{"id":7324,"date":"2015-01-11T22:56:24","date_gmt":"2015-01-11T22:56:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7324"},"modified":"2015-01-11T22:56:24","modified_gmt":"2015-01-11T22:56:24","slug":"entrevista-com-uma-ex-soldado-israelense-qisrael-e-o-estado-mais-fascista-que-conhecoq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7324","title":{"rendered":"Entrevista com uma ex-soldado israelense: &#8220;Israel \u00e9 o Estado mais fascista que conhe\u00e7o&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<em><strong>Eu defendo a solu\u00e7\u00e3o de um Estado Palestino, em que todos vivam em igualdade de direitos. Eu quero viver com meus irm\u00e3os e irm\u00e3s palestinos. \u00c9 assim que os vejo: como meus irm\u00e3os\u201d.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sarit Jacobsohn \u00e9 uma artista israelense de 42 anos. Sarit \u00e9 oriunda de uma fam\u00edlia de judeus alem\u00e3es, polacos e russos, que chegaram \u00e0 Palestina muito antes da cria\u00e7\u00e3o do regime sionista.<\/p>\n<p>Nos anos 20, devido aos enfrentamentos entre as organiza\u00e7\u00f5es sionistas e a popula\u00e7\u00e3o local, decidiram ir para o Chipre, j\u00e1 que temiam sofrer as repres\u00e1lias do povo palestino ante os crescentes ataques por parte das organiza\u00e7\u00f5es sionistas.<\/p>\n<p>Cinquenta anos mais tarde, na d\u00e9cada de 70, sua m\u00e3e voltou \u00e0 Palestina. Sarit tinha uns 6 anos. Desde ent\u00e3o, viveram em Tel Aviv.<\/p>\n<p><em><strong>Atualmente voc\u00ea vive em Israel?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, hoje vivo no Tennessee, Estados Unidos. Depois de deixar o servi\u00e7o militar, decidi sair da Palestina, j\u00e1 n\u00e3o queria viver l\u00e1.<\/p>\n<p><em><strong>E sua fam\u00edlia? Ainda vive em Tel Aviv?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, minha m\u00e3e retornou ao Chipre e minha irm\u00e3 mais velha vive na Inglaterra. Muita gente est\u00e1 deixando Israel, sobretudo no caso das mulheres. N\u00e3o \u00e9 um bom lugar para viver, pois existem muitas viola\u00e7\u00f5es. O pior \u00e9 que o governo, o ex\u00e9rcito e a seguran\u00e7a toleram esta viol\u00eancia contra a mulher. \u00c9 parte do processo de corrup\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade israelense por tantos anos de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Que ideia voc\u00ea tinha dos palestinos quando pequena?O que voc\u00ea sabia da ocupa\u00e7\u00e3o, do conflito, etc.?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quando eu era pequena sabia apenas que os palestinos viviam no mesmo pa\u00eds que n\u00f3s e que o nosso governo estava em conflito com algumas de suas fac\u00e7\u00f5es. Eu poderia dizer que tinha medo dessas fac\u00e7\u00f5es de palestinos.<\/p>\n<p><em><strong>Qual foi a primeira experi\u00eancia que a fez pensar que algo estava errado em Israel?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Bom, quando rec\u00e9m chegamos, convidaram minha m\u00e3e para viver em um assentamento na Cisjord\u00e2nia. L\u00e1 n\u00e3o pagar\u00edamos impostos, nos dariam uma casa enorme pagando muito pouco, a comida era vendida por menos da metade do pre\u00e7o real e mais vantagens deste tipo. Apesar de ser muito pequena, disse para minha m\u00e3e que n\u00e3o queria, estava certa de que algo n\u00e3o estava bem, j\u00e1 que queriam nos dar tantas coisas em troca de vivermos ali. Por sorte minha m\u00e3e n\u00e3o aceitou. Anos mais tarde, minha irm\u00e3, 8 anos mais velha, teve que fazer o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio. Lembro que sempre que vinha em casa nos contava as coisas terr\u00edveis que era obrigada a fazer.<\/p>\n<p><em><strong>Esta foi a experi\u00eancia que abriu seus olhos?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, de fato. A experi\u00eancia que poderia dizer que me abriu os olhos definitivamente foi aos 16 anos. Ent\u00e3o, uma professora no col\u00e9gio nos disse que as organiza\u00e7\u00f5es terroristas sionistas que operavam na Palestina antes da cria\u00e7\u00e3o de Israel, s\u00e3o as que se converteram em 1948 no ex\u00e9rcito israelense. Devia ser muito esquerdista! (risos)<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel duvidar que todas estas organiza\u00e7\u00f5es sionistas s\u00e3o a origem do terrorismo moderno.