{"id":7505,"date":"2015-03-10T17:50:00","date_gmt":"2015-03-10T17:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7505"},"modified":"2015-04-16T21:39:12","modified_gmt":"2015-04-16T21:39:12","slug":"na-grecia-syriza-abre-cenario-de-polemicas-e-interrogacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7505","title":{"rendered":"Na Gr\u00e9cia, Syriza abre cen\u00e1rio de pol\u00eamicas e interroga\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Na Gr\u00e9cia, o entusiasmo da empolgante vit\u00f3ria eleitoral do partido Syriza durou apenas tr\u00eas dias, durante os quais Alexis Tsipras e seu bra\u00e7o direito, Yanis Varoufakis, o novo Ministro das Finan\u00e7as, continuaram a recitar o copi\u00e3o do populismo eleitoreiro, repetindo nos palanques a c\u00e9lebre frase \u201c&#8230;.<em>Nunca n\u00f3s iremos nos rebaixar aos homens da Troika e nunca mais seus ditames voltar\u00e3o em Athenas<\/em>&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas anos, isto \u00e9, do momento em que a Coaliz\u00e3o de Esquerda \u201cSyriza\u201d se transformou em partido, Alexis Tsipras alimentou sabiamente a esperan\u00e7a na maioria dos gregos que, repetitivamente, votaram nele e nos deputados do Syriza, acreditando nas palavras de ordem das campanhas eleitorais, que eram claras, diretas, tal como o programa que n\u00e3o apresentava d\u00favidas, concluindo com a celebre frase: \u201c&#8230;<em>nunca iremos baixar a cabe\u00e7a, nunca iremos aceitar a continua\u00e7\u00e3o dos programas de austeridade.<\/em>&#8230;\u201d. Lindas palavras, que fizeram chorar de felicidade os gregos, tanto que, nos dias que antecederam as elei\u00e7\u00f5es, o que mais se escutava nas ruas era o jingle da campanha eleitoral do Syriza, \u201c&#8230;<em>Afinal chegou a hora de uma mudan\u00e7a\u2026\u201d<\/em>. Um refr\u00e3o que as r\u00e1dios haviam transformado em um segundo hino nacional e que recebeu a solidariedade dos partidos da esquerda do mundo inteiro.<\/p>\n<p><strong>Syriza bic\u00e9falo?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, devemos reconhecer que o marketing eleitoral do Syriza foi mais que \u00f3timo. Em particular, a performance do seu l\u00edder, Alexis Tsipras, foi nota dez, do momento que soube persuadir a maioria dos gregos de que o novo governo iria batalhar intensamente em Bruxelas, na mesa de negocia\u00e7\u00f5es, para dobrar os tecnocratas da BCE.<\/p>\n<p>Excluindo poucos comentaristas \u2013 entre os quais o pr\u00f3prio \u2013, todos acreditaram nas promessas de Tsipras, inclusive porque o New York Times, uma semana antes das elei\u00e7\u00f5es, sentenciou: \u201c\u2026<em>Alexis Tsipras \u00e9 o Hugo Ch\u00e1vez hel\u00eanico, capaz de tirar a Gr\u00e9cia da Uni\u00e3o Europeia e romper com o Euro..<\/em>.\u201d.<\/p>\n<p>Um equ\u00edvoco pol\u00edtico gigantesco, que a \u201cgrande m\u00eddia\u201d criou propositalmente, para fazer explodir o sentimento de alarmismo j\u00e1 existente nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, \u00e0 causa das amea\u00e7as dos jihadistas do IS, do caos na L\u00edbia e da guerra na Ucr\u00e2nia. Um equ\u00edvoco no qual trope\u00e7ou todo mundo, de At\u00edlio Boron a Noam Chomsky, de Tony Negri a Naomi Klein.<\/p>\n<p>Mas foi na It\u00e1lia que esse equ\u00edvoco atingiu o n\u00edvel m\u00e1ximo, porque, nesse pa\u00eds, Paolo Ferrero, l\u00edder do PRC (Partido para a Refunda\u00e7\u00e3o Comunista), j\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es europeias de maio de 2014, havia tentado a carta do marketing eleitoral do Syriza, trocando o nome e o emblema do PRC para o slogan \u201cLista Tsipras\u201d. Uma op\u00e7\u00e3o que provocou a perda de quase 3% de sufr\u00e1gios, do momento que nem todos os eleitores da esquerda sabiam quem era Alexis Tsipras e porque o partido havia renunciado a sua identidade comunista!