{"id":7475,"date":"2015-03-02T17:00:13","date_gmt":"2015-03-02T17:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7475"},"modified":"2015-03-02T17:09:26","modified_gmt":"2015-03-02T17:09:26","slug":"que-ninguem-tenha-duvidas-nosso-proposito-e-o-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7475","title":{"rendered":"\u201cQue ningu\u00e9m tenha d\u00favidas: nosso prop\u00f3sito \u00e9 o socialismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><strong>O chefe insurgente deu um amplo panorama sobre o momento pelo qual passam as conversa\u00e7\u00f5es de paz e insistiu na necessidade de avan\u00e7ar para uma Assembleia Nacional Constituinte.<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; H\u00e1 mais de um ano e meio do in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es de paz, qual \u00e9 o seu balan\u00e7o sobre o quanto se avan\u00e7ou e o quanto falta para concretizar a estrat\u00e9gia defendida por voc\u00eas neste \u00e2mbito?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Creio que avan\u00e7amos de maneira suficiente. J\u00e1 temos em nosso poder tr\u00eas acordos parciais: um, sobre terras, outro sobre a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e um referente a um tema muito complexo, o uso de drogas il\u00edcitas. Entretanto, ainda ficaram para uma discuss\u00e3o posterior 28 observa\u00e7\u00f5es, todas elas de muita import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00ea pode nos dar um exemplo destes temas pendentes?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 o problema do latif\u00fandio, que o governo colombiano n\u00e3o quis abordar porque, segundo sua argumenta\u00e7\u00e3o, pensa que uma medida desta natureza poderia despertar de novo os dem\u00f4nios do paramilitarismo. E, tamb\u00e9m, uma resist\u00eancia do governo em aceitar uma proposta nossa de colocar um limite \u00e0 estrangeiriza\u00e7\u00e3o da terra. Outro aspecto fundamental se vincula \u00e0 explora\u00e7\u00e3o mineral-energ\u00e9tica e seu impacto socioambiental.<\/p>\n<p>De nossa parte, fazemos todo o poss\u00edvel para que estas pend\u00eancias n\u00e3o sejam lan\u00e7adas ao fogo do esquecimento, como parece pretender o governo. Entre os pontos pendentes, est\u00e1 a expans\u00e3o da democracia para a paz. Nesse sentido, insistimos na necessidade do Estado deixar definitivamente para tr\u00e1s a Doutrina da Seguran\u00e7a Nacional, a concep\u00e7\u00e3o do inimigo interno e resolver de uma vez por todas o fen\u00f4meno do paramilitarismo. Que ningu\u00e9m na Col\u00f4mbia seja perseguido por suas ideias e, muito menos, assassinado. Estes s\u00e3o temas fundamentais para a Col\u00f4mbia dar passos ao futuro. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio adiantar reformas estruturais, como a pol\u00edtica do sistema eleitoral e uma reclamada por todo o pa\u00eds: a reforma do sistema jur\u00eddico, corrupto, totalmente dependente. N\u00f3s pensamos que tudo isto \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma Constituinte.<\/p>\n<p><strong>&#8211; \u00c9 totalmente correto que os avan\u00e7os detalhados por voc\u00ea tenham sido produzidos, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que no territ\u00f3rio colombiano n\u00e3o se modificou grande parte do que na Mesa foi acordado. Qual \u00e9 a opini\u00e3o das FARC-EP frente a esta realidade?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Vemos tudo isto como uma grande incoer\u00eancia entre a ret\u00f3rica do governo e o que ocorre na realidade. Para somar um pouco \u00e0s dificuldades, paralelamente, o governo est\u00e1 legislando para revisar coisas que foram aprovadas na Mesa.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Existe um projeto de lei sobre terras improdutivas, que em lugar de proteger os camponeses sem terra, busca proteger o capital financeiro. Concomitantemente, estamos apresentando um protesto en\u00e9rgico na Mesa, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar assassinando defensores dos direitos humanos ou revitimizando as v\u00edtimas. Isso ocorreu com muitas das pessoas que estiveram em Havana para pedir que fa\u00e7amos todo o poss\u00edvel para assegurar a paz. No entanto, ao voltarem \u00e0 Col\u00f4mbia, foram reprimidas, perseguidas, amea\u00e7adas. Por isso, insistimos em pedir coer\u00eancia e seriedade ao governo, pois quando se fala de paz, estes fatos n\u00e3o podem ser justificados.