{"id":7453,"date":"2015-02-24T14:14:41","date_gmt":"2015-02-24T14:14:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7453"},"modified":"2015-02-24T14:14:41","modified_gmt":"2015-02-24T14:14:41","slug":"a-luta-contra-a-ue-e-a-libertacao-dos-povos-sobre-a-derrota-da-euro-esquerda-grega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7453","title":{"rendered":"A luta contra a UE e a liberta\u00e7\u00e3o dos povos: sobre a derrota da euro-esquerda grega"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;S\u00f3 quem se mexe sente as correntes que o prendem&#8221;. Rosa Luxemburgo&#8217;.<\/p>\n<p>A solidariedade internacionalista para com o povo grego e a sua justa luta contra a austeridade (nome comummente atribu\u00eddo \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es imperialistas da Uni\u00e3o Europeia) n\u00e3o se exprime de forma correcta se tivermos uma posi\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria, de cr\u00edtica pela cr\u00edtica, para com o Governo do Syriza. \u00c9 uma verdade indiscut\u00edvel. Como \u00e9 verdade que tamb\u00e9m n\u00e3o se \u00e9 internacionalista defendendo esse mesmo Governo contra todas as evid\u00eancias de capitula\u00e7\u00f5es, recuos, e trai\u00e7\u00f5es a promessas eleitorais e a princ\u00edpios \u00f3bvios de uma pol\u00edtica de esquerda. A unidade das for\u00e7as de esquerda, indispens\u00e1vel \u00e0 derrota da investida capitalista, deve conservar-se com firmeza, certamente. N\u00e3o deve conservar-se a todo e qualquer pre\u00e7o. E o pre\u00e7o de abdicar da cr\u00edtica ao abandono de elementos incontorn\u00e1veis e indiscut\u00edveis de uma pol\u00edtica de esquerda [1] devemos, todos os que nos reclamamos da esquerda e nos posicionamos contra a opress\u00e3o ao lado dos dominados, recusar-nos terminantemente a pagar.<\/p>\n<p>Vamos a factos: logo no dia 11 de Fevereiro, na reuni\u00e3o do Eurogrupo, quando o Governo grego contava meros 16 dias de vida, Yanis Varoufakis esclarecia os parceiros europeus de que &#8220;[n]o que respeita \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es, o executivo liderado por Alexis Tsipras afirma-se &#8220;totalmente n\u00e3o dogm\u00e1tico&#8221;. &#8220;Estamos prontos e dispostos a avaliar cada projeto pelos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos. Not\u00edcias como aquelas que anunciam a revers\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o do porto Pireus n\u00e3o poderiam estar mais longe da verdade&#8221;&#8221; [2] Nesse mesmo documento, Varoufakis fez ainda saber que o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional grego, medida proclamada pelo Syriza no dia a seguir \u00e0 sua elei\u00e7\u00e3o, seria afinal de contas aplicado gradualmente, apenas a partir de Setembro, de comum acordo entre trabalhadores e patr\u00f5es, e com compensa\u00e7\u00f5es fiscais para o patronato em sede de contribui\u00e7\u00e3o para a seguran\u00e7a social, de modo a conservarem a sua competitividade, enquanto brindava os seus colegas com uma declara\u00e7\u00e3o de amor, rica de significado e de consequ\u00eancias, a que adiante regressaremos: &#8220;a Europa \u00e9 una e indiv\u00edsivel, e o Governo grego considera que a Gr\u00e9cia \u00e9 um membro permanente e insepar\u00e1vel da Uni\u00e3o Europeia e da nossa uni\u00e3o monet\u00e1ria (&#8230;) Alguns de v\u00f3s, sei-o, ficaram desagradados com a vit\u00f3ria de um partido de esquerda, de esquerda radical. A esses, tenho a dizer: seria uma oportunidade desperdi\u00e7ada verem-nos como advers\u00e1rios. Somos europe\u00edstas dedicados. Preocupamo-nos profundamente com o nosso povo, mas n\u00e3o somos populistas que prometam tudo a toda a gente. Mais do que isso, podemos levar o povo grego a um acordo que seja ben\u00e9fico para o europeu m\u00e9dio&#8221; [3] .