{"id":7604,"date":"2015-04-01T22:13:29","date_gmt":"2015-04-01T22:13:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7604"},"modified":"2015-04-01T22:13:29","modified_gmt":"2015-04-01T22:13:29","slug":"a-saga-da-documentarista-que-respondeu-a-um-email-de-edward-snowden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7604","title":{"rendered":"A saga da documentarista que respondeu a um email de Edward Snowden"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Em janeiro passado, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Laura_Poitras\" target=\"_new\"> Laura Poitras<\/a> recebeu um email an\u00f4nimo pedindo-lhe que mandasse sua chave p\u00fablica de criptografia. J\u00e1 fazia quase dois anos que Laura vinha trabalhando num document\u00e1rio sobre vigil\u00e2ncia e espionagem, e ocasionalmente recebia mensagens de desconhecidos. Dessa vez ela respondeu e enviou sua chave p\u00fablica, permitindo \u00e0 outra pessoa o envio de e-mails criptografados que s\u00f3 a pr\u00f3pria Laura poderia abrir, usando sua chave particular. Mas ela n\u00e3o achou que fosse dar em muita coisa.<\/p>\n<p>O desconhecido respondeu com instru\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o de um sistema ainda mais seguro de prote\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia entre eles. Prometendo informa\u00e7\u00f5es altamente confidenciais, disse a Laura para escolher, como senhas, frases longas capazes de resistir a um ataque maci\u00e7o de uma rede de computadores. &#8220;Imagine um advers\u00e1rio capaz de 1 trilh\u00e3o de combina\u00e7\u00f5es por segundo&#8221;, escreveu-lhe o desconhecido.<\/p>\n<p>Pouco depois, Laura recebeu uma mensagem cifrada que listava uma s\u00e9rie de programas secretos de espionagem e monitoramento de comunica\u00e7\u00f5es conduzidos pelo governo americano. Ela tinha ouvido falar de um deles, mas n\u00e3o dos outros. Depois de descrever cada um dos programas, o desconhecido acrescentava sempre alguma vers\u00e3o da mesma afirmativa: &#8220;Isto eu tenho como provar.&#8221;<\/p>\n<p>Segundos depois de ter decodificado e lido esse e-mail, Laura Poitras desconectou-se da internet e apagou a mensagem do seu computador. &#8220;E pensei comigo: se isso for verdade, minha vida acabou de mudar&#8221;, contou-me ela h\u00e1 dois meses. &#8220;As coisas que ele afirmava conhecer e ser capaz de provar eram estarrecedoras.&#8221;<\/p>\n<p>Laura, entretanto, continuou desconfiada de seu interlocutor. Seu maior temor era que algum agente do governo pudesse estar tentando induzi-la a revelar informa\u00e7\u00f5es sobre as pessoas que tinha entrevistado para o seu document\u00e1rio, entre elas Julian Assange, o editor da organiza\u00e7\u00e3o WikiLeaks. &#8220;Eu dei uma prensada nele&#8221;, lembrou Laura. &#8220;Disse que ou ele tinha mesmo aquelas informa\u00e7\u00f5es e estava correndo riscos imensos, ou estava preparando uma armadilha para mim e as pessoas que eu conhe\u00e7o, ou ent\u00e3o era um louco.&#8221;<\/p>\n<p>As respostas foram tranquilizadoras, mas n\u00e3o o suficiente. Laura desconhecia o nome, o sexo, a idade ou para quem trabalhava o desconhecido (A CIA? A NSA? O Pent\u00e1gono?). No in\u00edcio de junho, ela finalmente obteve as respostas. Junto com seu parceiro de reportagem, Glenn Greenwald, formado em direito e colunista do jornal brit\u00e2nico <em> The Guardian, <\/em> Laura voou at\u00e9 Hong Kong e l\u00e1 conheceu um funcion\u00e1rio terceirizado da NSA, Edward J. Snowden, que entregou aos dois milhares de documentos confidenciais, desencadeando uma pol\u00eamica de enormes propor\u00e7\u00f5es sobre a extens\u00e3o e a legalidade da espionagem exercida pelo governo americano. Laura Poitras estava certa quando pensou que sua vida nunca mais voltaria a ser a mesma.<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Glenn Greenwald mora e trabalha numa casa cercada pela Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, um bairro afastado do Centro do Rio de Janeiro. Divide a casa com David Miranda, seu companheiro brasileiro, dez c\u00e3es e um gato, e o lugar d\u00e1 a impress\u00e3o de uma rep\u00fablica de estudantes transplantada para o meio do mato. O rel\u00f3gio da cozinha est\u00e1 horas atrasado, mas ningu\u00e9m repara; pratos tendem a se empilhar na pia; a sala cont\u00e9m uma mesa, um sof\u00e1 e uma tev\u00ea de tela grande, al\u00e9m de um console de Xbox, uma caixa de fichas de p\u00f4quer e pouca coisa mais. A geladeira nem sempre est\u00e1 abastecida de legumes e verduras frescas. Uma fam\u00edlia de macacos \u00e0s vezes ataca as bananeiras do quintal, travando ruidosas disputas com os cachorros.<\/p>\n<p>Greenwald trabalha quase o tempo todo numa varanda coberta, geralmente de camiseta, short de surfista e sand\u00e1lia de dedo. Nos quatro dias que passei com ele, vivia em movimento constante, falando ao telefone em portugu\u00eas e ingl\u00eas, correndo para ser entrevistado na cidade, respondendo a telefonemas e e-mails de gente em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre Snowden, tuitando para seus mais de 250 mil seguidores (e travando discuss\u00f5es acaloradas com alguns deles), e depois se sentando para escrever mais artigos para o <em> Guardian <\/em> sobre a Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional dos Estados Unidos, a NSA, tudo enquanto insistia em mandar seus cachorros fazerem sil\u00eancio. Num momento especialmente febril, ele acabou dando um berro: &#8220;Voc\u00eas querem calar a boca?!&#8221; Mas os cachorros n\u00e3o se deixaram impressionar.<\/p>\n<p>Em meio a esse caos, Laura Poitras, uma mulher compenetrada de 49 anos, continuava sentada num quarto vago ou \u00e0 mesa da sala, trabalhando em sil\u00eancio em frente a um de seus muitos computadores. De vez em quando ia at\u00e9 a varanda para conversar com Greenwald sobre o artigo que ele estava escrevendo, ou \u00e0s vezes era ele quem parava seu trabalho para espiar a \u00faltima vers\u00e3o de um novo v\u00eddeo que Laura estava editando sobre Snowden. Conversavam muito \u2013 Greenwald em voz bem mais alta e falando bem mais r\u00e1pido do que Laura \u2013 e \u00e0s vezes ca\u00edam na risada diante de alguma piada ou lembran\u00e7a absurda. O caso Snowden, diziam os dois, era uma batalha em que estavam juntos, uma luta contra os poderes da espionagem que, acreditam ambos, s\u00e3o uma amea\u00e7a \u00e0s liberdades fundamentais americanas.<\/p>\n<p>Dois rep\u00f3rteres do <em> Guardian <\/em> estavam no Rio para ajudar Greenwald, de maneira que parte do nosso tempo era passado no hotel onde eles estavam hospedados, na beira da praia de Copacabana, onde brasileiros em boa forma jogando v\u00f4lei na areia acrescentavam aos acontecimentos uma nova camada de surrealismo. Laura assinou parte dos artigos de Greenwald como coautora, mas quase sempre prefere ficar nos bastidores, deixando que ele seja o \u00fanico a escrever e falar. Por isso, \u00e9 Glenn Greenwald que as pessoas sa\u00fadam como um destemido defensor dos direitos individuais, ou ent\u00e3o acusam de ser um traidor nefasto, dependendo do ponto de vista.<\/p>\n<p>&#8220;Eu digo sempre que ela \u00e9 o Keyser S\u00f6ze de toda a hist\u00f3ria, porque \u00e9 ao mesmo tempo invis\u00edvel e onipresente&#8221;, disse Greenwald, referindo-se ao personagem de Kevin Spacey no filme <em> Os Suspeitos, <\/em> um g\u00eanio do crime que planeja tudo, mas se faz passar por um p\u00e9 de chinelo. &#8220;Laura est\u00e1 no centro disso tudo, mas ainda assim ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 ela.