{"id":7454,"date":"2015-02-24T14:18:14","date_gmt":"2015-02-24T14:18:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7454"},"modified":"2015-02-24T14:18:14","modified_gmt":"2015-02-24T14:18:14","slug":"o-mundo-inteiro-fala-de-nos-as-mulheres-curdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7454","title":{"rendered":"O mundo inteiro fala de n\u00f3s, as mulheres curdas"},"content":{"rendered":"\n<p>Curdist\u00e3o\/ Resumen Latinoamericano\/ Por Zilan Diyar, guerrilheira curda\/ 18\/02\/2015.- Todo o mundo est\u00e1 falando de n\u00f3s, as mulheres curdas. J\u00e1 \u00e9 comum encontrar not\u00edcias sobre as mulheres combatentes em revistas, em peri\u00f3dicos e nas ag\u00eancias. A televis\u00e3o, os sites de not\u00edcias e os meios de comunica\u00e7\u00e3o social est\u00e3o cheios de palavras de elogio. Tiram fotos destas mulheres de olhares radiantes de esperan\u00e7a. Para eles, nossa arraigada tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade sobre a qual apenas recentemente come\u00e7aram a conhecer. Est\u00e3o impressionados com tudo.<\/p>\n<p>O riso das mulheres, sua naturalidade e as longas tran\u00e7as, os detalhes de suas jovens vidas s\u00e3o como m\u00e3os estendidas aos que lutam no mar do desespero. Inclusive, existem alguns t\u00e3o inspirados pela roupa que usam estas mulheres, que querem lan\u00e7ar uma nova tend\u00eancia na moda!<\/p>\n<p>Est\u00e3o surpresos por estas mulheres, que lutam contra os homens que querem pintar de negro as cores do Oriente M\u00e9dio, e se perguntam de onde tiram sua valentia, como podem rir com tanta sinceridade. E eu me pergunto sobre eles.<\/p>\n<p>Estou surpresa pelo fato de nos terem visto t\u00e3o tarde, de at\u00e9 agora nunca terem sabido de n\u00f3s. Pergunto-me como demoraram tanto a escutar as vozes das muitas mulheres corajosas que atravessaram as fronteiras da valentia, da f\u00e9, da paci\u00eancia, da esperan\u00e7a e da beleza. N\u00e3o quero queixar-me demais. Talvez nossas eras simplesmente n\u00e3o coincidam.<\/p>\n<p>Tenho apenas algumas poucas palavras para dizer aos que s\u00f3 agora come\u00e7am a nos notar: isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Hoje, uma parte de n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1 mais aqui.<\/p>\n<p>Sem passado nem futuro em seu entorno, voc\u00ea sentiria um som, um emergir que se perde nos buracos negros do universo. A emo\u00e7\u00e3o e a beleza de hoje s\u00f3 pode ser medida por aqueles que foram capazes de trazer este dia e suas capacidade de ir mais adiante para o futuro.<\/p>\n<p>No grito de Zilan (Zeynep Kinaci), que dinamitou a si mesma em 1996, no alento de Bes\u00ea, que se atirou ao precip\u00edcio no levante de Dersim, na d\u00e9cada de 1930, dizendo \u201cN\u00e3o me prender\u00e3o com vida\u201d, e no de Beritan, que n\u00e3o se entregou, nem seu corpo e nem sua alma, ao inimigo quando se atirou da montanha em 1992. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual a combatente do YPJ [Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular, mil\u00edcia volunt\u00e1ria do Curdist\u00e3o] Arin Mirkan fez soprar um vento de montanha atrav\u00e9s de uma cidade do deserto ao detonar a si mesma ao inv\u00e9s de render-se ao ISIS, para cobrir suas camaradas em retirada em Koban\u00ea no \u00faltimo m\u00eas de outubro.<\/p>\n<p>S\u00e3o nos cora\u00e7\u00f5es das mulheres yazid\u00edes, que pegam em armas contra homens de bandeira negra, \u00e9 na nostalgia de Binevs Agal, uma mulher yazid\u00ed [antiga religi\u00e3o pr\u00e9-isl\u00e2mica monote\u00edsta da Mesopot\u00e2mia], que se uniu \u00e0 guerrilha na Alemanha, na d\u00e9cada de 1980, e cruzou continentes para regressar a seu pa\u00eds. S\u00e3o nas palavras de Ayse Efendi, copresidente da assembleia popular Koban\u00ea: \u201cVou morrer em minha p\u00e1tria\u201d, onde se esconde a f\u00faria [\u201codin\u201d o original] rebelde de Zarife, que lutou no levante Dersim.