<\/p>\n<p>Por\u00e9m, apesar do deslavado resultado eleitoral, na esquerda italiana continuou forte a convic\u00e7\u00e3o de que o Syriza era \u201c<em>a ess\u00eancia da nova esquerda do s\u00e9culo XXI<\/em>\u201d, tanto que Nick Vendola, l\u00edder do SEL (Socialismo, Ecologia e Liberdade) &#8211; uma esp\u00e9cie de PSOL, mas muito mais parlamentar e reformista -, logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria eleitoral de Syriza, declarou: \u201c&#8230;<em>Alexis Tsipras, l\u00edder de Syriza, prentende libertar os grupos da esquerda das aur\u00e9olas da ortodoxia e dos vest\u00edgios do extremismo. De fato, ontem, Tsipras esteve com o presidente do Parlamento Europeu e do PSE (Partido Socialista Europeu), Martin Schultz, depois dever\u00e1 se encontrar com Matteo Renzi, e isso significa que ele quer fazer pol\u00edtica&#8230;. Depois da afirma\u00e7\u00e3o do Syriza, acredito que precisamos olhar com muita aten\u00e7\u00e3o o que vai acontecer nas fam\u00edlias da esquerda pol\u00edtica europeia, visto que os partidos ortodoxos, ou seja, os partidinhos comunistas, podem abandonar o GUE\/NGL (grupo parlamentar da esquerda europeia), tal como fizeram os dois deputados europeus do KKE em junho do ano passado&#8230;\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Declara\u00e7\u00f5es de mero oportunismo pol\u00edtico, que pretendem mascarar e, sobretudo, esconder aos militantes da esquerda o conluio no Parlamento Europeu com os deputados europeus da socialdemocracia alem\u00e3. Um casamento il\u00edcito, que provocou a sa\u00edda do KKE (Partido Comunista da Gr\u00e9cia) do GUE\/NGL (Esquerda Unit\u00e1ria Europeia\/Esquerda Verde N\u00f3rdica), porque, segundo o secret\u00e1rio do KKE, Dimitris Koutsoumpas: \u201c&#8230;<em>o novo posicionamento pol\u00edtico e a press\u00e3o hegem\u00f4nica do Syriza e dos alem\u00e3es do Die Linke (partido \u201cA Esquerda\u201d) no \u00e2mbito do GUE, em favor de um maior relacionamento com os socialdemocratas do PSE (Partido do Socialismo Europeu), na realidade acabou por desnaturar a natureza pol\u00edtica confederativa do GUE que, originariamente, visava preservar a identidade da esquerda europeia<\/em>&#8230;\u201d.<\/p>\n<p><strong>Alinhamento com a socialdemocracia?<\/strong><\/p>\n<p>Em Bruxelas, as negocia\u00e7\u00f5es entre o Syriza, o BCE e a Uni\u00e3o Europeia duraram dez dias. Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis foram os \u00fanicos representantes do Syriza, visto que, na delega\u00e7\u00e3o do governo grego, n\u00e3o havia nenhum membro da chamada \u201cPlataforma de Esquerda\u201d, a minoria de esquerda do Syriza. Por sua parte, a Troika era representada por Jeroen Dijsselbloem, presidente do Euro-grupo, Wolfang Scauble, ministro das Finan\u00e7as da Alemanha, e Mario Draghi, presidente do BCE, todos em contato direto com a presidente do FMI, Christine Lagarde, e a primeira-ministra da Alemanha, \u00c2ngela Merkel.<\/p>\n<p>Foi nessa fase que a verdadeira ess\u00eancia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica dos antigos \u201ceurocomunistas\u201d gregos, Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, se manifestou claramente. Ali\u00e1s, foi com base \u00e0 l\u00f3gica de um pretenso \u201ccompromisso hist\u00f3rico em moldes europeus\u201d que Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis assinaram um acordo que, por um lado, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do Programa de Salonico de 14 de Setembro de 2014 e, por outro, \u00e9 uma reedi\u00e7\u00e3o melhorada do antigo Memorando que o governo de Samaras assinou com a Troika (FMI, EU e BCE) em julho de 2012.