{"id":742,"date":"2010-08-17T05:41:52","date_gmt":"2010-08-17T05:41:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=742"},"modified":"2010-08-17T05:41:52","modified_gmt":"2010-08-17T05:41:52","slug":"uma-viagem-instrutiva-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/742","title":{"rendered":"Uma viagem instrutiva \u00e0 China"},"content":{"rendered":"\n<p>Este importante texto de Domenico Losurdo \u00e9 bastante mais do que um invulgarmente l\u00facido testemunho de diferentes aspectos do que p\u00f4de observar em recente viagem \u00e0 China. \u00c9 uma profunda reflex\u00e3o que, assente em s\u00f3lido conhecimento da sua complexa realidade e evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e fundamentada no marxismo, desmonta e den\u00fancia muitas das distor\u00e7\u00f5es e preconceitos que a ideologia dominante (incluindo a sua variante oportunista \u00abde esquerda\u00bb) todos os dias procura inculcar acerca da Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>De 3 a 16 de Julho tive o privil\u00e9gio de visitar algumas cidades e realidades da China, no \u00e2mbito duma delega\u00e7\u00e3o convidada pelo Partido Comunista chin\u00eas, delega\u00e7\u00e3o de que tamb\u00e9m faziam parte representantes dos partidos comunistas de Portugal, da Gr\u00e9cia e de Fran\u00e7a e da Linke alem\u00e3: quanto \u00e0 It\u00e1lia, para alem do abaixo assinado, participaram na viagem Vladimiro Giacch\u00e8 e Francesco Maringi\u00f2. Este texto n\u00e3o \u00e9 um di\u00e1rio nem uma cr\u00f3nica: s\u00e3o apenas reflex\u00f5es fruto duma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>1. A primeira coisa que salta aos olhos no decurso do encontro com os representantes do Partido comunista chin\u00eas e com os dirigentes das f\u00e1bricas, das escolas e dos bairros visitados, \u00e9 a t\u00f3nica autocr\u00edtica, digamos mesmo a paix\u00e3o autocr\u00edtica de que d\u00e3o provas os nossos interlocutores. Neste ponto, \u00e9 evidente a rotura com a tradi\u00e7\u00e3o do socialismo real. Os comunistas chineses n\u00e3o deixam de sublinhar que o caminho a percorrer \u00e9 longo, e numerosos e gigantescos s\u00e3o os problemas a resolver e os desafios a enfrentar, e que, apesar de tudo, o seu pa\u00eds continua a fazer parte do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Na verdade, no decurso da nossa viagem, n\u00e3o encontr\u00e1mos esse Terceiro Mundo. Pelo menos em Pequim, que fascina com o seu aeroporto ultramoderno e reluzente, e ainda menos em Qingdao, onde se desenrolaram os Jogos Ol\u00edmpicos 2008 e que lembra uma cidade ocidental duma beleza e eleg\u00e2ncia especiais e com um n\u00edvel de vida elevado. Tamb\u00e9m n\u00e3o encontr\u00e1mos o Terceiro Mundo quando nos afast\u00e1mos 1 500 km das regi\u00f5es orientais e costeiras, as que s\u00e3o mais desenvolvidas e aterr\u00e1mos em Chongqing, a enorme megal\u00f3pole que cont\u00e9m um total de 32 milh\u00f5es de habitantes e que, at\u00e9 h\u00e1 alguns anos, parecia ter dificuldade em acompanhar o milagre econ\u00f3mico. N\u00e3o temos d\u00favidas de que o Terceiro Mundo existe ainda no enorme pa\u00eds asi\u00e1tico, mas o encontro falhado com ele foi consequ\u00eancia n\u00e3o da vontade de esconder os pontos fracos da China moderna, mas do facto de que o impetuoso crescimento em curso j\u00e1 h\u00e1 mais de trinta anos est\u00e1 a reduzir, a diminuir e a fraccionar a um ritmo acelerado a \u00e1rea do subdesenvolvimento, que se esbate numa lonjura cada vez mais distante.<\/p>\n<p>No ocidente n\u00e3o faltar\u00e3o, a este prop\u00f3sito, os que v\u00e3o fazer uma careta: desenvolvimento, crescimento, industrializa\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o, milagre econ\u00f3mico duma amplitude e dura\u00e7\u00e3o sem precedentes na hist\u00f3ria, que vulgaridade! Este snobismo do belo mundo parece considerar insignificante o facto de que milh\u00f5es de pessoas tenham escapado a um destino que os condenava \u00e0 subnutri\u00e7\u00e3o, \u00e0 fome e mesmo \u00e0 morte por inani\u00e7\u00e3o. E os que acham que o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de bem-estar econ\u00f3mico e de consumismo deviam ler (ou reler) as p\u00e1ginas do Manifesto do partido comunista que p\u00f5e em evid\u00eancia o idiotismo duma vida rural circunscrita pela mis\u00e9ria, incluindo a cultural, das fronteiras apertadas e intranspon\u00edveis. Quando visitamos hoje as maravilhas da Cidade imperial em Pequim e, a alguns quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, a Grande Muralha, deparamos com um fen\u00f3meno que n\u00e3o existia n\u00e3o apenas no long\u00ednquo 1973, mas at\u00e9 mesmo no ano 2000, ou seja, nas minhas duas viagens anteriores \u00e0 China. Hoje em dia, salta aos olhos a presen\u00e7a maci\u00e7a de visitantes chineses: s\u00e3o turistas com caracter\u00edsticas especiais: chegam frequentemente dum canto remoto do enorme pa\u00eds; provavelmente \u00e9 a primeira vez que visitam a capital; no plano cultural come\u00e7am a apropriar-se de certa forma da no\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o muito antiga de que fazem parte.; deixam de ser simples camponeses ligados como numa pris\u00e3o ao quinh\u00e3o de terra que cultivam e tornam-se verdadeiramente cidad\u00e3os dum pa\u00eds cada vez mais aberto ao mundo.