{"id":7485,"date":"2015-03-04T15:08:01","date_gmt":"2015-03-04T15:08:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7485"},"modified":"2015-03-04T15:08:01","modified_gmt":"2015-03-04T15:08:01","slug":"qa-minustah-visa-manter-o-haiti-a-servico-dos-interesses-dos-estados-unidos-das-empresas-e-dos-capitais-que-eles-representamq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7485","title":{"rendered":"&#8220;A Minustah visa manter o Haiti a servi\u00e7o dos interesses dos Estados Unidos, das empresas e dos capitais que eles representam&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Resumen Latinoamericano\/ Por Mario Hernandez\/ 18\/02\/2015. <\/strong><\/p>\n<p><strong>M.H.: Faz 5 anos o terremoto que custou entre 250.000 e 300.000 vidas e, tamb\u00e9m, um novo anivers\u00e1rio da independ\u00eancia do Haiti, primeiro pa\u00eds independente da Am\u00e9rica Latina, em 1804. O Haiti tem a caracter\u00edstica particular de converter-se na primeira Rep\u00fablica negra que, entre outras coisas, eliminou a escravid\u00e3o. A estas efem\u00e9rides, soma-se o fato conjuntural do Comit\u00ea pela retirada das tropas do Haiti, em representa\u00e7\u00e3o a uma serie de organiza\u00e7\u00f5es latino-americanas, se fazer presente na Embaixada do Chile com o objetivo de entregar uma carta dirigida ao Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que visitou o Haiti entre os dias 23 e 25 de janeiro e neste m\u00eas est\u00e1 presidido precisamente pelo Chile. Esta declara\u00e7\u00e3o leva uma serie de assinaturas, como as do Jubileu Sul, Di\u00e1logo 2000 Argentina, Encontro Sindical Nossa Am\u00e9rica, Comit\u00ea Argentino de Solidariedade pela retirada das tropas do Haiti, o pr\u00eamio Nobel da paz Adolfo P\u00e9rez Esquivel, Nora Corti\u00f1as, Madre da Plaza de Mayo (Linha Fundadora), Mirta Baravalle da mesma organiza\u00e7\u00e3o, Frente Popular Dar\u00edo Santill\u00e1n, etc. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Para conversar sobre esta carta endere\u00e7ada ao Conselho de Seguran\u00e7a e abordar v\u00e1rias tem\u00e1ticas que queremos aprofundar, hoje convidamos Beverly Keene, do Jubileu Sul, Di\u00e1logo 2000 e, tamb\u00e9m, membro do Comit\u00ea argentino pela retirada das tropas do Haiti.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em 13 de janeiro passado, expiraram os mandatos das autoridades parlamentares do Senado e da C\u00e2mara dos Deputados e do atual presidente Martelly concentrou o poder p\u00fablico e estabeleceu um governo que funcionar\u00e1 por decreto, atrav\u00e9s da designa\u00e7\u00e3o de um Primeiro Ministro, Evans Paul. Paul substituiu Laurent Lamotte e prometeu em seu discurso convocar elei\u00e7\u00f5es durante o transcurso do corrente ano. Enquanto essa situa\u00e7\u00e3o se encaminha, o certo \u00e9 que Martelly vai governar por decreto. O que voc\u00ea pode comentar sobre esta situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>-B.K.: <\/strong>Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o espa\u00e7o para falar sobre o Haiti. \u00c0s vezes parece algo muito distante de n\u00f3s, por\u00e9m aqui na Argentina temos muito presentes as diversas estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, Canad\u00e1 e Fran\u00e7a, os poderes centrais em nosso mundo hoje, assim como s\u00e3o as vidas e as decis\u00f5es pol\u00edticas dos povos da Am\u00e9rica Latina. Sem ir mais longe, temos o golpe de Estado que ocorreu no Paraguai h\u00e1 alguns anos, o golpe em Honduras em 2009 e, tamb\u00e9m, o golpe de Estado no Haiti, em 2004, que levou \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da Minustah. Esta miss\u00e3o, supostamente, servia para estabilizar o Haiti, mas, na realidade, o que se percebeu no momento e que se v\u00ea com muito mais clareza hoje, \u00e9 que busca manter o Haiti a servi\u00e7o dos interesses dos Estados Unidos, das empresas e dos capitais que eles representam.