{"id":7535,"date":"2015-03-17T19:09:47","date_gmt":"2015-03-17T19:09:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7535"},"modified":"2015-03-17T19:09:47","modified_gmt":"2015-03-17T19:09:47","slug":"a-adaga-dos-covardes-ou-o-limite-da-imbecilidade-direitista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7535","title":{"rendered":"A adaga dos covardes, ou, O limite da imbecilidade direitista"},"content":{"rendered":"\n<p>Um amigo liban\u00eas, pintor de primeira e bruxo militante, mostrou-me certa vez uma adaga em uma bainha de prata ricamente trabalhada com uma inscri\u00e7\u00e3o em \u00e1rabe que ele traduziu. A frase alertava ao portador da arma que seria s\u00e1bio quem n\u00e3o a desembainhasse, mas aquele que o fizesse n\u00e3o usando a arma seria um covarde.<\/p>\n<p>A delicada conjuntura em que nos encontramos est\u00e1 cheia de blefes, o que torna dif\u00edcil a an\u00e1lise. A direita amea\u00e7a com o impedimento da presidente, um ex-presidente amea\u00e7a colocar o \u201cexercito\u201d de outros para defender o seu governo, outro ex-presidente tece pendores democr\u00e1ticos e de respeito a legalidade enquanto seu partido conspira na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<p>Como sempre, para superar a borbulha enganosa da apar\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1rio descer \u00e0s determina\u00e7\u00f5es de classe e aos interesses em jogo.<\/p>\n<p><strong> [TR\u00caS BLEFES]<\/strong><\/p>\n<p>O equil\u00edbrio do governo de pacto social sempre foi dif\u00edcil uma vez que sup\u00f5e poder conciliar o que \u00e9 inconcili\u00e1vel, isto \u00e9, os interesses de classe opostos de trabalhadores e burgueses. A engenharia poss\u00edvel pressup\u00f5e uma certa estabilidade econ\u00f4mica e uma governabilidade negociada por meio de cargos no governo, favorecimentos eleitorais e emendas ao or\u00e7amento para responder aos <em>lobbies<\/em> por tr\u00e1s (pela frente e por todos os lados) dos dign\u00edssimos parlamentares eleitos e se completa com a a\u00e7\u00e3o de governo que garante as condi\u00e7\u00f5es para a acumula\u00e7\u00e3o de capitais em propor\u00e7\u00f5es adequadas. Enquanto isso acena aos trabalhadores com a miragem da inser\u00e7\u00e3o na sociedade de mercado via garantia dos n\u00edveis de emprego e sal\u00e1rio, acesso ao cr\u00e9dito e programas compensat\u00f3rios de combate \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es mais agudas da mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 que funciona enquanto a burguesia deseje que funcione.<\/p>\n<p>Por um tempo funcionou e reconduziu os governos petistas em tr\u00eas mandatos consecutivos. O quarto mandato chegou de rasp\u00e3o com o pa\u00eds dividido praticamente ao meio. Um congresso nacional ainda mais conservador, uma oposi\u00e7\u00e3o fortalecida e um PMDB como fiel da balan\u00e7a e representando a condi\u00e7\u00e3o, mais que nunca, para a governabilidade. Uma receita para a instabilidade, toda a negocia\u00e7\u00e3o anterior e durante a campanha eleitoral se torna insuficiente. O PMDB exige mais espa\u00e7o (Lula se apressa em afirmar que concorda com o pleito), mas tamb\u00e9m mais protagonismo e mais independ\u00eancia. Ganha a presid\u00eancia da C\u00e2mara com Cunha e endurece a negocia\u00e7\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o do governo e o or\u00e7amento abrindo margem para chantagear a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Aqui o primeiro blefe. O PMDB tem a vice presid\u00eancia e v\u00e1rios minist\u00e9rios chaves. Controla um quinh\u00e3o invej\u00e1vel no segundo e terceiro escal\u00f5es, governos de estado que por sua vez dependem de projetos e verbas federais, assim como de favores eleitorais dos mais diversos. Tem pouca chances de um v\u00f4o solo como alternativa e suas chances est\u00e3o ligadas ao sucesso do governo que enfraquece para negociar melhor.