<\/p>\n<p>No sorriso da miliciana do YPJ que posa com seu filho enquanto porta um rifle, na esperan\u00e7a de Meryem Colak, uma psic\u00f3loga que escolheu lutar nas montanhas e que, muitas vezes, compartilhou conosco a saudade da filha que deixou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u00c9 em Deniz Firat, jornalista do Firat News, assassinada pelo ISIS em Makhmur, em agosto, buscando a verdade. \u00c9 em Gurbetelli Ers\u00f6z, jornalista e lutadora guerrilheira que morreu nos enfrentamentos em 1997. \u00c9 em Sema Y\u00fcce (Serhildan) que ateou fogo em si mesma como protesto, em uma pris\u00e3o turca, no ano de 1992. S\u00e3o segredos que o fogo sussurrou \u00e0 Leyla Wali Hussein (Viyan Soran), que se autoimolou em 2006, para chamar aten\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o de Abdullah \u00d6calan.<\/p>\n<p>Os que hoje se admiram sobre os motivos que levaram a \u201cMenina com o len\u00e7o vermelho\u201d, uma garota turca desiludida com o Estado, ir \u00e0s montanhas depois dos protestos em Gezi-Park teriam tido a resposta se soubessem sobre Ekin Cer\u00e9n Dogruak (Amara), uma mulher revolucion\u00e1ria turca do PKK, cuja l\u00e1pide diz \u201ca menina do mar que se apaixonou pelas montanhas\u201d e sobre H\u00fcsne Akg\u00fcl (Mizgin), uma guerrilheira turca do PKK que morreu em 1995. Surpresos porque estadunidenses e canadenses se unem ao YPG, mas n\u00e3o conhecem Andrea Wolf, uma internacionalista alem\u00e3 do PKK, que foi assassinada em 1998, cujos ossos foram atirados em uma fossa comum porque sua mem\u00f3ria n\u00e3o podia ser tolerada pelo Estado.<\/p>\n<p>Nosso calend\u00e1rio n\u00e3o correu paralelo ao calend\u00e1rio do mundo. O olhar destas mulheres se centrou nas profundidades da dist\u00e2ncia. Seus passos eram r\u00e1pidos, com o objetivo de tornar o futuro mais pr\u00f3ximo, que estavam impacientes e n\u00e3o deixaram uma s\u00f3 ponte para tr\u00e1s. Estas raz\u00f5es nos mantiveram a margem das realidades do mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que agora o mundo sabe das mulheres nas montanhas. Dezenas, depois centenas e, depois, milhares, durante todo esse tempo.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 o momento de coordenar os calend\u00e1rios, de sincronizar os rel\u00f3gios. \u00c9 a hora de contar as hist\u00f3rias de vida destas mulheres que se dividiam entre o sonho e a realidade, seus momentos felizes que soam como contos de fadas, as formas com que a perda demonstrou ser a professora mais not\u00f3ria na busca da verdade. Agora \u00e9 o momento perfeito para confiar-lhes o que eu era capaz: trazer o ontem para o hoje. Para unir o calend\u00e1rio do mundo, vou unir nosso passado ao presente. Que meu passado seja seu presente.<\/p>\n<p>Desperto-me em uma fria manh\u00e3 de primavera em 1997, em Cirav. Tiro o cobertor, umedecido pela noite gelada, e vejo diante de mim um rosto diferente das guerreiras de pele morena. Era como se o sol tivesse irradiado apenas ligeiramente este rosto, como se suas m\u00e3os e seu sorriso descrevessem eleg\u00e2ncia e nobreza.<\/p>\n<p>Estou feliz pelo fato de uma guerreira mais nova que eu ter chegado, o que me tornava pouquinho velha. Mais tarde, soube que estava diante de uma guerrilheira com cinco anos de luta. Nesse momento s\u00f3 conheci seu nome de guerra: Zinar\u00een\u2026<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse pelos fios brancos em seu cabelo ou pela forma com que, \u00e0s vezes, a tristeza chegava de longe em seu sorriso, n\u00e3o entenderia que tivesse sido guerrilheira durante cinco anos. Sou consciente das dores que experimentou, dos sacrif\u00edcios que fez em sua busca pela verdade.