<\/p>\n<p>Efetivamente, o golpe de Estado que est\u00e1 ocorrendo hoje no Haiti, por vias mais modernas, torna desnecess\u00e1rio que os marines estadunidenses ocupem o Haiti como o fizeram em 1915. Neste caso, eles podem se dar ao luxo de terceirizar a ocupa\u00e7\u00e3o militar, com as tropas de nossas pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, da Argentina, Uruguai, Brasil, Chile, etc., uma s\u00e9rie de pa\u00edses que se utilizam n\u00e3o de um decreto do Departamento de Estado dos Estados Unidos, mas do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, ao qual recentemente o Presidente boliviano batizou muito corretamente de \u201cConselho de Inseguran\u00e7a\u201d. Assim, ele \u00e9 utilizado para impor a vontade dos poderes de sempre. Atualmente, no Haiti, isto significa o in\u00edcio de um per\u00edodo de governo por decreto. Esta visita realizada no fim de semana pelo Conselho de Seguran\u00e7a, sem d\u00favida, tem como objetivo legitim\u00e1-lo, apoiar esta nova situa\u00e7\u00e3o de um novo Primeiro Ministro, que montou um gabinete que as m\u00eddias chamam \u201cde consenso\u201d, buscando legitimar este processo que n\u00e3o \u00e9 a vontade do povo haitiano, mas dos poderes que hoje ocupam o Haiti atrav\u00e9s das tropas da Minustah.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma conjuntura a qual temos que prestar muita aten\u00e7\u00e3o, em que estamos envolvidos diretamente atrav\u00e9s da presen\u00e7a de tropas argentinas no Haiti, isto \u00e9, apoiando esta situa\u00e7\u00e3o. Temos que escutar a vontade que expressam as vozes das organiza\u00e7\u00f5es sociais e populares haitianas, reconhecendo que tanto no Haiti como em todos nossos pa\u00edses existe uma grande diversidade de opini\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Existem partidos que se chamam e se dizem da \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d e que est\u00e3o acordando com Martelly para colocar em marcha este novo golpe de Estado. Existem partidos da oposi\u00e7\u00e3o que s\u00e3o contra isto e continuam se manifestando diariamente, de maneira massiva, nas ruas de Porto Pr\u00edncipe e em outras partes do pa\u00eds. Tamb\u00e9m existem outros partidos, organiza\u00e7\u00f5es sociais, movimentos populares no Haiti que seguem reclamando o que \u00e9 l\u00f3gico: sua soberania, o direito do povo haitiano de falar e poder decidir por si pr\u00f3prio, sem a intromiss\u00e3o dos Estados Unidos, Fran\u00e7a, Na\u00e7\u00f5es Unidas, a OEA ou a Minustah, em seus assuntos internos.<\/p>\n<p>Muitas destas organiza\u00e7\u00f5es com as quais temos um contato permanente, expressam sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas por esta perda de soberania, mas pelo que est\u00e1 acontecendo por tr\u00e1s disso: um processo de recoloniza\u00e7\u00e3o com uma pol\u00edtica de manuten\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios do Haiti como os mais baixos de todo o hemisf\u00e9rio, favorecendo a instala\u00e7\u00e3o de maquilas, sobretudo ind\u00fastrias t\u00eaxteis, que exportam para os Estados Unidos a pre\u00e7os de mis\u00e9ria e favorecem a instala\u00e7\u00e3o de grandes empresas de explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera e aur\u00edfera.<\/p>\n<p>No momento, apresentam uma queixa formal ao Banco Mundial por seu apoio ao governo do Haiti, pela possibilidade de reformar a Lei mineradora para que as empresas mineradoras ingressem e consolidem sua posi\u00e7\u00e3o sem nenhuma possibilidade do Parlamento supervisionar ou controlar suas atividades.