<\/p>\n<p>O PSDB, histrionicamente bradando contra o governo com o cacife de uma oposi\u00e7\u00e3o que garfou mais de 48% dos votos no \u00faltimo pleito, tamb\u00e9m se encontra em posi\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica. N\u00e3o pode atacar o governo pelas medidas impopulares assumidas, pois as defendeu abertamente na campanha. Da mesma forma tampouco pode se dar ao luxo de se contrapor \u00e0 linha geral da condu\u00e7\u00e3o da economia e do Estado, pois no essencial respeita os compromissos macro econ\u00f4micos, a premissa sacrossanta do super\u00e1vit prim\u00e1rio, a l\u00f3gica privatista e mercantilizadora da vida\u2026 Escolheu a centralidade dos esc\u00e2ndalos e da corrup\u00e7\u00e3o, mas convenhamos, \u00e9 um terreno em que o PSDB n\u00e3o tem s\u00f3 o telhado de vidro, mas uma casa todinha de vidro. Basta lembrar a forma como foi feita a privatiza\u00e7\u00e3o das tele-comunica\u00e7\u00f5es sob a batuta do falecido Serj\u00e3o, a entrega da Vale do Rio Doce, as contas n\u00e3o t\u00e3o secretas em para\u00edsos fiscais, para n\u00e3o falar do metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo e outras aventuras conhecidas.<\/p>\n<p>Eis o segundo blefe. Alardeia-se o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, torcendo para que a apura\u00e7\u00e3o rigorosa e profunda, \u201cdoa a quem doer\u201d, n\u00e3o chegue muito perto da m\u00e3o que acusa, como o caso do HSBC parece indicar. Se o caos interromper o mandato da presidente e gerar dividendos eleitorais ao PSDB, \u00f3timo para eles, mas n\u00e3o se pode fritar muito de modo que a fuma\u00e7a n\u00e3o sufoque a todos na cozinha do Estado burgu\u00eas. Qualquer alternativa de governo do PSDB passa pela negocia\u00e7\u00e3o com o PMDB, da\u00ed o dilema: como queimar a gordura do PT sem tostar o bife do PMDB?<\/p>\n<p>Por isso o escudeiro do caos, Aloysio Nunes e outros asseclas, v\u00e3o \u00e0s ruas pelo \u201csangue\u201d de Dilma Rousseff, enquanto FHC e A\u00e9cio Neves, pedem um pouco mais de calma. Afinal, somos todos civilizados, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>[A APOSTA PETISTA]<\/strong><\/p>\n<p>O governo, um tanto quanto desorientado, pois julgava que bastava a mera repeti\u00e7\u00e3o do mesmo procedimento anteriormente exercitado e uma base s\u00f3lida no Congresso para escapar do pior da crise, tateia erraticamente. Antes das elei\u00e7\u00f5es sua prioridade era recompor uma base e compensar as defec\u00e7\u00f5es, como as PSB e PTB, mas, prioritariamente mostrar-se confi\u00e1vel aos financiadores de campanha: as empreiteiras, os bancos, os industriais, o agroneg\u00f3cio, em suma, os donos do governo. As alian\u00e7as, o programa e o perfil da campanha n\u00e3o deixaram margem \u00e0 d\u00favida desta prioridade.<\/p>\n<p>No entanto, a polariza\u00e7\u00e3o da campanha contra o PSDB (Marina foi um epis\u00f3dio inflado que n\u00e3o se manteve) obrigou os petistas a desenterrar o discurso da luta entre ricos e pobres, do fantasma do passado e, na reta final, produzir um fact\u00f3ide diversionista segundo o qual trata-se de um embate de projetos que contrapunha de um lado uma direta privatista, que atacaria os direitos dos trabalhadores e reverteria as \u201cconquistas\u201d alcan\u00e7adas, e de outro uma proposta progressista que enfrentaria a crise com crescimento (o que implicava, por sua vez, a