<\/p>\n<p>Se j\u00e1 encontr\u00e1vamos aqui diversas ced\u00eancias e trai\u00e7\u00f5es \u00e0s justas aspira\u00e7\u00f5es do povo grego na sua luta pela emancipa\u00e7\u00e3o do garrote da troika, e a insinua\u00e7\u00e3o de uma predisposi\u00e7\u00e3o a todos os t\u00edtulos inadmiss\u00edvel, a carta seguinte de Varoufakis, escrita a 18 de Fevereiro, \u00e9 j\u00e1 um resvalar absoluto, indecoroso, vexat\u00f3rio, para a capitula\u00e7\u00e3o em toda a linha: Varoufakis, eleito para derrotar a troika, prop\u00f5e a &#8220;supervis\u00e3o no quadro da UE e BCE e, no mesmo esp\u00edrito, com o FMI durante a vig\u00eancia do atual acordo&#8221;; o Syriza, uma semana antes propunha um plano de aumento salarial j\u00e1 t\u00edbio, j\u00e1 amedrontado, j\u00e1 antipopular (pois compensava os aumentos de sal\u00e1rios com menos impostos para os patr\u00f5es), deixa implicitamente cair essa medida quando se compromete a evitar &#8220;a\u00e7\u00f5es unilaterais que enfraque\u00e7am as metas fiscais, a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e a estabilidade financeira&#8221;; o Syriza, que durante anos e anos batalhou e fez elemento central da sua luta o combate \u00e0 ditadura da d\u00edvida, a usura, a especula\u00e7\u00e3o, em nome de uma reestrutura\u00e7\u00e3o que expusesse e levasse ao rep\u00fadio da componente ileg\u00edtima da d\u00edvida grega, recua, nesta carta, ao ponto de prometer que as &#8220;autoridades Gregas honram as obriga\u00e7\u00f5es financeiras para com todos os credores&#8221; [4] !<\/p>\n<p>Todas e cada uma das medidas do Syriza s\u00e3o deitadas por terra no per\u00edodo \u00ednfimo de uma semana, sem que tenha faltado sequer a suprema vergonha de o Syriza ter proposto, e feito eleger como Presidente da Rep\u00fablica, Prokopis Pavlopoulos, militante da Nova Democracia, grande promotor do FRONTEX e de uma pol\u00edtica de m\u00e3o pesada contra os imigrantes ilegais. Trata-se ainda do homem que estava em fun\u00e7\u00f5es quando foi assassinado a sangue frio pela pol\u00edcia o jovem de 15 anos Alexandros Grigoropoulos, durante uma onda subleva\u00e7\u00f5es anarquistas.<\/p>\n<p>Mesmo dentro do Syriza, algumas vozes se t\u00eam levantado contra este rumo pol\u00edtico. O membro do Comit\u00e9 Central do Syriza, Stathis Kouvelakis, escreveu num artigo recente que &#8220;a implementa\u00e7\u00e3o das medidas fundamentais do programa eleitoral do Syriza de Sal\u00f3nica ficam sujeitas \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o pr\u00e9via dos credores, o que corresponde de facto \u00e0 anula\u00e7\u00e3o do programa. Al\u00e9m disso, reconhece os termos odiosos dos acordos com os credores, dessa forma enfraquecendo a posi\u00e7\u00e3o negocial da Gr\u00e9cia sobre essa quest\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O mesmo autor faz ainda um reparo que, cotejado com a &#8220;declara\u00e7\u00e3o de amor&#8221; europe\u00edsta de Varoufakis citada acima, nos fornece a chave para deslindarmos o problema crucial da derrota do Syriza: &#8220;[t]odos os argumentos tranquilizadores que circularam nos \u00faltimos anos \u2013 acerca de um bluff europeu, acerca da possibilidade de derrotar a austeridade dentro da eurozona, de separar os acordos com os credores dos memorandos, de solu\u00e7\u00f5es na linha da confer\u00eancia de Londres de 1953 sobre a d\u00edvida alem\u00e3 (quer dizer, de uma reestrutura\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel ao devedor com o acordo do credor) \u2013 por outras palavras, os elementos constituintes da narrativa do &#8220;bom euro&#8221; \u2013 entraram todos em colapso.&#8221; [5]<\/p>\n<p>Aqui chegados, encontramos o ponto fundamental da discuss\u00e3o. \u00c9 extremamente simplista, e em nada elucida quem acompanha o debate, reduzir o que se passa na Gr\u00e9cia a uma discuss\u00e3o moral sobre a falta de coragem do Syriza. H\u00e1 trai\u00e7\u00f5es, recuos, capitula\u00e7\u00f5es e derrotas que devem ser tratadas pelo nome. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o. Outra, que \u00e9 a que importa, \u00e9 a an\u00e1lise dos motivos subjacentes a essa mesma derrota. E \u00e9 de todo evidente que o motivo central da derrota do Syriza foi, e ser\u00e1 no caso de qualquer partido que perfilhe a grelha de leitura da euro-esquerda, a cren\u00e7a, que francamente chega a ter semelhan\u00e7as com a religiosidade, nas institui\u00e7\u00f5es europeias, no projecto europeu, na natureza intrinsecamente solid\u00e1ria da Uni\u00e3o Europeia, e demais patacoadas.