{"id":7573,"date":"2015-03-25T04:21:13","date_gmt":"2015-03-25T07:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7573"},"modified":"2017-08-24T23:52:40","modified_gmt":"2017-08-25T02:52:40","slug":"qo-progressivismo-tal-como-o-conhecemos-acabouq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7573","title":{"rendered":"&#8220;O progressivismo, tal como o conhecemos, acabou&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Resumen Latinoamericano\/Sebasti\u00e1n Orrego\/Marcha, marzo de 2015 <\/strong>\u2013 Em di\u00e1logo com Marcha, o escritor e jornalista uruguaio Raul Zibechi analisa o panorama que se abre com o regresso de Tabar\u00e9 V\u00e1zquez \u00e0 presid\u00eancia. Prev\u00ea uma maior aproxima\u00e7\u00e3o com os EUA e o retrocesso em certas pol\u00edticas progressistas.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como come\u00e7a a configurar-se esta nova etapa a partir da ascens\u00e3o de Tabar\u00e9 em contraposi\u00e7\u00e3o ao que foi a gest\u00e3o de Mujica?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 O governo do Pepe pode ser caracterizado de duas maneiras: por um lado, a figura do Pepe, que \u00e9 uma pessoa com um passado militante, com um estilo de vida muito simples, um discurso \u00e0 flor da pele, vinculado \u00e0 forma de falar dos setores populares, algu\u00e9m que pode ser criticado por \u201cpopulista\u201d, por\u00e9m \u00e9 aut\u00eantico. Uma personalidade que se manifesta n\u00e3o apenas em sua pessoa, mas em muitas decis\u00f5es de governo. Sempre esteve com as duas pernas fincadas na regi\u00e3o, boas rela\u00e7\u00f5es com Dilma e boas inten\u00e7\u00f5es de relacionamento com a Argentina, apesar de todas as dificuldades que sempre existem entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Por outro lado, temos a pol\u00edtica pura e dura de seu governo, baseada em um modelo extrativista, que se sustenta da exporta\u00e7\u00e3o de commodities, grande produ\u00e7\u00e3o de soja e celulose, da tentativa de abrir a minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto de maneira massiva, forte especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria urbana (ou seja extrativismo urbano). E agora vem Tabar\u00e9, um oncologista claramente tecnocrata, um homem muito voltado para uma cultura cl\u00e1ssica, um t\u00edpico membro da ma\u00e7onaria. Al\u00e9m disso, tem uma personalidade muito diferente da do Pepe, nunca foi militante, nem antes e nem durante a ditadura militar, nem teve presen\u00e7a pol\u00edtica em nada, apenas dois anos antes de ser prefeito de Montevid\u00e9u teve uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no voto verde, essa foi sua primeira experi\u00eancia quando j\u00e1 tinha mais de 50 anos. Se falarmos de caracter\u00edsticas pessoais diria que Tabar\u00e9 \u00e9 a contraface do Pepe. E desde o primeiro momento, aparecem figuras destacad\u00edssimas de seu primeiro mandato que preveem muitas continuidades: na pol\u00edtica extrativista, na preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o, nas pol\u00edticas de sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Onde podemos visualizar suas principais diferen\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Provavelmente existe um par de inflex\u00f5es preocupantes. A que mais me preocupa \u00e9 que o Uruguai modifique seu alinhamento na pol\u00edtica exterior, j\u00e1 em seu primeiro mandato, Tabar\u00e9 tentou um Tratado de Livre Com\u00e9rcio com os EUA, argumentando que era nosso primeiro mercado (j\u00e1 n\u00e3o \u00e9). Al\u00e9m disso, Rodolfo Nin Novoa, o novo chanceler, um homem de sua confian\u00e7a muito questionado pela esquerda, j\u00e1 disse que em mat\u00e9ria de pol\u00edtica exterior \u201cse acabou a ideologia, agora vem o pragmatismo\u201d. O pragmatismo aqui quer dizer pr\u00f3-EUA.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Que papel ocupar\u00e1 o Uruguai na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Creio que o Uruguai pode pedir o ingresso formal \u00e0 Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, o que gerar\u00e1 um conflito muito forte com o Brasil no Mercosul. Al\u00e9m disso, o cen\u00e1rio global e regional \u00e9 muito distinto quando assumiu pela primeira vez, quando se come\u00e7ava a ver o decl\u00ednio dos EUA. Hoje, a queda \u00e9 patente e a viol\u00eancia da pol\u00edtica exterior norte-americana \u00e9 evidente no mundo todo. A Alian\u00e7a do Pac\u00edfico \u00e9 o projeto estrat\u00e9gico dos EUA para enfrentar o Mercosul e creio que o Uruguai deixar\u00e1 de alinhar-se com o governo da Venezuela, uma virada muito pesada e, a meu modo de ver, muito negativa.