&#8221;<\/p>\n<p>Num fim de tarde, acompanhei Laura e Greenwald at\u00e9 a reda\u00e7\u00e3o do jornal <em> O Globo. <\/em> Greenwald tinha acabado de publicar um artigo no jornal, descrevendo como a NSA espionava telefonemas e emails de brasileiros. A not\u00edcia provocou grande esc\u00e2ndalo no Brasil, e Greenwald foi recebido na reda\u00e7\u00e3o como uma celebridade. O editor-chefe apertou sua m\u00e3o com entusiasmo, fazendo-lhe um convite para escrever uma coluna regular no jornal; rep\u00f3rteres tiravam fotos de lembran\u00e7a com seus celulares. Laura filmou parte da festa, depois guardou sua c\u00e2mera e continuou observando tudo. Vi que ningu\u00e9m lhe dava aten\u00e7\u00e3o, que todos s\u00f3 tinham olhos para Greenwald, e ela sorriu. &#8220;Est\u00e1 muito bem assim&#8221;, comentou.<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Laura Poitras parece empenhada em passar despercebida, mais por uma quest\u00e3o de estrat\u00e9gia do que por timidez. Na verdade, ela pode se mostrar muito determinada quando se trata de pesar o que deve ou n\u00e3o falar. Durante uma conversa que come\u00e7ou com perguntas minhas sobre sua vida pessoal, ela reclamou: &#8220;Isso lembra uma consulta dent\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o retrato resumido \u00e9 o seguinte: Laura foi criada numa fam\u00edlia pr\u00f3spera nos arredores de Boston e, depois de terminar o ensino m\u00e9dio, mudou-se para S\u00e3o Francisco decidida a trabalhar como chef em algum restaurante de primeira linha. Estudou tamb\u00e9m no Instituto de Arte de S\u00e3o Francisco, onde fez cursos com o cineasta experimental Ernie Gehr. Em 1992, mudou-se para Nova York e come\u00e7ou a abrir caminho no mundo-do cinema, ao mesmo tempo que frequentava aulas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em teoria social e pol\u00edtica na New School [universidade conhecida pelo corpo docente de esquerda]. De l\u00e1 para c\u00e1, fez cinco filmes, o mais recente dos quais \u00e9 <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Oath_%282010_film%29\" target=\"_new\"> <em>O Juramento<\/em><\/a> \u2013 sobre Salim Hamdan, um prisioneiro de Guant\u00e1namo, e seu cunhado que vive no I\u00eamen \u2013 e recebeu dois pr\u00eamios, o Peabody e o MacArthur.<\/p>\n<p>Em 11 de setembro de 2001, Laura morava no Upper West Side de Manhattan quando as torres g\u00eameas foram atacadas. Como a maioria dos nova-iorquinos, nas semanas seguintes ela se viu tomada pelo luto e dominada por sentimentos de solidariedade e uni\u00e3o. Foi um momento, disse ela, em que &#8220;as pessoas poderiam ter feito qualquer coisa, num sentido positivo&#8221;. Quando esse momento levou \u00e0 invas\u00e3o do Iraque, por\u00e9m, ela achou que seu pa\u00eds tinha perdido o rumo. &#8220;Sempre nos perguntamos de que maneira um pa\u00eds pode se desviar do caminho certo&#8221;, disse ela. &#8220;Como as pessoas deixam que isso aconte\u00e7a, como podem n\u00e3o fazer nada enquanto os limites s\u00e3o ultrapassados?&#8221;<\/p>\n<p>Laura n\u00e3o tinha nenhuma experi\u00eancia em zonas de conflito, mas em junho de 2004 viajou para o Iraque e come\u00e7ou a documentar a ocupa\u00e7\u00e3o americana.<\/p>\n<p>Logo depois de chegar a Bagd\u00e1, ela obteve permiss\u00e3o para entrar em Abu Ghraib e filmar uma visita de membros do Conselho Municipal \u00e0 pris\u00e3o. Isto ocorreu apenas poucos meses depois da publica\u00e7\u00e3o das fotos em que prisioneiros de Abu Ghraib apareciam sendo maltratados por soldados americanos. Um importante m\u00e9dico sunita fazia parte da delega\u00e7\u00e3o de visitantes, e Laura Poitras filmou imagens memor\u00e1veis de sua intera\u00e7\u00e3o com os prisioneiros, gritando que estavam trancafiados ali sem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse mesmo m\u00e9dico, Riyadh al-Adhadh, convidou Laura \u00e0 sua cl\u00ednica e mais tarde permitiu que ela acompanhasse sua rotina em Bagd\u00e1. O document\u00e1rio que ela produziu ent\u00e3o, <a href=\"http:\/\/www.praxisfilms.org\/films\/my-country-my-country\" target=\"_new\"> <em>O Meu Pa\u00eds em Ru\u00ednas<\/em><\/a> , tem como foco as dificuldades atravessadas pela fam\u00edlia do m\u00e9dico \u2013 os tiroteios e cortes de luz em seu bairro, o sequestro de um dos seus sobrinhos. O filme estreou nos Estados Unidos no in\u00edcio de 2006 e foi recebido com entusiasmo, tendo sido indicado ao Oscar de melhor document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tentar mostrar os efeitos da guerra sobre cidad\u00e3os iraquianos transformou Laura em alvo de acusa\u00e7\u00f5es graves \u2013 e falsas, ao que tudo indica. Em 19 de novembro de 2004, soldados iraquianos apoiados por for\u00e7as americanas atacaram uma mesquita no bairro de Adhamiya, onde mora o m\u00e9dico, matando v\u00e1rias pessoas em seu interior. No dia seguinte, a viol\u00eancia irrompeu no bairro. Laura estava com a fam\u00edlia do m\u00e9dico, e de tempos em tempos subia com eles \u00e0 laje da casa para ter uma ideia do que estava ocorrendo. Numa dessas idas, foi avistada por soldados de um batalh\u00e3o da Guarda Nacional americana. Pouco depois, um grupo de insurgentes lan\u00e7ou um ataque que matou um dos americanos. Alguns soldados acharam que Laura havia subido \u00e0 laje porque tinha conhecimento pr\u00e9vio do ataque e queria film\u00e1-lo. O comandante do batalh\u00e3o, o tenente-coronel reformado Daniel Hendrickson, disse-me que apresentou uma den\u00fancia contra ela no quartel-general de sua brigada.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio que sustente a sua acusa\u00e7\u00e3o. Combates na \u00e1rea ocorreram durante todo aquele dia, de maneira que teria sido dif\u00edcil para qualquer jornalista n\u00e3o se encontrar nas proximidades de algum ataque. Os pr\u00f3prios soldados que acusaram Laura me disseram que n\u00e3o tinham provas contra ela. Hendrickson ainda comentou que o quartel-general nunca respondeu \u00e0 sua den\u00fancia.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rios meses depois do ataque em Adhamiya, Laura Poitras continuou a viver na Zona Verde de Bagd\u00e1 [onde ficavam as autoridades americanas] e a trabalhar como jornalista acompanhando tropas dos Estados Unidos. Exibiu seu document\u00e1rio para plateias militares, inclusive na pr\u00f3pria Escola de Guerra do Ex\u00e9rcito americano. Um oficial que conviveu com ela em Bagd\u00e1, o major reformado Tom Mowle, disse que Laura estava sempre filmando, e que &#8220;fazia perfeito sentido&#8221; que estivesse filmando num dia de viol\u00eancia. &#8220;Acho totalmente rid\u00edculas as acusa\u00e7\u00f5es contra ela&#8221;, afirmou o major.