{"id":769,"date":"2010-08-28T13:28:31","date_gmt":"2010-08-28T13:28:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=769"},"modified":"2010-08-28T13:28:31","modified_gmt":"2010-08-28T13:28:31","slug":"o-imperio-contra-ataca-e-perde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/769","title":{"rendered":"O Imp\u00e9rio contra-ataca (e perde)"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A pol\u00edtica estadunidense com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela tem adotado muitos desvios t\u00e1ticos, mas o objetivo tem sido sempre o mesmo: derrotar o Presidente Hugo Ch\u00e1vez, inverter o processo de nacionaliza\u00e7\u00e3o das grandes empresas, abolir os conselhos comunit\u00e1rios e sindicais de base e devolver ao pa\u00eds a situa\u00e7\u00e3o de estado cliente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Washington financiou e respaldou politicamente um golpe militar no ano de 2002, um boicote patronal nos anos 2002-2003, um referendo e uma infinidade de tentativas de desestabilizar o regime por interm\u00e9dio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ONGs. At\u00e9 o momento, todos os esfor\u00e7os da casa Branca fracassaram; Ch\u00e1vez ganhou uma e outra vez em elei\u00e7\u00f5es livres, conservou a lealdade do ex\u00e9rcito e o respaldo da imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o urbana e rural mais pobre, das avultadas es trabalhadoras e das es m\u00e9dias empregadas no setor p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"justify\">Washington n\u00e3o se resignou em aceitar o governo eleito do Presidente Ch\u00e1vez. Ao contr\u00e1rio, com cada derrota de seus colaboradores no interior do pa\u00eds, a Casa Branca foi adotando cada vez mais uma estrat\u00e9gia externa, erguendo um cord\u00e3o militar poderoso ao redor da Venezuela com uma presen\u00e7a militar de grande escala que abarca toda a Am\u00e9rica Central, o norte da Am\u00e9rica do sul e o Caribe. A Casa Branca de Obama respaldou um golpe militar em Honduras que derrubou o governo eleito democraticamente do Presidente Zelaya (em junho de 2009), aliado de Ch\u00e1vez, e o substituiu por um regime t\u00edtere que ap\u00f3ia as pol\u00edticas militares de Washington contra Ch\u00e1vez. O Pent\u00e1gono conseguiu estabelecer sete bases militares no leste da Col\u00f4mbia (em 2009), que visam \u00e0 fronteira venezuelana, gra\u00e7as a seu governante cliente, \u00c1lvaro Uribe, o c\u00e9lebre presidente narcoparamilitar. Em meados de 2010, Washington subscreveu um acordo sem precedentes com a aquiesc\u00eancia da Presid\u00eancia direitista da Costa Rica, Laura Chinchilla, para destacar 7.000 soldados de combate estadunidenses, 200 helic\u00f3pteros e dezenas de buques apontando para a Venezuela, com o pretexto da persegui\u00e7\u00e3o ao narcotr\u00e1fico. Na atualidade, os EUA est\u00e3o negociando com o regime direitista do presidente do Panam\u00e1, Ricardo Martinelli, a possibilidade de reabrir uma base militar na antiga zona do canal. Juntamente com a Quarta Frota que patrulha as costas, 20.000 soldados no Haiti e uma base a\u00e9rea em Aruba, Washington cercou a Venezuela pelo oeste e pelo norte, estabelecendo zonas de lan\u00e7amento de tropas para uma interven\u00e7\u00e3o direta, caso as circunst\u00e2ncias internas se mostrem favor\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">A militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica da casa Branca para a Am\u00e9rica Latina, e para Venezuela em particular, forma parte de sua pol\u00edtica global de confronto e interven\u00e7\u00e3o armada. Sobretudo, o regime de Obama aumentou os alvos e o alcance das opera\u00e7\u00f5es dos esquadr\u00f5es da morte clandestinos que hoje em dia operam em 70 pa\u00edses de quatro continentes, aumentou a presen\u00e7a b\u00e9lica no Afeganist\u00e3o em mais de 30.000 soldados, mais outros 100.000 mercen\u00e1rios que atuam atravessando as fronteiras para penetrar no Paquist\u00e3o e Ir\u00e3, subministrando material e proporcionando apoio log\u00edstico a terroristas armados iranianos. Obama intensificou a provoca\u00e7\u00e3o com manobras militares nas costas da Cor\u00e9ia do Norte e no Mar da China, o que suscitou protestos em Pequim. Igualmente revelador \u00e9 o fato de que o regime de Obama aumentou o pressuposto militar em mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares, apesar da crise econ\u00f4mica, do monumental d\u00e9ficit, dos chamamentos \u00e0 austeridade e dos cortes na Previd\u00eancia Social e em outros seguros sanit\u00e1rios como Medicare ou Medicaid.