{"id":7374,"date":"2015-01-27T01:47:17","date_gmt":"2015-01-27T01:47:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7374"},"modified":"2017-08-25T00:47:57","modified_gmt":"2017-08-25T03:47:57","slug":"orfaos-e-sem-vaticanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7374","title":{"rendered":"\u00d3rf\u00e3os e sem Vaticanos"},"content":{"rendered":"\n<p>Marcela Pisarello e S\u00edlvia Acevedo Montilla<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios do marxismo do S\u00e9culo XXI consiste em desmontar a falsa homologa\u00e7\u00e3o de mercado e democracia. Para poder concretiz\u00e1-lo h\u00e1 que ESTUDAR. E para decifrar os enigmas n\u00e3o resolvidos h\u00e1 que superar o div\u00f3rcio entre um marxismo acad\u00e9mico e um saber militante abnegado e esfor\u00e7ado mas que n\u00e3o estuda, n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o est\u00e1 informado e suplanta a falta de forma\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia de base com palavras de grande efeito.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Que papel desempenham hoje em dia os meios alternativos de comunica\u00e7\u00e3o perante o dom\u00ednio planet\u00e1rio do capital?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Um papel fundamental. Vivemos uma ditadura medi\u00e1tica sem precedentes na hist\u00f3ria. Os meios maci\u00e7os monopolizaram-se de um modo impens\u00e1vel h\u00e1 meio s\u00e9culo. As televis\u00f5es por cabo, por exemplo, variam o n\u00famero de canais que oferecem. Aquela a que eu tenho acesso na Argentina tem mais de 70 canais, mas s\u00f3 em dois ou tr\u00eas se pode ver algo diferente\u2026 e ainda por cima com limita\u00e7\u00f5es institucionais, porque essas escassas excep\u00e7\u00f5es dependem por sua vez de estados e de sua diplomacia externa. Noutras televis\u00f5es h\u00e1 mais de 300 canais, mas as alternativas n\u00e3o s\u00e3o mais de tr\u00eas ou quatro. A rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica \u00e9 indefinida. Existem as p\u00e1ginas webs alternativas, mas na realidade devemos assumir a sua marginalidade extrema. Sofremos de um totalitarismo absoluto da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o, disfar\u00e7ado de \u00abpluralismo\u00bb e \u00abdemocracia\u00bb. A \u00absociedade aberta\u00bb que Karl Popper pregava e muitos outros c\u00famplices do seu bando mals\u00e3o ao pensamento oficial ocidental durante a guerra-fria \u00e9 um mito e do pior modelo.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Que achas do discurso do presidente Obama sobre as novas medidas a respeito de Cuba? Abre-se uma esperan\u00e7a?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Nicolo Maquiavel, um rapaz do meu bairro, costumava lembrar que os poderosos andam entre a raposa e o le\u00e3o, com a ast\u00facia e a viol\u00eancia, com o consenso e a repress\u00e3o. Nunca abandonam nenhum dos meios de domina\u00e7\u00e3o. Todos os imperialismos e sistemas totalit\u00e1rios reprimiram e ao mesmo tempo tentaram criar consenso. Obama passa a vida a sorrir, impass\u00edvel, a vender pasta de dentes. Faz de \u00abpol\u00edcia bom\u00bb para Cuba, e simultaneamente amea\u00e7a castigar a Venezuela bolivariana com dureza ou a qualquer outro dissidente (externo ou interno) que o desafie. Promete erradicar definitivamente a tortura mas acaba por reconhecer que a tortura continua. Agora chamam-lhe \u00abinterrogat\u00f3rio forte\u00bb. Consegue o Nobel da Paz, enquanto invade pa\u00edses, derruba governos populares, assassina l\u00edderes opositores, suborna, compra, interv\u00e9m descaradamente noutras sociedades sem respeitar a sua soberania, espia e vigia cada gesto quotidiano do seu pr\u00f3prio povo norte-americano como faz com todos os povos do mundo. Alguns dos seus pr\u00f3prios agentes (j\u00e1 afastados) e alguns poucos dos seus pr\u00f3prios intelectuais que n\u00e3o perderam a dignidade denunciam-no publicamente. Desde Snowden at\u00e9 Assange e Chomsky.