{"id":7670,"date":"2015-04-09T01:18:04","date_gmt":"2015-04-09T01:18:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7670"},"modified":"2015-04-09T01:18:04","modified_gmt":"2015-04-09T01:18:04","slug":"jean-salem-e-a-cultura-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7670","title":{"rendered":"Jean Salem e a cultura integral"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi recentemente publicado um livro-entrevista de Jean Salem (\u201cResistances\u201d). Livro importante e bel\u00edssimo que traduz, em ritmo alucinante, uma reflex\u00e3o permanente sobre a aventura humana, o pensamento, o quotidiano, o amor, a ideia de revolu\u00e7\u00e3o, a arte, a diversidade das culturas, a procura da felicidade poss\u00edvel. O pensamento de Jean Salem \u00e9 uma not\u00e1vel confirma\u00e7\u00e3o da vitalidade e actualidade do marxismo. N\u00e3o de um marxismo acad\u00e9mico, mas do marxismo reflectido por um acad\u00e9mico que \u00e9 tamb\u00e9m um revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Desde a Antiguidade apareceram homens que conceberam a ideia do estado Universal. Os primeiros foram o persa D\u00e1rio e o maced\u00f3nio Alexandre.<\/p>\n<p>Muito mais numerosos foram aqueles para os quais a tenta\u00e7\u00e3o do saber absoluto foi tema de medita\u00e7\u00e3o. Num livro importante e bel\u00edssimo, que deveria ser editado em muitas l\u00ednguas, o assunto \u00e9 aflorado de passagem por Jean Salem.<\/p>\n<p>\u00c9 um estranho livro-entrevista, resumo de uma conversa de muitos dias com Aym\u00e9ric Monville*.<\/p>\n<p>Jean Salem evoca a sua vida desde a inf\u00e2ncia em Argel, a adolesc\u00eancia na Proven\u00e7a, tutelado por uma av\u00f3 e uma tia idosas (quando o pai, Henri Alleg, estava preso por ter dirigido um jornal que defendia a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia), a passagem por Praga e Ivanovo, na URSS, um breve regresso a Argel e, depois, em Paris, patamar de uma fascinante corrida pela vida e pelo mundo.<\/p>\n<p>Em Confessions, Rousseau afirma no pre\u00e2mbulo que ningu\u00e9m antes ter\u00e1 ido t\u00e3o longe ao revelar-se, exibindo-se sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Exagerou. Muitos abriram -se mais. Entre eles, transcorridos dois s\u00e9culos, Jean Salem, um intelectual muito diferente do autor do Contrato Social.<\/p>\n<p>Resistances \u00e9, em ritmo alucinante, uma reflex\u00e3o permanente sobre a aventura humana, o pensamento, o quotidiano, o amor, a ideia de revolu\u00e7\u00e3o, a arte, a diversidade das culturas, a procura da felicidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>No seu di\u00e1logo com Aym\u00e9ric Monville, Salem confessa-se sem pudor. Quase polemiza, n\u00e3o obstante convergirem quase permanentemente. Aym\u00e9ric \u00e9 tamb\u00e9m fil\u00f3sofo e marxista e os temas abordados inserem- se no seu mundo interior.<\/p>\n<p>A chuva de cita\u00e7\u00f5es, a refer\u00eancia a dezenas de autores, cl\u00e1ssicos e n\u00e3o cl\u00e1ssicos (elogio e reparo), quase perturba. A erudi\u00e7\u00e3o \u00e9 torrencial; o leitor sente dificuldade em acompanhar Salem nas suas transposi\u00e7\u00f5es. De Epicuro passa a Alexandre, de Lucr\u00e9cio, Petr\u00f3nio e C\u00edcero a autores do nosso tempo, com Maupassant &#8211; um escritor \u00absublime\u00bb para Salem &#8211; atravessando Resistances como refer\u00eancia incontorn\u00e1vel. Na cr\u00edtica a Marchais invoca Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos cap\u00edtulos sobre o amor, muito densos, Jean mergulha o presente no passado para iluminar a rela\u00e7\u00e3o amorosa numa contemporaneidade em transi\u00e7\u00e3o para um futuro imprevis\u00edvel. Casado durante mais de um quarto de seculo e divorciado, continua a perseguir o amor (e a felicidade epicuriana) com uma tenacidade invulgar.