{"id":7533,"date":"2015-03-17T17:48:36","date_gmt":"2015-03-17T17:48:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7533"},"modified":"2015-03-17T17:48:36","modified_gmt":"2015-03-17T17:48:36","slug":"gobierno-de-mierda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7533","title":{"rendered":"Gobierno de mierda?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nunca se mente tanto como em v\u00e9spera de elei\u00e7\u00e3o, durante a guerra e depois da ca\u00e7a (Otto von Bismarck)<\/em><\/p>\n<p>Final da d\u00e9cada de 1970. Quem intermediou o contato, n\u00e3o me lembro. O general Nelson Werneck Sodr\u00e9 tinha uma hist\u00f3ria pouco ortodoxa. Marxista, j\u00e1 estava na reserva em 1964. Os golpistas chegaram a prend\u00ea-lo e cassaram seus direitos pol\u00edticos. Proibido de lecionar, dedicou-se, at\u00e9 morrer, a pesquisar e escrever livros. E l\u00e1 estava eu, na frente daquela figura s\u00f3bria, que gostava de conversar. Acabara de ler <em>Mem\u00f3rias de um soldado<\/em>, alentado volume autobiogr\u00e1fico de Nelson, e estava cheio de d\u00favidas. Perguntei-lhe, claro, sobre o golpe de 64 e, especialmente, sobre as mulheres a quem chamara de \u201cviragos marchadeiras da CAMDE\u201d. Falou, ent\u00e3o, sobre as articula\u00e7\u00f5es civis com a caserna, que desaguaram na deposi\u00e7\u00e3o de Jango. Numa \u00e9poca de censura rigorosa, que castigava duramente a produ\u00e7\u00e3o editorial, tive o privil\u00e9gio de ouvir o testemunho de um protagonista dos acontecimentos que marcaram profundamente minha gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As palavras do general Sodr\u00e9 vieram \u00e0 tona nos \u00faltimos dias. N\u00e3o, entretanto, para referendar a conclus\u00e3o duvidosa de que estamos \u00e0 beira de um golpe, e que as manifesta\u00e7\u00f5es de ontem s\u00f3 t\u00eam equival\u00eancia nas Marchas da Fam\u00edlia com Deus e pela Liberdade (organizadas com efici\u00eancia, reconhe\u00e7a-se, pelas \u201cviragos\u201d da CAMDE). Esta interpreta\u00e7\u00e3o, mais do que falaciosa, \u00e9, sobretudo, temer\u00e1ria. Errar no diagn\u00f3stico \u00e9 o caminho mais curto para o desastre pol\u00edtico. O Brasil est\u00e1 mergulhado numa crise m\u00faltipla, em nada parecida com a \u201cmarolinha\u201d sentenciada por um certo ex-metal\u00fargico boquirroto. De nada adiantar\u00e1 ocultar as conex\u00f5es internas da crise com rea\u00e7\u00f5es pavlovianas. A degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, refletida no homem comum com o aquecimento vis\u00edvel da infla\u00e7\u00e3o, se conjuga com o descr\u00e9dito nos partidos pol\u00edticos e os sucessivos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, para criar um quadro de enorme irrita\u00e7\u00e3o e desalento. A novidade \u00e9 que os que costumam reclamar na surdina sa\u00edram para as ruas. Ainda de forma inorg\u00e2nica, sem unidade nas reivindica\u00e7\u00f5es e sem lideran\u00e7as consistentes. Se, ao inv\u00e9s de Lob\u00e3o, existisse um demagogo incendi\u00e1rio como Carlos Lacerda para dar lastro pol\u00edtico \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o, a crise adquiriria propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas.<\/p>\n<p>Estava ontem na avenida Atl\u00e2ntica para a caminhada matinal, quando cruzei com a multid\u00e3o, ali\u00e1s muito diversificada, que se concentrava para o protesto. Uns poucos, visivelmente isolados, pediam interven\u00e7\u00e3o militar. Outros, tamb\u00e9m em escassa minoria, carregavam cartazes onde rotulavam Dilma de assassina (!!!!) e comunista (!??!). A maioria se agitava quando algu\u00e9m puxava o coro com \u201cfora PT\u201d. A virul\u00eancia das redes sociais n\u00e3o estava presente, felizmente, em Copacabana. Como em qualquer multid\u00e3o, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, ningu\u00e9m parecia muito preocupado em perguntar como fazer para alcan\u00e7ar os objetivos. No passado, quando est\u00e1vamos nas ruas gritando \u201cfora daqui o FMI\u201d, n\u00e3o t\u00ednhamos a menor ideia de como chegar l\u00e1. O mesmo para os que pedem a afastamento do PT. \u00c9 absolutamente leg\u00edtimo discordar, mesmo que aos berros e sem apresentar uma proposta concreta para viabilizar a reivindica\u00e7\u00e3o. Isso, em si, n\u00e3o torna ningu\u00e9m golpista. A generaliza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre marota.