manuten\u00e7\u00e3o da generosa ajuda aos capitalistas) e n\u00e3o realizasse ataques aos direitos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Vejam que o governo agiu com uma certa sinceridade. Precisava atrair os setores sociais (por isso o discurso), mas n\u00e3o podia romper com suas alian\u00e7as e com as exig\u00eancias de seus patr\u00f5es (por isso a manuten\u00e7\u00e3o do rumo geral conservador). N\u00e3o \u00e9 esse o blefe do governo. \u00c9 que tem gente que quer tanto uma coisa que a projeta na realidade como se realidade fosse\u2026<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que passada as elei\u00e7\u00f5es, os setores sociais e movimentos populares que generosamente se dispuseram a votar na candidata \u201cmais progressista\u201d para evitar a direita, se viram diante do constrangimento de um governo que moveu-se rapidamente para implementar tudo aquilo que a direita perversa prop\u00f4s. Os movimentos sociais e populares j\u00e1 tinham cumprido sua fun\u00e7\u00e3o, agora era o momento da incr\u00edvel arte do pragmatismo pol\u00edtico no qual o governo do PT tinha que gerar as condi\u00e7\u00f5es para manter-se no governo at\u00e9 o final e, quem sabe, um pr\u00f3ximo mandato. Nesta dire\u00e7\u00e3o era necess\u00e1rio recompor a base, acertar a vida com o Congresso e tomar as medidas amargas contra os trabalhadores para garantir a continuidade da pol\u00edtica de super\u00e1vits prim\u00e1rios e a sangria de recursos do fundo p\u00fablico para o capital financeiro.<\/p>\n<p>Evidente que isso gerou um descontentamento muito grande, mas aqui fico na inc\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o de defender a presidente Dilma. Ela falou que ia fazer isso, era evidente que faria. Os setores sociais que apostaram, com raz\u00f5es louv\u00e1veis e algumas at\u00e9 justificadas, nesta op\u00e7\u00e3o est\u00e3o descontentes com a imagem que criaram e n\u00e3o com o real efetivo. Acontece com torcidas de futebol, com relacionamentos amorosos\u2026 acontece tamb\u00e9m com projetos pol\u00edticos. J\u00e1 cantava Chico com as palavras de Ruy Guerra:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u201cSe trago as m\u00e3os distantes do meu peito<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u00c9 que h\u00e1 dist\u00e2ncia entre inten\u00e7\u00e3o e gesto<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">E se o meu cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os estreito,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Me assombra a s\u00fabita impress\u00e3o de incesto\u201d.<\/p>\n<p>\u2026e at\u00e9 o Chico acreditou!<\/p>\n<p>Certos movimentos sociais, setores populares e segmentos de esquerda literalmente n\u00e3o negociaram nada. Da\u00ed o qualificativo \u201cgenerosamente\u201d ao tratar do apoio oferecido. O Governo n\u00e3o se comprometeu formalmente com nenhum dos pontos que constituem a fantasia imaginada de uma inflex\u00e3o \u00e0 esquerda. Pelo contrario, deu o tempo inteiro mostras que n\u00e3o alteraria o rumo da pol\u00edtica que enterrou a reforma agr\u00e1ria em benef\u00edcio do agroneg\u00f3cio, os direitos trabalhistas em nome das condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao crescimento da economia capitalista, a privatiza\u00e7\u00e3o contra as pol\u00edticas p\u00fablicas, o acordo com os fundamentalistas religiosos descartando a luta contra a homofobia e outras pautas, a coniv\u00eancia com velhas formas pol\u00edticas contra uma verdadeira mudan\u00e7a das regras do fazer pol\u00edtica na dire\u00e7\u00e3o dos interesses populares.