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Recentemente, o governo norte-americano confirmou que um de seus homens, Bernard Aronson, atuar\u00e1 como observador (a pedido do governo da Col\u00f4mbia) no processo de paz em Havana. Qual a opini\u00e3o das FARC sobre esta incorpora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Vemos satisfatoriamente porque, como se sabe, os Estados Unidos t\u00eam um peso muito forte no pol\u00edtico, no social, no econ\u00f4mico e no militar da realidade colombiana. Eles t\u00eam uma participa\u00e7\u00e3o muito grande no financiamento da guerra, no fornecimento de equipamentos b\u00e9licos e tecnologia de ponta \u00e0s For\u00e7as Armadas oficiais.<\/p>\n<p>Parece-nos que os EUA querem agora se afastar um pouco desta situa\u00e7\u00e3o que os coloca como impulsionadores da guerra e da disc\u00f3rdia, e empreender esfor\u00e7o em ajudar os colombianos a encontrar a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Sobre a quest\u00e3o do cessar-fogo: quais s\u00e3o, em seu entender, as raz\u00f5es pelas quais o presidente Juan Manuel Santos n\u00e3o cede \u00e0 proposta feita pelas FARC de instalar um cessar-fogo bilateral?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Francamente, n\u00e3o est\u00e1 claro esse argumento de que uma tr\u00e9gua seria aproveitada pol\u00edtica e militarmente pela guerrilha para se fortalecer. N\u00e3o tem nenhum pretexto. Al\u00e9m disso, o cessar-fogo, por agora unilateral, cumprido por n\u00f3s, tem um sentido humano. Pensamos que enquanto estamos dialogando n\u00e3o tem sentido continuar atirando-nos, matando-nos e que \u00e9 necess\u00e1rio gerar um ambiente prop\u00edcio para as conversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, n\u00e3o encontramos uma resposta similar por parte do Presidente. Dizemos que aqui o governo est\u00e1 se comportando de uma maneira equivocada e que deveria fazer prevalecer o princ\u00edpio de favorecimento da popula\u00e7\u00e3o civil, que significa uma suspens\u00e3o das a\u00e7\u00f5es militares. E at\u00e9 dizemos que com esta atitude est\u00e3o violando os Protocolos de Genebra em sua mais ampla extens\u00e3o, porque se trata de evitar novas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>De toda maneira, creio que Santos est\u00e1 come\u00e7ando a se conscientizar, dando instru\u00e7\u00f5es a seus generais e oficiais que far\u00e3o parte da subcomiss\u00e3o t\u00e9cnica de que se ocupar\u00e1 do assunto do cessar-fogo, para buscarem a maneira de chegar rapidamente a esse objetivo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Segundo voc\u00eas, o Presidente Santos tem total controle sobre as for\u00e7as militares oficiais ou existem diferen\u00e7as nessa \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso reconhecer que, em geral, se observa a subordina\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas ao Presidente, por\u00e9m, ao mesmo tempo, existe uma forte influ\u00eancia negativa por parte da extrema direita liderada por \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez. Imaginamos que esse assunto deveria estar sendo resolvido.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Qual \u00e9 sua vers\u00e3o do ocorrido com o general Alzate, que foi detido e depois libertado pelas FARC?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O general Alzate \u00e9 o que realmente ocorreu. Acreditamos em sua palavra, de que n\u00e3o esteve realizando coisas \u201cprofanas\u201d no rio Atrato. Existe um grupo de novos oficiais que querem atuar um pouco mais favorecendo as comunidades com a\u00e7\u00f5es c\u00edvico-militares para tentar recuperar a confian\u00e7a perdida. \u00c9 l\u00f3gico que a popula\u00e7\u00e3o desconfia, como o mesmo Alzate reconheceu, e, por isso, se envolveram neste tipo de a\u00e7\u00f5es sociais em uma regi\u00e3o t\u00e3o esquecida como \u00e9 o Choc\u00f3, que n\u00e3o tem energia, nem servi\u00e7o de \u00e1gua, nem de esgoto e, muito menos, estradas.