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vimos nestes \u00faltimos meses muitas manifesta\u00e7\u00f5es e protestos por parte de comunidades pesqueiras costeiras em algumas partes do Haiti. Estas regi\u00f5es foram apontadas como sedes de futuros investimentos para o turismo de luxo e seus moradores op\u00f5em-se \u00e0 pol\u00edtica de remo\u00e7\u00e3o das comunidades locais e \u00e0 retirada n\u00e3o apenas dos meios de sua subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m de qualquer possibilidade de dizer algo a respeito.<\/p>\n<p>Existem protestos quase todos os dias frente a estes avan\u00e7os que caracterizam um processo de recoloniza\u00e7\u00e3o e saqueio. Ainda que n\u00e3o cheguem a nossos jornais, sabemos que existe uma sociedade muito ativa e alerta. Temos uma situa\u00e7\u00e3o muito complexa, sobre a qual nos chega pouca informa\u00e7\u00e3o. A chave \u00e9 entender que h\u00e1 um golpe de Estado em curso no Haiti e a Minustah, a Miss\u00e3o de estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 c\u00famplice desse golpe.<\/p>\n<p>As tropas da Argentina, Brasil e outros pa\u00edses n\u00e3o est\u00e3o cumprindo miss\u00f5es humanit\u00e1rias, mas atuando como guarda pretoriana da verdadeira ocupa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, Canad\u00e1 e Fran\u00e7a. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de muita dificuldade para um povo que \u00e9 o mais empobrecido de nossa Am\u00e9rica Latina e o Caribe. \u00c9 importante recordar que em sua \u00e9poca de col\u00f4nia francesa foi a mais rica de Fran\u00e7a. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que o Haiti, como todos os outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, seja povo um pobre. Existe um processo concreto de empobrecimento que o povo haitiano continua sofrendo. N\u00e3o podemos aceitar que esses pa\u00edses estrangeiros sigam determinando seu destino e menos aceitar tropas de nossos pa\u00edses ajudando nesses cometido.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da Minustah faz parte de uma ind\u00fastria rent\u00e1vel para as For\u00e7as Armadas latino-americanas.<\/p>\n<p><strong>-M.H.: Posteriormente, vamos voltar sobre a realidade interna do Haiti. Voc\u00ea mencionou a presen\u00e7a de tropas argentinas e as denominou como tropas de ocupa\u00e7\u00e3o. <\/strong><strong>N\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas tropas que formam a Minustah. <\/strong><strong>Recentemente, ocorreu um debate entre o governo cessante e o novo governo no Uruguai. O futuro Chanceler Nin, que foi vice-presidente do Uruguai, falou da iminente retirada das tropas uruguaias e, rapidamente, o Chanceler Almagro e o Ministro da Defesa, Huidobro, desautorizaram esse ponto de vista. Para al\u00e9m destas \u201ccontradi\u00e7\u00f5es\u201d, gostaria que voc\u00ea explicasse a nossos ouvintes quais s\u00e3o os fundamentos pelos quais as autoridades argentinas defendem a presen\u00e7a de tropas de nosso pa\u00eds no Haiti.<\/strong><\/p>\n<p><strong>-B.K.:<\/strong> Em certo sentido, eu poderia responder de uma maneira que \u00e9 muito f\u00e1cil. Em setembro do ano passado coube ao Congresso Argentino aprovar a sa\u00edda das tropas que participam da Minustah no Haiti. \u00c9 uma autoriza\u00e7\u00e3o que tem que ser dada pelo Congresso em qualquer situa\u00e7\u00e3o onde a Argentina queira enviar tropas para fora do pa\u00eds ou receber dentro do pa\u00eds a visita de tropas de outra na\u00e7\u00e3o. Nesse debate, ocorrido em setembro na Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e a de Defesa da C\u00e2mara dos Deputados, um debate que o partido oficialista n\u00e3o esperava, j\u00e1 que esperava um tr\u00e2mite como em momentos anteriores, v\u00e1rios partidos se apresentaram para reclamar e exigir que existisse um debate sobre a participa\u00e7\u00e3o da Argentina na Minustah e acordaram que os funcion\u00e1rios do governo que defendiam a posi\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da Argentina na Minustah n\u00e3o tinham argumentos, mas \u00e9 uma decis\u00e3o que continua mantida.