<\/p>\n<p><strong>[A VELHA DIREITA]<\/strong><\/p>\n<p>Aqui \u00e9 que come\u00e7a o problema. Apesar de ter cedido em tudo\u2026 tudo mesmo, ao que a ordem burguesa exigiu, o governo de pacto social do PT continua amea\u00e7ado. Ocorre \u00e9 que a met\u00e1fora da adaga aqui se torna limitada. N\u00e3o estamos diante de um instrumento nas m\u00e3os de um sujeito, mas de uma din\u00e2mica pol\u00edtica que uma vez desencadeada ganha certa autonomia. Os sujeitos pol\u00edticos s\u00e3o comp\u00f3sitos, formados por fragmentos, fac\u00e7\u00f5es segmentos que reproduzem em ponto menor o dilema da sociabilidade burguesa: a contradi\u00e7\u00e3o entre interesses individuais particulares e interesse geral.<\/p>\n<p>Nenhum ator particular que desembainhou a adaga parece de fato querer o <em>impeachment<\/em>, mas parece que a adaga quer. Em tempos de fetichismo absoluto, um fen\u00f4meno desses n\u00e3o devia nos espantar. \u00c9 verdade que a burguesia monopolista em suas diferentes fac\u00e7\u00f5es (industrial, banc\u00e1ria, agr\u00e1ria, comercial, etc.) nunca ganhou tanto e prescreveu o rem\u00e9dio que seus funcion\u00e1rios no governo est\u00e3o zelosamente administrando. Precisa de estabilidade institucional, teme reviravoltas que possam colocar em risco, real ou potencial, a ordem. Mas adorariam encerrar este ciclo de governos petistas. E se houver possibilidade, porque n\u00e3o?<\/p>\n<p>O mesmo pode ser dito do imperialismo. Alguns governistas afoitos e seu exercito de dedos nervosos nas redes sociais, desenterraram o imperialismo como o sujeito oculto da desestabiliza\u00e7\u00e3o. Ora o imperialismo sempre pensa em cen\u00e1rios e a desestabiliza\u00e7\u00e3o nunca ficou fora da pauta. A pergunta \u00e9: como se pensou nestes doze anos enfrentar esta evid\u00eancia? Armando o povo, preparando as for\u00e7as armadas e buscando aliados, como na Venezuela? Ou se mostrando confi\u00e1vel e evitando se apresentar como respons\u00e1vel, como nos governos Lula e Dilma, e fazendo um acordo militar com os EUA, mobilizando e dirigindo tropas de interven\u00e7\u00e3o no Haiti?<\/p>\n<p>Impedimentos e interrup\u00e7\u00f5es institucionais n\u00e3o s\u00e3o utilizados apenas contra governos de \u201cesquerda\u201d ou de um reformismo potencialmente perigoso \u00e0 ordem capitalista (duas coisas que o governo do PT n\u00e3o representa nem remotamente) mas tamb\u00e9m contra governos que j\u00e1 cumpriram sua fun\u00e7\u00e3o e passaram a se tornar inc\u00f4modos. \u00c9 o que aconteceu quando surgiu a necessidade de interromper o Estado Novo getulista ou a autocracia burguesa no final dos anos 1970.<\/p>\n<p>A grande burguesia e o imperialismo lucraram com o ciclo petista, mas n\u00e3o lutar\u00e3o para defend\u00ea-lo se ele amea\u00e7ar ir para o ralo. A burguesia n\u00e3o \u00e9 fiel, nem monog\u00e2mica. Nunca foi. N\u00e3o ser\u00e1 agora que ir\u00e1 mudar sua natureza.<\/p>\n<p>A express\u00e3o pol\u00edtica da burguesia tem, no entanto, outros problemas. A ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico central pelo PT lhe rouba sua essencial\u00edssima fun\u00e7\u00e3o na vida. Ela precisa encontrar um meio de se livrar do PT porque este ocupa o lugar que por coer\u00eancia seria o seu, por isso quer aproveitar toda chance poss\u00edvel. Sua responsabilidade com os interesses de classe da grande burguesia monopolista faz com que ela hesite, assim como o medo de, no chumbo trocado das acusa\u00e7\u00f5es, colocar em risco a ordem institu\u00edda. Mas ela tem a obriga\u00e7\u00e3o de tentar, porque disso depende sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong> [A EXTREMA DIREITA]<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 diferente quando se