<\/p>\n<p>Em uma dessas sa\u00eddas que fez de Quibd\u00f3, de seu forte militar, \u00e9 poss\u00edvel que o general tenha se descuidado um pouco de sua seguran\u00e7a e chegou a um local, onde estavam as FARC. Como ele \u00e9 o chefe de uma for\u00e7a-tarefa que se dedica a perseguir e bombardear a guerrilha, ent\u00e3o foi detido e teve que marchar na condi\u00e7\u00e3o de prisioneiro.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Por ser quem era e o cargo que ostentava Alzate, a guerrilha n\u00e3o titubeou em nenhum momento em negociar sua liberta\u00e7\u00e3o, por exemplo, com a troca de presos pol\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O governo se movimentou rapidamente para interceder por ele, e recorreu aos pa\u00edses garantidores do processo (Cuba e Noruega). \u00c9 claro que estamos a total disposi\u00e7\u00e3o para gerar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao processo e, por isso, tomamos a decis\u00e3o de libertar este general, fazendo o governo perceber que existe uma situa\u00e7\u00e3o bastante reprov\u00e1vel no interior dos c\u00e1rceres colombianos vivida pelos presos pol\u00edticos e pelos prisioneiros de guerra. Os mesmos s\u00e3o mantidos em condi\u00e7\u00f5es desumanas de superlota\u00e7\u00e3o e com a viola\u00e7\u00e3o de seus direitos. N\u00f3s queremos que esses casos sejam visibilizados.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Existe alguma resposta a essas den\u00fancias?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O governo mete na cabe\u00e7a a fic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existem presos pol\u00edticos na Col\u00f4mbia, por\u00e9m os c\u00e1rceres est\u00e3o cheios de dirigentes populares acusados, a maioria deles, de terrorismo. Na Col\u00f4mbia, parece que n\u00e3o existe outra acusa\u00e7\u00e3o diferente para poder enfraquecer a a\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a do movimento social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voltando ao Presidente Santos, ele disse reiteradamente que \u00e9 necess\u00e1rio concluir as negocia\u00e7\u00f5es de paz. Quais s\u00e3o os prazos das FARC para esse fim?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente, os prazos est\u00e3o um pouco esgotados. Por\u00e9m, n\u00e3o se pode dizer que o processo n\u00e3o avan\u00e7a por nossa causa. Colocamos sobre a Mesa toda uma constela\u00e7\u00e3o de propostas sobre o tema agr\u00e1rio, drogas, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e v\u00edtimas. Estas s\u00e3o propostas m\u00ednimas e s\u00e3o concebidas para obter a aproxima\u00e7\u00e3o das partes, por\u00e9m ao governo elas parecem revolucion\u00e1rias e radicais. \u00c9 claro, muitas delas s\u00e3o mandatos constitucionais e \u00e9 um dever do governo aplic\u00e1-las. N\u00f3s queremos que esta situa\u00e7\u00e3o mude e n\u00e3o se obstrua a possibilidade de formalizar acordos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Existe outro tema chave que \u00e9 o da Justi\u00e7a, que na voz do governo se refere a que a guerrilha \u201cpague pelos delitos cometidos\u201d. Ou a cantilena de ep\u00edtetos descarregada pelo uribismo que a acusa de crimes de lesa humanidade.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O governo n\u00e3o deve confundir o processo de paz em Havana com um processo jur\u00eddico. \u00c9 preciso buscar solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ao conflito colombiano. N\u00f3s desconhecemos o marco jur\u00eddico transicional que o governo tenta sacar diante das Cortes e ante mesmo o Congresso da Rep\u00fablica. Desta maneira, o acordo geral de Havana, que colocou as duas partes em um mesmo plano de igualdade, est\u00e1 sendo violado. Portanto, embarcar nas aventuras de levar adiante um marco jur\u00eddico n\u00e3o acordado, n\u00e3o tem possibilidade de sobreviv\u00eancia. O que o governo