<\/p>\n<p>Essa seria a resposta mais f\u00e1cil. Outra \u00e9 a que nos deu o Ministro de Defesa, Agust\u00edn Rossi, que em mar\u00e7o do ano passado visitou o Haiti durante 36 horas fazendo uma sauda\u00e7\u00e3o de rotina \u00e0s tropas l\u00e1 instaladas. Quando retornou desta viagem, a qual foi acompanhado por um batalh\u00e3o de jornalistas, em torno de 50, de quase todos os meios massivos, a mensagem foi muito clara e repetida por todas as m\u00eddias. Disse que a Minustah e a participa\u00e7\u00e3o da Argentina formam uma miss\u00e3o humanit\u00e1ria, mais ou menos dando a entender que tinham se estabelecido depois do terremoto e n\u00e3o 5 anos antes do mesmo. Mostravam cenas das tropas argentinas entregando \u00e1gua em gal\u00f5es \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, como exemplo de miss\u00e3o humanit\u00e1ria. Esses s\u00e3o os argumentos oficiais.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o poderia ser respeit\u00e1vel ou compreens\u00edvel, por\u00e9m n\u00e3o tira a responsabilidade de cada governo de estar defendendo uma situa\u00e7\u00e3o para qual n\u00e3o tem argumentos de peso. Se o motivo pelo qual temos tropas da Argentina no Haiti durante 11 anos \u00e9 para continuar entregando \u00e1gua \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, podemos concluir que foi um fracasso total. Ou seja, suponhamos que essa fosse sua miss\u00e3o. A verdade \u00e9 que em tanto tempo n\u00e3o se tenha conseguido resolver nada a respeito de um problema que obviamente \u00e9 real, j\u00e1 que o fornecimento de \u00e1gua continua sendo feito com caminh\u00f5es e gal\u00f5es com \u00e1gua e n\u00e3o se foi mais al\u00e9m, por si s\u00f3 isso seria reconhecer o fracasso da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que esse n\u00e3o \u00e9 o objetivo. Segundo o Conselho de Seguran\u00e7a, o Haiti representa um perigo para a seguran\u00e7a da regi\u00e3o. Muitos governos continuaram aprovando isso em outubro, quando reviram o mandato da Minustah, e esse perigo foi reproduzido na boca dos Estados Unidos, que dizem que se a situa\u00e7\u00e3o se complicar no Haiti, haver\u00e1 muitos imigrantes haitianos nas costas da Fl\u00f3rida e como n\u00e3o podem permiti-lo, a situa\u00e7\u00e3o deve ser controlada.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a defesa oficial feita no Conselho de Seguran\u00e7a. Por\u00e9m, na realidade, o que vemos \u00e9 que a perman\u00eancia se d\u00e1 por objetivos de controle, domina\u00e7\u00e3o, saqueio e coloniza\u00e7\u00e3o do povo haitiano. Podemos analisar um pouco mais os argumentos esgrimidos por determinados governos de nossa Am\u00e9rica Latina, podemos reconhecer que hoje em dia existem debates, como o que vimos entre o governo cessante e o novo governo no Uruguai, o que significa a exist\u00eancia da preocupa\u00e7\u00e3o sobre esta presen\u00e7a de tropas latino-americanas no Haiti. Mais de um desses governos chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que se meteu em um beco sem sa\u00edda, em uma armadilha colocada pelos Estados Unidos e pela Fran\u00e7a quando convidaram os governos \u201cprogressistas\u201d liderados, em 2004, por Lula do Brasil e N\u00e9stor Kirchner da Argentina, para participar dessa ocupa\u00e7\u00e3o e que agora n\u00e3o sabem como sair com eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O segundo problema, que pode ser muito corrente, \u00e9 que a presen\u00e7a dos latino-americanos hoje no Haiti, em qualquer destas miss\u00f5es de paz, \u00e9 uma ind\u00fastria, significa recursos, possibilidades de viajar com os efetivos listados, \u00e9 um privil\u00e9gio, um pr\u00eamio monet\u00e1rio em sua carreira.