<\/p>\n<p>Embora as acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o tivessem o apoio de provas, elas podem estar na origem das muitas deten\u00e7\u00f5es e revistas de bagagem sofridas por Laura. Hendrickson e outro soldado me contaram que, em 2007 \u2013 meses depois da primeira deten\u00e7\u00e3o da jornalista \u2013, investigadores da For\u00e7a-Tarefa Antiterrorismo do Departamento de Justi\u00e7a entrevistaram os dois, perguntando-lhes sobre as atividades de Laura em Bagd\u00e1 no dia do ataque. A pr\u00f3pria Laura, por\u00e9m, nunca foi procurada por esses ou quaisquer outros investigadores. &#8220;For\u00e7as iraquianas e militares americanos atacaram uma mesquita em plena hora das preces de sexta-feira, matando v\u00e1rias pessoas&#8221;, contou-me ela. &#8220;E a viol\u00eancia se desencadeou no dia seguinte. Sou documentarista, e estava filmando na \u00e1rea. Qualquer sugest\u00e3o de que eu soubesse de algum ataque \u00e9 falsa. O governo norte-americano deveria investigar quem autorizou o assalto \u00e0 mesquita, e n\u00e3o os jornalistas que cobrem a guerra.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/ticket_ssss.jpg?w=747\" border=\"0\" align=\"right\" \/> Em junho de 2006, todas as passagens de Laura Poitras para voos dentro dos Estados Unidos traziam as letras <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Secondary_Security_Screening_Selection\" target=\"_new\"> SSSS<\/a> \u2013 sigla em ingl\u00eas para Sele\u00e7\u00e3o para Checagem de Seguran\u00e7a Secund\u00e1ria \u2013, o que significa que o portador ser\u00e1 submetido a revistas mais r\u00edgidas que as habituais. A primeira deten\u00e7\u00e3o de Laura ocorreu no Aeroporto Internacional de Newark antes de um embarque para Israel, onde iria exibir seu filme. No voo de volta, ela foi retida por duas horas antes que lhe permitissem entrar de novo no pa\u00eds. No m\u00eas seguinte, ela foi \u00e0 B\u00f3snia exibir seu filme num festival e, quando o avi\u00e3o que tomou em Sarajevo pousou em Viena, foi chamada pelo sistema de som do aeroporto e instru\u00edda a procurar um posto de seguran\u00e7a; de l\u00e1, foi levada a uma van e conduzida a outra parte do aeroporto, e depois foi colocada em uma sala onde sua bagagem foi revirada.<\/p>\n<p>&#8220;Abriram minhas malas e examinaram uma a uma&#8221;, contou Laura. &#8220;Perguntaram o motivo de minha viagem, e respondi que tinha exibido um filme em Sarajevo sobre a Guerra do Iraque. E ent\u00e3o fiquei mais ou menos amiga do sujeito da seguran\u00e7a. E lhe perguntei qual era o problema. Ele me respondeu que eu estava marcada: &#8220;Voc\u00ea foi classificada como uma amea\u00e7a do mais alto grau. Sua pontua\u00e7\u00e3o \u00e9 de 400 numa escala de 400&#8221;. Perguntei se esse sistema de pontua\u00e7\u00e3o funcionava em toda a Europa, ou se era s\u00f3 americano. E ele respondeu: &#8220;\u00c9 coisa do seu governo, que foi quem nos disse para det\u00ea-la&#8221;.<\/p>\n<p>A partir do 11 de Setembro, o governo americano come\u00e7ou a compilar uma lista de suspeitos de terrorismo que chegou a ter quase 1 milh\u00e3o de nomes. E existem pelo menos outras duas listas complementares, relacionadas \u00e0s viagens a\u00e9reas. Uma delas cont\u00e9m os nomes de dezenas de milhares de pessoas que n\u00e3o podem entrar ou sair dos Estados Unidos a bordo de um avi\u00e3o. A outra, maior, sujeita as pessoas nela inclu\u00eddas a inspe\u00e7\u00f5es mais detalhadas e a interrogat\u00f3rios nos aeroportos. Essas listas j\u00e1 foram criticadas por grupos de defesa dos direitos civis por serem excessivamente amplas e arbitr\u00e1rias.<\/p>\n<p>Em Viena, Laura foi finalmente liberada a tempo de pegar a conex\u00e3o para Nova York, mas logo que pousou no aeroporto JFK ela foi recebida no port\u00e3o por dois agentes armados e conduzida a uma sala para ser interrogada. Essa \u00e9 uma rotina a que foi submetida tantas vezes desde ent\u00e3o \u2013 foram mais de quarenta ocasi\u00f5es \u2013 que Laura acabou perdendo a conta exata. Inicialmente, disse ela, as autoridades se interessavam pelos pap\u00e9is que levava, copiando todos os seus recibos e, certa vez, seu caderno de notas. Depois que parou de levar suas anota\u00e7\u00f5es nas viagens, o foco se transferiu para o equipamento eletr\u00f4nico. Diziam-lhe que, caso n\u00e3o respondesse \u00e0s perguntas, confiscariam seu equipamento e obteriam as respostas desse modo. Certa vez, confiscaram seus computadores e celulares, e s\u00f3 devolveram semanas depois. Disseram-lhe ainda que o fato de se recusar a responder \u00e0s perguntas deles era, por si s\u00f3, um ato suspeito. Como os interrogat\u00f3rios ocorriam em pontos de fronteiras internacionais, onde o governo alega que os direitos constitucionais n\u00e3o se aplicam, nunca lhe foi consentida a presen\u00e7a de um advogado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma viola\u00e7\u00e3o absoluta&#8221;, disse Laura. &#8220;\u00c9 isso que a gente sente. Eles querem informa\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao meu trabalho, privadas e protegidas por lei. \u00c9 muito intimidador ser recebida por pessoas armadas sempre que voc\u00ea desce de um avi\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Embora tenha escrito a membros do Congresso americano, e feito requerimentos com base na Lei da Liberdade de Informa\u00e7\u00e3o, Laura nunca obteve uma explica\u00e7\u00e3o sobre o motivo de ter sido inclu\u00edda numa lista de pessoas sob monitoramento especial. &#8220;\u00c9 enlouquecedor que eu tenha que ficar especulando sobre o motivo&#8221;, disse ela. &#8220;A partir de quando come\u00e7ou a existir esse universo em que a pessoa pode ser inclu\u00edda numa lista sem que ningu\u00e9m lhe diga nada, e passa a ser detida a cada viagem por seis anos? N\u00e3o tenho a menor ideia do motivo. Sei que \u00e9 uma suspens\u00e3o completa do estado de direito.&#8221; E acrescentou: &#8220;Nunca me disseram nada, nunca me pediram nada e eu n\u00e3o fiz nada. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o kafkiana. N\u00e3o lhe dizem do que voc\u00ea \u00e9 acusada.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Depois de ter sido repetidamente detida, Laura Poitras come\u00e7ou a tomar provid\u00eancias para proteger seus dados, pedindo a um companheiro de viagem que levasse seu laptop, deixando seus cadernos de notas no estrangeiro com amigos ou em cofres. Ela costuma apagar todo o conte\u00fado de seus computadores e celulares, para que as autoridades n\u00e3o tenham o que ver. Ou passou a criptografar suas informa\u00e7\u00f5es, para que os agentes n\u00e3o possam ler os arquivos que consigam apreender. Esses preparativos de seguran\u00e7a podem levar um dia, ou mais, antes de cada uma de suas viagens.<\/p>\n<p>E as revistas nas fronteiras n\u00e3o eram a \u00fanica coisa com que ela precisava se preocupar. Laura disse que, se as suspeitas do governo eram suficientes para que fosse interrogada nos aeroportos, era muito prov\u00e1vel que seus e-mails, seus telefonemas e sua navega\u00e7\u00e3o na internet tamb\u00e9m se encontrassem sob vigil\u00e2ncia. &#8220;Imagino que existam Cartas de Seguran\u00e7a Nacional a respeito dos meus e-mails&#8221;, disse ela, referindo-se a um dos instrumentos secretos de espionagem utilizados pelo Departamento de Justi\u00e7a dos Estados Unidos. Uma Carta de Seguran\u00e7a Nacional intima quem a recebe \u2013 na maioria dos casos, provedores de internet e companhias telef\u00f4nicas \u2013 a fornecer dados de seus clientes sem dar ci\u00eancia disso a eles ou a qualquer outra pessoa. Laura suspeita (mas n\u00e3o p\u00f4de confirmar, pois sua companhia telef\u00f4nica e seu provedor de internet foram proibidos de lhe contar) que o FBI emitiu Cartas de Seguran\u00e7a Nacional dirigidas a suas comunica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Depois que come\u00e7ou a trabalhar em seu filme sobre vigil\u00e2ncia e espionagem em 2011, Laura elevou sua seguran\u00e7a digital a um n\u00edvel ainda mais extremo. Reduziu o uso do celular, que revela n\u00e3o s\u00f3 para quem a pessoa est\u00e1 ligando e quando, mas tamb\u00e9m a localiza\u00e7\u00e3o de seu portador. Passou a evitar transmitir documentos confidenciais por email e ter conversas reservadas ao telefone. Come\u00e7ou a usar programas que mascaravam os sites que visita. Depois de ter sido abordada por Snowden em 2013, refor\u00e7ou ainda mais a sua seguran\u00e7a. Al\u00e9m de criptografar todos os emails mais delicados, come\u00e7ou a usar computadores diferentes, um para editar seu filme, outro para comunicar-se e mais um para ler documentos confidenciais (o computador usado para a leitura desses documentos nunca foi conectado \u00e0 internet).