<\/p>\n<p>Epicuro, Dem\u00f3crito e o disc\u00edpulo romano Lucr\u00e9cio n\u00e3o abrem portas \u00e0 deprava\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Mas desaconselham a monogamia, enaltecida pelo romantismo como virtude no amor. Na procura da felicidade, optam pela amiti\u00e9 amoureuse e desaprovam a paix\u00e3o e a entrega permanente e exclusiva a uma \u00fanica parceira ao longo da vida.<\/p>\n<p>Por que optou Salem pela filosofia grega para tema? Ele esclarece. Pensou inicialmente em Marx, mas, que iria produzir de inovador se j\u00e1 havia 6000 teses sobre o autor de O Capital?<\/p>\n<p>Na \u00e9poca o comunismo na universidade francesa era olhado como velharia obsoleta. Dedicou-se ent\u00e3o aos cl\u00e1ssicos. Estudou grego, latim e inclusive o idioma dos Egipto fara\u00f3nico. E tomou a decis\u00e3o de escrever a sua tese sobre os materialistas gregos que lhe surgiram como precursores do marxismo.<\/p>\n<p>SIONISMO E MARX NA SORBONNE<\/p>\n<p>Filho e neto, por via materna e paterna, de judeus comunistas, Salem, foi desde a juventude aquilo a que Trotsky chamou \u00abum judeu n\u00e3o judeu\u00bb. Mas tendo passado a inf\u00e2ncia e o in\u00edcio da adolesc\u00eancia em Fran\u00e7a, a av\u00f3 mostrou-lhe a estrela hebraica, que era obrigada a usar na \u00e9poca de P\u00e9tain. N\u00e3o foi f\u00e1cil a sua conviv\u00eancia com a tem\u00e1tica do sionismo quando o estado de Israel se implantou na Palestina. S\u00e3o belas as p\u00e1ginas em que evoca a evolu\u00e7\u00e3o da sua postura perante o problema at\u00e9 \u00e0 condena\u00e7\u00e3o frontal da engrenagem que exerce hoje o poder naquela monstruosa sociedade teocr\u00e1tica neofascista.<\/p>\n<p>Alguns dos cap\u00edtulos mais interessantes de Resistances s\u00e3o aqueles em que Salem, no seu di\u00e1logo com Am\u00e9ric Monville, recorda o desafio vitorioso que foi a cria\u00e7\u00e3o na Sorbonne do Semin\u00e1rio \u00abMarx no Seculo XXI\u00bb.<\/p>\n<p>Quando surgiu a ideia, a maioria dos seus amigos e camaradas concluiu que o projeto n\u00e3o tinha pernas para andar.<\/p>\n<p>Era um tremendo desafio fazer renascer na viragem do s\u00e9culo o interesse pelo marxismo num pa\u00eds em que a grande maioria dos antigos intelectuais comunistas, em cambalhotas de oportunismo, tinha evolu\u00eddo para uma ades\u00e3o mais ou menos explicita ao capitalismo.<\/p>\n<p>Jean Salem enfrentou-o e venceu. O Semin\u00e1rio, semanal, em que exerce o papel de organizador e moderador, alcan\u00e7ou um prest\u00edgio inesperado. Assistem a cada sess\u00e3o 150 a 200 pessoas e \u00e9 acompanhado na Internet por aproximadamente 30 000. Por ali desfilaram j\u00e1 acad\u00e9micos marxistas de m\u00faltiplas tend\u00eancias, algumas quase incompat\u00edveis. Entre eles, Domenico Losurdo, Remy Herrera, David Harvey, Slavoj Zizek, Alain Badiou, Michel Lowy, Samir Amin, Enrique Dussel, Andr\u00e9 Tosel, Anni de Lacroix Riz e um gigante j\u00e1 falecido, Georges Labica.<\/p>\n<p>A DESER\u00c7\u00c3O DA \u00abESQUERDA\u00bb, O FIM DA URSS E O IDEAL COMUNISTA<\/p>\n<p>A IV Parte, dedicada a Politica e Ideologia \u00e9 a mais pol\u00e9mica pela reflex\u00e3o de Salem sobre a deser\u00e7\u00e3o, daquilo a que em Fran\u00e7a chamavam \u00abesquerda\u00bb. O fil\u00f3sofo marxista arrasa o Partido Socialista Franc\u00eas. Mas n\u00e3o poupa o PCF cuja galopada para a direita a partir da dire\u00e7\u00e3o de Georges Marchais critica com dureza. A renuncia aos seus princ\u00edpios e valores acentua- se dramaticamente ap\u00f3s o fim da URSS. Com Robert Hue o anti sovietismo marca-lhe a caminhada rumo \u00e0 social social-democracia e Salem n\u00e3o identifica mais nele um partido revolucion\u00e1rio. Ap\u00f3s um debate interior doloroso, afasta-se ent\u00e3o da milit\u00e2ncia. N\u00e3o renovou o cart\u00e3o do Partido, mas n\u00e3o rompeu oficialmente. Como dizia Geoges Labica, tomou dist\u00e2ncia para continuar a ser comunista.