trata da extrema direita. Ela \u00e9 o cachorro louco da burguesia. \u00c9 inc\u00f4moda e caricatural, mas \u00fatil. N\u00e3o pede licen\u00e7a para p\u00f4r fogo no circo. Em \u00e9pocas normais a burguesia a mant\u00e9m presa na jaula do Estado de Direito, mas a crise \u00e9 seu habitat natural. Isolada ela \u00e9 s\u00f3 pitoresca, como nas marchas que andou ensaiando pelo pa\u00eds. Mas, num certo caldo de cultura, se alimenta do irracionalismo e do conservadorismo, cresce e pode se tornar uma amea\u00e7a, mesmo um inc\u00f4modo para seus donos.<\/p>\n<p>A extrema direita foi \u00e0s ruas e ganhou dimens\u00e3o massiva nos \u00faltimos protestos pelo <em>impeachment<\/em>. A extrema direita quer o impedimento da presidente, se poss\u00edvel seu fuzilamento e a exuma\u00e7\u00e3o do corpo de Marx para ser fuzilado tamb\u00e9m. Parece que descobriram o motivo do desmonte da educa\u00e7\u00e3o no Brasil, \u00e9 um perigoso terrorista de barbas longas (sem turbante) chamado Paulo Freire.<\/p>\n<p><strong> [O BLEFE PETISTA]<\/strong><\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio intricado o PT mant\u00e9m-se fiel \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o aparentemente err\u00e1tica. Faz todos os esfor\u00e7os para garantir a credibilidade diante do grande capital e de seus aliados de direita, que constituem a base operacional de seu governo; ao mesmo tempo em que precisa mobilizar suas \u201cbases sociais\u201d (de fato eleitorais) para n\u00e3o virar presa f\u00e1cil contra aqueles que querem sua queda.<\/p>\n<p>Neste ponto a coisa fica rid\u00edcula. O governo imp\u00f5e as chamadas medidas de austeridade e ataca diretamente os direitos dos trabalhadores. O principal partido do governo (talvez o segundo na linha hier\u00e1rquica depois do PMDB) \u2013 o PT \u2013 aprova por maioria as medidas de austeridade propostas, e o ex-presidente Lula conclama que elas s\u00e3o necess\u00e1rias e n\u00e3o atacam os direitos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo conclama suas \u201cbases sociais\u201d (na verdade, em parte aparelhos burocr\u00e1ticos que um dia foram organiza\u00e7\u00f5es independentes da classe trabalhadora) para atos em defesa do governo, mas contra as medidas de austeridade\u2026 do mesmo governo\u2026 que implementa as medidas\u2026 Est\u00e3o acompanhando?<\/p>\n<p>Ora, aqui tamb\u00e9m n\u00e3o se deve culpar o PT. Ele n\u00e3o pode fazer outra coisa. Os setores que, com raz\u00f5es honestas, queriam uma guinada \u00e0 esquerda est\u00e3o trabalhando com o desejo, n\u00e3o com a realidade. Este seria o caminho mais r\u00e1pido para o <em>impeachment.<\/em> O governo jamais far\u00e1 isso. Todos sabem. Desde os que sinceramente gostariam que o governo fosse mais \u00e0 esquerda, at\u00e9 os governistas mais renitentes que acham que tudo est\u00e1 certo e n\u00e3o h\u00e1 nada a ser corrigido.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o blefe.<\/p>\n<p>Mobilizam as massas, mas para apassiv\u00e1-las. As mobiliza para us\u00e1-las como instrumento em seu jogo e n\u00e3o como for\u00e7a pr\u00f3pria em busca de seus pr\u00f3prios interesses de classe. \u00c9 para amea\u00e7ar seus aliados e advers\u00e1rios. Desembainha uma adaga que n\u00e3o pretende usar.<\/p>\n<p>A direita chama um ato pelo <em>impeachment<\/em>. L\u00f3gico que a extrema direita se anima. Mas as lideran\u00e7as est\u00e3o preocupadas, seus nomes andam sendo divulgados pelas listas dos envolvidos nos atos de corrup\u00e7\u00e3o. FHC pede calma, n\u00e3o \u00e9 hora de <em>impeachment<\/em>. Michel Temer sorri ao lado dos presidentes do Senado e da C\u00e2mara (os dois na lista) na arte de fazer de conta que ele n\u00e3o tem nada haver com isso.