<\/p>\n<p>Muito depois das horas de abertura para a visita dos monumentos e museus, a pra\u00e7a Tienanmen continua a formigar de pessoas: s\u00e3o muitos os que esperam e observam com orgulho o i\u00e7ar das cores da Rep\u00fablica Popular da China. N\u00e3o, n\u00e3o se trata de chauvinismo: os chineses gostam de ser fotografados com visitantes estrangeiros (eu tamb\u00e9m fui alvo e aceitei com prazer pedidos deste g\u00e9nero): \u00e9 como se convidassem o resto do mundo a festejar com eles o regresso duma civiliza\u00e7\u00e3o muito antiga, oprimida e humilhada durante muito tempo pelo imperialismo. N\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida: o prodigioso desenvolvimento das for\u00e7as produtivas n\u00e3o se limitou a arrancar da mis\u00e9ria e das priva\u00e7\u00f5es centenas de milh\u00f5es homens e de mulheres; assegurou-lhes uma dignidade individual e nacional, permitiu-lhes alargar consideravelmente o seu horizonte abrindo-se perante o enorme pa\u00eds de que fazem parte e, mais ainda, perante o mundo inteiro.<\/p>\n<p>2. Mas o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de degrada\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o da natureza? Eis-nos em presen\u00e7a duma preocupa\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo duma certeza evidenciada de modo especialmente gritante pela esquerda ocidental. Vemos nisto aflorar uma estranha vis\u00e3o da natureza, que \u00e9 considerada doente se as plantas murcham e secam mas que, segundo parece, \u00e9 considerada perfeitamente s\u00e3 se os que definham e morrem em massa s\u00e3o os homens e as mulheres. H\u00e1 um certo ecologismo que acaba por escavar ainda mais profundamente o abismo que, no entanto, pretende querer criticar, entre o mundo humano e o mundo natural. Mas, mesmo assim, concentremo-nos na natureza no seu sentido estrito. H\u00e1 uns tempos um historiador bastante conhecido (Niall Ferguson) escreveu um artigo, publicado tamb\u00e9m no Corriere della Sera, que logo no t\u00edtulo denunciava \u201ca guerra da China \u00e0 natureza\u201d. Na realidade, logo no longo percurso que vai do aeroporto de Pequim \u00e0 Grande Muralha, e no outro longo trajecto que, seguindo um outro percurso, vai do centro de Pequim ao aeroporto, apercebemo-nos duma quantidade impressionante de \u00e1rvores obviamente recentemente plantadas, no \u00e2mbito dum projecto bastante ambicioso de refloresta\u00e7\u00e3o e de extens\u00e3o da superf\u00edcie florestal em que todo o pa\u00eds investe. Uns dias antes do fim da nossa viagem tivemos a possibilidade de visitar uma \u00e1rea ecol\u00f3gica de 10 quil\u00f3metros quadrados, situada nos arredores de Weifang, uma cidade do nordeste em r\u00e1pida expans\u00e3o, dedicada ao desenvolvimento da alta tecnologia mas que simultaneamente quer distinguir-se pela sua qualidade de vida. A \u00e1rea ecol\u00f3gica, cujo acesso \u00e9 livre e gratuito para toda a gente, e que s\u00f3 pode ser visitada a p\u00e9 ou com um min\u00fasculo autocarro aberto e movido a electricidade, foi libertada recuperando um territ\u00f3rio at\u00e9 ent\u00e3o muit\u00edssimo degradado e que actualmente resplandece numa beleza encantadora e serenidade. O desenvolvimento industrial e econ\u00f3mico n\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o respeito pelo ambiente. Claro que o equil\u00edbrio entre estas duas exig\u00eancias \u00e9 extremamente dif\u00edcil num pa\u00eds como a China, que tem que alimentar um quinto da popula\u00e7\u00e3o mundial tendo apenas \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o um s\u00e9timo da superf\u00edcie cultiv\u00e1vel: \u00e9 neste enquadramento que devem ser situados os erros praticados e os grandes preju\u00edzos infligidos ao ambiente nos anos em que a prioridade absoluta era o arranque econ\u00f3mico necess\u00e1rio para p\u00f4r fim o mais rapidamente poss\u00edvel \u00e0 desnutri\u00e7\u00e3o e \u00e0 mis\u00e9ria das massas. Mas esta fase felizmente foi ultrapassada: actualmente \u00e9 poss\u00edvel promover um ecologismo que, enquanto garante a vida das \u00e1rvores e das flores, tamb\u00e9m saiba garantir a vida e a sa\u00fade dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>3. J\u00e1 falei da paix\u00e3o autocr\u00edtica que parece caracterizar os comunistas chineses. S\u00e3o eles que insistem no car\u00e1cter intoler\u00e1vel, em especial, do fosso crescente entre cidades e campo, entre zonas litorais por um lado e o centro e o oeste do pa\u00eds por outro. Esses fen\u00f3menos n\u00e3o s\u00e3o a demonstra\u00e7\u00e3o do desvio capitalista da China? \u00c9 uma tese que est\u00e1 amplamente espalhada na esquerda ocidental e que parece encontrar eco entre alguns membros da nossa delega\u00e7\u00e3o multipartid\u00e1ria. No debate franco e vivo que se desenvolve, intervenho com uma pontua\u00e7\u00e3o por assim dizer \u201cfilos\u00f3fica\u201d. Podemos proceder a duas compara\u00e7\u00f5es bastante diferentes uma da outra. N\u00e3o podemos comparar o \u201csocialismo de mercado\u201d com o socialismo a que chamamos dos nossos \u201cdesejos\u201d, com o socialismo de certa forma maduro, e portanto p\u00f4r em evid\u00eancia os limites, as contradi\u00e7\u00f5es, as desarmonias, as desigualdades que caracterizam o