<\/p>\n<p>A presidente e seu partido est\u00e3o pagando o pre\u00e7o por uma s\u00e9rie impressionante de equ\u00edvocos e desvios. Na base de todos eles, a burocratiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Dilma \u00e9 um quadro pol\u00edtico med\u00edocre, sem a menor paci\u00eancia para trabalhar nas costuras parlamentares e na constru\u00e7\u00e3o de consensos. Sua alardeada efici\u00eancia t\u00e9cnica est\u00e1 fortemente abalada pelas encrencas da Petrobras. Semana passada, ao ser vaiada num evento em S\u00e3o Paulo, amarrou a tromba e interrompeu a programa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem a menor capacidade para absorver as contrariedades do exerc\u00edcio do poder. Seu di\u00e1logo com a sociedade \u00e9 p\u00edfio. Discursos protocolares, despolitizados, mistificadores. \u00c9 bom n\u00e3o esquecer que sua t\u00e1tica Pin\u00f3quio nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es foi rapidamente desmascarada, e jogou gasolina no inc\u00eandio. As mentiras sobre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a crise energ\u00e9tica facilitaram sua reelei\u00e7\u00e3o, mas fortaleceram a impress\u00e3o de estelionato. Quem coordenou a campanha, ressalte-se, n\u00e3o foi o PIG. Cereja do bolo solado, o pronunciamento em cadeia nacional do dia 8 de mar\u00e7o foi um dos maiores tiros no p\u00e9 que j\u00e1 tive oportunidade de assistir. Omitindo o car\u00e1ter de classe das origens do Dia Internacional da Mulher \u2013 omiss\u00e3o usual do PT no poder -, Dilma tratou de convocar uma \u201cunidade nacional\u201d e pedir \u201cpaci\u00eancia\u201d para medidas que, segundo ela, exigem sacrif\u00edcios de todos. Qualquer cartilha sobre o capitalismo mostra que, nele, n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o igualit\u00e1ria de sacrif\u00edcios. Quem paga a maior fatia dos custos das crises s\u00e3o, sempre, os de baixo, os explorados. \u00c9 a ilus\u00e3o da concilia\u00e7\u00e3o por cima, vendida \u00e0 sociedade como \u201cgovernabilidade\u201d.<\/p>\n<p>Nas manifesta\u00e7\u00f5es das vanguardas sociais, no dia 13 passado, vi um cartaz que dizia: \u201cEm defesa do projeto popular\u201d. Desconhe\u00e7o a exist\u00eancia de um \u201cprojeto popular\u201d para o Brasil, em fase de implanta\u00e7\u00e3o pelo PT e com a colabora\u00e7\u00e3o do trip\u00e9 \u201cprogressista\u201d Joaquim Levy, Armando Monteiro e K\u00e1tia Abreu. Pode ser ignor\u00e2ncia ou desinforma\u00e7\u00e3o, mas suspeito que a causa seja outra. N\u00e3o sou do ramo, mas parece que h\u00e1 sinais cl\u00ednicos de esquizofrenia no PT. Por um lado, reivindica uma raiz nas massas, nas lutas populares. Por outro, faz pol\u00edtica \u00e0 revelia delas, desarticulado das incont\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o do povo e associado ao que h\u00e1 de pior nas camadas burguesas e sua representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica pol\u00edtica p\u00fablica relevante que tenha sido constru\u00edda com a participa\u00e7\u00e3o ativa dos trabalhadores organizados. Como bem acentuou Ricardo Melo: <em>O PT se transformou num Partido da Ordem, completamente integrado aos diferentes setores que comp\u00f5em as fra\u00e7\u00f5es burguesas no Brasil<\/em>. Pouco antes do golpe militar chileno, em 1973, houve grandes manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas de Santiago. A favor e contra Allende. Numa delas, um solit\u00e1rio trabalhador das minas de cobre levava um cartaz: <em>\u00c9s un gobierno de mierda, pero \u00e9s mi gobierno<\/em>. \u00c9 cada vez mais improv\u00e1vel que se veja um cartaz desses traduzido para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Sem uma lideran\u00e7a reconhecida e palavras de ordem claras e unificadoras, as manifesta\u00e7\u00f5es antigoverno tendem a refluir. Afinal de contas, a classe m\u00e9dia, coluna vertebral do pessoal que foi para as ruas, faz lembrar uma pequena hist\u00f3ria vivida pelo grande Almirante, a Maior Patente do R\u00e1dio. Em 1961, S\u00edlvio Caldas visitou Almirante e, papo vai, papo vem, recordou a experi\u00eancia do hist\u00f3rico radialista como diretor art\u00edstico da r\u00e1dio Tupi: \u201cAlmirante, n\u00e3o vale a pena ser diretor de nada. O grande neg\u00f3cio \u00e9 ser s\u00f3cio contribuinte e falar mal da diretoria\u201d. O agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pode modificar subitamente o quadro. Quanto ao governo, tudo indica que manter\u00e1 a t\u00e1tica de pacto social com a burguesia. N\u00e3o arriscar\u00e1 uma sa\u00edda pela esquerda para enfrentar a crise. Desconfio que aquele mineiro chileno, caso morasse no Brasil, refaria seu cartaz, dizendo apenas: <em>Gobierno de mierda !<\/em><\/p>\n<p>Caso a situa\u00e7\u00e3o evolua para uma tentativa de golpe, esteja ou n\u00e3o ligada ao impedimento da presidente Dilma, \u00e9 preciso lutar contra ela. No entanto, isso n\u00e3o significa dar o aval para a continuidade do projeto petista de poder, fundamentado na concilia\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p><em>Jacques Gruman<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7533\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-7533","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Xv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7533","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7533"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7533\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7533"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7533"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7533"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}