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dizendo de outro modo: a atitude militar de Washington para a Am\u00e9rica Latina e, em especial para o governo socialista democr\u00e1tico do presidente Ch\u00e1vez, faz parte de uma resposta militar geral para qualquer pa\u00eds ou movimento que se negue a submeter-se ao dom\u00ednio estadunidense. Aparece ent\u00e3o uma pergunta: por que a casa Branca recorre \u00e0 alternativa militar? Por que militariza a pol\u00edtica exterior para obter resultados favor\u00e1veis frente a uma oposi\u00e7\u00e3o firme? A resposta reside, em parte, na quest\u00e3o de que os Estados Unidos perderam quase toda a influ\u00eancia econ\u00f4mica que exercia anteriormente e o permitia derrubar ou submeter os governos rivais. A maior parte das economias asi\u00e1ticas e latino-americanas alcan\u00e7ou certo grau de autonomia. Outras n\u00e3o dependem das organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internacionais em que os Estados Unidos exercem influencia (FMI, Banco Mundial), pois obt\u00e9m empr\u00e9stimos comerciais. A maioria diversificou suas pautas comerciais e de investimento e articulou outros v\u00ednculos regionais. Em alguns pa\u00edses, como Brasil, Argentina, Chile ou Peru, a China substituiu os Estados Unidos como principal s\u00f3cio comercial. A maior parte dos pa\u00edses j\u00e1 n\u00e3o busca ajuda estadunidense para estimular o crescimento, mas trata de forjar iniciativas conjuntas com empresas multinacionais, \u00e0s vezes radicadas fora da Am\u00e9rica do Norte. Washington recorreu cada vez mais \u00e0 op\u00e7\u00e3o militar at\u00e9 o ponto de que retorcer o bra\u00e7o econ\u00f4mico dos pa\u00edses deixou de ser uma ferramenta efetiva para garantir a obedi\u00eancia. Washington foi incapaz de reconstruir seus instrumentos de alavanca econ\u00f4mica internacionais at\u00e9 o extremo de que a elite financeira estadunidense esvaziou o setor industrial do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os fracassos diplom\u00e1ticos estrepitosos derivados de sua incapacidade para adaptar-se \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es fundamentais do poder global tamb\u00e9m impulsionaram Washington a abandonar as negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e a comprometer-se com as interven\u00e7\u00f5es e confrontos militares. Os legisladores estadunidenses ainda vivem congelados nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, \u00e9poca do apogeu dos governantes clientes e da pilhagem econ\u00f4mica, quando Washington recebia respaldo mundial, privatizava empresas, explorava o financiamento da d\u00edvida p\u00fablica e raramente encontrava obst\u00e1culos no mercado internacional. No final da d\u00e9cada de 90, auge do capitalismo asi\u00e1tico, as revoltas massivas contra o neoliberalismo, a ascens\u00e3o de regimes de centro- esquerda na Am\u00e9rica Latina, as reiteradas crises econ\u00f4micas, as grandes quedas da bolsa de valores do EUA e da EU e o aumento dos pre\u00e7os das mercadorias desembocou em uma reordena\u00e7\u00e3o do poder global. Os esfor\u00e7os de Washington para desenvolver pol\u00edticas em sintonia com as d\u00e9cadas anteriores entravam em conflito com a nova realidade da diversifica\u00e7\u00e3o dos mercados, as pot\u00eancias emergentes e os regimes pol\u00edticos relativamente independentes vinculados \u00e0s novas massas de eleitores.