<\/p>\n<p>Cada um portanto \u00e9 livre de oferecer a outra face? Mas n\u00f3s tamb\u00e9m temos o direito e a possibilidade de n\u00e3o o acreditar.<\/p>\n<p>A nova pol\u00edtica anunciada para a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana apresenta um reconhecimento de facto de que os brig\u00f5es do quarteir\u00e3o, os gorilas do bairro, os gangsters e mafiosos do \u00abmundo livre\u00bb, n\u00e3o conseguiram p\u00f4r de joelhos o povo cubano, insubmisso e rebelde. N\u00e3o podemos perde-lo de vista nem por um segundo. O nosso grande abra\u00e7o a esse povo her\u00f3ico que resistiu \u00e0 pot\u00eancia mais poderosa, c\u00ednica, desavergonhada e impiedosa do planeta. Todo o nosso carinho e o nosso reconhecimento. Todo o nosso respeito.<\/p>\n<p>Mas suspeitamos que o Pent\u00e1gono, os circuitos do complexo militar-industrial, os grandes fabricantes e traficantes de armas da elite norte-americana, o Departamento de Estado e os polvos da hierarquia financeira americana est\u00e3o prontos a esmagar e engolir Cuba por outros meios. N\u00e3o acreditam na paz, no di\u00e1logo com pluralismo. S\u00f3 trocaram um bispo por um cavalo,<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o abandonaram a inten\u00e7\u00e3o de dar xeque-mate. A estrat\u00e9gia continua a ser contra-revolucion\u00e1ria e est\u00e1 destinada a controlar numa situa\u00e7\u00e3o de crise capitalista mundial e escassez de recursos naturais \u2014 todo o \u00abp\u00e1tio traseiro\u00bb \u00e0 escala continental minando as defesas inimigas. Batendo onde mais d\u00f3i e atacando o lado mais fraco da revolu\u00e7\u00e3o, a sua economia. Quem quiser acreditar no lobo est\u00e1 no seu direito. Quem pretender \u00abfazer teoria\u00bb, legitimando uma situa\u00e7\u00e3o de facto com grandes malabarismos verbais e cita\u00e7\u00f5es doutrinais sacadas da manga, que o fa\u00e7a. Porque n\u00e3o?<\/p>\n<p>Os que amamos a vida e n\u00e3o queremos que o lobo nos devore, tamb\u00e9m temos o direito de usar a cabe\u00e7a e de ter um pouco de mem\u00f3ria. Adolfo Hitler deu-se ao luxo de fazer pactos de entendimento com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Foi para garantir a paz e respeitar a diversidade dos sistemas sociais? N\u00e3o, a continua\u00e7\u00e3o teve 20 milh\u00f5es de mortos do povo sovi\u00e9tico. O povo cubano e o seu governo revolucion\u00e1rio estiveram meio s\u00e9culo separados e treinados com a arma na m\u00e3o e de olho na mira, quadra a quadra, casa a casa, contra uma poss\u00edvel e previs\u00edvel invas\u00e3o militar dos gringos. N\u00e3o s\u00f3 os militares. Cada cozinheira, cada professora, cada m\u00e9dico, cada pedreiro, cada motorista sabia manejar a sua arma e sabia onde tinha de colocar-se para disparar contra o invasor militar imperialista se este pusesse a sua bota suja na ilha.<\/p>\n<p>Estar\u00e1 o povo preparado para resistir \u00e0 invas\u00e3o de d\u00f3lares e artigos de consumo? Ter\u00e3o feito exerc\u00edcios de treino para resistir a uma invas\u00e3o de turistas com dinheiro, disparos de remessas milion\u00e1rias, ataques de surpresa nocturnos das invers\u00f5es de capitais, prost\u00edbulos, casinos e a importa\u00e7\u00e3o de todo um estilo de vida \u2014 onde o dinheiro manda e o ser humano obedece \u2014 da <em>american way of life?<\/em> Oxal\u00e1 que sim, de todo o cora\u00e7\u00e3o o desejamos! Por eles e por elas, mas sobretudo por n\u00f3s. Se Cuba for engolida e regurgitada pelo imp\u00e9rio, ser\u00e1 um golpe dur\u00edssimo para o imagin\u00e1rio rebelde da Nossa Am\u00e9rica e do Terceiro Mundo e para as esperan\u00e7as dos nossos povos.