{"id":7483,"date":"2015-03-04T15:02:35","date_gmt":"2015-03-04T15:02:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7483"},"modified":"2015-03-04T15:02:35","modified_gmt":"2015-03-04T15:02:35","slug":"cubaeua-que-mudancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7483","title":{"rendered":"CUBA\/EUA: QUE MUDAN\u00c7AS?"},"content":{"rendered":"\n<p>O presidente Barack Obama come\u00e7ou o seu discurso hist\u00f3rico de 17 de Dezembro de 2014 por isto: reconhecer que a pol\u00edtica conduzida desde h\u00e1 meio s\u00e9culo por Washington &#8220;em rela\u00e7\u00e3o ao povo de Cuba fracassou em fazer avan\u00e7ar os interesses dos Estados Unidos&#8221;. Ou, para ser mais preciso, segundo ele, &#8220;a abordagem&#8221; (ou seja, o m\u00e9todo escolhido, os meios postos em marcha) \u00e9 que se revelou ineficaz para atingir o objectivo que o governo estado-unidense se havia fixado. E que ele continua a fixar-se. Este objectivo (por que teria ele mudado?) \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<p>Rela\u00e7\u00f5es conflituosas ou pontos de vista concili\u00e1veis?<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o entrada, desde de 1\u00ba de Janeiro de 2015 no seu 57\u00ba ano, simultaneamente anti-imperialista e anti-capitalista, que desafiou as lei da hist\u00f3ria instalando um socialismo original a 90 milhas [145 km] dos Estados Unidos. Que soube resistir s\u00f3, que provou ao mundo que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa ao capitalismo e que se propagou na Am\u00e9rica Latina, da Venezuela \u00e0 Bol\u00edvia, onde outras revolu\u00e7\u00f5es est\u00e3o em curso, reclamando-se, tamb\u00e9m elas, do socialismo. Esta confiss\u00e3o de impot\u00eancia do presidente B. Obama \u00e9, em si, uma vit\u00f3ria para Cuba. A liberta\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas \u00faltimos cubanos que ainda estavam presos nos Estados Unidos e a reuni\u00e3o dos cinco her\u00f3is anti-terroristas cubanos em Cuba ap\u00f3s mais de 15 anos de deten\u00e7\u00e3o ampliou e encheu de alegria esta vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como \u00e9 altamente prov\u00e1vel que o objectivo do governo t\u00e3o pouco tenha mudado, que ele se mantenha o mesmo de antes da declara\u00e7\u00e3o feita pelo presidente Ra\u00fal Castro em 17 de Dezembro \u2013 a saber, garantir ao povo cubano os direitos adquiridos da sua revolu\u00e7\u00e3o (seguran\u00e7a, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, concep\u00e7\u00e3o ampla dos servi\u00e7os p\u00fablicos&#8230;), procurar solu\u00e7\u00f5es para os problemas b\u00e1sicos da vida quotidiana, criar empregos satisfat\u00f3rios para a juventude&#8230; \u2013, \u00e9 tamb\u00e9m muito prov\u00e1vel que os pontos de vista dos Estados Unidos e de Cuba sejam inconcili\u00e1veis. Assim ser\u00e1, pelo menos, por tanto tempo quanto o povo cubano continue a demonstrar seu apoio \u00e0 direc\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o e seu apego ao projecto socialista. E enquanto a popula\u00e7\u00e3o estado-unidense \u2013 como igualmente aquelas dos outros pa\u00edses do Norte em geral \u2013 aceite ver seus pr\u00f3prios dirigentes comportarem-se como representantes dos interesses da finan\u00e7a e, para melhor servir esta \u00faltima, lan\u00e7ar seus ex\u00e9rcitos numa guerra permanente contra o Sul (e o Leste).