<\/p>\n<p>Essas precau\u00e7\u00f5es podem parecer paranoicas \u2013 e s\u00e3o descritas como &#8220;bastante extremas&#8221; por Laura \u2013, mas as pessoas que entrevistou para seu filme foram alvos do tipo de vigil\u00e2ncia e intercepta\u00e7\u00e3o que ela teme. <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/William_Binney_%28U.S._intelligence_official%29\" target=\"_new\"> William Binney<\/a> , antiga autoridade da NSA que acusou publicamente a ag\u00eancia de espionagem ilegal, estava em casa certo dia em 2007 quando agentes do FBI irromperam pela porta e apontaram armas para sua mulher, seu filho e ele pr\u00f3prio. No momento em que um agente entrou em seu banheiro e apontou o cano da arma para a sua cabe\u00e7a, Binney estava nu no chuveiro. Seus computadores, discos e arquivos pessoais foram confiscados e nunca mais devolvidos. Binney jamais foi formalmente acusado de crime algum.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jacob_Appelbaum\" target=\"_new\"> Jacob Appelbaum<\/a> , militante em defesa da privacidade que trabalhou como volunt\u00e1rio para a WikiLeaks, tamb\u00e9m participou do filme de Laura. O governo emitiu uma ordem secreta ao Twitter para obter acesso aos dados da conta de Appelbaum, ordem que se tornou p\u00fablica quando o Twitter resistiu a ela. Embora a empresa tenha acabado sendo for\u00e7ada a entregar as informa\u00e7\u00f5es, conseguiu permiss\u00e3o para comunicar o ocorrido a Appelbaum. A Google e um pequeno provedor que Appelbaum utilizava tamb\u00e9m receberam ordens secretas, e foram \u00e0 Justi\u00e7a para conseguir avis\u00e1-lo. Tal como Binney, Appelbaum jamais foi acusado de crime algum.<\/p>\n<p>Durante anos, Laura Poitras submeteu-se \u00e0s revistas em aeroportos queixando-se pouco em p\u00fablico, com medo de que seus protestos gerassem mais hostilidade da parte do governo, mas no ano passado ela chegou ao limite do que podia tolerar. Num interrogat\u00f3rio no Aeroporto de Newark, depois de uma viagem \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, disseram-lhe que n\u00e3o podia tomar notas. A conselho de advogados, ela sempre registrava os nomes dos agentes da imigra\u00e7\u00e3o, as perguntas que lhe faziam e todo o material que copiavam ou apreendiam. Dessa vez, um dos agentes amea\u00e7ou algem\u00e1-la se continuasse a escrever. Disseram-lhe que estava proibida de anotar qualquer coisa porque poderia usar sua caneta como arma.<\/p>\n<p>&#8220;Pedi que me trouxessem um l\u00e1pis de cera&#8221;, lembrou ela, &#8220;e ele disse que os l\u00e1pis de cera tamb\u00e9m estavam proibidos.&#8221;<\/p>\n<p>Laura foi conduzida a uma outra sala e interrogada por tr\u00eas agentes \u2013 um se postou atr\u00e1s dela, outro fazia as perguntas e o terceiro era um supervisor. &#8220;Aquilo durou talvez uma hora e meia&#8221;, contou ela. &#8220;Eu estava tomando nota das perguntas dele, ou tentando fazer isso, e come\u00e7aram a gritar comigo. Pedi que me mostrassem a lei que me proibia de fazer anota\u00e7\u00f5es. A\u00ed eles me disseram que quem fazia as perguntas eram eles. Foi um confronto muito agressivo e hostil.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Laura Poitras conheceu Glenn Greenwald em 2010, quando se interessou pelo trabalho dele sobre a WikiLeaks [na \u00e9poca Greenwald escrevia para o site Salon e defendeu a divulga\u00e7\u00e3o de documentos confidenciais feita por Julian Assange]. Em 2011, Laura esteve no Rio de Janeiro para entrevistar Greenwald para seu document\u00e1rio. Ele sabia das revistas a que ela era submetida, e j\u00e1 vinha lhe pedindo permiss\u00e3o para escrever a respeito. Depois do ocorrido em Newark, ela lhe deu luz verde.<\/p>\n<p>&#8220;Laura me disse que estava farta&#8221;, contou Greenwald. &#8220;Anotar tudo e documentar o que lhe acontecia era a \u00fanica forma que tinha de conservar alguma iniciativa, manter algum grau de controle sobre os fatos. Documentar \u00e9 a profiss\u00e3o dela. Acho que ela sentiu que lhe tiravam o \u00faltimo vest\u00edgio de seguran\u00e7a e controle que tinha na situa\u00e7\u00e3o, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, como um simples exerc\u00edcio arbitr\u00e1rio de poder.&#8221;<\/p>\n<p>O artigo &#8220;Cineasta americana repetidamente detida na fronteira&#8221; foi publicado por Greenwald no Salon em abril de 2012. Pouco depois, Laura parou de ser detida. Seis anos de persegui\u00e7\u00e3o e abusos, esperava ela, poderiam ter chegado ao fim.<\/p>\n<p>Laura Poitras n\u00e3o foi a primeira escolha de Snowden como destinat\u00e1ria dos milhares de documentos da NSA que ele decidiu vazar. Na verdade, um m\u00eas antes de fazer contato com ela, Snowden procurou Greenwald, que tinha escrito muitos artigos cr\u00edticos \u00e0s guerras no Iraque e no Afeganist\u00e3o e \u00e0 eros\u00e3o das liberdades civis americanas depois do 11 de Setembro. Snowden enviou a Greenwald um e-mail an\u00f4nimo falando que tinha documentos que pretendia compartilhar, seguido de um passo a passo sobre como criptografar os textos, mas Greenwald ignorou as mensagens. Snowden ent\u00e3o enviou ao rep\u00f3rter um link para um v\u00eddeo sobre criptografia, que tampouco teve resposta.<\/p>\n<p>&#8220;O programa de criptografia \u00e9 muito chato e complicado&#8221;, comentou Greenwald sentado em sua varanda durante uma chuvarada. &#8220;Ele continuava a insistir, mas acabou frustrado e decidiu procurar a Laura.&#8221;<\/p>\n<p>Snowden tinha lido o artigo de Greenwald sobre os problemas de Laura nos aeroportos americanos, e sabia que ela estava trabalhando num document\u00e1rio sobre os programas de espionagem do governo americano; tamb\u00e9m tinha visto um document\u00e1rio curto sobre a NSA que ela tinha feito para um f\u00f3rum online do <em> New York Times. <\/em> Imaginou que Laura fosse entender os programas que ele pretendia revelar ao p\u00fablico, e que tivesse a capacidade de comunicar-se com ele de maneira segura.<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Em mar\u00e7o, Laura Poitras tinha decidido que o estranho com quem vinha se comunicando era confi\u00e1vel. N\u00e3o encontrou o tipo de provoca\u00e7\u00e3o que esperaria de um agente do governo \u2013 nenhum pedido de informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s pessoas com quem mantinha contato, nenhuma pergunta sobre o que andava fazendo. Snowden lhe disse desde o primeiro momento que ela precisaria trabalhar com alguma outra pessoa, e que devia procurar Greenwald. Ela n\u00e3o sabia que Snowden j\u00e1 tinha tentado o contato com Greenwald \u2013 s\u00f3 ao encontrar-se com Snowden em Hong Kong, Greenwald se daria conta de que se tratava da mesma pessoa que o tinha procurado mais de seis meses antes.