primeiro: s\u00e3o os pr\u00f3prios comunistas chineses que insistem no facto de que o pa\u00eds que dirigem est\u00e1 apenas na \u201cfase prim\u00e1ria do socialismo\u201d, fase destinada a durar at\u00e9 \u00e0 metade deste s\u00e9culo, confirmando a grande dura\u00e7\u00e3o e a complexidade do processo de transi\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para chegar \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o duma sociedade nova. Mas, isso n\u00e3o torna l\u00edcito confundir o \u201csocialismo de mercado\u201d com o capitalismo. Como ilustra\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a radical que subsiste entre os dois podemos ter que recorrer a uma met\u00e1fora. Na China estamos na presen\u00e7a de dois comboios que se afastam da gare chama \u201cSubdesenvolvimento\u201d. Sim, um desses dois comboios \u00e9 muito r\u00e1pido, o outro de velocidade mais reduzida: por causa disso, a dist\u00e2ncia entre os dois aumenta progressivamente, mas n\u00e3o podemos esquecer que os dois avan\u00e7am na mesma direc\u00e7\u00e3o; e tamb\u00e9m \u00e9 preciso lembrar que n\u00e3o faltam os esfor\u00e7os para acelerar a velocidade do comboio relativamente menos r\u00e1pido e que, de qualquer modo, dado o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, os passageiros do comboio muito r\u00e1pido s\u00e3o cada vez mais numerosos. No \u00e2mbito do capitalismo, pelo contr\u00e1rio, os dois comboios em quest\u00e3o avan\u00e7am em direc\u00e7\u00f5es opostas. A \u00faltima crise p\u00f5es em destaque um processo em ac\u00e7\u00e3o desde h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas: o aumento da mis\u00e9ria das massas populares e o desmantelamento do Estado social encontram-se a par da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os duma oligarquia parasit\u00e1ria restrita.<\/p>\n<p>4. E, no entanto, entre os comunistas chineses cresce a intoler\u00e2ncia no que se refere ao afastamento entre zonas litorais e \u00e1reas do centro-oeste, entre cidades e campo e no seio da pr\u00f3pria cidade. \u00c9 uma atitude observada com surpresa e agrado por toda a delega\u00e7\u00e3o da Europa ocidental. Esta intoler\u00e2ncia exibe-se de forma aguda em Chongqing, a metr\u00f3pole situada a 1 500 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia da costa. A palavra de ordem (V\u00e3o para oeste!), que incita a estender ao centro e ao oeste do enorme pa\u00eds os prodigiosos desenvolvimentos do leste, foi lan\u00e7ada j\u00e1 h\u00e1 dez anos. Os primeiros resultados s\u00e3o vis\u00edveis: por exemplo, o Tibete e a Mong\u00f3lia interior exibem nos \u00faltimos anos uma taxa de crescimento superior \u00e0 m\u00e9dia nacional. N\u00e3o \u00e9 o caso de Xinjiang onde, em 2009 (o ano da crise), em rela\u00e7\u00e3o a uma m\u00e9dia nacional de 8,7%, o PIB \u201cs\u00f3\u201d aumentou 8,1%. E foi em Xinjiang precisamente que se derramou, durante as \u00faltimas semanas e meses, uma nova vaga de financiamentos e de estimulantes. Mas agora, para al\u00e9m das regi\u00f5es habitadas por minorias nacionais, a que o governo central dedica evidentemente uma aten\u00e7\u00e3o especial, trata-se de aplicar a n\u00edvel geral uma acelera\u00e7\u00e3o decisiva e um significado novo e mais radical \u00e0 pol\u00edtica do V\u00e3o para oeste!<\/p>\n<p>Tornada num munic\u00edpio aut\u00f3nomo sob a depend\u00eancia directa do governo central (na mesma situa\u00e7\u00e3o est\u00e3o Pequim, Xangai e Tianjin) e podendo assim beneficiar de estimulantes e de apoios de todo o tipo, Chongqing aspira a tornar-se na nova Xangai, ou seja, aspira n\u00e3o s\u00f3 em ultrapassar o atraso mas atingir o n\u00edvel da China mais avan\u00e7ada, e constituir um ponto de refer\u00eancia tamb\u00e9m no plano mundial. A megal\u00f3pole situada no interior do grande pa\u00eds asi\u00e1tico aparece diante dos nossos olhos como um enorme estaleiro: a actividade de potencializa\u00e7\u00e3o das infra-estruturas desenvolve-se em pleno, tal como a da constru\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas, de escrit\u00f3rios, de habita\u00e7\u00f5es civis; as fileiras de \u00e1rvores rec\u00e9m-plantadas e ciosamente tratadas saltam aos olhos, tal como as sebes de verdura que ladeiam e por vezes tamb\u00e9m separam estradas e auto-estradas. Sim, porque para l\u00e1 do milagre econ\u00f3mico, Chongqing persegue um objectivo ainda mais ambicioso: pretende apresentar-se a toda a na\u00e7\u00e3o como um \u201cnovo modelo\u201d de desenvolvimento, regulando melhor e de modo mais \u201charmonioso\u201d as rela\u00e7\u00f5es no interior da cidade, entre cidade e campo e entre homem e natureza. Naquilo que dever\u00e1 vir a ser a nova Xangai, a refer\u00eancia a M\u00e3o Zedong \u00e9 permanente, e n\u00e3o se trata apenas da homenagem devida ao grande protagonista da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional do povo chin\u00eas, ao pai da p\u00e1tria que, e n\u00e3o por acaso, est\u00e1 na pra\u00e7a Tienanmen e nas notas do banco; trata-se de levar a s\u00e9rio a retoma do \u201cpensamento de M\u00e3o Zedong\u201d, inscrito no estatuto do Partido comunista chin\u00eas. Em Chongqing temos a n\u00edtida impress\u00e3o de que come\u00e7aram os debates e, pressupomos, a luta pol\u00edtica para a prepara\u00e7\u00e3o do Congresso previsto para daqui a dois anos.