{"id":7397,"date":"2015-02-08T01:06:22","date_gmt":"2015-02-08T01:06:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7397"},"modified":"2015-02-08T01:06:22","modified_gmt":"2015-02-08T01:06:22","slug":"o-que-ninguem-contara-sobre-auschwitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7397","title":{"rendered":"O que ningu\u00e9m contar\u00e1 sobre Auschwitz"},"content":{"rendered":"\n<p>Os grandes media internacionais falam de Auschwitz \u00e0 sua maneira: reescrevendo a hist\u00f3ria. E uma das formas de a reescrever \u00e9 fazer sil\u00eancio sobre o papel do grande capital internacional na promo\u00e7\u00e3o e no financiamento do nazismo. E fazer sil\u00eancio sobre os que tiraram lucro dos crimes monstruosos do nazi-fascismo.<\/p>\n<p>Passam setenta anos sobre a liberta\u00e7\u00e3o do campo da morte de <strong>Auschwitz, <\/strong>com toda a probabilidade o nome que evoca o mais pr\u00f3ximo que o ser humano, em toda sua hist\u00f3ria, chegou a estar do mal absoluto. E j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 dizer pouco.<\/p>\n<p>Auschwitz, e os outros mais de 50 \u201ccampos da morte\u201d disseminados por toda a Europa ocupada, evocados em un\u00edssono apenas com essa men\u00e7\u00e3o; e sem contar os quase<strong> 1000 campos de concentra\u00e7\u00e3o do Terceiro Reich, os m\u00e1s de 1150 guetos<\/strong> e tudo o resto.<\/p>\n<p><strong>Declarado Patrim\u00f3nio da Humanidade pela UNESCO<\/strong>, falar de Auschwitz continua sendo hoje demasiado dif\u00edcil, demasiado insuficiente, demasiado assustador. N\u00e3o h\u00e1 texto nem palavras suficientes para abarcar o que foi Auschwitz, e muito menos num breve artigo, \u00e9 certo.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 para mim demasiado inaceit\u00e1vel que mesmo no dia em que se recorda o 70\u00ba anivers\u00e1rio da liberta\u00e7\u00e3o de Auschwitz tudo o que ali sucedeu seja permitido esquecer que Auschwitz foi o maior campo de trabalho for\u00e7ado da Alemanha nazi.<\/p>\n<p>E que Auschwitz foi tamb\u00e9m \u201cIG Auschwitz\u201d. Filial de IG Farben, o grande Cartel empresarial do momento, formado pelas empresas Bayer, HOECHST e BASF.<\/p>\n<p>E n\u00e3o digo o grande Cartel empresarial \u201calem\u00e3o\u201d, porque isso n\u00e3o seria verdade, pelo menos at\u00e9 praticamente Dezembro de 1941 e o ataque a Pearl Harbor.<\/p>\n<p>E n\u00e3o seria verdade porque, segundo o pr\u00f3prio relat\u00f3rio oficial da Sec\u00e7\u00e3o de Investiga\u00e7\u00e3o Financeira do Governo Militar de Ocupa\u00e7\u00e3o, por altura de 1940, do total das 324.766 ac\u00e7\u00f5es que compunham o Cartel IG Farben, unicamente 35.616 estavam nas m\u00e3os de pessoas com resid\u00eancia na Alemanha, enquanto quase o triplo, 86.671 ac\u00e7\u00f5es, estavam nas m\u00e3os de<strong> investidores de nacionalidade estado-unidense<\/strong>, e quase cinco vezes mais, 166.100 ac\u00e7\u00f5es, estavam nas m\u00e3os de <strong>cidad\u00e3os su\u00ed\u00e7os<\/strong>.<\/p>\n<p>Quer dizer que mais de 80% do capital social de IG Farben era financiado a partir de Wall Street e da Su\u00ed\u00e7a, face a pouco mais de 10% de financiamento propriamente alem\u00e3o.