<\/p>\n<p align=\"justify\">As propostas diplom\u00e1ticas de Washington de isolar Cuba e Venezuela foram rejeitadas por todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Rejeitaram a tentativa de reativar acordos de livre com\u00e9rcio que privilegiavam os exportadores estadunidenses e protegiam seus produtores competitivos. O regime de Obama, decidido a n\u00e3o reconhecer os limites do poder diplom\u00e1tico imperial nem a moderar suas propostas, recorreu cada vez mais \u00e0 op\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p align=\"justify\">A luta pela reafirma\u00e7\u00e3o do poder imperial atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica intervencionista n\u00e3o deu resultados melhores que suas iniciativas diplom\u00e1ticas. Os golpes de Estado na Venezuela (2002) e Bol\u00edvia (2008) foram derrotados pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular massiva e pela lealdade do Ex\u00e9rcito aos regimes vigentes. Assim mesmo, na Argentina, Equador e Brasil, os regimes p\u00f3s-neoliberais respaldados pelas elites industriais, mineiras e do setor agr\u00edcola exportador e pelas es populares conseguiram fazer retroceder as elites pr\u00f3-estadunidenses neoliberais enraizadas na pol\u00edtica da d\u00e9cada de 1990 e anteriores. A pol\u00edtica de desestabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu impedir a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas exteriores relativamente independentes destes novos governos, que se negaram a voltar \u00e0 velha ordem da supremacia estadunidense.<\/p>\n<p align=\"justify\">Onde Washington recuperou terreno pol\u00edtico com a elei\u00e7\u00e3o de regimes pol\u00edticos direitistas, conseguiu gra\u00e7as \u00e0 sua capacidade de aproveitar-se do desgaste da pol\u00edtica de centro-esquerda (Chile), da fraude pol\u00edtica e da militariza\u00e7\u00e3o (M\u00e9xico e Honduras), da decad\u00eancia da esquerda popular nacional (Costa Rica, Panam\u00e1 e Per\u00fa) e da consolida\u00e7\u00e3o de um estado policial enormemente militarizado (Col\u00f4mbia). Estas vit\u00f3rias eleitorais, principalmente na Col\u00f4mbia, convenceram Washington que a alternativa militar, unida \u00e0 interven\u00e7\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o profunda dos processos eleitorais abertos, \u00e9 a maneira de frear o giro \u00e0 esquerda na Am\u00e9rica Latina, sobretudo na Venezuela.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>A pol\u00edtica estadunidense para Venezuela: combinar t\u00e1ticas militares e eleitorais.<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Os esfor\u00e7os dos EUA para derrubar o governo democr\u00e1tico do presidente Ch\u00e1vez adotam muitas das t\u00e1ticas j\u00e1 aplicadas contra advers\u00e1rios democr\u00e1ticos anteriores. Entre elas se encontra o estabelecimento de for\u00e7as militares e paramilitares colombianas nas fronteiras, algo semelhante aos ataques transfronteiri\u00e7os da \u201ccontra\u201d financiada pelos EUA para debilitar o governo sandinista da Nicar\u00e1gua na d\u00e9cada de 80. A tentativa de cercar e isolar a Venezuela se assemelha \u00e0 pol\u00edtica desenvolvida por Washington na segunda metade do s\u00e9culo passado contra Cuba. A canaliza\u00e7\u00e3o de fundos para grupos, partidos pol\u00edticos, meios de comunica\u00e7\u00e3o e ONGs opositores atrav\u00e9s de ag\u00eancias estadunidenses e funda\u00e7\u00f5es fict\u00edcias \u00e9 uma reedi\u00e7\u00e3o da t\u00e1tica empregada para desestabilizar o governo democr\u00e1tico de Salvador Allende no Chile, o de Evo Morales na Bol\u00edvia e muitos outros governos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A pol\u00edtica de Washington de utilizar m\u00faltiplas vias, na fase atual, est\u00e1 orientada para uma escalada da guerra de nervos, base para intensificar incessantemente as amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a. As provoca\u00e7\u00f5es militares, em parte, s\u00e3o uma tentativa de testar os dispositivos de seguran\u00e7a da Venezuela, com o objetivo de sondar os pontos fracos de sua defesa terrestre, mar\u00edtima e a\u00e9rea. Este tipo de provoca\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m faz parte de uma estrat\u00e9gia de desgaste, cujo objetivo \u00e9 obrigar o governo de Ch\u00e1vez a p\u00f4r suas tropas defensivas em alerta e mobilizar a popula\u00e7\u00e3o para, a continua\u00e7\u00e3o, reduzir a press\u00e3o at\u00e9 o pr\u00f3ximo ato de convoca\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 desautorizar as alus\u00f5es constantes do governo venezuelano \u00e0s amea\u00e7as, com o fim de debilitar a vigil\u00e2ncia e, quando as circunst\u00e2ncias permitirem, dar o golpe oportuno.