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m, neste momento, livrarmo-nos de um equ\u00edvoco poss\u00edvel: a discuss\u00e3o n\u00e3o se trava sobre a pol\u00edtica de reforma e de abertura definida h\u00e1 mais de trinta anos na Terceira sess\u00e3o plen\u00e1ria do XI comit\u00e9 central (18-22 de Dezembro de 1978): no Estatuto do PCC est\u00e1 inscrita tamb\u00e9m a retoma da \u201cteoria de Deng Xiaoping\u201d e da \u201cimportante ideia das tr\u00eas representa\u00e7\u00f5es\u201d, apesar de a categoria de \u201cpensamento\u201d querer ter uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica maior do que a categoria de \u201cteoria\u201d (que faz refer\u00eancia a uma conjuntura, apesar de ser uma conjuntura de longo prazo) e que a categoria de \u201cideia\u201d (a qual, por mais \u201cimportante\u201d que seja, designa uma contribui\u00e7\u00e3o sobre um aspecto determinado). Mas, acima de tudo, ningu\u00e9m quer voltar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que na China n\u00e3o havia \u201cigualdade\u201d sen\u00e3o no sentido em que os dois comboios da met\u00e1fora que utilizei v\u00e1rias vezes estavam ambos parados na gare \u201cSubdesenvolvimento\u201d ou se afastavam dela lentamente. N\u00e3o, de agora em diante pode-se considerar como definitivamente adquirida a consci\u00eancia segundo a qual o socialismo n\u00e3o \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o igual da mis\u00e9ria. Tanto mais que uma \u201cigualdade\u201d dessas \u00e9 totalmente ilus\u00f3ria e pode mesmo funcionar ao contr\u00e1rio. Quando a mis\u00e9ria atinge um certo n\u00edvel, pode conter o risco da morte por inani\u00e7\u00e3o. Nesse caso, por mais modesto e reduzido que seja, o naco de p\u00e3o que garante a sobreviv\u00eancia aos mais sortudos assinala apesar de tudo uma desigualdade absoluta, a desigualdade absoluta que se mant\u00e9m entre a vida e a morte. Foi, antes da introdu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de reforma e de abertura, o que se constatou nos anos mais tr\u00e1gicos da Rep\u00fablica Popular da China: consequ\u00eancia quer da heran\u00e7a catastr\u00f3fica derivada da pilhagem e da opress\u00e3o imperialista, quer do embargo impiedoso imposto pelo ocidente, quer dos graves erros praticados pela nova direc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A centralidade do dever de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas mant\u00e9m-se pois garantida, mas essa centralidade pode ser interpretada de modo sensivelmente diferente\u2026<\/p>\n<p>5. A pessoa que foi chamada para dirigir Chongqing \u00e9 Bo Xilai, o brilhante ex-ministro do com\u00e9rcio exterior. \u00c9 uma circunst\u00e2ncia que nos permite reflectir sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o do grupo dirigente na China. Um representante do governo central que, no desenvolvimento da sua fun\u00e7\u00e3o, se distinguiu e adquiriu um prest\u00edgio at\u00e9 mesmo no plano internacional, \u00e9 enviado para a prov\u00edncia para enfrentar uma tarefa de natureza diferente e de propor\u00e7\u00f5es gigantescas. Combatendo a corrup\u00e7\u00e3o de modo capilar e radical e propondo na teoria e na pr\u00e1tica real de governa\u00e7\u00e3o um \u201cmodelo novo\u201d, destinado a queimar etapas na liquida\u00e7\u00e3o das desigualdades que se tornaram intoler\u00e1veis, e na raliza\u00e7\u00e3o da \u201csociedade harmoniosa\u201d, Bo Xilai suscitou um debate nacional: \u00e9 f\u00e1cil prever a sua presen\u00e7a numa posi\u00e7\u00e3o eminente no grupo dirigente que sair\u00e1 do XVIII Congresso do PCC, apesar de que seria um erro dar como dado adquirido o resultado desse debate (e da luta pol\u00edtica) em curso. Portanto: a concluir um per\u00edodo de incertezas, de conflitos e de viol\u00eancias, \u00e0 primeira gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios que tinham no centro Mao Zedong, sucedeu a segunda gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios com Deng Xiaoping no centro. Seguiram-se depois a terceira e a quarta gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rias tendo ao centro, respectivamente, Jiang Zenin e Hu Jintao. Do pr\u00f3ximo congresso do Partido sair\u00e1 a quinta gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios. \u00c9 um perspectiva dada em seu tempo por Deng Xiaoping que confirmou assim a sua clarivid\u00eancia e a sua lucidez na constru\u00e7\u00e3o do Partido e do Estado: a personaliza\u00e7\u00e3o do poder e o culto da personalidade foram ultrapassados; p\u00f4s-se fim \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o vital\u00edcia dos cargos pol\u00edticos; afirmou-se um processo de forma\u00e7\u00e3o e de sec\u00e7\u00e3o dos grupos dirigentes que, at\u00e9 agora, tem dado excelentes resultados.<\/p>\n<p>6. Mas at\u00e9 onde podemos considerar como socialista o \u201csocialismo de mercado\u201d teorizado e praticado pelo Partido comunista chin\u00eas? Na delega\u00e7\u00e3o multicolorida que vem do ocidente n\u00e3o faltam as d\u00favidas, as perplexidades, as cr\u00edticas abertas. Desenvolve-se um debate, aberto e aceso, mais uma vez encorajado pelos nossos interlocutores e anfitri\u00f5es. N\u00e3o subsistem d\u00favidas de que, na sequ\u00eancia da afirma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de reforma e de abertura, a \u00e1rea da economia do Estado foi restringida e que a \u00e1rea da economia privada se alargou: estaremos na presen\u00e7a dum processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo? Os comunistas chineses fazem notar que o papel central e dirigente do Estado (e do Partido comunista) se mant\u00e9m firme: qual \u00e9?