<\/p>\n<p>E essa seria, precisamente, uma das raz\u00f5es determinantes para que os respons\u00e1veis empresariais de IG Farben (at\u00e9 24 altos dirigentes da companhia) n\u00e3o tivessem sido processados nos <strong>Julgamentos principais de Nuremberg<\/strong>: a dificuldade em conseguir deixar fora da investiga\u00e7\u00e3o penal outros cidad\u00e3os dos Estados Unidos, Reino Unido e outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Porque os l\u00edderes nazis foram uns monstros e uns dementes, evidentemente que sim, mas algum dia acabar\u00e1 por se falar tamb\u00e9m da aut\u00eantica <strong>conspira\u00e7\u00e3o de Farben, Krupp e outras grandes empresas<\/strong> mundiais, supostamente \u201calem\u00e3s\u201d que em nome de uma \u201cvantagem\u201d auto-referencial e \u00e0 margem de qualquer sensatez e humanidade, os promoveram e financiaram sem limite, com mais de tr\u00eas milh\u00f5es de marcos da \u00e9poca \u201cpara que as elei\u00e7\u00f5es de 1933 fossem as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica de Weimar\u201d (von Schnitzler dixit) para poderem depois fazer \u00e0 vontade \u201cneg\u00f3cios\u201d com o regime nacional-socialista aproveitando a \u201coportunidade de mercado\u201d da invas\u00e3o de quase toda a Europa bem como de \u201cinstala\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d como Auschwitz\u2026<\/p>\n<p>Porque, tal como assinalaria o promotor Taylor no seu \u201cindictment\u201d durante os Julgamentos posteriores a Nuremberg: <em>\u201cIG marchou com a Wehrmacht, concebeu, iniciou e preparou um detalhado plano para, apoiado por esta, se apropriar da ind\u00fastria qu\u00edmica da \u00c1ustria, Checoslov\u00e1quia, Polonia, Noruega, Fran\u00e7a, R\u00fassia e outros 18 pa\u00edses\u201d.<\/em><\/p>\n<p>E por isso t\u00e3o pouco deveria surpreender que ap\u00f3s a derrota do nazismo uma das Leis do Conselho de Controle aliado fosse precisamente a n\u00famero 9, de 20 de Setembro de 1945, especificamente destinada a dissolver o Cartel IG Farben e fundamentada, segundo as palavras do seu pr\u00f3prio pre\u00e2mbulo, na necessidade de \u201cimpedir que IG Farben pudesse representar qualquer amea\u00e7a futura para os seus vizinhos ou para a paz mundial atrav\u00e9s da Alemanha\u201d.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que fosse de esperar que, quando passam 70 anos sobre a liberta\u00e7\u00e3o, surgisse algum tipo de comunicado ou pedido p\u00fablico de perd\u00e3o pela \u201cIG Auschwitz\u201d por parte da Bayer, HOECHST ou BASF, empresas estas que, ao contr\u00e1rio da sua matriz Farben, continuam hoje a existir.<\/p>\n<p>Considero que \u201cIG Auschwitz\u201d representa um motivo muito real de preocupa\u00e7\u00e3o acerca da necessidade de rever os <strong>\u201climites e controlos\u201d do poder corporativo no mundo atual, e sobre a atual insufici\u00eancia dos instrumentos de Direito penal internacional<\/strong> perante tudo isso. E que, neste dias de rememora\u00e7\u00e3o, \u00e9 demasiado inaceit\u00e1vel, e arriscado para um futuro que ningu\u00e9m deseja ver repetido, que nem sequer seja mencionada a fundamental responsabilidade assumida por estes e outros actores empresariais no imenso crime de Auschwitz.<\/p>\n<p><strong>*Advogado. Perito em Direito penal internacional.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rebeli\u00f3n publicou este artigo com autoriza\u00e7\u00e3o do autor mediante uma licen\u00e7a de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes. <\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=3547\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=3547<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel \u00c1ngel Rodr\u00edguez Arias\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7397\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7397","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Vj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7397"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7397\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}