<\/p>\n<p>A imprensa europeia e, em particular, os jornais e as televis\u00f5es da Alemanha exaltaram \u201co realismo pol\u00edtico de Alexis Tsipras\u201d, para poder estra\u00e7alhar at\u00e9 o fim as tend\u00eancias da esquerda do Syryza (Plataforma de Esquerda e Tend\u00eancia Comunista). Entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio sublinhar que o verdadeiro objetivo estrat\u00e9gico dos tecnocratas da Uni\u00e3o Europeia era manter a Gr\u00e9cia atrelada ao Euro, estritamente monitorada com os programas de austeridade do BCE.<\/p>\n<p>Desta forma, era evidente que o novo governo grego perderia toda sua vitalidade pol\u00edtica, deixando de ser um reiterado exemplo de resist\u00eancia na Europa. Consequentemente, o \u201crealismo pol\u00edtico\u201d de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis possibilitaria evitar hipot\u00e9ticas fraturas no Euro-grupo, visto que o alinhamento do Syriza com as posi\u00e7\u00f5es conciliadoras da socialdemocracia alem\u00e3 abafaria as contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Espanha, em Portugal, na It\u00e1lia e na pr\u00f3pria Fran\u00e7a. De fato, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que, nesses pa\u00edses, o desemprego e a espiral recessiva chegaram aos n\u00edveis m\u00e1ximos \u00e0 causa dos programas de austeridade e das regras financeiras europeias fixadas aos 12 de mar\u00e7o de 2012, com o Tratado Europeu sobre Estabilidade, Coordena\u00e7\u00e3o e Governan\u00e7a. Regras que, no lugar de ajudar, deprimiram ainda mais as economias da It\u00e1lia, Espanha, Portugal e Fran\u00e7a, com a introdu\u00e7\u00e3o do Fiscal Compact e a obriga\u00e7\u00e3o de manter a rela\u00e7\u00e3o entre d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio e PIB em no m\u00e1ximo 3%.<\/p>\n<p>Na realidade, o cerne da situa\u00e7\u00e3o grega \u00e9 de natureza pol\u00edtica, visto que o argumento do reescalonamento da d\u00edvida ou o agendamento de novos empr\u00e9stimos para realizar interven\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter meramente assistenciais s\u00e3o elementos t\u00e9cnicos que podem ser enquadrados, a qualquer hora, nos diferentes programas \u201cSalva-Estados\u201d, que o BCE guarda nos seus cofres como uma mera reserva financeira de \u00faltima hora. Portanto, o elemento pol\u00edtico determinante da quest\u00e3o grega era impedir que o Syriza radicalizasse o programa pol\u00edtico de esquerda para a salva\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o grega e que o apoio popular recebido por sua contraposi\u00e7\u00e3o aos ditados de \u00c2ngela Merkel e de Christine Lagarde n\u00e3o se tornasse um exemplo vitorioso, sobretudo na Espanha e na It\u00e1lia, onde existem for\u00e7as pol\u00edticas em ascens\u00e3o que apostam na possibilidade de construir uma real alternativa ao <em>fiscal compact<\/em> da Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 l\u00f3gica neoliberal dos conglomerados financeiros alem\u00e3es e franceses.<\/p>\n<p>Um contexto que tamb\u00e9m evidenciou a aus\u00eancia de uma base ideol\u00f3gica e de um preparo pol\u00edtico por parte do grupo majorit\u00e1rio do Syriza \u2013 politicamente chefiado por Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis -, necess\u00e1rios para sustentar o confronto pol\u00edtico com os tecnocratas da Uni\u00e3o Europeia e, tamb\u00e9m, com a primeira-ministra da Alemanha, \u00c2ngela Merkel, cujo governo \u00e9 sustentado pelos socialdemocratas com a chamada \u201cGrande Coaliz\u00e3o\u201d. Elementos que ficaram evidentes quando Alexis Tsipras convocou ao governo o partido da direita nacionalista ANEL, para depois empossar na presid\u00eancia da Rep\u00fablica Procopios Pavlopoulos (historicamente ligado ao partido de direita Nova Democracia), no lugar de Manolis Glezos, her\u00f3i da resist\u00eancia ao nazi-fascismo e atual deputado europeu do Syriza.