faz \u00e9 semear o expediente jur\u00eddico para terminar o processo com os comandantes atr\u00e1s das grades. N\u00f3s dizemos que n\u00e3o viemos a Havana para sermos presos. Viemos buscar solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, negociadas, ao conflito colombiano. Agora nos dizem que \u00e9 imposs\u00edvel evitar o superpoder da Corte Penal Internacional. No entanto, essa Corte n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria do conflito colombiano, nem sequer sabe o que s\u00e3o os latino-americanos. Por isso estamos invocando uma doutrina que se chama a \u201cMargem nacional de interpreta\u00e7\u00e3o\u201d, que prev\u00ea isto que estou dizendo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; O governo insiste que os respons\u00e1veis por situa\u00e7\u00f5es violentas dever\u00e3o responder por seus atos.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Claro, n\u00f3s sabemos que existem respons\u00e1veis. Por\u00e9m, fazer a opini\u00e3o p\u00fablica acreditar que a guerrilha \u00e9 a m\u00e1xima respons\u00e1vel, \u00e9 desconhecer que estamos fazendo uso de um direito universal ao levante armado contra regimes injustos e vergonhosos, que somos uma resposta a uma viol\u00eancia que vem do poder, e isso est\u00e1 perfeitamente demonstrado. Acaba de ser entregue \u00e0 Mesa o informe da Comiss\u00e3o Hist\u00f3rica do Conflito e de suas v\u00edtimas, que apresenta uma vis\u00e3o diferente da utilizada pelo Estado. Um relato que repousa no fundo da verdade para resolver tantas desaven\u00e7as.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o dos respons\u00e1veis m\u00e1ximos tamb\u00e9m vem sendo tratada na Mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Por exemplo, dizemos aos militares que est\u00e3o diante de n\u00f3s, o general Mora Rangel e o general Naranjo, que para as FARC este sistema transcende aos comandos das distintas for\u00e7as, envolve o Pal\u00e1cio de Nari\u00f1o, que \u00e9 onde est\u00e3o os mandantes, autores por tr\u00e1s do autor. Tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis os presidentes, os ministros, os partidos pol\u00edticos da ordem, os latifundi\u00e1rios que se apropriam de terras a sangue e fogo, atrav\u00e9s do paramilitarismo. Ou os senhores empres\u00e1rios, por exemplo, os banqueiros como Chiquita Brands ou Drummond, que est\u00e3o financiando grupos paramilitares, ou setores da agroind\u00fastria que se apoderaram de terras que pertenciam a camponeses. Sabe-se que na Col\u00f4mbia existe o deslocamento for\u00e7ado de camponeses que se aproxima de 6 milh\u00f5es. Respons\u00e1veis s\u00e3o os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, a Igreja, o setor financeiro, envolvido na lavagem de dinheiro proveniente do narcotr\u00e1fico. N\u00f3s dizemos ao governo: persigam estes que s\u00e3o os que promovem a atividade do narcotr\u00e1fico. N\u00e3o concentrem a a\u00e7\u00e3o punitiva no elo mais fraco da cadeia que s\u00e3o os camponeses pobres e os consumidores.<\/p>\n<p>Nossa responsabilidade n\u00e3o \u00e9 a mesma daqueles que causaram este confronto de tantos anos. O nosso \u00e9 um delito pol\u00edtico. O problema \u00e9 que na Col\u00f4mbia esse delito foi deformado. Agora, dizemos que se realmente querem que haja uma solu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do benef\u00edcio do indulto ou da anistia, \u00e9 preciso reverter o crime pol\u00edtico a seu estado natural. De que maneira? Incluindo as atua\u00e7\u00f5es da guerrilha como produzidas em fun\u00e7\u00e3o da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos dizem que para existir um marco de legalidade em torno dos acordos, e que para que ocorra um fim jur\u00eddico definitivo, \u00e9 necess\u00e1rio os chefes guerrilheiros irem para a pris\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o mencionam os respons\u00e1veis do Estado. Onde est\u00e3o os presidentes? O pr\u00f3prio ex-presidente Cesar Gaviria disse que: \u201cas responsabilidades s\u00e3o coletivas\u201d. N\u00f3s vamos mais al\u00e9m e dizemos que o Estado \u00e9 a m\u00e1xima inst\u00e2ncia de culpa. E acrescentamos: para os guerrilheiros, nenhum c\u00e1rcere!