<\/p>\n<p>Houve surpresas para todos nessa troca de mensagens \u2013 inclusive para Snowden, que mais tarde responderia \u00e0s perguntas que lhe encaminhei por interm\u00e9dio de Laura. Em resposta \u00e0 pergunta sobre quando tinha sabido que podia confiar nela, ele escreveu: &#8220;Chegamos a um ponto no processo de checagem em que descobri que Laura desconfiava mais ainda de mim do que eu dela, e sou famoso pelo meu grau de paranoia.&#8221; Quando lhe perguntei sobre o sil\u00eancio inicial de Greenwald diante de seus pedidos e instru\u00e7\u00f5es sobre criptografia, Snowden respondeu: &#8220;Sei que os jornalistas s\u00e3o pessoas ocupadas e j\u00e1 imaginava que seria dif\u00edcil ser levado a s\u00e9rio, tendo em vista especialmente a escassez de detalhes que podia revelar num primeiro momento. Por outro lado, estamos em 2013, e ele \u00e9 um jornalista que escreve regularmente sobre o excesso de poder do Estado. Fiquei surpreso de ver que existem, nos \u00f3rg\u00e3os de imprensa, pessoas que n\u00e3o percebem que qualquer mensagem n\u00e3o criptografada enviada pela internet acaba nas m\u00e3os de todos os servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o do mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Em abril, Laura enviou um email a Greenwald dizendo que precisavam se encontrar pessoalmente. Por acaso ele estava nos Estados Unidos, participando de uma confer\u00eancia em Nova York, e os dois se encontraram no sagu\u00e3o do hotel dele. &#8220;Ela tomou muitos cuidados&#8221;, lembrou Greenwald. &#8220;Insistiu para eu n\u00e3o levar meu celular, pois eles podem ser monitorados remotamente pelo governo, mesmo desligados. Trazia todos os emails impressos, e lembro bem que, ao l\u00ea-los, tive a sensa\u00e7\u00e3o intuitiva de que era tudo verdade. A paix\u00e3o e a reflex\u00e3o por tr\u00e1s do que dizia Snowden \u2013 e \u00e0quela altura ainda n\u00e3o sab\u00edamos que ele era Snowden \u2013 eram palp\u00e1veis.&#8221;<\/p>\n<p>Greenwald instalou um programa de criptografia em seu computador, e come\u00e7ou a comunicar-se diretamente com o desconhecido. O trabalho era organizado como uma verdadeira opera\u00e7\u00e3o de espionagem, em que Laura atuava como mentora. &#8220;A seguran\u00e7a operacional era determinada por ela&#8221;, contou Greenwald. &#8220;Quais computadores eu devia usar, como devia me comunicar, como devia proteger a informa\u00e7\u00e3o, onde devia guardar c\u00f3pias, a quem devia entreg\u00e1-las e em quais lugares. Ela tem um entendimento altamente especializado de como fazer uma reportagem como essa com toda seguran\u00e7a t\u00e9cnica e operacional. Nada disso teria ocorrido com tanta efici\u00eancia e impacto se ela n\u00e3o tivesse trabalhado comigo em todos os aspectos, e na verdade n\u00e3o tivesse respondido pela coordena\u00e7\u00e3o da maior parte do trabalho.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Snowden come\u00e7ou a passar os documentos para os dois. Laura n\u00e3o quis me contar o momento exato em que isso ocorreu; disse que n\u00e3o quer dar ao governo informa\u00e7\u00f5es que possam ser usadas num processo contra Snowden ou ela pr\u00f3pria. Em seguida, Snowden lhe disse que logo estaria pronto para ter um encontro com eles. Quando Laura lhe perguntou se devia planejar uma viagem de carro ou de trem, Snowden respondeu que se preparasse para tomar um avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em maio, ele mandou novas mensagens criptografadas, dizendo a Laura e a Greenwald para irem a Hong Kong. Greenwald tomou um avi\u00e3o do Rio para Nova York, onde Laura o encontrou para uma s\u00e9rie de reuni\u00f5es com o editor da vers\u00e3o americana do <em> Guardian. <\/em> Com a reputa\u00e7\u00e3o do jornal em jogo, o editor lhes pediu que levassem com eles um rep\u00f3rter veterano, Ewen MacAskill. Em 1\u00ba de junho o trio embarcou num voo de dezesseis horas entre Nova York e Hong Kong.<\/p>\n<p>Snowden tinha enviado uma quantidade pequena de documentos a Greenwald, uns vinte no total, mas Laura havia recebido uma leva bem maior, que ainda n\u00e3o tivera a oportunidade de ler com a devida aten\u00e7\u00e3o. A bordo do avi\u00e3o, Greenwald come\u00e7ou a examin\u00e1-los, chegando depois de algum tempo a uma ordem judicial secreta exigindo que a companhia telef\u00f4nica Verizon entregasse \u00e0 NSA os registros telef\u00f4nicos de seus clientes. A ordem judicial, de quatro p\u00e1ginas, tinha sido emitida pelo Tribunal de Vigil\u00e2ncia de Intelig\u00eancia Estrangeira, \u00f3rg\u00e3o cujas decis\u00f5es s\u00e3o secretas [o tribunal foi criado pela Lei de Vigil\u00e2ncia de Intelig\u00eancia Estrangeira, FISA na sigla em ingl\u00eas, para autorizar escutas que envolvessem cidad\u00e3os americanos]. Embora corressem boatos de que a NSA vinha reunindo imensas quantidades de registros telef\u00f4nicos nos Estados Unidos, o governo sempre havia negado o fato.<\/p>\n<p>Laura, sentada vinte fileiras atr\u00e1s de Greenwald, acabou indo at\u00e9 a dianteira para conversar sobre o que ele estava lendo. Enquanto o passageiro a seu lado dormia, Greenwald apontou para a ordem da FISA em seu monitor e perguntou a Laura: &#8220;Voc\u00ea viu isto? Este documento diz mesmo o que eu acho que diz?&#8221;<\/p>\n<p>Em alguns momentos, os dois conversaram com tanta empolga\u00e7\u00e3o que acabaram perturbando os passageiros que tentavam dormir; ent\u00e3o decidiram sossegar. &#8220;Foi um momento incr\u00edvel&#8221;, disse Greenwald. &#8220;S\u00f3 quando voc\u00ea examina esses documentos \u00e9 que tem uma ideia do seu alcance. Foi um banho de adrenalina. Pela primeira vez, voc\u00ea sente que tem poder diante de um sistema descomunal que voc\u00ea tenta minar e expor \u2013 mas geralmente n\u00e3o consegue avan\u00e7ar muito, porque n\u00e3o tem instrumentos para isso. Agora os instrumentos tinham ca\u00eddo no nosso colo.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Snowden havia recomendado que, em Hong Kong, Greenwald e Laura fossem numa determinada hora at\u00e9 o distrito de Kowloon, parando na porta de um restaurante num centro comercial ligado ao hotel Mira. Ali, teriam que ficar esperando at\u00e9 aparecer um homem carregando um cubo m\u00e1gico <a href=\"http:\/\/resistir.info\/brasil\/saga_poitras.html#notas\">[1]<\/a> , e ent\u00e3o deveriam perguntar a ele a que horas o restaurante abriria. O homem responderia, mas ent\u00e3o lhes diria que a comida era ruim. Quando o homem com o cubo m\u00e1gico apareceu, era Edward Snowden, que tinha 29 anos na ocasi\u00e3o, mas parecia ainda mais novo.<\/p>\n<p>&#8220;Quase ca\u00edmos para tr\u00e1s quando vimos como era jovem&#8221;, contou Laura, ainda com surpresa na voz. &#8220;Eu n\u00e3o fazia ideia. Imaginei que estivesse lidando com algu\u00e9m que ocupasse uma alta posi\u00e7\u00e3o, e portanto fosse mais velho. Mas eu tamb\u00e9m sabia, a partir da nossa correspond\u00eancia, que era uma pessoa com um conhecimento incr\u00edvel de sistemas de computador, o que me fazia imagin\u00e1-lo um pouco mais jovem. Ent\u00e3o eu imaginava uma pessoa com uns 40 e poucos anos, algu\u00e9m acostumado a usar computadores a vida toda, mas que j\u00e1 tivesse chegado a um cargo superior.