<\/p>\n<p>Todas essas op\u00e7\u00f5es prognosticavam o alinhamento com as posi\u00e7\u00f5es conciliadoras da socialdemocracia alem\u00e3; de fato n\u00e3o foi por mera simpatia que o socialdemocrata Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu e do PSE, dois dias depois da vit\u00f3ria eleitoral do Syriza, j\u00e1 estava em Athenas para se reunir com Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis!<\/p>\n<p><strong>Por dentro do Syriza<\/strong><\/p>\n<p>O ministro das Finan\u00e7as da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, porta-voz da ala mais conservadora da CDU, ap\u00f3s o enquadramento do governo grego, com ar de vencedor, declarou &#8230;<em>os parlamentares do Bundestang, em larga maioria, ratificaram o acordo entre a Uni\u00e3o Europeia e o novo governo da Gr\u00e9cia, configurando a extens\u00e3o da ajuda financeira por mais quatro meses, sendo que a mesma ser\u00e1 condicionada \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o das reformas econ\u00f4micas com as quais o governo grego se comprometeu em realizar. Por isso, o montante de 11 bilh\u00f5es de euros n\u00e3o ficar\u00e1 no National Bank of Grece, mas nos cofres do Fundo Europeu (EFSF) gerenciado pelo Banco Central Europeu<\/em>&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que um acordo desse tipo desmascarou por completo as contradi\u00e7\u00f5es entre a estrat\u00e9gia pol\u00edtica do Syriza, adversa aos programas de austeridade da Troika e ao progressivo endividamento de quase 153 bilh\u00f5es de Euros<strong>, e<\/strong>m grande parte utilizados para saldar as d\u00edvidas com os bancos europeus (alem\u00e3es, franceses e italianos) e para o refinanciamento dos bancos gregos, e o marketing eleitoral de Alexis Tsipras, que, no \u00faltimo com\u00edcio realizado em Athenas, aos 25 de janeiro, diante de quase cem mil pessoas, disse: \u201c&#8230; <em>Depois de termos ganho essas elei\u00e7\u00f5es, o pessoal da Troika nunca mais pisar\u00e1 o ch\u00e3o de Athenas<\/em>!!!\u201d.<\/p>\n<p>Se Alexis Tsipras e seu bra\u00e7o direito, Yanis Varoufakis, tivessem logo declarado que nunca iriam romper com o Euro-grupo, mas que pretendiam, apenas, melhorar as duras condi\u00e7\u00f5es do endividamento, realizando os programas de privatiza\u00e7\u00e3o identificados pelos t\u00e9cnicos do FMI, certamente muitos eleitores teriam votado nos comunistas do KKE, que sempre se manifestaram contra a Uni\u00e3o Europeia e a OTAN. Por outro lado, se Alexis Tsipras tivesse revelado que o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo de 450 para 750 euros n\u00e3o seria imediato, mas gradual e, talvez, a partir de setembro de 2015, em base ao conjunto dos novos recursos financeiros, \u00e9 evidente que o Syriza nunca teria ganho as elei\u00e7\u00f5es, e talvez nunca existiria como <em>Partido da Esquerda Radical<\/em>.<\/p>\n<p>Uma considera\u00e7\u00e3o que reflete a an\u00e1lise sobre o complexo processo de transforma\u00e7\u00e3o do Syriza em partido. De fato, em 2004, a coaliz\u00e3o de movimentos<em>Synaspism\u00f3s<\/em> foi transformada em partido, com um programa de esquerda totalmente diferente da l\u00f3gica social-democr\u00e1tica do PSE (Partido da Esquerda Europeia), de que, hoje, Alexis Tsipras e seu bra\u00e7o direito, Yanis Varoufakis, s\u00e3o ferventes disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Um contexto que o acad\u00eamico marxista esloveno, Slavoj Zizek, enfocou perfeitamente