<\/p>\n<p>O panorama econ\u00f3mico e social da China de hoje caracteriza-se pela presen\u00e7a simult\u00e2nea das formas mais diversas de propriedade: propriedade do Estado; propriedade p\u00fablica (neste caso o propriet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o Estado central mas, por exemplo, um munic\u00edpio); sociedades por ac\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito das quais a propriedade do Estado ou a propriedade p\u00fablica det\u00e9m a maioria absoluta, ou ent\u00e3o uma maioria relativa, ou ainda uma percentagem significativa do pacote de ac\u00e7\u00f5es; propriedade cooperativa; propriedade privada. Nestas condi\u00e7\u00f5es, torna-se muito dif\u00edcil calcular com rigor a percentagem da economia do Estado e p\u00fablica. Quando voltei para casa, encontro um n\u00famero especialmente interessante do International Herald Tribune: leio nele um c\u00e1lculo efectuado por um professor da prestigiada universidade de Yala, precisamente Chen Zhiwu (um americano, portanto, de origem chinesa, que est\u00e1 talvez numa posi\u00e7\u00e3o privilegiada para se orientar na leitura da economia do grande pa\u00eds asi\u00e1tico) indicando que \u201co Estado controla tr\u00eas quartos da riqueza da China\u201d (7 de Julho de 2010, p\u00e1g, 18). \u00c9 preciso acrescentar a isto um dado geralmente esquecido: na China a propriedade do solo est\u00e1 inteiramente nas m\u00e3os do Estado; os camponeses t\u00eam o usufruto dele, que tamb\u00e9m podem vender, mas a sua propriedade n\u00e3o. No que se refere \u00e0 ind\u00fastria, outros c\u00e1lculos atribuem um peso mais reduzido ao Estado. Em todo o caso, os que imaginam um processo gradual e irrevers\u00edvel de retirada do Estado da economia, est\u00e3o completamente enganados. No Newsweek de 12 de Julho, um artigo de Isaac Stone Fish chama a aten\u00e7\u00e3o para as \u201cempresas de propriedade do Estado que dominam de modo crescente a economia chinesa\u201d. Em todo o caso \u2013 reafirma o seman\u00e1rio americano \u2013 no desenvolvimento do oeste (que a partir de agora se desenha em toda a sua amplitude e profundidade), o papel da empresa privada ser\u00e1 bem mais reduzido do que o desempenhado no seu tempo no desenvolvimento do leste.<\/p>\n<p>Os camaradas chineses fazem-nos notar que, ao introduzirem fortes elementos de concorr\u00eancia, a \u00e1rea econ\u00f3mica privada contribuiu em \u00faltima an\u00e1lise para o refor\u00e7o da \u00e1rea do Estado e p\u00fablica, que foi assim obrigada a desembara\u00e7ar-se da burocracia, da falta de empenhamento, da inefic\u00e1cia, do clientelismo. Com efeito, precisamente gra\u00e7as \u00e0s reformas de Deng Xiaoping, as empresas do Estado gozam actualmente duma solidez e duma competitividade sem precedentes na hist\u00f3ria do socialismo. \u00c9 um ponto que pode ser esclarecido a partir de um n\u00famero do Economist (10-16 Julho 2010) que compro e percorro no confort\u00e1vel aeroporto de Pequim, enquanto espero o voo de regresso a It\u00e1lia; o artigo de fundo sublinha que quatro dos dez bancos mundiais mais importantes s\u00e3o actualmente chineses. Esses bancos, contrariamente aos bancos ocidentais, est\u00e3o de excelente sa\u00fade, \u201cganham dinheiro\u201d, mas \u201co Estado det\u00e9m a maioria das ac\u00e7\u00f5es e o Partido comunista nomeia os mais altos dirigentes, cuja retribui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma frac\u00e7\u00e3o da dos seus hom\u00f3logos ocidentais\u201d. Al\u00e9m disso, esses dirigentes \u201ct\u00eam que responder a uma autoridade superior \u00e0 da bolsa\u201d, ou seja, \u00e0s autoridades de um Estado dirigido pelo Partido comunista. O prestigiado seman\u00e1rio financeiro ingl\u00eas n\u00e3o consegue convencer-se destas novidades inauditas; tem esperan\u00e7a e aposta que as coisas v\u00e3o mudar. Hoje h\u00e1 um facto que aparece aos olhos de toda a gente: a economia do Estado e p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de inefic\u00e1cia, como pretendem os paladinos do neo-liberalismo, e os bancos n\u00e3o t\u00eam que pagar aos seus dirigentes como nababos para serem competitivos no mercado interno e internacional.