f5es ou desloca\u00e7\u00f5es ao exterior desse pessoal.\u201d Cf. Montoya, op. cit, pp. 130-134. Dados mais espec\u00edficos sobre as \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio\u201d encontram-se em <a href=\"http:\/\/globalsecurity.org\/intell\/library\/policy\/army\/fm\/fm34-52\" target=\"_blank\">http:\/\/globalsecurity.org\/intell\/library\/policy\/army\/fm\/fm34-52<\/a><\/em><\/p>\n<p><em> <\/p>\n<p>[5] \u201c\u00bfQue pa\u00edses colaboraram com o programa de torturas da CIA\u201d, relat\u00f3rio elaborado sobre a base de documenta\u00e7\u00e3o recolhida pela American Civil Liberties Union e pela Open Society Justice Initiative, e publicado por La Naci\u00f3n (Buenos Aires) em 10 de Dezembro de 2014. Ver <a href=\"http:\/\/www.lanacion.com.ar\/1751052-que-paises-colaboraron-con-el-programa-de-torturas-de-la-cia\" target=\"_blank\">http:\/\/www.lanacion.com.ar\/1751052-que-paises-colaboraron-con-el-programa-de-torturas-de-la-cia<\/a><\/p>\n<p>[6] <a href=\"http:\/\/www.humanrightsfirst.org\/sites\/default\/files\/gtmo-by-the-numbers-2014-11-24.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.humanrightsfirst.org\/sites\/default\/files\/gtmo-by-the-numbers-2014-11-24.pdf<\/a><\/p>\n<p>[7] Cf. \u201cPreliminary Findings on Visit to United States by Special Rapporteur on Human Rights and Counter-terrorism\u201d, May 29, 2007, em El Lado Oscuro, op. cit., pp. 55-56.<\/p>\n<p>[8] El lado oscuro, op. cit., pp. 47-48<\/p>\n<p>[9] Relat\u00f3rio, op. cit., pg.16.<\/p>\n<p>[10] \u201cUnderstanding and overcoming America\u2019s plutocracy\u201d, Huffington Post, 6 Novembro 2014.<a href=\"http:\/\/www.huffingtonpost.com\/jeffrey-sachs\/understanding-and-overcom_b_6113618.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.huffingtonpost.com\/jeffrey-sachs\/understanding-and-overcom_b_6113618.html<\/a><\/p>\n<p>&#8211; Dr. Atilio Boron, director del Centro Cultural de la Coopera\u00e7\u00e3o Floreal Gorini (PLED), Buenos Aires, Argentina. Premio Libertador al Pensamento Cr\u00edtico 2013. <a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com.ar\" target=\"_blank\">www.atilioboron.com.ar<\/a> Twitter: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/atilioboron\" target=\"_blank\">http:\/\/twitter.com\/atilioboron<\/a> Facebook:<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=596730002\" target=\"_blank\">http:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=596730002<\/a><\/p>\n<p> <\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>URL de este art\u00edculo: <a href=\"http:\/\/alainet.org\/active\/79428\" target=\"_blank\">http:\/\/alainet.org\/active\/79428<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Atilio Boron\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7318\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7318","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1U2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7318"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7318\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}