em outubro de 2013 no Subversive Festival de Zagabria, sublinhando: \u201c&#8230;<em>a situa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e, portanto, o surgimento do Syriza nos obriga a questionar as chamadas alian\u00e7as inteligentes, do momento que deveremos viver ainda v\u00e1rias d\u00e9cadas no capitalismo, isto \u00e9, com a chamada burguesia progressista ou patri\u00f3tica que, de fato, tem interesse em produzir&#8230;.Hoje, no capitalismo, h\u00e1 coisas que funcionam, como, por exemplo, a competi\u00e7\u00e3o. Por isso o Syriza, atuando no \u00e2mbito da redistribui\u00e7\u00e3o global da economia, deveria tornar a vida mais simples para os capitalistas que produzem. Este seria o verdadeiro triunfo do Syriza, no sentido de que, al\u00e9m de apoiar os trabalhadores, seria capaz de resolver os problemas dos capitalistas. Ali\u00e1s, acredito que, hoje, um capitalista honesto deveria votar para o Syriza!!!<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Um argumento que n\u00e3o escapou a Paolo Ferrero, l\u00edder do PRC italiano (Rifondazione Comunista) e fiel disc\u00edpulo de Fausto Bertinotti, te\u00f3rico do socialismo democr\u00e1tico, mas tamb\u00e9m adjetivado \u201c&#8230;o fomentador do anticomunismo do s\u00e9culo XXI&#8230;\u201d. Desde 2014, Ferrero utiliza o exemplo das vit\u00f3rias eleitorais do Syriza para reformular ideologicamente o PRC italiano, com vista a lhe tirar o \u201cestigma de comunista\u201d e, assim, poder abocanhar consensos no eleitorado e voltar ao Parlamento. De fato, para os \u00f3rf\u00e3os do \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d do PCI de Berlinguer, as vit\u00f3rias eleitorais e o crescimento pol\u00edtico do Syriza se tornaram o elemento fundamental para impor o chamado \u201csocialismo democr\u00e1tico\u201d, que \u00e9 uma mera forma de conviv\u00eancia pac\u00edfica com o capitalismo. Um contexto que, hoje, ap\u00f3s a assinatura do acordo com a Uni\u00e3o Europeia, os grupos majorit\u00e1rios que controlam o partido Syriza, os eurocomunistas do grupo AKOA, os socialdemocratas e os ambientalistas do Synaspism\u00f3s e os nacionalistas de esquerda (DIKKI), n\u00e3o escondem mais.<\/p>\n<p>Entretanto, o pretenso \u201ccontrole pol\u00edtico\u201d do Comit\u00ea Central do Syriza e, portanto, o \u201ccontrole social das massas\u201d podem fugir das m\u00e3os de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, do momento em que os grupos minorit\u00e1rios de esquerda se rebelaram na \u00faltima reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central do Syriza, quando 5 deputados n\u00e3o votaram o acordo que Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis assinaram com a Uni\u00e3o Europeia, e outros 30 se recusaram a votar. Enquanto isso, as pequenas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda associadas ao Syriza, nomeadamente os trotskistas de Xekinima, \u039a\u03cc\u03ba\u03ba\u03b9\u03bd\u03bf e DEA, os mao\u00edstas do KOE, os revolucion\u00e1rios do KEDA, os grupos feministas, os ambientalistas e os eco-socialistas, j\u00e1 iniciaram protestos publicamente contra a assinatura do acordo com a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Consequentemente, o complexo sistema de alian\u00e7as e de compromissos pol\u00edticos que rege o partido Syriza come\u00e7ou a vacilar, quando Statis Kuvelakis, um dos te\u00f3ricos do partido, Dimitris Stratouli, ministro do Bem Estar Social, Panaghiotis Lafazanis, ministro do Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Ambiental e da Energia, a presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Zoe Konstantopoulou, e o m\u00edtico Manolis Glezos, her\u00f3i nacional da resist\u00eancia ao nazi-fascismo