<\/p>\n<p>7. \u00c9 prov\u00e1vel que a \u00e1rea econ\u00f3mica privada satisfa\u00e7a exig\u00eancias ulteriores. Primeiro que tudo, torna mais f\u00e1cil a introdu\u00e7\u00e3o da tecnologia mais avan\u00e7ada dos pa\u00edses capitalistas: n\u00e3o esque\u00e7amos que nesse ponto os EU procuram ainda impor um embargo \u00e0 custa da China. Mas h\u00e1 um outro ponto, de que me apercebo quando visitamos o muito avan\u00e7ado parque industrial de Weifang. Em certos casos s\u00e3o os chineses do ultramar que fundaram as empresas privadas: estudaram no estrangeiro (sobretudo nos EU), obtendo excelentes resultados e acumulando por vezes algum capital. Regressam agora \u00e0 p\u00e1tria, com uma decis\u00e3o que suscita alguma perturba\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o em que se estabeleceram. Como \u00e9 poss\u00edvel que intelectuais de primeiro plano abandonem a \u201cdemocracia\u201d para regressar \u00e0 \u201cditadura\u201d? Para al\u00e9m do apelo patri\u00f3tico que os convida a participar no esfor\u00e7o colectivo de todo um povo para que a China atinja os n\u00edveis mais avan\u00e7ados de desenvolvimento, de tecnologia e de civiliza\u00e7\u00e3o, estes chineses do ultramar s\u00e3o tamb\u00e9m atra\u00eddos pela perspectiva de fazer valer os seus talentos e a sua experi\u00eancia tanto nas Universidades como nas empresas privadas de alta tecnologia que fundam. Noutros termos, estamos perante a continua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de frente unida teorizada e praticada por M\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 no decurso da luta revolucion\u00e1ria mas tamb\u00e9m durante v\u00e1rios anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>Mas entremos finalmente nessas f\u00e1bricas de propriedade privada. Com ou sem chineses do ultramar, reservam-nos grandes surpresas. Os que v\u00eam ao nosso encontro s\u00e3o em primeiro lugar membros do Comit\u00e9 do Partido, cujas fotografias est\u00e3o em grande destaque nos diversos servi\u00e7os. Na conversas aparecem quase casualmente os condicionalismos que pesam sobre a propriedade. Esta \u00e9 obrigada ou pressionada a reinvestir uma parte consider\u00e1vel dos lucros (por vezes at\u00e9 40%) no desenvolvimento tecnol\u00f3gico da empresa; uma outra parte dos lucros, cuja percentagem \u00e9 dif\u00edcil de calcular, \u00e9 utilizada para interven\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter social (por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de escolas profissionais que s\u00e3o entregues ao Estado ou ao munic\u00edpio, ou ent\u00e3o o socorro a v\u00edtimas duma cat\u00e1strofe natural). Se nos lembrarmos que estas empresas dependem fortemente do cr\u00e9dito atribu\u00eddo por um sistema banc\u00e1rio controlado pelo Estado e se pensarmos tamb\u00e9m na presen\u00e7a no interior desses empresas do Partido e do sindicato, imp\u00f5e-se uma conclus\u00e3o: nesses empresas privadas o poder da propriedade privada \u00e9 equilibrado e limitado por uma esp\u00e9cie de contra-poder.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o papel desempenhado pelo Partido e pelo sindicato? As respostas que recebemos n\u00e3o satisfazem todos os membros da nossa delega\u00e7\u00e3o. Certamente, dando novamente eco a uma tend\u00eancia bastante espalhada na esquerda ocidental, concentram a sua aten\u00e7\u00e3o exclusivamente no n\u00edvel dos sal\u00e1rios. Os nossos interlocutores chineses, pelo contr\u00e1rio, explicam-nos que, para al\u00e9m da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho dos oper\u00e1rios, preocupam-se com a contribui\u00e7\u00e3o que as suas empresas podem dar para o desenvolvimento da economia e da tecnologia de toda a na\u00e7\u00e3o. Desta troca de ideias vemos novamente surgir a oposi\u00e7\u00e3o entre as duas figuras em que Lenine insiste em Que faire ? O representante da esquerda ocidental, que apela aos oper\u00e1rios chineses para rejeitar todos os compromissos com o poder do Estado na sua luta por sal\u00e1rios mais elevados, julga estar a ser radical e mesmo revolucion\u00e1rio. Na realidade, coloca-se na esteira do reformista ou, pior ainda, do \u201csecret\u00e1rio\u201d corporativista \u201cdum sindicato qualquer\u201d que Lenine censura por perder de vista a luta de emancipa\u00e7\u00e3o nos seus diversos aspectos nacionais e internacionais, tornando-se assim por vezes o ponto de apoio de \u201cuma na\u00e7\u00e3o que explora o mundo todo\u201d (naquela \u00e9poca a Inglaterra). O revolucion\u00e1rio \u201ctribuno popular\u201d conduz-se de forma muito diferente. Claro que, em rela\u00e7\u00e3o a 1902 (ano da publica\u00e7\u00e3o de Que faire ?), a situa\u00e7\u00e3o mudou radicalmente. Entretanto, na China o \u201ctribuno popular\u201d pode contar com o apoio do poder pol\u00edtico; o que n\u00e3o quer dizer que, para ser revolucion\u00e1rio, ele, aproveitando-se dos ensinamentos de Lenine, n\u00e3o deva saber encarar o conjunto das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais a um n\u00edvel nacional e a um n\u00edvel internacional. Imp\u00f5e-se um aumento consistente dos sal\u00e1rios e est\u00e1 j\u00e1 previsto, favorecido ou promovido pelo pr\u00f3prio poder central (como \u00e9 reconhecido pela grande imprensa internacional)nas este aumento, para al\u00e9m de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho dos oper\u00e1rios, visa aumentar o conte\u00fado tecnol\u00f3gico dos produtos industriais e consolidar assim a economia chinmesa no seu conjunto, tornando-a tamb\u00e9m menos dependente das exporta\u00e7\u00f5es. As (justas) reivindica\u00e7\u00f5es salariais imediatas n\u00e3o podem comprometer a realiza\u00e7\u00e3o do objectivo estrat\u00e9gico de refor\u00e7o de um pa\u00eds que, com o seu crescimento econ\u00f3mico, refreia cada vez mais os planos do imperialismo ou da \u201chegemonia\u201d, como os nossos interlocutores chineses preferem dizer de modo mais diplom\u00e1tico.