<\/p>\n<p>Mas se Cuba n\u00e3o conseguir resistir a esse outro tipo de invas\u00e3o (mais subtil mas n\u00e3o menos agressivo) muito cuidado para n\u00e3o os acusar de \u00abtrai\u00e7\u00e3o\u00bb. Se o fizerem \u00e9 porque ficaram isolados, porque n\u00e3o triunfaram outras revolu\u00e7\u00f5es socialistas (anticapitalistas e anti-imperialistas) no continente. N\u00f3s tamb\u00e9m somos respons\u00e1veis pelos retrocessos eventuais que possa sofrer a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo na ilha. Se tiv\u00e9ssemos triunfado contra as nossas burguesias e o seu patr\u00e3o imperialista, o cen\u00e1rio seria hoje bem diferente.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Segundo reconheceram os presidentes de Cuba e dos Estados Unidos o Papa Francisco teve um papel fulcral nesta nova rela\u00e7\u00e3o. Tem orgulho em que o novo Papa seja argentino?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: N\u00e3o me sinto orgulhoso e tenho muita vergonha. Este Papa \u00e9 muito reaccion\u00e1rio, ningu\u00e9m se engane. Vem cumprir a obra que Wojtyla come\u00e7ou transformando os pa\u00edses do leste europeu e apoiando a contra-revolu\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua sandinista. Porque elegeram naquela altura um Papa polaco quando a Pol\u00f3nia no conjunto das na\u00e7\u00f5es europeia sempre esteve na segunda ou terceira linha, e nunca conseguiu sequer uma independ\u00eancia nacional? Porque atrav\u00e9s do catolicismo tradicionalista polaco se podia atacar duramente esses governos burocr\u00e1ticos, impopulares, debilitados pelos seus problemas sociais internos e pela corrida armamentista imposta por Reagan e Thatcher, os dois amigos de Jo\u00e3o Paulo II. Atrav\u00e9s da ret\u00f3rica oficial do catolicismo Vaticano, hier\u00e1rquico, tradicionalista e euroc\u00eantrico, dava-se cobertura \u00abdecente\u00bb aos contra da Nicar\u00e1gua, financiados pelo narcotr\u00e1fico e pelas armas sujas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>E porque trinta anos depois os poderosos elegem um Papa latino-americano quando todos conhecem o eurocentrismo galopante que o Vaticano sempre exerceu, para dentro e para fora? Porque precisavam de por nos eixos a Venezuela, quebrar Cuba, subordinar o movimento campesino no Brasil (de forte liga\u00e7\u00e3o religiosa) e neutralizar todo o movimento popular latino-americano, uma das reservas rebeldes \u00e0 escala mundial potencialmente mais explosiva e \u00abperigosa\u00bb para a geopol\u00edtica do p\u00e1tio traseiro ianque.<\/p>\n<p>O Papa Bergoglio-Francisco n\u00e3o veio libertar ningu\u00e9m. Que ningu\u00e9m acredite nos seus dribles \u00e0 Garrincha (jogador de futebol) do Brasil que parecia ir para um lado e acabava indo para outro) nem as suas meditadas guinadas de olhar? \u00c9 verdadeiramente um jogador de truco (jogo de naipes argentino onde ganha o que sabe mentir melhor). Com o seu tradicionalismo disfar\u00e7ado de \u00abrenovador\u00bb Bergoglio-Francisco vem modernizar, aceitar e renovar a domina\u00e7\u00e3o, espiritual e material, dos nossos povos. N\u00e3o s\u00f3 se calaram os rumores de maneira escandalosa e vergonhosa dos tempos sangrentos do general Videla (embora a posteriori tenham pretendido construir hist\u00f3rias \u00abhonor\u00e1veis\u00bb pouco cred\u00edveis para gente minimamente informada em terrenos dos direitos humanos na Argentina).<\/p>\n<p>De resto nada tem que ver com a mensagem prof\u00e9tica e rebelde das comunidades de base daquele jovem barbudo de origem judaica que andava a p\u00e9 e com sand\u00e1lias humildes enfrentando o poderoso imp\u00e9rio romano, questionando os grandes mercadores do templo e denunciando o fetiche do dinheiro e do mercado, enquanto falava e partilhava o p\u00e3o com os seus companheiros e companheiras. Bergoglio-Francisco que eu saiba, n\u00e3o dissolveu o Banco Ambrosiano nem repartiu as fortunas incalcul\u00e1veis da Igreja Cat\u00f3lica entre ningu\u00e9m. Com dois ou tr\u00eas gestos intranscendentes, minimalistas e microsc\u00f3picos que n\u00e3o mudam uma estrutura hier\u00e1rquica e sacerdotal de fundo (com mil\u00e9nios de hist\u00f3ria ao lado dos poderosos, desde as Cruzadas e a