<\/p>\n<p>Sabe-se que as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e Cuba caracterizam-se, desde h\u00e1 muito, e bem antes de 1959, pela sua dureza. Estes dois pa\u00edses t\u00eam hist\u00f3rias (e geografias) estreitamente ligadas <a href=\"http:\/\/resistir.info\/cuba\/remy_19fev15.html#notas\">[1]<\/a> . Foi sob o constrangimento destas rela\u00e7\u00f5es que a revolu\u00e7\u00e3o cubana teve de realizar seus avan\u00e7os. Ao inv\u00e9s de se limitar a um res\u00edduo da confronta\u00e7\u00e3o Leste-Oeste, o conflito que op\u00f5e Cuba aos EUA deve ser encarado sob o prisma das rela\u00e7\u00f5es bilaterais. S\u00e3o elas que explicam o tratamento diferente reservado \u00e0 ilha em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses que continuam reivindicar o socialismo (China, Vietname, &#8230;). E que explicam a longevidade da agressividade de Washington. Uma agressividade que adopta a forma do terrorismo de Estado: tentativas de assassinato de dirigentes cubanos (mais de 630 visando Fidel Castro), actos terroristas conduzidos pela CIA e pelos exilados contra-revolucion\u00e1rios de Miami (contra um avi\u00e3o de carreira da Cubana de Aviaci\u00f3n em 1976, escolas em 1981, hot\u00e9is em 1997, &#8230;), al\u00e9m de m\u00faltiplos ataques biol\u00f3gicos contra a popula\u00e7\u00e3o, o gado, as culturas. E mesmo uma invas\u00e3o mercen\u00e1ria (na Ba\u00eda dos Porcos em 1961) e uma amea\u00e7a de conflagra\u00e7\u00e3o nuclear (a crise dos m\u00edsseis em 1962)!<\/p>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es de um restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas&#8230;<\/p>\n<p>Ainda assim, ser\u00e1 preciso aprender a coexistir. E para isso, que sejam satisfeitas determinadas condi\u00e7\u00f5es. Primeiro, que a retirada de Cuba da lista dos <em>&#8220;State Sponsors of Terrorism&#8221; <\/em>se torne realidade \u2013 e n\u00e3o apenas mais uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o de B. Obama. No momento em que s\u00e3o escritas estas linhas, Cuba, que, como acab\u00e1mos de recordar, desde 1959 sofre sem interrup\u00e7\u00f5es o terrorismo dos Estados Unidos, figura sempre no n\u00famero dos &#8220;Estados que apoiam o terrorismo&#8221;, ao lado do Ir\u00e3, do Sud\u00e3o e da S\u00edria, conforme os crit\u00e9rios do Departamento de Estado. A seguir, para que as negocia\u00e7\u00f5es prossigam, a administra\u00e7\u00e3o estado-unidense dever\u00e1 consentir a levantar os obst\u00e1culos ao funcionamento da Sec\u00e7\u00e3o de interesses cubanos em Washington, nomeadamente deixando-a efectuar no imediato as opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias normais e necess\u00e1rias ao tratamento dos dossiers da comunidade origin\u00e1ria de Cuba que vive nos EUA, como se verificava ainda h\u00e1 alguns meses. H\u00e1 mais de 400 mil residentes estado-unidenses de origem cubana que a cada ano visitam a ilha. Finalmente, Washington dever\u00e1 dar garantias s\u00f3lidas quanto ao respeito estrito das conven\u00e7\u00f5es internacionais por parte dos seus diplomatas e funcion\u00e1rios colocados na Sec\u00e7\u00e3o de interesses em Havana. O ex-conservador Paul Craig Roberts j\u00e1 preveniu: na medida em que o d\u00f3lar tentar\u00e1 tomar o controle da economia, &#8220;a embaixada americana ser\u00e1 o ponto de apoio dos agentes da CIA para subverter o governo cubano, fornecer\u00e1 a base a partir da qual os Estados Unidos implantar\u00e3o ONGs que no momento oportuno convocar\u00e3o os membros cr\u00e9dulos para manifesta\u00e7\u00f5es de rua, como se viu em Kiev, e tornar\u00e3o poss\u00edvel a maquiagem de uma s\u00e9rie de novos l\u00edderes pol\u00edticos&#8221;. Na sua carta de 26 de Janeiro de 2015, Fidel Castro tamb\u00e9m preveniu: &#8220;N\u00e3o tenho confian\u00e7a na pol\u00edtica dos Estados Unidos&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>&#8230; \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de uma normaliza\u00e7\u00e3o destas rela\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Se estas condi\u00e7\u00f5es forem reunidas, ser\u00e1 poss\u00edvel um restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. Mas n\u00e3o de uma normaliza\u00e7\u00e3o. Para avan\u00e7ar neste sentido, condi\u00e7\u00f5es mais decisivas e pejadas de consequ\u00eancias ser\u00e3o exigidas. Em primeiro lugar, que tenha fim o bloqueio, tal como o reclama a quase totalidade dos membros da ONU, mas tamb\u00e9m que indeniza\u00e7\u00f5es sejam dadas