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia, digamo-lo com todas as letras, \u00e9 um utens\u00edlio de subjuga\u00e7\u00e3o, de domina\u00e7\u00e3o, de explora\u00e7\u00e3o e de desapossamento da liberdade e da soberania dos povos perif\u00e9ricos pela burguesia dos seus potentados centrais, sobretudo a alem\u00e3. Qualquer luta que se trave contra ela pressupondo a bondade da UE, ou simplesmente a neutralidade da UE, levando a discuss\u00e3o para as suas institui\u00e7\u00f5es, promovendo altera\u00e7\u00f5es dentro do seu circuito de tratados, acordos, e demais parafern\u00e1lia jur\u00eddico-diplom\u00e1tica, apelando ao bom cora\u00e7\u00e3o dos seus burocratas e \u00e0 solidariedade dos Governos do centro imperialista para com os povos dominados, vai espatifar-se contra uma parede. Dentro da UE \u00e9-se, e ser-se-\u00e1 sempre, escravo da burguesia alem\u00e3. A liberta\u00e7\u00e3o implica romper com a UE. A discuss\u00e3o de como se pode permanecer na UE e ser um Estado livre e soberano ro\u00e7a o rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Que a derrota da euro-esquerda grega, for\u00e7ada a recuar em toda a linha, elucide o povo grego, e elucide todas as organiza\u00e7\u00f5es em luta contra a opress\u00e3o da chamada austeridade, para esta evid\u00eancia: nenhuma luta em nome dos interesses dos trabalhadores, em nome dos interesses das classes populares, em nome da sua liberta\u00e7\u00e3o, da garantia de que viver\u00e3o numa sociedade mais justa e poder\u00e3o almejar a construir o socialismo e o comunismo ser\u00e1 poss\u00edvel sem que, primeiro e antes de mais, tenham quebrado as correntes que os prendem \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. Bem sabemos que, como dizia Rosa Luxemburgo, s\u00f3 quem se mexe sente as correntes que o prendem. Os gregos mexeram-se. E sentiram-nas nos pulsos, nas pernas, detendo-os e mantendo-os no redil. Sabem que existem. Sabem que importa parti-las para que se livrem do c\u00e1rcere em que a UE se tornou. Para com essa luta, para com essa consciencializa\u00e7\u00e3o, a minha mais absoluta solidariedade internacionalista.<\/p>\n<p>21\/Fevereiro\/2015<\/p>\n<p>(1) Esque\u00e7amos, por agora, e pese embora n\u00e3o seja um detalhe, o abandono de elementos cruciais de uma pol\u00edtica anticapitalista.<\/p>\n<p>(2) www.esquerda.net\/artigo\/grecia-torna-publico-o-que-propos-ao-eurogrupo\/35863<\/p>\n<p>(3) www.protothema.gr\/files\/1\/2015\/02\/18\/varouf0.pdf . O texto original, em ingl\u00eas, \u00e9 &#8220;Europe is whole and indivisible, and the government of Greece considers that Greece is a permanent and inseparable member of the European Union and our monetary union. (&#8230;) Some of you, I know, were displeased by the victory of a leftwing, a radical leftwing, party. To them I have this to say: It would be a lost opportunity to see us as adversaries. We are dedicated Europeanists. We care about our people deeply but we are not populists promising all things to all people. Moreover, we can carry the Greek people along an agreement that is genuinely beneficial to the average European.&#8221;. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 da responsabilidade do autor.<\/p>\n<p>(4) www.esquerda.net\/&#8230;<\/p>\n<p>(5) www.esquerda.net\/artigo\/o-syriza-esta-recuar\/35899<\/p>\n<p>N. do A.: Todas as cita\u00e7\u00f5es foram propositadamente retiradas do esquerda.net, site oficial do Bloco de Esquerda, partido portugu\u00eas cong\u00e9nere do Syriza e seu parceiro no Partido da Esquerda Europeia, de modo a evitar qualquer enviesamento na informa\u00e7\u00e3o fornecida.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJo\u00e3o Vilela\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7453\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Wd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7453\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}