{"id":7580,"date":"2015-03-27T19:24:03","date_gmt":"2015-03-27T19:24:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7580"},"modified":"2017-08-25T00:47:56","modified_gmt":"2017-08-25T03:47:56","slug":"o-capitalismo-no-pais-das-maravilhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7580","title":{"rendered":"O capitalismo no pa\u00eds das maravilhas*"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos EUA, a segunda economia mais rica do mundo, o n\u00famero de gente sem casa triplicou desde 1983, atingindo os 3,5 milh\u00f5es. H\u00e1 actualmente 15 milh\u00f5es de crian\u00e7as com fome. Destas, 1,5 milh\u00f5es n\u00e3o tem casa. Na lista de pa\u00edses que melhor protegem as suas crian\u00e7as, a UNICEF coloca os EUA abaixo da Gr\u00e9cia e apenas duas posi\u00e7\u00f5es acima da Rom\u00e9nia.<\/p>\n<p>A maior pot\u00eancia imperialista, que leva a guerra a todo o planeta, est\u00e1 tamb\u00e9m em guerra com os pobres do seu pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Num ano em que a cidade de Nova Iorque enfrenta o frio mais inclemente de v\u00e1rias d\u00e9cadas, o n\u00famero de \u00absem-abrigo\u00bb na Grande Ma\u00e7\u00e3 tamb\u00e9m bateu o maior recorde de todos os tempos: 60 000 pessoas sem casa, metade das quais s\u00e3o crian\u00e7as. E de acordo com um estudo publicado na semana passada pela Universidade de New Hampshire, o problema \u00e9 \u00e0 escala federal. Na segunda economia mais rica do mundo, o n\u00famero de gente sem casa triplicou desde 1983 para 3,5 milh\u00f5es. Curiosamente, desde essa mesma data, tamb\u00e9m triplicou para 18 milh\u00f5es o n\u00famero de casas sem gente.<\/p>\n<p>O estudo concluiu que de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil sair da pobreza. Na \u00abterra das oportunidades\u00bb, a pobreza das fam\u00edlias de classe trabalhadora tem uma tend\u00eancia consistente para perpetuar-se e crescer nas gera\u00e7\u00f5es vindouras, criando um ciclo vicioso e cada vez mais dif\u00edcil de inverter. Ou, como demonstra o testemunho recolhido pela investigadora e jornalista Tiffany Willis: \u00abUma vez, eu precisava de l\u00e1pis-de-cor para um trabalho. A minha professora disse-me que se eu n\u00e3o os trouxesse levava um zero. Disse-lhe que n\u00e3o tinha, mas ela respondeu-me que eu tinha de tratar disso. No caminho para a escola, a minha m\u00e3e entrou no supermercado e pediu-me para esperar \u00e0 porta. Eu n\u00e3o percebi, porque ela tinha dito que n\u00e3o tinha dinheiro. Quando saiu, levava com ela os meus l\u00e1pis-de-cor, mas n\u00e3o estavam dentro de um saco de pl\u00e1stico, estavam escondidos dentro da blusa. Acho que os roubou. Ela estava a chorar.\u00bb Segundo os autores do estudo, a percentagem de crian\u00e7as sem-abrigo que conclui o ensino secund\u00e1rio situa-se nos 20 por cento. No reverso da medalha, observa o estudo, cresce a tend\u00eancia para que os filhos dos muito ricos ultrapassem a fortuna dos pais.<\/p>\n<p><strong>O que dizem as crian\u00e7as sem tecto dos EUA<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 actualmente 15 milh\u00f5es de crian\u00e7as com fome nos EUA. Destas, 1,5 milh\u00f5es n\u00e3o tem casa. Com efeito, na lista de pa\u00edses que melhor protegem as suas crian\u00e7as, a UNICEF coloca os EUA abaixo da Gr\u00e9cia e apenas duas posi\u00e7\u00f5es acima da Rom\u00e9nia. Poder\u00edamos acreditar que a colossal dimens\u00e3o deste crime, que constitui uma continuada viola\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Internacional dos Direitos da Crian\u00e7a e que, para al\u00e9m do mais, decorre num pa\u00eds rico, seria alvo de severas aten\u00e7\u00f5es medi\u00e1ticas e de consensuais admoesta\u00e7\u00f5es internacionais. Mas a pobreza das crian\u00e7as dos EUA \u00e9 invis\u00edvel. Na verdade, \u00e9 exactamente essa a estrat\u00e9gia de um n\u00famero crescente de estados: varrer a mis\u00e9ria extrema para debaixo do tapete. No Arizona pro\u00edbem a mendicidade; em Boston instalam a chamada \u00abarquitectura hostil\u00bb, que impede as pessoas de repousarem nos espa\u00e7os p\u00fablicos; no Colorado, o Estado oferece bilhetes de autocarro aos sem-abrigo, para que v\u00e3o e n\u00e3o voltem; em Hollywood, a cidade est\u00e1 a comprar \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de caridade os im\u00f3veis onde funcionam os abrigos nocturnos\u2026 para poder demoli-los; no Alasca, o Representante Don Young foi mais longe e sugeriu \u00abalcateias de lobos\u00bb para acabar com o problema.<\/p>\n<p>S\u00e3o as regras do jogo do capitalismo em todo o seu brutal esplendor: privatizar a produ\u00e7\u00e3o de riqueza e socializar a produ\u00e7\u00e3o preju\u00edzos, pelo que os resultados econ\u00f3micos negativos que se sucedem em catadupa nos EUA fazem adivinhar que a escala e a gravidade da mis\u00e9ria extrema ir\u00e3o continuar a agudizar-se, acentuando cada vez mais as contradi\u00e7\u00f5es mais abjectas e anti-humanas do capitalismo. Neste jogo viciado, a falta de habita\u00e7\u00e3o, de emprego e de comida n\u00e3o s\u00e3o infort\u00fanios, s\u00e3o jogadas de classe. As cartas do capitalismo est\u00e3o h\u00e1 muito tempo \u00e0 vista: desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho; guerra infinita; mis\u00e9ria. N\u00e3o basta virar o jogo, \u00e9 preciso virar a mesa.<\/p>\n<p><strong>*Este artigo foi publicado no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2155, 19.03.2015<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAnt\u00f3nio Santos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7580\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-7580","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Yg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7580\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}