{"id":7715,"date":"2015-04-14T11:13:27","date_gmt":"2015-04-14T11:13:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7715"},"modified":"2015-04-20T03:15:15","modified_gmt":"2015-04-20T03:15:15","slug":"ana-montenegro-100-anos-de-uma-feminista-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7715","title":{"rendered":"Ana Montenegro: 100 anos de uma feminista de classe"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omc.cultura.gov.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/4-Ana-Montenegro.jpg?w=747\" alt=\"\" align=\"left\" border=\"0\" \/>Milton Pinheiro*<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX foi marcada pela presen\u00e7a ativa e intelectual de mulheres que, mesmo com a tentativa de torn\u00e1-las invis\u00edveis no processo social e pol\u00edtico, tiveram um papel fundamental nas lutas que marcaram o mundo contempor\u00e2neo. Elas enfrentaram os pontos centrais das quest\u00f5es de g\u00eanero, lutaram nas contendas da nossa classe, enfrentaram ditaduras, pegaram em armas para defender a vida e se bateram pelas transforma\u00e7\u00f5es na sociedade capitalista. Portanto, cumpriram uma intensa jornada de lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o humana. Contudo, tudo isso ocorreu, enfrentando o preconceito e a cultura machista fomentada pela natureza da sociedade de classes.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse per\u00edodo hist\u00f3rico, e dentro do contexto dessas lutas e bandeiras, que Ana Lima Carmo, conhecida como Ana Montenegro, cumpriu uma intensa e marcante atividade pol\u00edtico-social ao lado das mulheres e dos trabalhadores do mundo.<\/p>\n<p>Ana Montenegro, nome que assumiu em virtude de uma intensa atividade jornal\u00edstica na imprensa comunista, aprofundou sua participa\u00e7\u00e3o nas lutas pol\u00edtico-sociais nas manifesta\u00e7\u00f5es em apoio a uma ocupa\u00e7\u00e3o, que a popula\u00e7\u00e3o de trabalhadores sem teto fizeram no bairro da Liberdade, em Salvador. Essa luta tornou-se um emblema pela moradia na Bahia e ficou conhecida como a ocupa\u00e7\u00e3o do \u201cCorta-bra\u00e7o\u201d, em 1947, posteriormente transformada em bairro e chamado de Pero Vaz. Hoje, temos livros (Ariovaldo Matos) e trabalhos acad\u00eamicos sobre essa ocupa\u00e7\u00e3o vitoriosa, localizada no cora\u00e7\u00e3o do bairro mais negro da Am\u00e9rica latina (Liberdade).<\/p>\n<p>Os comunistas do PCB organizaram essa luta e durante a ocupa\u00e7\u00e3o, que contou com forte repress\u00e3o policial, se reuniam na pens\u00e3o (localizada na Baixa dos Sapateiros) da comunista e firme apoiadora do Corta-bra\u00e7o: Maria Brand\u00e3o. Essa figura representativa das lutas populares era, para Ana Montenegro, o s\u00edmbolo da mulher que exercia um papel fundamental para combater a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e afirmar a presen\u00e7a da mulher nas batalhas pol\u00edticas. Foi um pouco antes desse acontecimento, num contexto de luta social, da milit\u00e2ncia jornal\u00edstica, de combate \u00e0 ditadura do \u201cEstado Novo\u201d, de afirma\u00e7\u00e3o das lutas democr\u00e1ticas e de grande participa\u00e7\u00e3o dos comunistas que, em 1945, nas manifesta\u00e7\u00f5es\/comemora\u00e7\u00f5es da independ\u00eancia do Brasil, na Bahia, Ana Montenegro entrou para o Partido Comunista Brasileiro, no dia 02\/07\/1945, tendo sua ficha de filia\u00e7\u00e3o assinada pelo hist\u00f3rico l\u00edder comunista, Carlos Marighella.