<\/p>\n<p>Ponho-me louca de curiosidade sobre o que escrevia em seu caderno, enquanto se refugiava sob a sombra de uma \u00e1rvore. Mais tarde, ap\u00f3s seu mart\u00edrio, li no di\u00e1rio de Zinar\u00een sobre os sentimentos que sentia na curta vida que compartilhei com ela.<\/p>\n<p>Outono de 1997. Um dia em que os p\u00e9s cansados do outono tentam nos arrastar para o inverno. Um dia no qual a dor por n\u00e3o conquistar Haftanin pesou em nossos cora\u00e7\u00f5es. Soube do mart\u00edrio de Zinar\u00een depois de meses. Continuo sendo vulner\u00e1vel \u00e0 dor de perd\u00ea-la. Como dou voltas com raiva, Meryem Colak l\u00ea em meu rosto como minha alma ferve de dor. Como n\u00e3o falei com ningu\u00e9m sobre a morte de Zinar\u00een, perguntou \u201cVoc\u00ea est\u00e1 com raiva?\u201d e ela mesma respondeu a pergunta: \u201cN\u00e3o fique com raiva de n\u00f3s. Fique com raiva do inimigo\u201d.<\/p>\n<p>Desde esse dia, minha imunidade \u00e0 perda aumentou. Meses mais tarde, soube que Meryem Colak, quando se dirigia para Metina para sair do campo de batalha junto com um grupo de mulheres, foi assassinada por um tanque em uma emboscada. Interei-me por testemunhas que usou seu \u00faltimo suspiro n\u00e3o para enviar uma mensagem para sua filha, mas para confiar a seus companheiros sua arma, cartucheira e livro de c\u00f3digos.<\/p>\n<p>\u00c9 1999. Estou nas montanhas de Zagros, as mesmas que n\u00e3o permitiram a passagem do ex\u00e9rcito de Alexandre, mas por onde a guerrilha conseguiu abrir caminho. Estamos na metade do caminho de uma longe viagem, que duraria um m\u00eas. Comigo est\u00e1 Sorxw\u00een (\u00d6zg\u00fcr Kaya), de 22 anos. Nossa Sorxw\u00een, que permitiu as condi\u00e7\u00f5es da montanha governarem seu corpo, por\u00e9m que n\u00e3o permitiu que o cora\u00e7\u00e3o de seu filho fosse submetido \u00e0s leis da guerra.<\/p>\n<p>Uma comandante, uma companheira, uma mulher e uma menina. Cada uma de suas identidades acrescenta uma beleza diferente. A maior parte dessa longa e \u00e1rdua viagem de um m\u00eas passou com ela nos animando a continuar marchando.<\/p>\n<p>Claro, foi esta menina chamada Sorxw\u00een que inventou os jogos infantis que nos deram for\u00e7a. Com riso malicioso, dizia: \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 nada. Posso levar um BKC com 400 balas nas costas. Ainda assim vou subir esta colina em quatro horas sem nenhum descanso\u201d.<\/p>\n<p>Estas mulheres n\u00e3o podiam ser acompanhadas pelo nosso tempo. Elas corriam para o fogo como mariposas. Por\u00e9m, est\u00e3o vivendo durante tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es crescem com suas hist\u00f3rias, levam seus nomes, escutam as can\u00e7\u00f5es ardentes dedicadas a elas.<\/p>\n<p>Recolham os rifles que estas mulheres deixaram para tr\u00e1s e capturem Shengal, Koban\u00ea, Botan, Serhat. Venham trazer luz ao mundo a que os homens de bandeira negra querem escurecer. E seus nomes s\u00e3o Zinar\u00een, Beritan, Zilan, Meryem, Sorxw\u00een, Arjin, Amara, Viyan, Sara\u2026<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/18\/el-mundo-entero-habla-de-nosotras-las-mujeres-kurdas\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7454\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-7454","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1We","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7454\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}