<\/p>\n<p>Na Argentina, nestes \u00faltimos dias, coisa que n\u00e3o sai nos notici\u00e1rios, as For\u00e7as Armadas criaram uma escola de capacita\u00e7\u00e3o e treinamento para os efetivos que participam de miss\u00f5es de paz. Tudo isto faz parte de uma ind\u00fastria e cortar a presen\u00e7a da Argentina na Minustah a coloca em perigo. Esse \u00e9 um tema que se v\u00ea em discuss\u00e3o, por exemplo, no Uruguai. As For\u00e7as Armadas uruguaias t\u00eam muito mais antecedentes de participa\u00e7\u00e3o nestas miss\u00f5es de paz das Na\u00e7\u00f5es Unidas, e \u00e9 um reduto onde tamb\u00e9m vemos o Brasil, inclusive a Bol\u00edvia, Paraguai, Equador, em que se colocam em jogo as rela\u00e7\u00f5es entre os diferentes setores de nossos pr\u00f3prios governos. Aqui, entre as For\u00e7as Armadas, o Minist\u00e9rio da Defesa, Chancelaria e Presid\u00eancia, nem todos t\u00eam a mesma postura. E em mais de um governo da Am\u00e9rica Latina se defende, em voz baixa, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel retirar as tropas do Haiti porque podem criar um problema com as For\u00e7as Armadas de seu pa\u00eds. Isto \u00e9 importante e temos que ter claro.<\/p>\n<p>Se voltarmos aos argumentos que os governos utilizam para sustentar essa presen\u00e7a no Haiti, observaremos que inicialmente se falava da possibilidade de criar uma pol\u00edtica distinta, de coopera\u00e7\u00e3o regional com a Am\u00e9rica Latina, que \u00e9 algo que a maioria de n\u00f3s querer apoiar, como faz Cuba com a presen\u00e7a de suas miss\u00f5es m\u00e9dicas h\u00e1 muitos anos, como tem sido a pol\u00edtica da Venezuela atrav\u00e9s da Petrocaribe, um apoio muito concreto \u00e0 vida cotidiana do povo haitiano. Por\u00e9m, o que vemos \u00e9 que os governos da Am\u00e9rica Latina est\u00e3o repetindo os mesmos erros, as mesmas pol\u00edticas de domina\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a dos poderes centrais. Por isso, entendemos que este ano, 2015, o centen\u00e1rio da primeira invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos ao Haiti, \u00e9 um momento cr\u00edtico na vida do povo haitiano, pois as organiza\u00e7\u00f5es sociais haitianas est\u00e3o reivindicando a necessidade de avan\u00e7ar na refunda\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds, n\u00e3o com a ocupa\u00e7\u00e3o de tropas de toda Am\u00e9rica Latina, mas com pol\u00edticas realmente de coopera\u00e7\u00e3o, solid\u00e1rias, dos povos e dos governos latino-americanos. \u00c9 o momento para avan\u00e7ar nesse plano e isso significa, em primeiro lugar, retirar as tropas e, depois, avan\u00e7ar em pol\u00edticas de apoio em aspectos humanit\u00e1rios, as quais sem d\u00favidas podem ser oferecidas e, tamb\u00e9m, em tudo o que podem ser pol\u00edticas de apoio \u00e0 institucionalidade haitiana. Mas que sejam decididas por seu povo, n\u00e3o pelos Estados Unidos, pelo Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, pela OEA ou pela Comunidade Internacional.<\/p>\n<p>O Haiti continua sendo muito cobi\u00e7ado, suas praias, seu sol, a riqueza de seu solo, que est\u00e1 muito deteriorado pelas pol\u00edticas de saqueio que s\u00e3o empreendidas h\u00e1 v\u00e1rios s\u00e9culos, e que agora apontam para o subsolo e as riquezas a\u00ed escondidas. Esse \u00e9 o problema. O povo haitiano atrapalha demais, seja indo para a costa da Fl\u00f3rida em seus barquinhos, buscando sobreviver \u00e0 fome e \u00e0 mis\u00e9ria que reina, ou vivendo em seu pa\u00eds e lutando.