<\/p>\n<p>O Uruguai, provavelmente, chegar\u00e1 a cumprir um papel de articulador entre estes dois projetos da regi\u00e3o. N\u00e3o podemos esquecer que o Uruguai nasceu como pa\u00eds articulador h\u00e1 dois s\u00e9culos, da m\u00e3o do imp\u00e9rio brit\u00e2nico com o objetivo de ser o estabilizador entre a col\u00f4nia espanhola e a portuguesa. O Lord John Ponsonby, que escreveu o tratado do Rio de Janeiro pelo qual se criou o Uruguai, em sua carta \u00e0 Londres escreveu: \u201cColoquei um algod\u00e3o entre dois cristais\u201d. E este papel, geopoliticamente, continua estando latente.<\/p>\n<p><strong>&#8211; \u00c9 poss\u00edvel que o novo governo retroceda em algumas pol\u00edticas e medidas progressistas implementadas durante o mandato anterior?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Tabar\u00e9 n\u00e3o tem chance de opor-se \u00e0 descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ainda que em seu governo anterior tenha vetado o votado pelo Parlamente e pela Frente Ampla (FA). Teve um custo pol\u00edtico para ele. Por\u00e9m, hoje o custo seria impensadamente mais elevado j\u00e1 que a lei est\u00e1 totalmente consolidada e em funcionamento. Com respeito \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da maconha, assumo que Tabar\u00e9 \u00e9 contra, mas vai tomar um caminho mais suave, vai optar para que o projeto morra. Se o governo n\u00e3o fortalecer, esse projeto morre. \u00c9 preciso impulsionar a semeadura, as colheitas, os circuitos de comercializa\u00e7\u00e3o e isso tudo est\u00e1 no ar. Tabar\u00e9 pode deixar passar o tempo e, apoiado em organismos internacionais conservadores, deixar morrer esse projeto. Ao menos a regula\u00e7\u00e3o do autocultivo (que j\u00e1 come\u00e7ou) me parece positivo e realiz\u00e1vel, por\u00e9m acho muito dif\u00edcil que o Estado se encarregue de produzir e comercializar. O governo de Tabar\u00e9 se dedicar\u00e1 a realizar uma forte campanha contra o \u00e1lcool, em semelhan\u00e7a \u00e0 realizada em sua gest\u00e3o passada contra o tabaco.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Com voc\u00ea analisa a campanha da Unidad Popular [Unidade Popular] e das for\u00e7as que est\u00e3o \u00e0 esquerda da FA?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 um s\u00e9culo o batllismo governava aqui. Um governo muito progressista sob o qual nasceram os dois partidos que, posteriormente, formaram a FA, comunistas e socialistas. Hoje em dia, se acomodam as duas for\u00e7as que ser\u00e3o futuramente os substitutos do FA. S\u00e3o os que representam, por um lado, o programa fundacional de 1971 (Unidad Popular) e, por outro, os que representam as obriga\u00e7\u00f5es do extrativismo, ou seja, os ecologistas (Partido Ecologista Radical Intransigente), que estiveram muito pr\u00f3ximo de conseguir um deputado. Cresceram muito as duas for\u00e7as. Se somassem os votos nulos ou brancos teriam conseguido at\u00e9 algum senador. Recordemos que a Unidad Popular \u00e9 um partido cl\u00e1ssico, uma cis\u00e3o do FA que reflete a grande quantidade de descontentamento com o governo. Pela primeira vez h\u00e1 um deputado \u00e0 esquerda do FA e est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de crescerem muito mais, j\u00e1 que a Frente est\u00e1 sofrendo uma ruptura que se aprofundar\u00e1 ainda mais com Tabar\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o cen\u00e1rio pol\u00edtico volta a se formar como um bipartidarismo imperfeito. A FA por um lado e os brancos com bons resultados a n\u00edvel municipal por outro. Na minha hip\u00f3tese, o Partido Colorado continuar\u00e1 decaindo (recordemos que este partido governou nosso pa\u00eds durante um s\u00e9culo). E o Partido Independente se prepara para recolher os colorados progressistas. As mudan\u00e7as se dar\u00e3o muito lentamente e \u00e0 uruguaia, ou seja, no terreno eleitoral.<\/p>\n<p><strong>&#8211; O que acontece com os movimentos sociais no Uruguai?