Inquisi\u00e7\u00e3o, a ca\u00e7a \u00e0s bruxas e Colombo, at\u00e9 Hitler, Videla e Pinochet), Bergoglio vem p\u00f4r na ordem n\u00e3o s\u00f3 Cuba mas todos os rebeldes latino-americanos e do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Devo confessar que o que mais me d\u00f3i \u00e9 ver alguns pensadores da teologia da liberta\u00e7\u00e3o que respeitava e amava (continuo a respeit\u00e1-los, embora me doa v\u00ea-los assim), numa atitude submissa e obediente, desfazendo tudo o que se havia acumulado desde Frei Bartolomeu de las Casas at\u00e9 Camilo Torres. No fim, a mensagem prof\u00e9tica ressurgir\u00e1, n\u00e3o tenho a menor d\u00favida. At\u00e9 o poder mais absoluto (militar, econ\u00f3mico ou simb\u00f3lico) \u00e9 passageiro e transit\u00f3rio na hist\u00f3ria. O poder do Vaticano, na apar\u00eancia hoje inexpugn\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o. As igrejas empresariais e televisivas (que compram cinemas milion\u00e1rios e car\u00edssimos canais de televis\u00e3o com dinheiro de\u2026?\u2026) e a auto-ajuda tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o a alternativa. O respeito aut\u00eantico pelas pessoas humanas e a verdadeira espiritualidade est\u00e1 \u2014 tem que estar \u2014 para al\u00e9m do mercado, do dinheiro e do capital. Continuo a acreditar que a verdadeira espiritualidade vir\u00e1 com o socialismo como projecto integral, plural e revolucion\u00e1rio, onde crentes ou ateus lutaremos juntos, lado a lado, m\u00e3o na m\u00e3o, ombro a ombro, contra os grandes moinhos de vento do capital e das suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Neste novo contexto mundial quais s\u00e3o os desafios das lutas dos povos na transforma\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Continuar a resistir! N\u00e3o se desmoralizar nem perder a b\u00fassola em meio da tormenta e da neblina. Teimar com tenacidade, com for\u00e7a, com convic\u00e7\u00e3o por que n\u00e3o? Com f\u00e9, como pedia Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui) na verdade hist\u00f3rica, nos projectos revolucion\u00e1rios culturais sociais, integrais e radicais, na revolu\u00e7\u00e3o mundial socialista. A confus\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o, se as avaliarmos em termos de longa dura\u00e7\u00e3o, passageiras. O poder dos capitalistas, embora pare\u00e7a hoje inexpugn\u00e1vel, tem data de vencimento a curto prazo, como a maionese. Vivem para o dia-a-dia, arruinando o planeta de forma acelerada. O nosso projecto, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a longo prazo e permanente. N\u00e3o devemos retroceder. N\u00e3o devemos entregar-nos. Que as sereias continuem a cantar e a tentar seduzir, n\u00f3s devemos caminhar em busca da terra prometida de Mois\u00e9s e procurando encontrar um lar comum (sem mercado de explora\u00e7\u00e3o) que Ulisses perseguia, compartilhando p\u00e3o como Jesus pregava. A longo prazo isso \u00e9 o que perdura na hist\u00f3ria. N\u00e3o se trata do lado em que h\u00e1 mais dinheiro\u00bb mas de que lado est\u00e1 o dever. \u00c0s crian\u00e7as Deus os vomita? Os confusos, os cansados, os vacilantes, os que nadam contra a corrente do momento e se acomodam sempre onde brilha o sol ou se colam \u00e0 onda da moda com a melhor cara de anivers\u00e1rio e ar feliz perdem-se no p\u00f3 an\u00f3nimo, cinza e difuso da hist\u00f3ria. Esp\u00e1rtaco, Tupac Amaru e Rosa Luxemburgo, pelo contr\u00e1rio continuam ao nosso lado\u2026 unidos e em relevo, com dignidade e de p\u00e9. Quem se lembra hoje dos que vacilaram e se entregaram?<\/p>\n<p>O movimento popular da Nossa Am\u00e9rica deve \u2014 devemos continuar a lutar a partir das nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es, cada um a seu modo, preparando-se para todas as formas de luta sem nos ligarmos a nenhuma. Aprendendo com todas as armadilhas e manobras sujas com que assassinaram Emiliano Zapata e Augusto C\u00e9sar Sandino, Martin Luther King e Malcom X.