&#8221;<\/p>\n<p>Em nossa troca de mensagens criptografadas, Snowden tamb\u00e9m comentou o encontro: &#8220;Acho que ficaram decepcionados ao ver que eu era mais jovem do que esperavam, e eu fiquei decepcionado ao v\u00ea-los chegar um pouco antes da hora, o que complicou a checagem inicial. Assim que nos vimos num lugar fechado, por\u00e9m, acho que as precau\u00e7\u00f5es obsessivas e a evidente boa-f\u00e9 do que era dito deixaram todo mundo mais tranquilo.&#8221;<\/p>\n<p>Os dois acompanharam Snowden at\u00e9 o quarto dele, onde Laura sacou a sua c\u00e2mera, assumindo de imediato seu papel de documentarista. &#8220;Eu estava um pouco tenso, um pouco desconfort\u00e1vel&#8221;, contou Greenwald sobre esses minutos iniciais. &#8220;N\u00f3s nos sentamos, e come\u00e7amos a bater papo, enquanto Laura imediatamente armava a sua c\u00e2mera. Assim que ela ligou o aparelho, eu me lembro muito claramente que tanto ele quanto eu ficamos completamente retesados.&#8221;<\/p>\n<p>Greenwald come\u00e7ou a entrevista. &#8220;Eu queria verificar a coer\u00eancia do que ele dizia, e obter o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, pois sabia que aquilo poderia afetar a minha credibilidade. S\u00f3 conseguimos estabelecer uma conex\u00e3o natural depois das primeiras cinco ou seis horas.&#8221;<\/p>\n<p>Para Laura, a c\u00e2mera certamente afeta o comportamento das pessoas, mas n\u00e3o de uma forma negativa. Quando algu\u00e9m concorda em ser filmado \u2013 mesmo que o consentimento seja obtido de forma indireta, quando ela liga a c\u00e2mera \u2013, isso \u00e9 um gesto de confian\u00e7a que sempre aumenta a voltagem emocional da ocasi\u00e3o. O que Greenwald viveu como um momento de tens\u00e3o, Laura percebeu como um la\u00e7o especial entre eles, que passaram a compartilhar um risco imenso. &#8220;\u00c9 uma emo\u00e7\u00e3o muito concreta quando voc\u00ea v\u00ea que confiam em voc\u00ea&#8221;, disse ela.<\/p>\n<p>Snowden, embora surpreendido, acabou se acostumando. &#8220;Como se pode imaginar, os espi\u00f5es normalmente s\u00e3o al\u00e9rgicos a qualquer contato com rep\u00f3rteres ou a imprensa, de maneira que eu era uma fonte virgem \u2013 tudo era surpresa para mim&#8230; Mas n\u00f3s tr\u00eas sab\u00edamos bem o que estava em jogo. Na verdade, o peso da situa\u00e7\u00e3o tornou mais f\u00e1cil nos concentrarmos no interesse p\u00fablico, e n\u00e3o no nosso. Acho que todos entendemos que, depois que Laura ligou a c\u00e2mera, n\u00e3o havia mais como voltar atr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>Pela semana seguinte, os preparativos dos tr\u00eas obedeciam ao mesmo padr\u00e3o \u2013 assim que entravam no quarto de Snowden, tiravam as baterias dos celulares e os guardavam no frigobar do quarto. Colocavam travesseiros encostados na porta, para impedir que algo pudesse ser ouvido do lado de fora, e ent\u00e3o Laura armava a c\u00e2mera e come\u00e7ava a filmar. Era importante para Snowden explicar logo aos dois de que maneira funcionava a m\u00e1quina de espionagem do governo americano porque ele temia ser preso a qualquer instante.<\/p>\n<p>As primeiras reportagens de Greenwald \u2013 incluindo a primeira, relatando a ordem judicial recebida pela Verizon que ele leu no voo para Hong Kong \u2013 foram publicadas enquanto Snowden ainda estava sendo entrevistado por ele e Laura. O que deu origem a uma experi\u00eancia muito peculiar, a de criarem juntos uma not\u00edcia e depois poderem assistir enquanto ela se espalhava. &#8220;Era poss\u00edvel acompanhar a repercuss\u00e3o&#8221;, contou Laura. &#8220;Nosso trabalho era muito concentrado, e exigia nossa aten\u00e7\u00e3o, mas pod\u00edamos ver pela tev\u00ea que estava dando certo. Est\u00e1vamos naquele c\u00edrculo fechado, e sab\u00edamos das reverbera\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa volta, elas podiam ser vistas e sentidas.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Snowden lhes tinha dito, antes da chegada dos dois a Hong Kong, que queria revelar quem era. Ele queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, contou Laura, e n\u00e3o queria que outros fossem injustamente visados. Tamb\u00e9m imaginava que em algum momento acabaria sendo identificado. Laura produziu um v\u00eddeo de doze minutos e meio com Snowden que foi postado na internet no dia 9 de junho, poucos dias depois da publica\u00e7\u00e3o dos primeiros artigos de <em> Greenwald. <\/em> A partir da\u00ed, armou-se um verdadeiro circo midi\u00e1tico em Hong Kong, com rep\u00f3rteres fazendo o imposs\u00edvel para descobrir o paradeiro dos tr\u00eas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma s\u00e9rie de assuntos sobre os quais Laura Poitras preferiu n\u00e3o conversar comigo <em> on the record <\/em> (para publica\u00e7\u00e3o), e outros que sequer aceitou abordar \u2013 alguns por raz\u00f5es de seguran\u00e7a ou de ordem legal, outros porque quer ser a primeira a contar partes cruciais de sua hist\u00f3ria em seu pr\u00f3prio document\u00e1rio. Sobre a maneira como ela e Snowden se despediram depois da postagem do v\u00eddeo, ela s\u00f3 me disse o seguinte: &#8220;Eu e ele sab\u00edamos que, quando o v\u00eddeo fosse divulgado, aquela etapa do trabalho estaria encerrada.&#8221;<\/p>\n<p>Snowden deixou seu hotel e desapareceu. Alguns rep\u00f3rteres descobriram onde Laura estava hospedada \u2013 ela e Greenwald estavam em hot\u00e9is diferentes \u2013 e come\u00e7aram a ligar para o quarto dela. A certa altura, algu\u00e9m bateu \u00e0 porta e a chamou pelo nome. Ela j\u00e1 sabia que Greenwald tamb\u00e9m tinha sido localizado, ent\u00e3o ligou para a seguran\u00e7a do hotel e pediu que acompanhassem sua sa\u00edda por uma porta dos fundos.<\/p>\n<p>Laura ainda tentou permanecer mais um tempo em Hong Kong, achando que Snowden poderia querer tornar a v\u00ea-la, e tamb\u00e9m porque estava interessada em filmar a rea\u00e7\u00e3o dos chineses \u00e0s revela\u00e7\u00f5es dele. Mas agora ela pr\u00f3pria tinha se tornado alvo de interesse. No dia 15 de junho, enquanto filmava uma manifesta\u00e7\u00e3o a favor de Snowden na porta do consulado dos Estados Unidos, Laura foi reconhecida por um rep\u00f3rter da CNN, que come\u00e7ou a lhe fazer perguntas. Ela recusou-se a responder e escapuliu dali. Na mesma noite, deixou Hong Kong.<\/p>\n<p>Laura voou diretamente para Berlim, onde no segundo semestre do ano passado tinha alugado um apartamento para editar seu document\u00e1rio sem medo de que o FBI pudesse aparecer a qualquer momento com um mandado de busca dos seus discos r\u00edgidos. &#8220;Constantemente fa\u00e7o uma distin\u00e7\u00e3o entre os lugares onde sinto que posso ter privacidade ou n\u00e3o&#8221;, disse ela, &#8220;e essa linha est\u00e1 ficando cada vez mais estreita.&#8221; E acrescentou: &#8220;N\u00e3o vou parar o que estou fazendo, mas preferi deixar os Estados Unidos. Literalmente, senti que n\u00e3o tinha meios de proteger meu material no pa\u00eds, e isso antes ainda de ser procurada por Snowden. Se voc\u00ea promete a algu\u00e9m que vai proteg\u00ea-lo como sua fonte, mas sabe que o governo est\u00e1 monitorando voc\u00ea ou pode apreender seu laptop, acaba sendo imposs\u00edvel fazer isso.