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 O Uruguai \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Na crise de 2002, o sistema de partidos n\u00e3o quebrou, tampouco houve quebra institucional como ocorreu em outros pa\u00edses. Houve uma mudan\u00e7a suave. Antes da crise, o FA tinha 45% dos votos e, depois, chegou a 51%. O Uruguai \u00e9 um pa\u00eds de um forte Estado e uma forte institucionalidade. \u00c9 o \u00fanico pa\u00eds onde durante os \u00faltimos 60 anos o principal movimento social \u00e9 o sindical. Foi, \u00e9 e ser\u00e1 principal movimento. Existem cooperativas de habita\u00e7\u00e3o, algumas r\u00e1dios, por\u00e9m n\u00e3o temos movimentos territoriais fortes como em outros lugares da Am\u00e9rica Latina. \u00c9 preciso remontar \u00e0 hist\u00f3ria do pa\u00eds para entender porque temos uma cultura de classe m\u00e9dia t\u00e3o potente e n\u00e3o uma cultura popular e plebeia. No Uruguai, at\u00e9 o carnaval, que \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o popular da cultura, \u00e9 sumamente de classe m\u00e9dia tanto em seu p\u00fablico como seus artistas. Por\u00e9m, est\u00e1 \u00e9 a realidade. Experi\u00eancias como as dos movimentos piqueteros, os sem teto, sem terra, ind\u00edgenas, zapatistas, est\u00e3o muito distantes de nossa realidade. O movimento sindical se fortaleceu como nunca nos \u00faltimos dez anos e conseguiu conquistas importantes para os trabalhadores gra\u00e7as ao fato de ter um governo amigo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; A falta de conflito \u00e9 o que anula a possibilidade de formar organiza\u00e7\u00f5es que construam o poder popular?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Certamente a falta de conflito se deve a que o Estado funcione. Obviamente, funciona porque somos tr\u00eas milh\u00f5es. Os n\u00edveis de pobreza e desigualdade social s\u00e3o crescentes (sobretudo nos servi\u00e7os de sa\u00fade e educativos), por\u00e9m existem mecanismos de intermedia\u00e7\u00e3o muito fortes, ainda que alguns estejam se deteriorando. E na hist\u00f3ria pol\u00edtica do Uruguai, o conflito n\u00e3o causa boa impress\u00e3o. O conflito n\u00e3o \u00e9 bem visto e nem sequer nos setores populares. Enfrentar e gritar n\u00e3o \u00e9 bom&#8230; Por\u00e9m, al\u00e9m disso, funcionam outros mecanismos substitutivos do conflito. Por isso o movimento sindical \u00e9 o hegem\u00f4nico, por suas inst\u00e2ncias de di\u00e1logos e quando existem conflitos n\u00e3o s\u00e3o para destituir, mas para refor\u00e7ar essas pol\u00edticas de di\u00e1logos. Isto se instalou de forma muito forte em nossa cultura pol\u00edtica e hoje n\u00e3o existem for\u00e7as sociais e pol\u00edticas que se oponham a ela.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil entender. Poder\u00edamos discutir durante horas, mas muitos historiadores afirmam que no Uruguai n\u00e3o existiu oligarquia. Por diversas raz\u00f5es, como o povoamento tardio, o fato de ser um pa\u00eds fronteiri\u00e7o que n\u00e3o conseguiu consolidar a propriedade privada dos estancieiros, a fraca presen\u00e7a da Igreja, dessa alian\u00e7a que existiu em toda a Am\u00e9rica Latina entre a espada, a cruz e a terra e que no Uruguai n\u00e3o se deu. Al\u00e9m disso, o modelo extrativista fortalece as direitas por ser altamente concentrador de riquezas, e isto nos diz que as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que tendem a favorecer a direita s\u00e3o produto das escolhas feitas por todos estes governos. Criaram polariza\u00e7\u00e3o, muito desemprego e, depois de 12 anos de governo, n\u00e3o se pode evitar a culpa da direita. A direita faz seu jogo e voc\u00eas que fazem?<\/p>\n<p>Creio que o progressivismo, tal como o conhecemos (governos que desenvolviam algumas pol\u00edticas favor\u00e1veis aos setores populares, por\u00e9m sem redistribuir riquezas) se acabou, sobretudo pela baixa do pre\u00e7o das commodities e pela mudan\u00e7a no cen\u00e1rio mundial. Agora, para continuar desenvolvendo essas pol\u00edticas, \u00e9 preciso entrar em conflito e creio que nem a Argentina e nem o Brasil estejam em condi\u00e7\u00f5es para tal. Esta transi\u00e7\u00e3o para outro ciclo implicar\u00e1 tens\u00f5es muito fortes, onde a \u00faltima palavra ser\u00e1 do povo. Caso as pessoas se mobilizem, as portas para algo novo se abrir\u00e3o. N\u00e3o sabemos o que vir\u00e1, mas ser\u00e1 fundamental ver o que faz o povo na Venezuela, na Bol\u00edvia, na Argentina, no Brasil, no Uruguai e em toda a Am\u00e9rica Latina. A \u00faltima palavra n\u00e3o ser\u00e1 dos governos, mas do povo.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/03\/04\/raul-zibechi-el-progresismo-tal-como-lo-conocimos-ya-se-acabo\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n(Entrevista com Ra\u00fal Zibechi)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7573\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-7573","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Y9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7573"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7573\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}