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Que papel desempenhou o marxismo nos \u00faltimos 30 anos na Argentina desde que os militares do general Videla e do almirante Massera se retiraram at\u00e9 hoje?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: O nosso marxismo foi primeiro esmagado, aniquilado, queimado nas pessoas, nos livros e produ\u00e7\u00f5es culturais. O nosso marxismo n\u00e3o perdeu qualquer debate de ideias, fomos aniquilados e assassinados da forma mais perversa, que \u00e9 algo completamente diverso. Fogueira, tortura, viola\u00e7\u00e3o, aniquilamento e os desaparecidos, vieram as becas, as ins\u00edgnias, os politiqueiros, os editoriais prestigiosos, a coopta\u00e7\u00e3o. Mas hoje h\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o que ronda os 20 anos e que est\u00e1 \u00e0 procura. Reaparecem dispersos, mas reaparecem os ecos nunca apagados de todo, os sinais e s\u00edmbolos da tradi\u00e7\u00e3o insurgente e do marxismo rebelde. Est\u00e1 a nascer algo novo. O nosso papel modesto e microsc\u00f3pico \u00e9 apoiar o novo que nasce, tratar de orientar, dar elementos para que essa nova gera\u00e7\u00e3o fa\u00e7a o seu caminho, construa a sua experi\u00eancia, n\u00e3o escute e desobede\u00e7a \u00e0 voz do dono. E que sobretudo se inteire de que a luta n\u00e3o parte do zero. Antes de nascermos e andarmos de fraldas ou a tirar o ranho do nariz j\u00e1 havia muita mas muita gente a lutar. H\u00e1 que conhecer esses homens e mulheres. H\u00e1 que estud\u00e1-los para pode aprender e recriar um novo imagin\u00e1rio rebelde, radical, insurgente e revolucion\u00e1rio, \u00e0 escala nacional, continental e mundial. Sem mem\u00f3ria e sem hist\u00f3ria, sem fortalecer a nossa identidade e a nossa cultura, estamos perdidos antes de come\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Como v\u00ea o marxismo latino-americano \u00e0 escala continental?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Muito melhor que h\u00e1 20 anos! H\u00e1 vinte anos, ningu\u00e9m, nem os mais radicais se animavam a mencionar duas palavrinhas-chave \u00absocialismo\u00bb e \u00abimperialismo\u00bb. Hoje s\u00e3o moeda corrente. Tudo est\u00e1 em discuss\u00e3o, mas o que est\u00e1 claro \u00e9 que o imperialismo continua a existir, vigiando, controlando, violando a soberania de outros pa\u00edses, refor\u00e7ando o dom\u00ednio do capital onde quer que esteja, enquanto continua de maneira tradicional e enlouquecida destruindo o nosso planeta. Tamb\u00e9m est\u00e1 fora de quest\u00e3o que o neoliberalismo n\u00e3o continue, que outro mundo seja poss\u00edvel e que esse mundo \u00e9 e deva ser o socialismo. Qual socialismo? O que est\u00e1 aqui, pelo menos por agora, n\u00e3o resulta. Ser\u00e1 socialismo em cap\u00edtulos privados, mercado generalizado, consumo desenfreado e competi\u00e7\u00e3o entre as empresas ou ser\u00e1 pelo contr\u00e1rio uma planifica\u00e7\u00e3o socialista e participativa dos recursos sociais, ecol\u00f3gica, antipatriarcal, anti-imperialista e anticapitalista? \u00c9 evidente que a disputa est\u00e1 aberta e o marxismo de Marx e de Che Guevara tem muito que dizer a esse respeito\u2026 Ou \u00e9 hoje impens\u00e1vel uma sociedade que n\u00e3o esteja regulada pelo mercado?<\/p>\n<p>Causa d\u00f3 e at\u00e9 um pouco de pena, para n\u00e3o dizer vergonha, ouvir ou ler apologias do mercado em mil tons, melodias e cores, realizadas em nome do socialismo. O modelo mercantil do \u00abc\u00e1lculo econ\u00f3mico\u00bb contra o qual batalhou pacientemente Che Guevara nos anos 60 \u00e9 hoje um jogo de crian\u00e7as ao lado das argumenta\u00e7\u00f5es que circulam citando as autoridades mais diversas, desde Nicolas Bukharin a Deng Xiaoping, desde Charles Bettelheim a Alec Nove, entre muitos outros e outras. Um dos grandes desafios pendentes do marxismo do S\u00e9culo XXI consiste em desmontar a falsa homologa\u00e7\u00e3o