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Depois de duas semanas em Berlim, Laura Poitras viajou para o Rio de Janeiro, onde estive com ela e Greenwald alguns dias mais tarde. Minha primeira parada foi o hotel, em Copacabana, onde estavam trabalhando naquele dia com MacAskill e outro rep\u00f3rter do <em> Guardian, <\/em> James Ball. Laura estava editando um novo v\u00eddeo sobre Snowden para ser postado dali a alguns dias no website do <em> Guardian. <\/em> Greenwald trabalhava em outro artigo de imenso interesse, dessa vez sobre a colabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre a Microsoft e a NSA. O quarto estava cheio \u2013 n\u00e3o havia cadeiras suficientes para todos, e sempre havia algu\u00e9m sentado na cama ou no ch\u00e3o. Uma grande quantidade de pen drives circulava entre os presentes, embora ningu\u00e9m me tenha dito o que continham.<\/p>\n<p>Laura e Greenwald estavam preocupados com Snowden. N\u00e3o tinham not\u00edcias dele desde Hong Kong. \u00c0quela altura, ele estava retido num limbo diplom\u00e1tico na \u00e1rea de passageiros em tr\u00e2nsito do Aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, e era o homem mais procurado do planeta, acusado pelo governo dos Estados Unidos de espionagem. (Mais tarde, os russos lhe concederiam asilo tempor\u00e1rio.) O v\u00eddeo em que Laura vinha trabalhando, usando material gravado em Hong Kong, seria a primeira imagem que o mundo veria de Snowden em mais de um m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;Agora que ele est\u00e1 incomunic\u00e1vel, nem sabemos se voltaremos a falar com ele alguma vez&#8221;, disse Laura.<\/p>\n<p>&#8220;E ele est\u00e1 bem?&#8221;, perguntou MacAskill.<\/p>\n<p>&#8220;O advogado dele disse que sim&#8221;, respondeu Greenwald.<\/p>\n<p>&#8220;Mas o advogado n\u00e3o est\u00e1 em contato direto com Snowden&#8221;, lembrou Laura.<\/p>\n<p>Quando Greenwald chegou em casa naquela noite, Snowden entrou em contato com ele pela internet. Dois dias mais tarde, enquanto trabalhava na casa de Greenwald, Laura tamb\u00e9m teve not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>Anoitecia, e gritos de animais e pios de aves vinham da mata em volta da casa. A esses sons se misturaram os latidos de cinco ou seis cachorros quando atravessei o port\u00e3o de entrada. Por uma das janelas, vi Laura na sala, concentrada num dos seus computadores. Passei por uma porta de tela, ela olhou para mim por um segundo e voltou ao trabalho, indiferente \u00e0 cacofonia \u00e0 sua volta. Ao final de dez minutos, fechou seu computador e murmurou um pedido de desculpas, dizendo que precisava tomar algumas provid\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00e3o demonstrava nenhuma emo\u00e7\u00e3o, nem me disse que acabara de trocar mensagens cifradas com Snowden. Eu n\u00e3o insisti, mas alguns dias mais tarde, depois que voltei para Nova York e ela seguiu para Berlim, perguntei se era isso que estava fazendo naquela noite. Ela confirmou, mas comentou que n\u00e3o quis falar a respeito na ocasi\u00e3o porque, quanto mais ela fala sobre suas intera\u00e7\u00f5es com Snowden, mais se sente distante delas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma experi\u00eancia emocional muito singular&#8221;, disse Laura, &#8220;ser procurada por um completo desconhecido que lhe diz que vai arriscar a vida para expor coisas que o p\u00fablico precisa saber. Ele estava pondo a sua vida na reta, e decidiu confiar esse fardo a mim. Eu quero conservar uma rela\u00e7\u00e3o emocional com essa experi\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Sua liga\u00e7\u00e3o com Snowden e com o material, continuou a explicar, \u00e9 o que vai conduzir o seu trabalho. &#8220;Me sinto tocada pelo que ele v\u00ea como o horror do mundo de hoje, e o que imagina que ainda pode acontecer. E quero passar isso adiante com o m\u00e1ximo de resson\u00e2ncia poss\u00edvel. Se eu fosse ficar dando entrevistas intermin\u00e1veis para a tev\u00ea, \u00e9 o tipo de coisa que me afastaria daquilo a que preciso me manter ligada. N\u00e3o se trata s\u00f3 de um furo de reportagem. \u00c9 a vida de uma pessoa.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">Laura Poitras e Glenn Greenwald s\u00e3o exemplos especialmente dram\u00e1ticos de como atua o jornalismo independente em 2013. Nem uma nem o outro trabalham numa reda\u00e7\u00e3o, e fazem quest\u00e3o de controlar pessoalmente tudo que \u00e9 publicado, e em qual momento. Quando o <em> Guardian <\/em> n\u00e3o publicou com a presteza que esperavam o primeiro artigo tratando da Verizon, Greenwald cogitou dar outro destino ao texto, mandando uma c\u00f3pia criptografada para um colega que trabalha em outro ve\u00edculo. Ele tamb\u00e9m pensou em criar um website no qual poderiam publicar tudo, que planejou batizar de NSA Disclosures, algo como Revela\u00e7\u00f5es da NSA. No final, o <em> Guardian <\/em> decidiu publicar seus artigos. Mas Laura e Greenwald criaram uma rede pr\u00f3pria de divulga\u00e7\u00e3o, com reportagens em outros ve\u00edculos na Alemanha e no Brasil, que planejam diversificar ainda mais no futuro. Eles n\u00e3o compartilharam com ningu\u00e9m a totalidade dos documentos que det\u00eam.<\/p>\n<p>&#8220;Temos parcerias com \u00f3rg\u00e3os noticiosos, mas achamos que nossa responsabilidade prim\u00e1ria \u00e9 para com o risco que nossa fonte correu e o interesse p\u00fablico da informa\u00e7\u00e3o que nos entregou&#8221;, afirmou Laura. &#8220;Um \u00f3rg\u00e3o de imprensa qualquer s\u00f3 figura na nossa lista depois disso.&#8221;<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de muitos rep\u00f3rteres da grande imprensa, nem Laura nem Greenwald ostentam uma fachada de indiferen\u00e7a pol\u00edtica. Faz anos que Greenwald n\u00e3o tem papas na l\u00edngua; no Twitter, respondeu recentemente a algu\u00e9m que o criticou dizendo: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 um imbecil completo. E sabe disso, n\u00e3o \u00e9?&#8221; Suas opini\u00f5es pol\u00edticas de esquerda, combinadas a seu estilo cortante, o tornaram malquisto por muita gente no establishment pol\u00edtico. Seu trabalho com Laura \u00e9 tachado de militante e nocivo \u00e0 seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Laura, embora n\u00e3o seja t\u00e3o dada \u00e0 pol\u00eamica quanto Greenwald, discorda da ideia de que o trabalho dos dois seja milit\u00e2ncia. &#8220;Claro que eu tenho as minhas opini\u00f5es&#8221;, disse ela. &#8220;Quer saber se eu acho que a vigil\u00e2ncia do Estado est\u00e1 fora de controle? Acho. \u00c9 uma coisa assustadora, e \u00e9 bom mesmo que as pessoas fiquem com medo. Temos um governo paralelo e secreto que n\u00e3o para de crescer, invocando sempre a seguran\u00e7a nacional e sem a supervis\u00e3o ou a discuss\u00e3o nacional que se imaginariam necess\u00e1rias numa democracia. E n\u00e3o estou dizendo isso por milit\u00e2ncia. Temos documentos que confirmam tudo.