<\/p>\n<p>Para falar de uma realidade que se relaciona com a atualidade do povo haitiano, os Estados Unidos, a Fran\u00e7a e o Canad\u00e1 s\u00e3o os pa\u00edses que mais contribuem com o or\u00e7amento da Minustah. Neste momento, est\u00e3o investindo em torno de U$S 500 milh\u00f5es anuais para mant\u00ea-la. Custaria muito mais mandar tropas de seus pr\u00f3prios pa\u00edses. Esses mesmos governos t\u00eam sido incapazes, com todo o conjunto da chamada Comunidade Internacional, de investir U$S 50 milh\u00f5es em \u00e1gua pot\u00e1vel e na erradica\u00e7\u00e3o da epidemia de c\u00f3lera, que foi introduzida pela Minustah. Embora seja sua responsabilidade, a ONU est\u00e1 se escondendo atr\u00e1s do fato de que as tropas possuem imunidade.<\/p>\n<p><strong>-M.H.: Gostaria de salientar que o c\u00f3lera desapareceu do Haiti h\u00e1 50 anos. H\u00e1 poucos dias, um Tribunal Superior de Nova York, onde se apresentaram os atingidos que exigem indeniza\u00e7\u00f5es, se pronunciou no sentido que voc\u00ea mencionou, que as tropas n\u00e3o s\u00e3o imput\u00e1veis. Portanto, n\u00e3o corresponde o pagamento de nenhum tipo de indeniza\u00e7\u00e3o e nem acusa\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas pela reintrodu\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera no Haiti.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A imprensa mundial tende a apresentar os problemas do Haiti de maneira tendenciosa, retirando-os de sua hist\u00f3ria e do contexto neocolonial em que engendraram. Como se a pobreza end\u00eamica, o desmatamento, o c\u00f3lera, os danos das cat\u00e1strofes nacionais e o arrebatamento da soberania tivessem sido produzidos por um povo inconsciente ou por um clima adverso. Pouco se fala dos desperd\u00edcios e custos log\u00edsticos das mais de 10.000 ONGs presentes no Haiti que, na maioria dos casos, constituem mais de 60% de seu or\u00e7amento.<\/strong><\/p>\n<p><strong>-B.K.: <\/strong>Eu n\u00e3o conhe\u00e7o exatamente a cifra, mas a presen\u00e7a de grandes ONGs existe e me conta que \u00e9 avassaladora. Essa exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 notada apenas pelos informes, pelas vers\u00f5es jornal\u00edsticas e pelas den\u00fancias das organiza\u00e7\u00f5es haitianas. Voc\u00ea se d\u00e1 conta, assim que chega ao Haiti, no pr\u00f3prio aeroporto, da presen\u00e7a principalmente das grandes organiza\u00e7\u00f5es que se dedicam supostamente ao desenvolvimento ou reconstru\u00e7\u00e3o depois de uma cat\u00e1strofe como o terremoto. \u00c9 uma ind\u00fastria que movimenta muito dinheiro. Talvez, em alguns casos, com melhores inten\u00e7\u00f5es e outras com piores, que enxergam qualquer situa\u00e7\u00e3o como um campo f\u00e9rtil de lucros, de prest\u00edgio, de dinheiro e a possibilidade de continuar sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe uma enorme presen\u00e7a de organiza\u00e7\u00f5es menores, por\u00e9m que pertencem aos setores religiosos muito conservadores dos Estados Unidos, sendo alguns independentes e outros constituintes de conglomerados com uma clara inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Outros t\u00eam uma inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica menos clara, por\u00e9m servem aos mesmos fins. Essa presen\u00e7a no Haiti, terrivelmente multiplicada depois do terremoto, tem sido denunciada pelas organiza\u00e7\u00f5es haitianas de maneira sistem\u00e1tica. Em certo sentido, sentem que por tr\u00e1s desse ex\u00e9rcito chamado de coopera\u00e7\u00e3o ou de desenvolvimento, escapa de suas m\u00e3os qualquer possibilidade de opinar sobre a reconstru\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es e o dinheiro sempre se movem por fora do or\u00e7amento do governo haitiano e o Estado tem sido marginalizado. Lamentavelmente, \u00e9 um processo que n\u00e3o \u00e9 \u00fanico no Haiti, sendo visto em outros pa\u00edses, como na Indon\u00e9sia p\u00f3s- tsunami de 2005, e no Iraque, porque