de mercado e democracia. Para poder concretiz\u00e1-lo, como m\u00ednimo, h\u00e1 que ESTUDAR. As ordens j\u00e1 n\u00e3o chegam. E para decifrar os enigmas n\u00e3o resolvidos h\u00e1 que superar o div\u00f3rcio entre um marxismo acad\u00e9mico (erudito mas impotente e inoperante, que vibra e dan\u00e7a segundo a \u00faltima m\u00fasica da academia parisiense ou nova-iorquina) e um saber militante abnegado e esfor\u00e7ado mas que n\u00e3o estuda, n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o est\u00e1 informado e suplanta a falta de forma\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia de base com palavras de grande efeito ou com a import\u00e2ncia acr\u00edtica ou m\u00e1gica do \u00abmodelo chin\u00eas\u00bb, do modelo \u00abjugoslavo\u00bb ou qualquer outro ensaio de gabinete.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: caducaram as formas de luta radicais no novo contexto regional e mundial?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Estou muito mal e muito pouco informado. Quase n\u00e3o vejo TV nem ou\u00e7o r\u00e1dio nem leio os jornais, n\u00e3o vejo a Internet. Mas\u2026 segundo as poucas not\u00edcias que chegam ao meu bairro e os meus vizinhos me contam na loja, o Pent\u00e1gono n\u00e3o se dissolveu. A CIA n\u00e3o aposentou ningu\u00e9m. A NSA n\u00e3o enviou os seus milhares de agentes para veranear e beber uns copos. As for\u00e7as armadas n\u00e3o desapareceram. A pol\u00edcia multiplica-se. As pris\u00f5es n\u00e3o se transformaram em salas de baile e de festas. As leis \u00abantiterroristas\u00bb existem. Talvez tudo isto tenha acontecido e eu n\u00e3o o tenha visto na televis\u00e3o, mas suspeito que n\u00e3o aconteceu. Ent\u00e3o\u2026? Porque deve o movimento popular resignar-se \u00e0 mansid\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 dados hist\u00f3ricos ineg\u00e1veis. N\u00e3o podemos fazer como o avestruz que esconde a cabe\u00e7a e finge que n\u00e3o v\u00ea. Os nossos irm\u00e3os com mai\u00fasculas de Cuba dissolveram o antigo Departamento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, j\u00e1 denominado Departamento Am\u00e9rica, onde actuavam Manuel Pi\u00f1ero Losada, popularmente conhecido como Barbaruiva, com muitos amigos. Bom, t\u00eam todo o direito do mundo. Continuamos a gostar deles, a admir\u00e1-los e a respeit\u00e1-los. N\u00e3o julgamos. N\u00e3o opinamos. N\u00e3o abrimos a boca.<\/p>\n<p>Mas o resto do movimento rebelde, popular, insurgente e radical da Nossa Am\u00e9rica porque tem que dissolver-se? Hoje h\u00e1 muito mais pobreza, explora\u00e7\u00e3o, desemprego e exclus\u00e3o que nos anos 60. Porque dever\u00edamos renunciar \u00e0 perspectiva, ao projecto, \u00e0 estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o se os nossos inimigos continuarem firmes sem abandonar as suas posi\u00e7\u00f5es? Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que hoje j\u00e1 n\u00e3o temos nem pais nem av\u00f3s, nem Mecas nem Vaticanos ideol\u00f3gicos (utilizo agora estas express\u00f5es em sentido metaf\u00f3rico). Estamos \u00ab\u00f3rf\u00e3os\u00bb. Com toda a hist\u00f3ria \u00e0s costas, que reivindicamos com orgulho e com humor, sem renegar absolutamente nada de nada, mas j\u00e1 sem \u00abestados guias\u00bb, nem Vaticanos ideol\u00f3gicos. Nem Moscovo, nem Pequim, nem Alb\u00e2nia, nem Havana, nem Paris. Perd\u00e3o, n\u00e3o queremos ofender ningu\u00e9m, dizemo-lo com todo o respeito do mundo. E quem quiser dar conselhos que o fa\u00e7a, tem todo o direito. Mas n\u00f3s s\u00f3 ouvimos, n\u00e3o obedecemos.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 muitas novas pot\u00eancias emergentes (assim lhes chamam nos notici\u00e1rios) que talvez possam dar apoio circunstancial aos inimigos dos seus inimigos, mas nenhuma destas pot\u00eancias tem um projecto anticapitalista nem anti-imperialista s\u00e9rio. No melhor dos casos tem disputas geoestrat\u00e9gicas e geopol\u00edticas, mas de nenhum modo se prop\u00f5em construir uma sociedade socialista ou comunista \u00e0 escala planet\u00e1ria. Nem por sombras! N\u00e3o nos enganemos.