<\/p>\n<p>Na mais alta temperatura do acirramento, escuto a not\u00edcia que Dilma prop\u00f4s um pacto\u2026 com o PSDB\u2026 que n\u00e3o aceitou\u2026 mas, est\u00e1 pensando. Depois do domingo amarelo\u2026 duvido.<\/p>\n<p>No meio disso uma popula\u00e7\u00e3o tentando entender o que est\u00e1 acontecendo. De um lado, um cara com uma adaga bradando \u2013 \u201cvou te meter um <em>impeachment <\/em>no bucho!\u201d \u2013 (l\u00f3gico, com muita calma para n\u00e3o prejudicar os neg\u00f3cios), de outro um senhor que pregava a paz e o amor e que adora dizer que banqueiros nunca ganharam tanto em seu governo amea\u00e7ando chamar as massas para uma rebeli\u00e3o (l\u00f3gico, desde que n\u00e3o atrapalhe o bom relacionamento da ministra do agroneg\u00f3cio com a presidente e as medidas de austeridade, que na verdade s\u00e3o necess\u00e1rias\u2026 n\u00e3o \u00e9?).<\/p>\n<p>De um lado os governistas chamam um ato contra as medidas de austeridade que atacam os trabalhadores e em defesa do governo que as aplica, de outro a direita que quer derrubar o governo \u201cesquerdista\u201d, mas aprova as medidas.<\/p>\n<p>E voc\u00eas querem que os trabalhadores entendam isso? L\u00e1 na consci\u00eancia imediata da classe trabalhadora uma faxineira explica ao rep\u00f3rter de um jornal paulista porque aderiu as vaias contra a presidente diante de seu pronunciamento (no qual disse que era preciso coragem para aplicar as medidas contra os trabalhadores propostas por seu ministro Levy) e diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\u201cQuerem saber o motivo da vaia? \u00c9 simples: estou cansada de trabalhar e n\u00e3o ter nada\u201d.<\/p>\n<p>Outro trabalhador \u00e9 ainda mais direto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\u201cEla mexeu nos direitos do trabalhador. Falou a campanha inteira que n\u00e3o ia e fez\u201d.<\/p>\n<p>(\u201c<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/211398-apos-manifestacao-de-peoes-empresaria-defende-petista.shtml\" target=\"_blank\">Ap\u00f3s manifesta\u00e7\u00e3o de \u2018pe\u00f5es\u2019, empres\u00e1ria defende petista<\/a>\u201c, Folha de S. Paulo, 11\/03\/2015, por Juliana Sayuri e Daniela Lima)<\/p>\n<p><strong>[A PERGUNTA QUE N\u00c3O SE CALA]<\/strong><\/p>\n<p>Que a direita e a extrema direita se comportem como tal \u00e9 compreens\u00edvel e esperado. A pergunta que precisa ser respondida \u00e9 por que ela ganha apoio de amplos setores de massa. A resposta c\u00f4moda para o governismo defensor do pacto social \u00e9 simplista, trata-se de quem votou e quem n\u00e3o votou na Dilma. T\u00edpico de quem abandonou o referencial de classe para pensar em eleitores. Trata-se perigosamente de um momento onde os anseios e inquieta\u00e7\u00f5es de setores dos trabalhadores est\u00e3o sendo capturados pelo ide\u00e1rio conservador e de direita.<\/p>\n<p>E que ide\u00e1rio \u00e9 esse? A rede Globo em mais uma demonstra\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria jornal\u00edstica tenta enquadrar a realidade no molde de seu jornalismo de desinforma\u00e7\u00e3o, transformando o circo de horrores da direita na rua no dia 15 em uma \u201cfesta da democracia\u201d e perguntando aos inquietos e perdidos ministros Rosseto e Cardoso como o governo responderia \u00e0s \u201cdemandas da ruas\u201d, a \u201cvoz das ruas\u201d, o \u201cgrito das ruas\u201d. Apesar da emissora (que recebeu aux\u00edlio governo petista para n\u00e3o quebrar) tentar reapresentar o samba de uma nota s\u00f3 da corrup\u00e7\u00e3o, as \u201cruas\u201d gritavam coisas como: \u201cpela interven\u00e7\u00e3o militar\u201d, \u201cmorte aos comunistas\u201d, \u201cem defesa do feminic\u00eddio\u201d, \u201cpela maioridade penal\u201d, \u201ccontra as doutrina\u00e7\u00f5es marxistas nas escolas\u201d. Algumas demandas, para facilitar o entendimento, escritas em ingl\u00eas e franc\u00eas.