a Cuba para compensar o que este lhe custou. Os interc\u00e2mbios entre os dois pa\u00edses poder\u00e3o ent\u00e3o operar em todos os sectores e n\u00e3o unicamente nas telecomunica\u00e7\u00f5es, nas quais tanto insiste a presid\u00eancia dos Estados Unidos com o objectivo evidente de acelerar os fluxos de propaganda anti-comunista difundidos de Miami para a ilha pelas ondas de r\u00e1dio e pelos canais de televis\u00e3o piratas. Depois, \u00e9 a ades\u00e3o do povo cubano ao socialismo que dever\u00e1 ser aceita por Washington. E em Havana Ra\u00fal Castro reiterou, apenas tr\u00eas dias ap\u00f3s os 17 de Dezembro, diante da Assembleia Nacional do Poder Popular: &#8220;o sistema econ\u00f3mico que prevalecer\u00e1 continuar\u00e1 a repousar sobre a propriedade socialista de todo o povo sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Restar\u00e1 finalmente satisfazer uma reivindica\u00e7\u00e3o fundamental: restituir a parte do territ\u00f3rio cubano ocupada pelos Estados Unidos desde h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, Guant\u00e1namo. Barack Obama foi recentemente constrangido a reconhecer a evid\u00eancia: a base naval de Guant\u00e1namo, zona de n\u00e3o-direito, n\u00e3o serve aos democratas Estados Unidos &#8220;sen\u00e3o&#8221; como centro de tortura. Recordar-se que ele havia outrora prometido encerrar esta pris\u00e3o. Em contrapartida ele n\u00e3o disse nem uma palavra sobre a restitui\u00e7\u00e3o a Cuba deste territ\u00f3rio que \u00e9 seu. A ova\u00e7\u00e3o que em 28 de Janeiro \u00faltimo acolheu, quando da 3\u00aa confer\u00eancia da Comunidade de Estados Latino-Americanos e das Cara\u00edbas (CELAC), o discurso do presidente Ra\u00fal Castro formulando estas exig\u00eancias foi suficiente para ilustrar a muito ampla solidariedade que a revolu\u00e7\u00e3o cubana conseguiu construir em torno de si. Hoje, sobre todas estas quest\u00f5es \u2013 levantamento do bloqueio, n\u00e3o-inger\u00eancia nos assuntos de pa\u00edses terceiros e respeito da soberania nacional, encerramento da base militar estado-unidense e restitui\u00e7\u00e3o de Guant\u00e1namo \u2013 s\u00e3o claramente os Estados Unidos, e n\u00e3o Cuba, que est\u00e3o isolados no cena internacional.<\/p>\n<p>O processo iniciado, devendo conduzir do restabelecimento \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es cubano-estado-unidenses, n\u00e3o est\u00e1 portanto sen\u00e3o nos seus prim\u00f3rdios. Levar\u00e1 tempo, tal como as negocia\u00e7\u00f5es em curso, para chegar a um di\u00e1logo de igual para igual. Aquelas e aqueles que mais uma vez imaginavam a revolu\u00e7\u00e3o cubana derrotada dever\u00e3o ainda esperar; e reflectir no facto de que o mundo est\u00e1 em vias de mudar, muito profundamente. E talvez tamb\u00e9m na ideia de que a actual hegemonia estado-unidense, financiarizada e militarizada, n\u00e3o \u00e9 ela pr\u00f3pria todo poderosa, nem eterna&#8230;<\/p>\n<p>[1] Convidamos o leitor a reportar-se a v\u00e1rios livros do autor: <a href=\"http:\/\/www.wook.pt\/ficha\/os-avancos-revolucionarios-na-america-latina\/a\/id\/9616431\" target=\"_new\"><em>Os avan\u00e7os revolucion\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina<\/em><\/a> (Avante, 2010); <em>Les Avanc\u00e9es r\u00e9volutionnaires en Am\u00e9rique latine <\/em>(Parangon, 2010); e <em>Cuba r\u00e9volutionnaire \u2013 2 tomes <\/em>(L&#8217;Harmattan, 2006 et 2003).<\/p>\n<p>*Investigador do Conseil National de Recherche Scientifique (CNRS)<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/resistir.info\/cuba\/remy_19fev15.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor R\u00e9my Herrera*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7483\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7483","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1WH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7483\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}