{"id":7603,"date":"2015-03-31T19:03:58","date_gmt":"2015-03-31T19:03:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7603"},"modified":"2015-03-31T19:03:58","modified_gmt":"2015-03-31T19:03:58","slug":"denunciar-a-guerra-do-opressor-e-nao-homenagea-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7603","title":{"rendered":"Denunciar a guerra do opressor e n\u00e3o homenage\u00e1-la"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre tudo que pode haver de estranho em um regime que se proclama democr\u00e1tico, vale destacar as homenagens. Acredita-se que a democracia eleja homenagear quem teve o m\u00e9rito de por algum vi\u00e9s da vida p\u00fablica dedicar-se ao debate livre entre as diversas frentes de uma sociedade, o que, sobretudo, inclui dar ouvidos \u00e0s frentes populares, \u00e0quelas frentes das classes trabalhadoras que buscam equalizar a vida comum. O equil\u00edbrio da vida comum inclui a garantia de direitos gerais de acesso ao patrim\u00f4nio p\u00fablico e aos valores identit\u00e1rios de um todo geopol\u00edtico \u2013 no caso brasileiro, tanto o pa\u00eds, quanto um estado e um munic\u00edpio \u2013, bem como dos nichos sociais. Bem se sabe que o acesso a tal patrim\u00f4nio e tais valores \u00e9 regulado, controlado e vigiado pelo poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico dominante, poder esse que cerceia quem e classes que n\u00e3o lhes integram e que n\u00e3o respondem de modo submisso a suas leis gerais. Nisso, se h\u00e1 homenagens e devem ser feitas, o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico dominante n\u00e3o as faz a respeito de quem tem m\u00e9rito quanto \u00e0 democracia, mas a quem tem m\u00e9rito quanto ao que lhe representa.<\/p>\n<p>Em Goi\u00e2nia, mais de cinquenta anos depois do conhecido Golpe Militar que sequestrou a democracia no pa\u00eds, o articulador desse golpe e primeiro presidente do regime instalado, a Ditadura Militar, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, ainda persiste gravado na mem\u00f3ria da cidade na avenida que apresenta seu nome, a conhecida Castelo Branco. Esse presidente, militar jamais respons\u00e1vel por obra relevante ao patrim\u00f4nio nacional, arbitr\u00e1rio e violento, autor da destitui\u00e7\u00e3o do governador eleito do estado de Goi\u00e1s, Mauro Borges, \u00e9 nome da antiga Avenida Maranh\u00e3o, nome muito mais devido, ainda que n\u00e3o necessariamente pr\u00f3prio ao munic\u00edpio de Goi\u00e2nia. Enquanto circulou em sua segunda edi\u00e7\u00e3o, a moeda Cruzeiro, do padr\u00e3o transit\u00f3rio Cruzeiro Novo, de maio de 1970 a fevereiro de 1986, trazia como esfinge na c\u00e9dula de Cr$ 5.000,00, o rosto do Marechal Castelo Branco. Iniciado o per\u00edodo democr\u00e1tico, em diversas inst\u00e2ncias, como essa, tal homenagem foi anulada. Sabe-se, anular jamais apaga a hist\u00f3ria, e esta, decerto, n\u00e3o deve ser apagada, para que nos lembremos de quem nos oprimiu, de quem sequestrou a democracia, bem como para que nos lembremos de quem batalhou por ela.<\/p>\n<p>\u00c9 premente que se anule de Goi\u00e2nia, capital deste estado, Goi\u00e1s, que diversas vezes teve participa\u00e7\u00e3o no processo democr\u00e1tico do Brasil \u2013 a exemplo das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es eclodidas em meados de 2014 pelo passe livre no sistema de transporte p\u00fablico, de interesse, como \u00e9 pr\u00f3prio da democracia, de equalizar a vida comum, tornando-a isto: realmente comum, pois um povo socialmente organizado deve ser uma comunidade, jamais um bojo de marionetes a servi\u00e7o do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico dominante. A professora e vereadora Marta Jane, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), bem como toda a milit\u00e2ncia deste Partido, onde me incluo, prop\u00f5e mudar o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida Bernardo \u00c9lis. Este goiano, \u00e0 parte de ser o primeiro e \u00fanico cidad\u00e3o do estado que teve cadeira na Academia Brasileira de Letras, integra diversas antologias do conto no Brasil, a exemplo da Antologia do Conto Brasileiro Contempor\u00e2neo do renomado professor e cr\u00edtico liter\u00e1rio Alfredo Bosi, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Dotado de intensa, sens\u00edvel e perspicaz compet\u00eancia est\u00e9tica verbal, o contista e romancista Bernardo \u00c9lis captou a vida goiana rural e do interior do estado, dando a saber das origens e forma\u00e7\u00e3o desse povo, como os demais, cerceado pela brutal for\u00e7a militar que se instalou no pa\u00eds em 1964 e se manteve at\u00e9 1985.