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea esteve alguma vez na Faixa de Gaza ou na Cisjord\u00e2nia?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, nos dois lugares. Sempre me disseram que n\u00e3o podia ir para l\u00e1, que era perigoso e que iriam me matar. Por sorte ignorei todos e fui, uma das vantagens de ser rebelde (risos).<\/p>\n<p><em><strong>E como foi sua experi\u00eancia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Desde o primeiro momento, vi que o que tinham me dito era mentira. Os palestinos foram maravilhosos comigo. Posso dizer que n\u00e3o conheci nenhum israelense que tenha sido recebido com rep\u00fadio ou viol\u00eancia por parte dos palestinos em Gaza ou Cisjord\u00e2nia, apesar de todos esses anos de opress\u00e3o. Todos os israelenses que conhe\u00e7o e estiveram l\u00e1, vivenciaram experi\u00eancias parecidas com a minha.<\/p>\n<p><em><strong>Fale sobre sua experi\u00eancia no ex\u00e9rcito.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi o inferno. Nunca senti medo de ser ferida ou morta, por\u00e9m estava aterrorizada ante a ideia de ter que ferir algu\u00e9m. No campo de treinamento, nos faziam fazer guarda por turnos. Eu odiava. N\u00e3o podia parar de pensar que n\u00e3o queria disparar em ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><em><strong>Onde foi seu treinamento?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Levavam-nos de um lugar para outro sem falar nada. N\u00e3o sab\u00edamos onde est\u00e1vamos a maior parte do tempo. Um dia, de repente, nos disseram que est\u00e1vamos no L\u00edbano e nos ordenaram que carreg\u00e1ssemos nossas armas. Eu n\u00e3o o fiz, n\u00e3o carreguei minha arma. Hoje me sinto muito orgulhosa de mim mesma por isso. Simplesmente acredito que essa n\u00e3o \u00e9 a forma de entrar no pa\u00eds de algu\u00e9m.<\/p>\n<p><em><strong>Quanto tempo voc\u00ea ficou no ex\u00e9rcito?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fiquei apenas quatro meses. Desde o momento em que entrei, tentei deix\u00e1-lo. Todos os dias eu falava com o psiquiatra para explicar os motivos pelos quais n\u00e3o queria estar ali. N\u00e3o importava a ele o fato de n\u00e3o querer machucar ningu\u00e9m. Um dia, sem pensar que esse coment\u00e1rio teria import\u00e2ncia, disse que eu amo os palestinos. Isso mudou seu humor. Ent\u00e3o, decidiram que eu n\u00e3o poderia estar ali e me tiraram, declarando-me demente.<\/p>\n<p><em><strong>Seu caso \u00e9 excepcional ou existem mais pessoas como voc\u00ea?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Existem muitos casos assim. A cada dia quando ia ao psiquiatra, tinha que esperar durante horas. Estava cheio de homens e mulheres chorando desconsoladamente. Eles me contavam sobre os crimes de guerra e as atrocidades que tinham cometido. E se eu tentava consol\u00e1-los, era ainda pior. Era imposs\u00edvel fazer com que parassem de chorar. \u00c9 muito dif\u00edcil continuar vivendo quando voc\u00ea se d\u00e1 conta das atrocidades que vem cometendo e o porqu\u00ea de t\u00ea-las cometido. Por isso, ocorrem tantos suic\u00eddios nas IDF (Israeli Defense Forces), assim como no Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><em><strong>Ent\u00e3o, como todas estas coisas continuam acontecendo? Como a sociedade israelense aceita?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios motivos, mas o principal \u00e9 a islamofobia e o racismo que existe em Israel. Somos educados, desde pequenos, a temer os \u00e1rabes e os mu\u00e7ulmanos. O meu medo passou quando fomos passar f\u00e9rias no Egito. Vi que tudo isso era mentira e que a sociedade \u00e1rabe \u00e9 muito melhor que a nossa em alguns aspectos. \u00c9 muito menos capitalista. Para eles as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o mais importantes.