<\/p>\n<p>8. Finalmente, \u00faltimo objecto de esc\u00e2ndalo: em homenagem \u00e0 \u201cimportante ideia das tr\u00eas representa\u00e7\u00f5es\u201d, at\u00e9 os empres\u00e1rios s\u00e3o aceites nas fileiras do Partido comunista chin\u00eas. E de novo surgem as preocupa\u00e7\u00f5es e as ang\u00fastias de alguns membros da delega\u00e7\u00e3o europeia: estaremos a assistir ao aburguesamento do Partido que deveria garantir o sentido da marcha socialista da economia de mercado? Para come\u00e7ar, os interlocutores chineses fazem notar que o n\u00famero dos empres\u00e1rios aceites nas fileiras do Partido (ap\u00f3s um processo rigoroso de verifica\u00e7\u00e3o e selec\u00e7\u00e3o) \u00e9 insignificante em compara\u00e7\u00e3o com uma massa de militantes que quase atinge os 80 milh\u00f5es; noutros termos, trata-se duma presen\u00e7a simb\u00f3lica. Mas esta explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente. Vismos que alguns desses empres\u00e1rios desempenham um appel nacional: em certos sectores da economia eliminaram ou reduziram a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica da China vis-\u00e0-vis o estrangeiro; por vezes, n\u00e3o apenas no plano objectivo mas de modo consciente alguns deles colocaram-se na primeira fila na luta travada pelo Partido comunista desde 1949: a luta para derrotar o imperialismo passando da conquista da independ\u00eancia no plano pol\u00edtico para a conquista da independ\u00eancia tamb\u00e9m no plano econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico. Num mundo que se caracteriza cada vez mais pela knowledge economy, ou seja por uma economia baseada no conhecimento, pode acontecer que o her\u00f3i do trabalho stakhanoviste da URSS de Estaline assuma o aspecto totalmente novo de um t\u00e9cnico super-especializado que, lan\u00e7ando uma empresa de alto valor tecnol\u00f3gico, forne\u00e7a uma contribui\u00e7\u00e3o importante para a defesa e para o refor\u00e7o da p\u00e1tria socialista.<\/p>\n<p>Podemos fazer uma \u00faltima considera\u00e7\u00e3o. Na onda do \u201csocialismo de mercado\u201d constituiu-se um novo estrato burgu\u00eas em r\u00e1pida expans\u00e3o. A coopta\u00e7\u00e3o de alguns dos seus membros no quadro do Partido comunista comporta uma decapita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deste novo estrato, do mesmo modo que na sociedade burguesa a coopta\u00e7\u00e3o por parte da e dominante de algumas personalidades de extrac\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria ou popular estimua a decapita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das es subalternas.<\/p>\n<p>9. Chegou a altura de tirar conclus\u00f5es. No meu ingl\u00eas claudicante, exponho-as por ocasi\u00e3o de alguns banquetes e, sobretudo, do jantar que precede a viagem de regresso e que se desenrola na presen\u00e7a entre outros de Huang Huaguang, director-geral do Gabinete para a Europa ocidental do Departamento Internacional do Comit\u00e9 Central do PCC. Todos os participantes na viagem s\u00e3o convidados a exprimir-se com grande franqueza. Nas minhas interven\u00e7\u00f5es, tento dialogar tamb\u00e9m com os outros membros da delega\u00e7\u00e3o da Europa ocidental e provavelmente sobretudo com eles.<\/p>\n<p>Quando declaram encontrar-se apenas na fase prim\u00e1ria do socialismo e prev\u00eaem que essa fase vai durar at\u00e9 metade do s\u00e9culo XXI, os comunistas chineses reconhecem indirectamente o peso qie as rela\u00e7\u00f5es capitalistas continuam a exercer no seu pa\u00eds imenso e t\u00e3o variado. Por outro lado, o monop\u00f3lio do poder pol\u00edtico nas m\u00e3os do Partido comunista (e pelos 8 partidos menores que reconhecem a sua direc\u00e7\u00e3o) est\u00e1 \u00e0 vista de toda a gente. Para um observador atento, tamb\u00e9m n\u00e3o dever\u00e1 escapar o facto de que, situadas como est\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o de subalternidade no plano econ\u00f3mico, pol\u00edtico e social, as pr\u00f3prias empresas privadas, mais do que levadas pela l\u00f3gica do lucro m\u00e1ximo, s\u00e3o estimuladas, empurradas e pressionadas a respeitar uma l\u00f3gica diferente e superior: a do desenvolvimento cada vez mais generalizado e cada vez mais ramidificadamente espalhado tanto da economia como da tecnologia nacional. Em \u00faltima an\u00e1lise, atrav\u00e9s duma s\u00e9rie de media\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo essas empresas privadas est\u00e3o sujeitas ou subordinadas ao \u201csocialismo de mercado\u201d. E portanto os serm\u00f5es moralistas que uma certa esquerda ocidental n\u00e3o se cansa de fazer ao Partido comunista chin\u00eas s\u00e3o, por um lado, redundantes e sup\u00e9rfluos e, por outro lado, infundados e inconsistentes.