<\/p>\n<p>Vejam, com todos os problemas das Jornadas de 2013 pod\u00edamos ver ali como central um conjunto de demandas como a defesa do transporte p\u00fablico, contra os gastos com os eventos esportivos, contra a viol\u00eancia da pol\u00edtica militar, a den\u00fancia dos limites desta pobre democracia representativa. Ainda que houvesse por um tempo, a tentativa de contrabando das bandeiras direitistas elas foram sendo isoladas das manifesta\u00e7\u00f5es. Agora elas d\u00e3o o tom e organizam grandes manifesta\u00e7\u00f5es em defesa da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Interessante notar que as Jornadas de 2013 forma violentamente reprimidas e o senhor Cardoso, Ministro da (in)Justi\u00e7a, se apressou a cercar de garantias legais a ilegalidade da repress\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos. J\u00e1 no festival da extrema direita anti-comunista a policia militar tirava fotos e <em>selfies<\/em> com os animados participantes vestidos com a camisa da CBF, enquanto \u00e0 noite o Ministro dizia que precisamos respeitar as manifesta\u00e7\u00f5es porque s\u00e3o democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ebzEbjflXkM\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/03\/15-03-17-mauro-iasi-selfie-choque.jpg?w=747&#038;h=271&#038;fit=500%2C271\" border=\"0\" \/><em>[Oficial da tropa de choque tira foto com fam\u00edlia verde a amarela. A imagem foi capturada pelas lentes da TV Trip na cobertura que fez da manifesta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo]<\/em><\/a><\/p>\n<p>Meu barbeiro, filho de oper\u00e1rio eletricit\u00e1rio, que se animou com a campanha das diretas porque queria votar para presidente, diz que este governo precisa acabar porque sen\u00e3o vai implementar aqui um regime parecido com o da Venezuela e sugere duas alternativas: entregar o Brasil para ser administrado pelos EUA ou devolver aos \u00edndios (eu sugeri que ele insistisse na segunda alternativa).<\/p>\n<p>O mais surpreendente, no entanto, foi sua conclus\u00e3o diante das minhas pondera\u00e7\u00f5es. Com o olhar s\u00e9rio e aquela autoridade que s\u00f3 possui quem segura uma navalha afiada em sua garganta, ele concluiu: \u201cSabe, eu acho que ningu\u00e9m quer o <em>impeachment<\/em>, o que eles querem \u00e9 deixar este governa sangrar por quatro anos para depois derrot\u00e1-lo de uma vez por todas nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Sabe do que mais, acho que meu barbeiro est\u00e1 certo. Feito isso, pegou a navalha e aparou o que restava de cabelo na minha nuca, limpando a espuma em um pano. L\u00e1 na rua ainda se ouvem os gritos de combatentes segurando suas adagas cegas que n\u00e3o pretendem usar\u2026 \u201colha que eu te furo\u201d\u2026 \u201cn\u00e3o se eu te furar primeiro\u201d\u2026 enquanto se prepara o acordo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/03\/17\/a-adaga-dos-covardes-ou-o-limite-da-imbecilidade-direitista\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Luis Iasi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7535\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-7535","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Xx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7535"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7535\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}