<\/p>\n<p><em><strong>Tem sido dif\u00edcil para voc\u00ea manter esta posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sim, muito. Para come\u00e7ar, perdi a maioria dos meus amigos. Al\u00e9m disso, \u00e9 complicado aceitar que as pessoas de quem voc\u00ea gosta, seus amigos, seus vizinhos, s\u00e3o part\u00edcipes de algo t\u00e3o horr\u00edvel. Que o aceitam e, inclusive, colaboram com isso.<\/p>\n<p><em><strong>Qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o que voc\u00ea defende?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para mim, o problema \u00e9 de direitos humanos. Para mim, n\u00e3o existe o conflito religioso. Eu me entendo perfeitamente com os mu\u00e7ulmanos de todo tipo, pouco religiosos, muito religiosos, nada religiosos. Nossas religi\u00f5es s\u00e3o muito parecidas e possuem os mesmos valores. Portanto, eu nem quero e nem creio na separa\u00e7\u00e3o de dois Estados. Eu defendo a solu\u00e7\u00e3o de um Estado Palestino em que todos vivam em igualdade de direitos. Eu quero viver com meus irm\u00e3os e irm\u00e3s palestinos. \u00c9 assim que os vejo: como meus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Espero um dia voltar \u00e0 Palestina nessas condi\u00e7\u00f5es. E, claro, se separassem o territ\u00f3rio em dois Estados, viveria antes no Estado Palestino que em Israel. Tenho muito \u00f3dio da teoria da \u201cminha gente\u201d, que visa justificar tudo que tem sido feito e se continua fazendo. Creio que n\u00e3o sabem nada do que \u00e9 ser justo. Quando estudei a Tor\u00e1, ensinaram-me coisas totalmente opostas ao que est\u00e3o fazendo os sionistas h\u00e1 quase sete d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><em><strong>Voc\u00ea acredita que existe alguma possibilidade de mudan\u00e7a dentro da sociedade israelense? Ou acredita que, por for\u00e7a, a mudan\u00e7a ter\u00e1 que vir de fora?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a tem que vir de fora. Em Israel existe muita gente, mais do que parece, trabalhando e organizando-se pela revolu\u00e7\u00e3o e pela cria\u00e7\u00e3o de um Estado com igualdade de direitos. No entanto, Israel \u00e9 o regime mais fascista do mundo e nunca permitir\u00e1 uma mudan\u00e7a a partir de dentro. As pessoas da esquerda t\u00eam medo, inclusive, de falar, j\u00e1 que sua opini\u00e3o faria com que perdessem o trabalho. Por isso, o BDS (campanha internacional de Boicote, San\u00e7\u00f5es e Desinvestimento contra produtos, associa\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es israelenses) \u00e9 nossa melhor arma para acabar com a ocupa\u00e7\u00e3o e o genoc\u00eddio na Palestina. Tamb\u00e9m temos que mostrar \u00e0s pessoas que os palestinos s\u00e3o semitas e que s\u00e3o os sionistas os aut\u00eanticos antissemitas. Outra coisa que as pessoas precisam saber e aceitar \u00e9 que Israel \u00e9 controlado pelos Rothschild. Eles compraram a Palestina depois de apoiar os nazistas na Alemanha e nunca perderam o poder.<\/p>\n<p><em><strong>Existe alguma outra experi\u00eancia da qual voc\u00ea queira falar?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sim. Uma outra experi\u00eancia que abriu meus olhos est\u00e1 relacionada \u00e0s amea\u00e7as de morte recebidas. No momento em que comecei a falar abertamente da ocupa\u00e7\u00e3o, do roubo de terras, da limpeza \u00e9tnica e de todas estas coisas, automaticamente comecei a receber amea\u00e7as de morte e outras mensagens terr\u00edveis de pessoas que, at\u00e9 o momento, eram meus vizinhos, meus concidad\u00e3os. Isso me deixou em choque, porque se faziam isso comigo, que sou judia e israelense como eles, o que n\u00e3o fariam com os palestinos a quem tanto odeiam e a quem a lei n\u00e3o protege.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.correodelorinoco.gob.ve\/multipolaridad\/entrevista-a-una-ex-soldado-israeli-%E2%80%9Cisrael-es-estado-mas-fascista-que-conozco%E2%80%9D\/<\/p>\n<p><em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Hern\u00e1ndez (texto e fotografia)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7324\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1U8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7324"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7324\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}