<\/p>\n<p>Sim somos realistas, hoje o movimento popular s\u00f3 pode contar com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as. Devemos recriar o imagin\u00e1rio rebelde e revolucion\u00e1rio preparando-nos e mentalizando-nos para uma luta longa e dif\u00edcil que n\u00e3o se resolver\u00e1 dentro de seis meses. Aquele garoto do meu bairro de que lhes falei, Nicolo Maquiavel, garantia que lutar desta maneira \u00e9 muito mais dif\u00edcil. Custa muito mais construir uma for\u00e7a pr\u00f3pria sem muletas alheias. Mas quando se consegue construir torna-se indestrut\u00edvel, porque n\u00e3o se depende de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong><em>MP e SAM: Quais s\u00e3o em tua opini\u00e3o as tarefas das novas gera\u00e7\u00f5es de jovens militantes na Nossa Am\u00e9rica e no mundo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>NK: Precisamente essa \u00e9 a principal tarefa para as novas gera\u00e7\u00f5es. Aprender do passado, apropriar-se de toda a hist\u00f3ria de luta, resist\u00eancia, internacionalismo, hero\u00edsmo e abnega\u00e7\u00e3o, valorizar, conhecer, reconstruir, mas j\u00e1 sem Vaticanos. Necessitamos de construir uma for\u00e7a popular e revolucion\u00e1ria de alcance, no m\u00ednimo, continental, que seja pr\u00f3pria. Sem aplicar j\u00e1 \u00abmodelos\u00bb passados, nem o ataque s\u00fabito ao pal\u00e1cio de Inverno, nem a longa marcha, nem o internacionalismo centrado unicamente em Paris e Bruxelas, nem o foco rural do Caribe nem o sindicalismo economicista, nem a esquerda exclusivamente parlamentar e institucional. Pensar uma estrat\u00e9gia para os novos tempos, talvez at\u00e9 combinando e articulando todas estas formas, sem nos ligarmos mec\u00e2nica e dogmaticamente a nenhuma delas de modo excluente como se fosse um catecismo. Os nossos inimigos manejam todas as formas de luta! Essa \u00e9 uma tarefa da nova gera\u00e7\u00e3o. Uma tarefa imensa, mas apaixonante.<\/p>\n<p>E acabaria dizendo a um garoto ou uma garota de 20 anos: esta tarefa pendente, se quisermos, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 necess\u00e1ria e urgente, tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia \u00abdivertida\u00bb e \u00abatraente\u00bb. Muito mais atractiva e apaixonante do que qualquer experi\u00eancia med\u00edocre e opaca que oferece o capitalismo para a nossa vida quotidiana. O marxismo rebelde da Nossa Am\u00e9rica e as aventuras e desventuras da revolu\u00e7\u00e3o socialista oferecem hoje mais que tr\u00eas doses de droga, que 5 igrejas evang\u00e9licas, que 17 livros de auto ajuda, que 35 jogos electr\u00f3nicos, e que oito cami\u00f5es de cerveja. N\u00f3s temos tarefas estrat\u00e9gicas que s\u00f3 podem ser realizadas pelos jovens do S\u00e9culo XXI. Temos toda a confian\u00e7a do mundo que poder\u00e3o assumir semelhante tarefa. Se o conseguirem, n\u00f3s vamos segui-los e apoi\u00e1-los contentes e felizes.<\/p>\n<p><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Manuela Antunes<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote data-secret=\"V39owxbCmN\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3530\">Sentimento antibrasileiro \u00e9 tema central das elei\u00e7\u00f5es no Paraguai<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3530\/embed#?secret=V39owxbCmN\" data-secret=\"V39owxbCmN\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Sentimento antibrasileiro \u00e9 tema central das elei\u00e7\u00f5es no Paraguai&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEntrevista a Nestor Kohan\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7374\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-7374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1UW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}