<\/p>\n<p>A iniciativa da professora e vereadora Marta Jane tem o interesse de trazer para Goi\u00e2nia muito mais do que uma homenagem, mas a recorda\u00e7\u00e3o vital e permanente de um escritor atento \u00e0 vida do povo, escritor de ouvidos cuidadosos aos falares goianos de antes e de sua \u00e9poca. Lembremo-nos que em sua obra mais destacada, o romance O tronco, Bernardo \u00c9lis narra a respeito da violenta disputa pelo poder entre fazendeiros latifundi\u00e1rios do sul de Goi\u00e1s no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Al\u00e9m de a proposta de Marta Jane cobrar do poder p\u00fablico goianiense a recorda\u00e7\u00e3o vital e permanente de Bernardo \u00c9lis, cobra tamb\u00e9m que o povo de Goi\u00e2nia, bem como de Goi\u00e1s, passe a olhar para quem lhe deu ouvidos, para quem foi seus atentos olhos e ouvidos, no caso, postos \u00e1 escrita, como tamb\u00e9m foi o caso do historiador Horieste Gomes, e tamb\u00e9m da poeta Leodeg\u00e1ria de Jesus, primeira mulher a publicar um livro de poemas em Goi\u00e1s, em 1906. Sobre esta poeta, vale acrescentar, prestou-se a Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), ao reabilitar sua gr\u00e1fica de linotipos em 2014, a publicar seu livro Orchidea, de 1928. Observe-se, ainda de iniciativa da Universidade Federal de Goi\u00e1s, no ano de comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos da Faculdade de Letras, esta unidade acad\u00eamica inaugurou seu segundo bloco de atividades com o nome deste escritor aqui reclamado, Bernardo \u00c9lis.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel imaginar-se algumas adversidades \u00e0 proposta, caso o poder p\u00fablico n\u00e3o seja sens\u00edvel e seja pouco ou nada inteligente, pois haver\u00e1 quem possa dizer: \u201cO povo j\u00e1 est\u00e1 acostumado a chamar a Avenida Castelo Branco por esse nome e ningu\u00e9m se lembra da Ditadura Militar.\u201d Importante frisar: lembra-se, sim. \u00c0 parte a revolta p\u00fablica dessas ou daquelas classes sociais sobre o atual governo Dilma (Partido dos Trabalhadores \u2013 PT), \u00e9 cr\u00edtico, grave, ali\u00e1s, cr\u00f4nico o perigo de erguer-se cartazes, placas e faixas a respeito do retorno do Regime Militar ao Brasil, ou seja, do retorno a um regime sequestrador da democracia. Nenhum compromisso pol\u00edtico, partid\u00e1rio nem ideol\u00f3gico tem o PCB com o PT nem com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). A milit\u00e2ncia comunista tem compromisso com a democracia, com o bem comum popular, com as frentes populares que v\u00eam sendo criminosamente cerceada, reprimida violentamente por dedicar-se \u00e0 equaliza\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica. Sim, \u00e9 fato, o povo est\u00e1 acostumado a chamar a referida avenida de Castelo Branco, mas pode muito bem desacostumar-se, como foi o caso da antiga Avenida Z, hoje Avenida Ismerino Soares de Carvalho, prefeito de Goi\u00e2nia entre 1945 e 1947. Se os nomes v\u00e3o em v\u00eam, assim como se o povo precisa empreg\u00e1-los e, logo, com eles se acostumar, faz muito mais sentido, \u00e9 muito mais vital e inteligente que uma mudan\u00e7a dessa ordem atenda a Bernardo \u00c9lis, leg\u00edtimo representante da voz goiana, do que ao arbitr\u00e1rio usurpador do poder p\u00fablico brasileiro, o Marechal Costa e Silva.<\/p>\n<p>Em tempos em que o Brasil cada vez mais toma consci\u00eancia sobre a relev\u00e2ncia patrimonial da Literatura para a forma\u00e7\u00e3o do povo, bem como diversos agentes n\u00e3o-governamentais e diversas iniciativas se voltam para as pol\u00edticas p\u00fablicas sobre a necessidade cada vez mais ampla de acesso ao livro liter\u00e1rio por parte do povo, \u00e9 fundamental a mudan\u00e7a de nome da Avenida Castelo Branco para Avenida Bernardo \u00c9lis, pois ao povo, bem como \u00e0 humanidade, \u00e9 mais pr\u00f3prio lembrar-se daquele que denunciou a crueza da guerra, do que daquele que a praticou, que a tornou um exerc\u00edcio constante de gest\u00e3o p\u00fablica, que, de resto, como bem se sabe, terminou por afundar o pa\u00eds em duas d\u00e9cadas de opress\u00e3o, cujas consequ\u00eancias ainda sofremos.<\/p>\n<p>(Jamesson Buarque, professor da UFG e vice-diretor da Fac. de Letras)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJamesson Buarque, Especial para Opini\u00e3o P\u00fablica\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7603\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-7603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1YD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7603\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}