<\/p>\n<p align=\"justify\">A acumula\u00e7\u00e3o militar de Washington no exterior est\u00e1 concebida para intimidar os pa\u00edses do Caribe e Am\u00e9rica Central que puderam tratar de estabelecer rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mais estreitas com a Venezuela. A demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a tamb\u00e9m est\u00e1 concebida para fomentar a oposi\u00e7\u00e3o interna \u00e0s a\u00e7\u00f5es mais agressivas. Ao mesmo tempo, a atitude de confronta\u00e7\u00e3o se dirige contra os setores fracos ou moderados do governo chavista que est\u00e3o ansiosos e impacientes pela reconcilia\u00e7\u00e3o, ainda pagando o pre\u00e7o de realizar concess\u00f5es sem escr\u00fapulos \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e ao novo regime colombiano do Presidente Santos. A presen\u00e7a militar crescente est\u00e1 concebida para tornar mais lento o processo de radicaliza\u00e7\u00e3o interna e para evitar o fortalecimento dos la\u00e7os cada vez mais estreitos da Venezuela com Oriente Pr\u00f3ximo e outros regimes contr\u00e1rios \u00e0 hegemonia estadunidense. Washington est\u00e1 apostando que uma escalada militar e uma guerra psicol\u00f3gica que vincule a Venezuela a movimentos insurgentes revolucion\u00e1rios, como a guerrilha colombiana, desembocar\u00e3o no distanciamento dos aliados e amigos latino-americanos de Ch\u00e1vez em rela\u00e7\u00e3o ao seu regime. Igualmente importantes s\u00e3o as acusa\u00e7\u00f5es sem fundamento vertidas por Washington, segundo as quais a Venezuela alberga acampamentos guerrilheiros das FARC, cuja inten\u00e7\u00e3o \u00e9 pressionar Ch\u00e1vez para que reduza o apoio que presta a todos os movimentos sociais da regi\u00e3o, incluindo o dos camponeses sem terra do Brasil, assim como as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas de direitos humanos e os sindicatos da Col\u00f4mbia. Washington busca a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: EUA ou Ch\u00e1vez. Despreza a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica existente hoje, que enfrenta Washington com o MERCOSUL, a organiza\u00e7\u00e3o para a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na qual, junto com Venezuela, participam Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, em sintonia com os pa\u00edses membros, ou com a ALBA (uma estrutura de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na qual participam Venezuela, Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua, Equador e alguns outros Estados caribenhos).<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>O Fator FARC<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Obama e o atual ex-presidente Uribe acusaram a Venezuela de brindar um santu\u00e1rio para as guerrilhas colombianas (FARC e ELN). Na realidade, trata-se de uma arg\u00facia para pressionar o presidente Ch\u00e1vez a denunciar ou, no m\u00ednimo, pedir para que as FARC abandonem a luta armada com as condi\u00e7\u00f5es impostas pelos regimes estadunidense e colombiano.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contrariamente aos alardes do ex-presidente Uribe e do Departamento de Estado estadunidense, segundo os quais as FARC s\u00e3o um res\u00edduo decadente, isolado e vencido como consequ\u00eancia de campanhas contrainsurgentes vitoriosas, um estudo de campo minucioso realizado por um investigador colombiano,\u00a0<em>A guerra contra as FARC e a guerra das FARC<\/em>, demonstra que nos \u00faltimos anos a guerrilha consolidou sua influ\u00eancia em mais de um ter\u00e7o do pa\u00eds, e que o regime de Bogot\u00e1 controla apenas a metade do pa\u00eds. Depois de sofrer derrotas importantes em 2008, as FARC e o ELN avan\u00e7aram de forma sustentada durante os anos de 2009 e 2010, causando mais de 1.300 baixas militares no ano passado e, seguramente, quase o dobro este ano (<em>La Jornada<\/em>, 8 de junho de 2010). O ressurgir e o avan\u00e7o das FARC s\u00e3o uma import\u00e2ncia fundamental no que se refere \u00e0 campanha militar de Washington contra a Venezuela. Tamb\u00e9m refletem a posi\u00e7\u00e3o de seu \u201caliado estrat\u00e9gico\u201d: o regime de Santos. Em primeiro lugar, demonstram que, mesmo com mais 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de ajuda militar estadunidense \u00e0 Col\u00f4mbia, sua campanha contra a insurg\u00eancia para \u201cexterminar\u201d as FARC fracassou. Em segundo lugar, a ofensiva das FARC abre uma \u201csegunda frente\u201d na Col\u00f4mbia, o que debilita toda a tentativa de