<\/p>\n<p>Foi sem surpresa, mas com um sentimento de repulsa, que, nos anos de chumbo, registou a transforma\u00e7\u00e3o de ex- camaradas em colaboradores do sistema que haviam condenado. Em tentativa de justificar a metaformofose invocavam a revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico cientifica que mudara o mundo. Paradoxalmente, aqueles que mais se tinham destacado quando militantes pelo seu sectarismo exacerbado passaram em rapid\u00edssima transi\u00e7\u00e3o a satanizar a URSS e o comunismo.<\/p>\n<p>\u00abTodos eles &#8211; diz a Aym\u00e9ric &#8211; nos com\u00edcios do Partido, como escuteiros robotizados, berravam na \u00e9poca: \u00abViva a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u00bb. Erguendo o punho bem alto e olhando o vizinho para ver se fazia o mesmo com id\u00eantico entusiasmo\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o falta em Resistances um cap\u00edtulo sobre o \u00abstalinismo\u00bb. Salem distancia-se da posi\u00e7\u00e3o de Losurdo, mas n\u00e3o aceita tamb\u00e9m as teses dos historiadores anticomunistas que apresentam Stalin como um monstro, teses insepar\u00e1veis da satanizar\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Cita ali\u00e1s elogios hoje esquecidos de Churchill a Stalin, proferidos j\u00e1 na fase da guerra fria. Como trechos deste, pronunciado na Camara dos Comuns em 21 de Dezembro de1959: \u00abEra uma personalidade extraordin\u00e1ria, que nos impressionava muito\u2026 Possu\u00eda um grande sentido do humor e do sarcasmo, e a capacidade de conhecer exatamente os nossos pensamentos \u2026 Possu\u00eda uma profunda sabedoria, refletida e l\u00f3gica, isenta de p\u00e2nico\u00bb.<\/p>\n<p>No anexo que fecha Resistances Jean Salem publica o discurso que pronunciou no funeral do pai em 29 de Julho de 2013.<\/p>\n<p>Li esse texto com profunda emo\u00e7\u00e3o porque Henri Alleg n\u00e3o foi para mim somente um amigo e um camarada maravilhoso. J\u00e1 o afirmei e repito: de todos os revolucion\u00e1rios que conheci foi o mais pr\u00f3ximo da perfei\u00e7\u00e3o, do m\u00edtico homem novo imaginado por Marx e L\u00e9nine.<\/p>\n<p>Transcrevo a seguir o par\u00e1grafo final da despedida de Salem ao pai que manteve sempre a sua convic\u00e7\u00e3o de que o capitalismo, provisoriamente triunfante, acabar\u00e1 por ser erradicado da Terra:<\/p>\n<p>\u00abFoi fiel a essas ideias, que, segundo ele, tinham a marca da evid\u00eancia, que o nosso pai desejava ardentemente ver a ideia comunista continuar a encarnar-se numa doutrina de combate e numa organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, coerente. Foi na ades\u00e3o a essas ideias que ele conseguiu ate ao fim permanecer fiel ao seu ideal. Aos seus sonhos da juventude, assim como a todos os combates que todos n\u00f3s aqui hoje rendemos homenagem. A todos esses combates que, num mundo onde as nuvens se acumulam incessantemente, que, na nossa dimens\u00e3o, daremos continuidade\u00bb.<\/p>\n<p>Identifico em Jean Salem um grande humanista revolucion\u00e1rio &#8211; esp\u00e9cie em via de extin\u00e7\u00e3o &#8211; um dos raros intelectuais do nosso tempo que, em luta interior permanente, caminha pela vida como o pai, aproximando-se do inating\u00edvel homem novo.<\/p>\n<p><em>*Jean Salem, Resistances, entretiens avec Aym\u00e9ric Monville, Editions Delga, Paris 2015<\/em><\/p>\n<p><em>Vila Nova de Gaia, 26 de Mar\u00e7o de 2015<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7670\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-7670","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ZI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7670"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7670\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}