<\/p>\n<p>Evidentemente, \u00e9 sempre leg\u00edtimo formular d\u00favidas e cr\u00edticas sobre o \u201csocialismo de mercado\u201d. Mas pelo menos num ponto considero que devia ser poss\u00edvel \u00e0 esquerda de chegar a um consenso. A pol\u00edtica de reforma e de abertura introduzida por Deng Xiaoping n\u00e3o significou de forma alguma a homologa\u00e7\u00e3o da China ao ocidente capitalista como se o mundo inteiro passasse a ser caracterizado por um mapa calmo. Na realidade, a partir precisamente de 1979 desenvolveu-se uma luta que escapou aos observadores mais artificiais mas cuja import\u00e2ncia se manifesta com uma evid\u00eancia cada vez maior. Os EU e seus aliados esperavam reafirmar uma divis\u00e3o internacional do trabalho nesta base: a China teria que se limitar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, a baixo pre\u00e7o, de mercadorias desprovidas de real conte\u00fado tecnol\u00f3gico. Por outras palavras, estavam \u00e0 espera de conservar e acentuar o monop\u00f3lio ocidental da tecnologia: nesse plano, a China, como todo o Terceiro Mundo, deveria continuar a sofrer uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole capitalista. Percebe-se bem que os comunistas chineses tenham interpretado e vivido a luta para fazer fracassar esse projecto neo-colonialista como a continua\u00e7\u00e3o da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional; n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira independ\u00eancia pol\u00edtica sem independ\u00eancia econ\u00f3mica; pelo menos os que se reclamam marxistas deviam estar de acordo com esta verdade! Gra\u00e7as \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o cobi\u00e7ada do monop\u00f3lio da tecnologia, os EU e seus aliados pretendiam continuar a ditar as leis das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Com o seu extraordin\u00e1rio desenvolvimento econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico, a China abriu a via para a democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Os comunistas e tamb\u00e9m todos os verdadeiros democratas deviam congratular-se com esse resultado: Actualmente h\u00e1 melhores condi\u00e7\u00f5es para a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Neste ponto conv\u00e9m desembara\u00e7armo-nos de um equ\u00edvoco que torna dif\u00edcil a comunica\u00e7\u00e3o entre o PCC e a esquerda ocidental no seu conjunto. Mesmo no meio de oscila\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es de todo o tipo, desde a sua funda\u00e7\u00e3o que a Rep\u00fablica Popular da China se empenhou em lutar contra n\u00e3o uma mas duas desigualdades, uma de car\u00e1cter interno e a outra de car\u00e1cter internacional. Na sua argumenta\u00e7\u00e3o da necessidade da pol\u00edtica de reforma e de abertura que desejava, Deng Xiaoping, numa conversa de 10 de Outubro de 1978, chamava a aten\u00e7\u00e3o para o facto que o \u201cfosso\u201d tecnol\u00f3gico estava em vias de se alargar em compara\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses mais avan\u00e7ados. Estes desenvolviam-se \u201ca uma velocidade terr\u00edvel\u201d, enquanto que a China corria o risco de ficar cada vez mais para tr\u00e1s (Selected Works, vol. 3, p\u00e1g. 143). Mas se falhasse o rendez-vous com a nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, encontrar-se-ia numa situa\u00e7\u00e3o de fraqueza semelhante \u00e0 que a tinha entregue, indefesa, \u00e0s guerras do \u00f3pio e \u00e0 agress\u00e3o do imperialismo. Se falhasse esse rendez-vous, para al\u00e9m do preju\u00edzo para si mesma, a China provocaria um enorme preju\u00edzo \u00e0 causa da emancipa\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo no seu conjunto. \u00c9 preciso acrescentar que, precisamente porque soube reduzir de forma dr\u00e1stica a desigualdade (econ\u00f3mica e tecnol\u00f3gica) no plano internacional, a China est\u00e1 hoje em melhores condi\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as aos recursos econ\u00f3micos e tecnol\u00f3gicos que acumulou entretanto, para enfrentar o problema da luta contra a desigualdade no plano interno.<\/p>\n<p>O \u201cs\u00e9culo das humilha\u00e7\u00f5es\u201d da China (o per\u00edodo que vai de 1840 a 1949, a saber, desde a primeira guerra do \u00f3pio \u00e0 conquista do poder pelo PCC) coincidiu historicamente com o s\u00e9culo da mais profunda deprava\u00e7\u00e3o moral do ocidente: guerras do \u00f3pio com a devasta\u00e7\u00e3o infligida a Pequim no Pal\u00e1cio de Ver\u00e3o e coma destrui\u00e7\u00e3o e pilhagem das obras de arte que continua, expansionismo colonial e recurso a pr\u00e1ticas esclavagistas ou genocid\u00e1rias em detrimento das \u201cra\u00e7as inferiores\u201d, guerras imperialistas, fascismo e nazismo, com a barb\u00e1rie capitalista, colonialista e racista que atingiu o auge. Da forma como o ocidente souber encarar o renascimento e o regresso da China, poderemos avaliar se ele est\u00e1 decidido a fazer realmente as contas com o s\u00e9culo da sua mais profunda deprava\u00e7\u00e3o moral. Que pelo menos a esquerda saiba ser o int\u00e9rprete da cultura mais avan\u00e7ada e mais progressista do ocidente!<\/p>\n<p><em>Publicado s\u00e1bado, 24 de Julho de 2010 no blog do autor: <\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/domenicolosurdo.blogspot.com\/\" target=\"_blank\"><em>http:\/\/domenicolosurdo.blogspot.com\/<\/em><\/a><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nReflex\u00f5es de um fil\u00f3sofo \nDomenico Losurdo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/742\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65],"tags":[],"class_list":["post-742","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-bY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=742"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/742\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}