empreender a invas\u00e3o da Venezuela utilizando a Col\u00f4mbia como \u201ctrampolim\u201d. Em terceiro lugar, ante uma luta de es interna mais intensa, \u00e9 prov\u00e1vel que o novo presidente Santos trate de aliviar as tens\u00f5es com a Venezuela, com a esperan\u00e7a de remanejar tropas destacadas na fronteira com seu vizinho para destinar-las \u00e0 luta contra a crescente insurg\u00eancia guerrilheira. Em certo sentido, apesar dos receios de Ch\u00e1vez sobre a guerrilha e dos apelos para o fim da luta guerrilheira, o ressurgir dos movimentos armados seguramente \u00e9 um fator fundamental para debilitar as perspectivas de uma interven\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Conclus\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A pol\u00edtica de m\u00faltiplas vias de Washington direcionada para desestabilizar o governo venezuelano foi contraproducente em geral, sofreu fracassos importantes e colheu poucos \u00eaxitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A linha dura contra a Venezuela n\u00e3o conseguiu alcan\u00e7ar nenhum apoio nos principais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, com exce\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia. Isolou Washington, n\u00e3o Caracas. As amea\u00e7as militares qui\u00e7\u00e1 hajam radicalizado as medidas socioecon\u00f4micas adotadas por Ch\u00e1vez, n\u00e3o as moderaram. As amea\u00e7as e acusa\u00e7\u00f5es procedentes da Col\u00f4mbia fortaleceram a coes\u00e3o interna na Venezuela, exceto no n\u00facleo duro dos grupos de oposi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m levaram a Venezuela a melhorar seus servi\u00e7os de intelig\u00eancia, pol\u00edcia e opera\u00e7\u00f5es militares. As provoca\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia promoveram uma ruptura nas rela\u00e7\u00f5es e um descenso de 80% do com\u00e9rcio transfronteiri\u00e7o multimilion\u00e1rio, deixando em fal\u00eancia uma infinidade de empresas colombianas, j\u00e1 que a Venezuela efetuou a substitui\u00e7\u00e3o por importa\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias e industriais procedentes do Brasil e Argentina. Os efeitos das medidas para intensificar a tens\u00e3o e a \u201cguerra de desgaste\u201d s\u00e3o dif\u00edceis de ponderar, sobretudo em termos do impacto que puderam causar sobre as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 26 de setembro de 2010, de crucial import\u00e2ncia. Sem d\u00favida, o fracasso da Venezuela na hora de regular e controlar a aflu\u00eancia multimilion\u00e1ria de fundos estadunidenses at\u00e9 seus s\u00f3cios venezuelanos no interior causaram um impacto importante na sua capacidade organizativa. N\u00e3o existe d\u00favida de que a piora da economia foi percept\u00edvel na restri\u00e7\u00e3o do gasto p\u00fablico para novos programas sociais. Al\u00e9m disso, a incompet\u00eancia e a corrup\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios altos cargos chavistas, sobretudo no \u00e2mbito da distribui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de alimento, na habita\u00e7\u00e3o e na seguran\u00e7a, ter\u00e3o consequ\u00eancias eleitorais.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 prov\u00e1vel que estes fatores \u201cinternos\u201d influenciem muito mais na hora de dar forma \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o do voto na Venezuela que a pol\u00edtica de confronta\u00e7\u00e3o agressiva adotada por Washington. No entanto, se a oposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-estadunidense aumentar de forma substancial sua presen\u00e7a legislativa nas elei\u00e7\u00f5es de 26 de setembro (superando um ter\u00e7o dos membros do Congresso), tratar\u00e1 de bloquear as mudan\u00e7as sociais e as pol\u00edticas de est\u00edmulo econ\u00f4mico. Os Estados Unidos dobrar\u00e3o seus esfor\u00e7os para pressionar a Venezuela com o fim de que desvie recursos para assuntos de seguran\u00e7a, diminuindo os gastos socioecon\u00f4micos que sustentam o apoio de um 60% mais pobre da popula\u00e7\u00e3o venezuelana.