e hoje deputado europeu, manifestaram seu aberto dissenso com Alexis Tsipras, refor\u00e7ando, assim, o grupo de opositores de esquerda, reunidos na chamada \u201cPlataforma de Esquerda\u201d. Ali\u00e1s, Manolis Glezos fez mais, ao publicar um editorial onde, textualmente, escreveu \u201c &#8230;<em>Pe\u00e7o desculpa aos gregos por ter apostado em uma ilus\u00e3o. Eu me dissocio das op\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas assumidas pelo novo chefe do governo, Alexis Tsipras, visto que tentaram usar uma nova terminologia para melhorar o Memorando da Troika, sem que isso possa mudar em nada a situa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia&#8230;. Por isso pe\u00e7o desculpa ao povo grego por ter participado dessa ilus\u00e3o!!!\u201d. <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 evidente que esse contexto vai transformar o Syriza em um grande caldeir\u00e3o de ideias, reivindica\u00e7\u00f5es, coopta\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as, programas de lutas, e que, certamente, dever\u00e1 estourar daqui a quatro meses, quando a Comiss\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, o BCE e o governo alem\u00e3o devem averiguar a realiza\u00e7\u00e3o dos programas de austeridade e o cumprimento das \u201creformas\u201d, com as quais o governo dever\u00e1 reduzir o emprego, privatizar por completo o sistema portu\u00e1rio do Pireo e todas as empresas p\u00fablicas, em particular as que distribuem a eletricidade e a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Um per\u00edodo que ser\u00e1 extremamente positivo para o KKE (Partido Comunista da Gr\u00e9cia) e a frente sindical PAME, que hoje s\u00e3o os verdadeiros opositores, ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos, ao governo de Alex Tsipras.<\/p>\n<p>Por isso, o secret\u00e1rio do KKE, Dimitris Koutsoumpas, declarou: \u201c\u2026<em>O que podemos esperar de um governo que legitima uma d\u00edvida que n\u00e3o foi criada para beneficiar o povo, mas apenas os bancos? Podemos contar com um governo que reduz seu or\u00e7amento para encontrar dinheiro para os grupos empresariais e que n\u00e3o se preocupou de impedir a fuga de 20 bilh\u00f5es de euros dos bancos da Gr\u00e9cia? Por qual motivo dever\u00edamos apoiar um governo que, com muita fadiga, vai conseguir poder garantir uma est\u00e1vel perman\u00eancia na Uni\u00e3o Europeia, mantendo inalteradas todas as condi\u00e7\u00f5es que destru\u00edram a economia da Gr\u00e9cia? As poucas coisas feitas em favor do povo, tais como os cupons para dar um prato de sopa aos mais pobres, por exemplo, perdem seu valor humanit\u00e1rio diante das garantias que Alexis Tsipras deu \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, aos banqueiros, aos operadores da City e, sobretudo, \u00e0 Confedera\u00e7\u00e3o dos Empres\u00e1rios Gregos. Afinal, o que podemos esperar de um governo que se diz de esquerda, mas, na realidade, deixou inalterado o poderio dos grandes empres\u00e1rios gregos e das multinacionais?<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do &#8220;Correio da Cidadania\u201d<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEscrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania, Quarta, 04 de Mar\u00e7o de 2015\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7505\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[107],"tags":[],"class_list":["post-7505","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c120-grecia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1X3","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7505"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7505\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}