as guerras significam uma destrui\u00e7\u00e3o descomunal da popula\u00e7\u00e3o e sua reconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o ind\u00fastrias de grande escala. No caso do Iraque, as den\u00fancias de terceiriza\u00e7\u00e3o da guerra por empresas contratadas pelo governo dos Estados Unidos e, depois, a reconstru\u00e7\u00e3o desses desastres realizados pelas mesmas empresas. Esta \u00e9 uma realidade de nosso s\u00e9culo XXI, a destrui\u00e7\u00e3o e a reconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o ind\u00fastrias e significam a exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de qualquer possibilidade de participa\u00e7\u00e3o na tomada de decis\u00f5es, no planejamento dessas reconstru\u00e7\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o de seu futuro.<\/p>\n<p>Parte do que reclamam as organiza\u00e7\u00f5es populares haitianas neste momento \u00e9 que mudar simplesmente os nomes no governo e no gabinete e continuar excluindo o povo haitiano de qualquer possibilidade de tomar as decis\u00f5es, n\u00e3o resolver\u00e1 os problemas pol\u00edticos e sociais. \u00c9 o pr\u00f3prio povo que tem de resolv\u00ea-los e construir sua pr\u00f3pria fortaleza com organiza\u00e7\u00f5es populares para alcan\u00e7ar esses objetivos.<\/p>\n<p><strong>-M.H.: Pessoalmente, os argumentos me convenceram de que Haiti n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a para a paz mundial e nem regional. N\u00e3o sei se aos que escutaram este programa ocorreu o mesmo, por\u00e9m o objetivo desta entrevista era justamente esclarecer alguns aspectos pouco conhecidos da realidade haitiana. Existe algum tema que voc\u00ea queira expor, analisar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>-B.K.: <\/strong>Bem, eu gostaria de acrescentar um convite. Realmente temos uma possibilidade e um privil\u00e9gio, por\u00e9m \u00e9 tamb\u00e9m uma necessidade de conhecer este povo que contribuiu tanto com a hist\u00f3ria n\u00e3o apenas a pr\u00f3pria, mas a da Am\u00e9rica Latina e do mundo na luta pela independ\u00eancia, pelos direitos humanos e pelo fim da escravid\u00e3o. \u00c9 um povo que possui uma cultura impressionante no que se refere \u00e0 arte, \u00e0 m\u00fasica, ao teatro, ao cinema. Temos muito a desfrutar deste povo e a aprender com suas lutas e sua resist\u00eancia hoje em dia. \u00c9 um dever consolidar os la\u00e7os de irmandade e de luta conjunta com outros povos da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Este ano, n\u00f3s do Comit\u00ea argentino de solidariedade pela retirada das tropas do Haiti esperamos poder avan\u00e7ar com atividades, para as quais nos colocamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de qualquer organiza\u00e7\u00e3o ou casa cultural, para aproximar a cultura deste povo e ver como podemos relacionar mais estreitamente as lutas, conflitos e resist\u00eancias do povo argentino, por sua sobreviv\u00eancia, por sua soberania, por sua autodetermina\u00e7\u00e3o, com as lutas do povo haitiano.<\/p>\n<p>*De Jubileu e Di\u00e1logo 2000 Argentina<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/02\/18\/entrevista-beverly-keenela-minustah-busca-mantener-a-haiti-al-servicio-de-los-intereses-de-estados-unidos-las-empresas-y-los-capitales-que-ellos-representan\/<\/p>\n<p><em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEntrevista com Beverly Keene*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7485\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7485","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1WJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7485","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7485"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7485\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}