&#8221;<\/p>\n<p>Laura possui uma habilidade que \u00e9 vital \u2013 e ainda rara entre os jornalistas \u2013 numa era em que a espionagem oficial \u00e9 t\u00e3o corriqueira: ela sabe se proteger do monitoramento. Como disse Snowden, &#8220;a partir do que est\u00e1 sendo revelado neste ano, fica muito claro que toda comunica\u00e7\u00e3o desprotegida entre jornalista e fonte configura um descuido imperdo\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Uma nova gera\u00e7\u00e3o de fontes, como Snowden ou Bradley Manning [o soldado que vazou documentos para a WikiLeaks], tem acesso n\u00e3o apenas a um punhado de segredos, mas a milhares de uma vez, gra\u00e7as \u00e0 sua capacidade de colet\u00e1-los em redes protegidas. Essas fontes preferem compartilhar seus segredos n\u00e3o com os maiores ve\u00edculos e seus rep\u00f3rteres, mas com rep\u00f3rteres com quem tenham afinidade pol\u00edtica e consigam receber os vazamentos sem que ningu\u00e9m perceba.<\/p>\n<p>No chat que mantive com ele, uma troca de mensagens criptografadas em tempo real, Snowden explicou por que resolveu procurar Laura: &#8220;Laura e Glenn est\u00e3o entre os poucos que investigaram assuntos pol\u00eamicos de maneira destemida por todo esse per\u00edodo, mesmo enfrentando cr\u00edticas pessoais, que no caso de Laura acabaram por transform\u00e1-la em alvo dos mesmos programas envolvidos nas revela\u00e7\u00f5es recentes. Ela demonstrou ter a coragem, a experi\u00eancia pessoal e a capacidade necess\u00e1rias para lidar com o que talvez seja a miss\u00e3o mais perigosa que um jornalista pode receber \u2013 revelar malfeitos secretos do governo mais poderoso do mundo. Por isso, era uma escolha \u00f3bvia.&#8221;<\/p>\n<hr width=\"5%\" \/>\n<p align=\"justify\">As revela\u00e7\u00f5es de Snowden se converteram no centro do document\u00e1rio de Laura Poitras sobre vigil\u00e2ncia e espionagem, mas ela tamb\u00e9m se viu envolvida numa din\u00e2mica nova, pois n\u00e3o tem como evitar figurar como personagem em seu pr\u00f3prio filme. Ela nunca narrou seus filmes anteriores nem apareceu neles, e diz que pretende continuar agindo assim, mas percebe que precisar\u00e1 ser representada de alguma forma, e vem se perguntando de que maneira poder\u00e1 faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Laura vem avaliando sua vulnerabilidade jur\u00eddica. Ela e Greenwald ainda n\u00e3o foram acusados de nada, pelo menos at\u00e9 agora. Os dois n\u00e3o pretendem ficar fora dos Estados Unidos para sempre, mas nenhum dos dois tem planos imediatos de retorno ao pa\u00eds. Um membro do Congresso j\u00e1 comparou o que os dois fizeram a uma forma de trai\u00e7\u00e3o, e ambos est\u00e3o muito conscientes da persegui\u00e7\u00e3o sem precedentes, no governo Obama, n\u00e3o s\u00f3 aos respons\u00e1veis por vazamentos de informa\u00e7\u00f5es como aos jornalistas que recebem esses vazamentos. Enquanto estive com eles, falaram sobre as possibilidades de volta. Greenwald diz que prend\u00ea-los seria pouco inteligente da parte do governo, pela p\u00e9ssima publicidade que isso produziria. Al\u00e9m disso, n\u00e3o deteria o fluxo de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ele falou quando volt\u00e1vamos para sua casa de t\u00e1xi, ao final de um dia cheio. Estava escuro do lado de fora. Greenwald perguntou a Laura: &#8220;Desde que isso tudo come\u00e7ou, voc\u00ea teve algum dia sem NSA?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E o que \u00e9 isso?&#8221;, perguntou ela.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que a gente est\u00e1 precisando de um dia assim&#8221;, disse Greenwald. &#8220;N\u00e3o que v\u00e1 conseguir tirar.&#8221;<\/p>\n<p>Laura falou em voltar \u00e0s aulas de ioga. Greenwald disse que pretendia retomar sua pr\u00e1tica regular de t\u00eanis. &#8220;Estou disposto a ficar velho por causa dessa hist\u00f3ria&#8221;, disse ele, &#8220;mas n\u00e3o a ficar gordo.&#8221;<\/p>\n<p>A conversa entre os dois desviou-se para a quest\u00e3o da volta aos Estados Unidos. Greenwald disse, meio em tom de brincadeira, que se fosse preso a WikiLeaks seria a pr\u00f3xima a publicar os documentos da NSA. &#8220;Eu s\u00f3 precisaria dizer: &#8216;Ent\u00e3o t\u00e1, esse aqui \u00e9 o meu amigo Julian Assange, que vai ficar no meu lugar. Divirtam-se lidando com ele.'&#8221;<\/p>\n<p>E Laura lhe perguntou: &#8220;Quer dizer que voc\u00ea vai voltar aos Estados Unidos?&#8221;<\/p>\n<p>Ele riu e lembrou que, infelizmente, o governo nem sempre tomava as decis\u00f5es mais sensatas. &#8220;Se eles tivessem ju\u00edzo&#8221;, respondeu, &#8220;eu voltaria.&#8221;<\/p>\n<p>Laura sorriu, muito embora o assunto seja dif\u00edcil para ela. Laura n\u00e3o \u00e9 uma pessoa t\u00e3o expansiva ou relaxada quanto Greenwald, o que torna ainda mais inusitada a qu\u00edmica da dupla. Ela se preocupa com a seguran\u00e7a f\u00edsica dos dois. E tamb\u00e9m se preocupa, claro, com a espionagem. &#8220;A sua localiza\u00e7\u00e3o no planeta \u00e9 o mais importante de tudo&#8221;, diz ela. &#8220;Eu quero ficar o m\u00e1ximo que puder fora da \u00e1rea de cobertura deles. N\u00e3o pretendo facilitar as coisas para eles. Se quiserem me seguir, v\u00e3o ter de dar duro. N\u00e3o vou ficar por a\u00ed piscando em qualquer GPS. O lugar onde eu estou \u00e9 importante para mim. Importante de um modo novo, que antes eu n\u00e3o conhecia.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente com raiva dos dois, e muitos governos, al\u00e9m de entidades particulares, que n\u00e3o se incomodariam nem um pouco em p\u00f4r a m\u00e3o nos milhares de documentos da NSA que a dupla ainda controla. Os dois publicaram apenas um punhado deles \u2013 um punhado top secret, capaz de gerar manchetes e audi\u00eancias no Congresso \u2013, e parece pouco prov\u00e1vel que um dia venham a publicar tudo, ao estilo da WikiLeaks. Laura e Greenwald continuam guardando mais segredos do que revelam, pelo menos por enquanto.<\/p>\n<p>&#8220;Temos uma janela aberta para esse mundo que ainda estamos tentando entender&#8221;, disse Laura Poitras numa das nossas \u00faltimas conversas. &#8220;N\u00e3o queremos manter tudo secreto, mas montar o quebra-cabe\u00e7a. \u00c9 um projeto que vai levar tempo. Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 revelar o que tiver interesse p\u00fablico, mas tamb\u00e9m adquirir uma boa compreens\u00e3o do que seja esse mundo, e ent\u00e3o tentar torn\u00e1-lo conhecido.&#8221;<\/p>\n<p>O paradoxo mais profundo, claro, \u00e9 que o esfor\u00e7o que os dois v\u00eam fazendo para compreender e denunciar a espionagem governamental pode ter condenado os dois a serem perpetuamente monitorados.<\/p>\n<p>&#8220;Nossas vidas nunca mais v\u00e3o ser as mesmas&#8221;, disse Laura. &#8220;N\u00e3o sei se algum dia vou conseguir morar em algum lugar e sentir que tenho privacidade. Isso pode ter se tornado totalmente imposs\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Setembro\/2013 <a name=\"notas\"><\/a> [1] Refere-se ao Cubo de Rubik.<\/p>\n<p><strong> O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-84\/anais-da-espionagem-i\/mande-sua-chave\" target=\"_new\"> revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-84\/anais-da-espionagem-i\/mande-sua-chave<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong> Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/brasil\/saga_poitras.html<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor Peter Maass\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7604\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7604","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1YE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}