<\/p>\n<p><strong>&#8211; H\u00e1 outro tema muito controverso e que est\u00e1 relacionado com a entrega das armas. Em que momento se discute concretamente esse ponto?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s fizemos uma abordagem que esperamos seja respondida de maneira positiva pela contraparte. Entendemos como entrega das armas, a sua n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, e isto n\u00e3o s\u00f3 vale para a insurg\u00eancia, mas, tamb\u00e9m, para<\/p>\n<p>o Estado, suas For\u00e7as Armadas e policiais. Preocupa-nos muito que a utiliza\u00e7\u00e3o das armas por parte do Estado produza vitimiza\u00e7\u00f5es coletivas, provocando o aniquilamento de alternativas pol\u00edticas, decapita\u00e7\u00e3o de toda uma gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios como aconteceu com os dirigentes e militantes da Uni\u00f3n Patri\u00f3tica [Uni\u00e3o Patr\u00f3tica], que sofreu 5000 mortes. Como aconteceu com \u201cA luchar\u201d [A lutar], com a Frente Popular. As armas que foram confiadas ao Ex\u00e9rcito para que defendesse as fronteiras p\u00e1trias, se voltaram contra o povo, provocando assassinatos e milhares de desaparecimentos. Isso sim \u00e9 grave, e ter\u00e3o que responder. Resumindo: depois de um acordo de paz, as armas devem fazer sil\u00eancio. Complementamos: o Ex\u00e9rcito deve regressar a sua fun\u00e7\u00e3o constitucional de defender as fronteiras.<\/p>\n<p><strong>&#8211; N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil imaginar o caminho de uma organiza\u00e7\u00e3o armada para um movimento pol\u00edtico aberto. Como est\u00e3o pensando isso?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Muitos nos perguntam se nos vemos fazendo pol\u00edtica no futuro. E respondemos que sempre fizemos pol\u00edtica. Com armas ou sem armas, sempre estamos em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica porque temos uma vis\u00e3o de pa\u00eds, temos bandeiras e uma plataforma de 12 pontos que apresentamos quando fizemos 50 anos de exist\u00eancia, e estas s\u00e3o as do Movimiento Bolivariano por la Nueva Colombia [Movimento Bolivariano pela Nova Col\u00f4mbia].<\/p>\n<p>Por outro lado, sabemos que apenas a assinatura de um Acordo n\u00e3o vai mudar a situa\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia. O que precisamos \u00e9 gerar uma situa\u00e7\u00e3o distinta, de toler\u00e2ncia e de democracia verdadeira. Queremos que todo o nosso povo tenha uma vida digna e que a Col\u00f4mbia abandone esse terceiro e desonroso lugar ganho por seus \u00edndices de desigualdade.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Suponho que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil discutir com o atual governo o tema da pol\u00edtica econ\u00f4mica a ser aplicada no futuro<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O governo diz que a pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o. E n\u00f3s nos perguntamos: a pol\u00edtica neoliberal tem que primar? N\u00e3o podemos nos colocar em acordo ao pensar outras pol\u00edticas que beneficiem os colombianos e deem a eles uma vida digna? Isso \u00e9 o que estamos exigindo: uma mudan\u00e7a profunda de estruturas.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que ainda existe um caminho a percorrer. E voltando ao que voc\u00ea dizia sobre os tempos, digo que tudo depende da decis\u00e3o do governo. Se eles atenderem as iniciativas e propostas que estamos fazendo, acreditamos que o processo poderia entrar em uma din\u00e2mica que pode conduzir rapidamente a um acordo final. Agora: n\u00f3s n\u00e3o queremos que misturem elei\u00e7\u00f5es com o processo de paz, pois isso prejudicaria este \u00faltimo. N\u00e3o desejamos isso. E, por isso, insistimos em rediscutir os pontos pendentes para ver se chegamos a um consenso. Se isto n\u00e3o for poss\u00edvel, esperamos que os mesmos sejam discutidos em uma Assembleia Nacional Constituinte.