<\/p>\n<p align=\"justify\">At\u00e9\u00a0o momento, a pol\u00edtica da Casa Branca, baseada em uma maior militariza\u00e7\u00e3o e praticamente nenhuma iniciativa econ\u00f4mica nova, foi um fracasso. Animou os pa\u00edses latino-americanos mais extensos a aprofundar sua integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como comprovam os novos acordos aduaneiros e alfandeg\u00e1rios adotados na reuni\u00e3o do MERCOSUL de princ\u00edpios de agosto deste ano. Isto n\u00e3o significou a diminui\u00e7\u00e3o das hostilidades entre Estados Unidos e os pa\u00edses da ALBA, tampouco representou o aumento da influ\u00eancia dos Estados Unidos. Em troca, a Am\u00e9rica Latina avan\u00e7ou na consolida\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica regional nova, UNASUL (que exclui os Estados Unidos), baixando de categoria a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos \u2013 OEA, que os Estados Unidos utilizam para impulsionar seus planos. As \u00fanicas luzes que brilham distante, por ironia do destino, procedem dos processos eleitorais internos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que Washington n\u00e3o consegue compreender \u00e9\u00a0que, em todo espectro pol\u00edtico que compreende desde a esquerda at\u00e9 a centro-direita, os dirigentes pol\u00edticos temem e se op\u00f5em a que o impulso e o fomento estadunidense \u00e0 alternativa militar constituam o elemento central da pol\u00edtica. Praticamente todos os l\u00edderes pol\u00edticos t\u00eam recorda\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis do ex\u00edlio e da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do ciclo anterior de regimes militares respaldados pelos Estados Unidos. O autoproclamado alcance territorial do ex\u00e9rcito estadunidense, que opera desde suas sete bases na Col\u00f4mbia, aumentou a brecha existente entre os regimes democr\u00e1ticos centristas e de centro-esquerda e a Casa Branca de Obama. Em outras palavras: a Am\u00e9rica Latina percebe a agress\u00e3o militar estadunidense contra a Venezuela como um primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o ao sul para chegar tamb\u00e9m a seus pa\u00edses. Junto ao impulso para uma maior independ\u00eancia pol\u00edtica e a diversifica\u00e7\u00e3o dos mercados, isso debilitou as tentativas diplom\u00e1ticas e pol\u00edticas de Washington de isolar a Venezuela.<\/p>\n<p align=\"justify\">O novo Presidente Santos da Col\u00f4mbia, produzido com o mesmo molde direitista de seu predecessor \u00c1lvaro Uribe, enfrenta um dilema espinhoso: continuar sendo um instrumento de confronta\u00e7\u00e3o militar e desestabiliza\u00e7\u00e3o estadunidense da Venezuela, \u00e0 custa de v\u00e1rios bilh\u00f5es de d\u00f3lares em perdas comerciais e do isolamento do resto da Am\u00e9rica Latina, ou aliviar as tens\u00f5es e incurs\u00f5es fronteiri\u00e7as, desembara\u00e7ando-se da ret\u00f3rica da provoca\u00e7\u00e3o e normalizando as rela\u00e7\u00f5es com Venezuela. Caso suceda este \u00faltimo, Estados Unidos perder\u00e1 a \u00faltima ferramenta de sua estrat\u00e9gia exterior de alimentar as \u201ctens\u00f5es\u201d e a guerra psicol\u00f3gica. Para Washington, restam duas op\u00e7\u00f5es: uma interven\u00e7\u00e3o militar direta e unilateral ou financiar uma guerra pol\u00edtica atrav\u00e9s de seus colaboradores no interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto isso, o Presidente Ch\u00e1vez e seus partid\u00e1rios fariam bem em concentrar-se em tirar a economia da recess\u00e3o, aplacar a corrup\u00e7\u00e3o do Estado e a inefici\u00eancia monumental e capacitar os conselhos comunit\u00e1rios e fabris para que desempenhem um papel mais relevante em todos os aspectos, desde o incremento da produtividade at\u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma seguran\u00e7a de longo prazo da Venezuela, contra os tent\u00e1culos longos e penetrantes do imp\u00e9rio estadunidense, depende da for\u00e7a de organiza\u00e7\u00e3o dos agrupamentos de massas que sustentam o governo de Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">Traduzido por Tereza Jurgensen e Ot\u00e1vio Dutra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resisti.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nJames Petra\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/769\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-769","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-cp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=769"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}