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Paradoxalmente, os EUA falam de flexibilizar as rela\u00e7\u00f5es com Cuba, agora se aproximam da Mesa de negocia\u00e7\u00f5es entre o governo e as FARC e, por outro lado, castigam a Venezuela duramente, amea\u00e7am de mil maneiras o processo revolucion\u00e1rio encabe\u00e7ado por Nicol\u00e1s Maduro. Como voc\u00eas analisam este panorama de conflito na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Repetidamente \u00e9 dito que a paz da Col\u00f4mbia \u00e9 a paz do continente. N\u00f3s tamb\u00e9m cremos que a paz a ser alcan\u00e7ada, tem que ser projetada para o resto dos pa\u00edses. Talvez estes problemas que acontecem entre a Venezuela e os EUA possam ser resolvidos pela via diplom\u00e1tica e com respeito, abandonando por parte dos EUA a concep\u00e7\u00e3o do \u201cquintal\u201d. \u00c9 preciso permitir que os governos decidam o rumo que deve ser dado ao destino de seus pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Lembro que em uma entrevista que fiz h\u00e1 v\u00e1rios anos com Manuel Marulanda, ele afirmou que a luta das FARC era pela tomada do poder e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Pergunto: as FARC de hoje, as que voc\u00eas representam, continuam pensando da mesma maneira?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 claro, continuamos pensando da mesma forma. Estamos tentando avan\u00e7ar para um est\u00e1gio que permita continuar desenvolvendo essa luta em condi\u00e7\u00f5es melhores. No entanto, nosso prop\u00f3sito \u00e9 o socialismo. Que ningu\u00e9m tenha d\u00favidas disso. Esse \u00e9 o sistema que vai nos levar \u00e0 verdadeira democracia, \u00e0 justi\u00e7a social, a uma paz est\u00e1vel e duradoura e, sobretudo, \u00e0 dignidade. Porque o socialismo \u00e9 Humanidade.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00ea quer acrescentar algo mais aos nossos leitores do continente?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Parece-me importante saudar os leitores deste importante peri\u00f3dico, <strong>Resumen Latinoamericano<\/strong>, que chega a muitas partes do continente com uma mensagem de resist\u00eancia que deve ser considerada e que nos abastece com argumentos para continuar travando esta luta necess\u00e1ria por um mundo melhor.<\/p>\n<p>V\u00eddeo da entrevista \u2013 Parte 1:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/26\/resumen-latinoamericano-tv_19_2_15-entrevista-a-ivan-marquez-comandante-de-las-farc-ep-en-la-habana-parte-1\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/26\/resumen-latinoamericano-tv_19_2_15-entrevista-a-ivan-marquez-comandante-de-las-farc-ep-en-la-habana-parte-1\/<\/a><\/p>\n<p>V\u00eddeo da entrevista \u2013 Parte 2:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/26\/resumen-latinoamericano-tv_19_2_15-entrevista-a-ivan-marquez-que-nadie-tenga-dudas-nuestro-proposito-es-el-socialismo-parte-2\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/26\/resumen-latinoamericano-tv_19_2_15-entrevista-a-ivan-marquez-que-nadie-tenga-dudas-nuestro-proposito-es-el-socialismo-parte-2\/<\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/27\/entrevista-en-cuba-al-comandante-de-las-farc-ep-ivan-marquez-que-nadie-tenga-dudas-nuestro-proposito-es-el-socialismo\/\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/27\/entrevista-en-cuba-al-comandante-de-las-farc-ep-ivan-marquez-que-nadie-tenga-dudas-nuestro-proposito-es-el-socialismo\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n(Entrevista do Comandante das FARC, Iv\u00e1n M\u00e1rquez, em Cuba)\nPor Carlos Azn\u00e1rez (de Havana, Cuba), Resumen Latinoamericano, 25 de fevereiro de 2015.- A Resumen Latinoamericano dialogou, em fins de fevereiro, em Havana com o Comandante das FARC-EP, Iv\u00e1n M\u00e1rquez, que preside a Delega\u00e7\u00e3o guerrilheira na Mesa de Negocia\u00e7\u00f5es com o governo colombiano.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7475\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-7475","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Wz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7475\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}