<\/p>\n<p>Ana Montenegro, mulher feita de a\u00e7o e p\u00e9talas, nasceu em 13 de abril de 1915 na cidade de Quixeramobin, no interior do Cear\u00e1. Mas, como ela rotineiramente gostava de afirmar: \u201csou cearense de nascimento, carioca de cora\u00e7\u00e3o e baiana por escolha\u201d. Das lutas pol\u00edticas dos anos de 1944\/45 (democratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, fim da II guerra, anistia para os presos pol\u00edticos e legalidade para o PCB) \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na batalha das ideias\/lutas populares do intervalo democr\u00e1tico, aprofundaram o compromisso de Ana Montenegro com o devir da hist\u00f3ria. Foi, sem d\u00favida, um momento de transforma\u00e7\u00e3o radical na forma de fazer pol\u00edtica e seu engajamento era pleno.<\/p>\n<p>No per\u00edodo do intervalo democr\u00e1tico (1945\/1964) Ana Montenegro exerceu uma intensa atividade ideol\u00f3gica, atuando na imprensa comunista e em outros ve\u00edculos. Publicou centenas de artigos nos jornais: <em>O Momento<\/em>, <em>Classe Oper\u00e1ria<\/em>, <em>Tribuna Popular<\/em>, <em>Correio da Manh\u00e3<\/em>, <em>Imprensa Popular<\/em>, <em>Novos Rumos<\/em>, etc. Sem falar que foi uma das fundadoras do jornal <em>Momento Feminino<\/em> e da sua participa\u00e7\u00e3o na revista <em>Seiva<\/em>, considerada uma das primeiras revistas dos comunistas no Brasil.<\/p>\n<p>No conjunto das a\u00e7\u00f5es que movimentava a pr\u00e1tica social de Ana Montenegro, uma come\u00e7ou a ter repercuss\u00e3o central: a quest\u00e3o das mulheres. Participou de inst\u00e2ncias pol\u00edticas da luta feminista, a exemplo <em>Uni\u00e3o Democr\u00e1tica de Mulheres da Bahia<\/em>, <em>Comit\u00ea Feminino pr\u00f3 Democracia<\/em>, <em>Liga Feminina da Guanabara<\/em> e a <em>Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Mulheres<\/em>, entidades com intensa presen\u00e7a de mulheres que participavam das lutas pol\u00edtico-sociais e hegemonicamente ligadas ao PCB.<\/p>\n<p>No entanto, o intervalo democr\u00e1tico, per\u00edodo em que &#8211; mesmo com tentativas de golpes &#8211; teve grande participa\u00e7\u00e3o social, e foi de intensa mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, encerrou-se com o golpe burgo-militar de 1964. Nesse processo de configura\u00e7\u00e3o das trevas, Ana Montenegro teve que tomar o caminho do ex\u00edlio, tornando-se, portanto, a primeira mulher exilada pela ditadura. Inicialmente aloja-se na Embaixada do M\u00e9xico, indo em seguida para este pa\u00eds, depois passa por Cuba (onde mant\u00e9m contato com l\u00edderes comunistas e anticolonialista, a exemplo da vanguarda cubana e de l\u00edderes africanos), deslocando-se em seguida para a Europa onde se estabeleceu em Berlim, na Alemanha Oriental.<\/p>\n<p>Estabelecida na Alemanha, Ana Montenegro teve importante papel na organiza\u00e7\u00e3o das lutas feministas e na imprensa que debatia essa quest\u00e3o: foi integrante da se\u00e7\u00e3o para Am\u00e9rica Latina da <em>Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Internacional de Mulheres<\/em> (FDIN), quando trabalhou na revista dessa entidade: <em>Mulheres do Mundo Inteiro<\/em>. Tamb\u00e9m trabalhou em organismos internacionais como a ONU e a UNESCO, tendo participado de v\u00e1rias articula\u00e7\u00f5es internacionais e congressos que tinham como bandeiras a quest\u00e3o da mulher, da luta de classes e da emancipa\u00e7\u00e3o humana. Tudo isso, sempre ao lado do operador pol\u00edtico que escolheu para combater: o PCB.<\/p>\n<p>Mas, como nos informa o dramaturgo Willian Shakespeare, \u201cn\u00e3o tem longa noite que n\u00e3o encontre o dia\u201d. No Brasil, apesar da repress\u00e3o violenta da ditadura, as lutas de resist\u00eancia democr\u00e1ticas e as lutas oper\u00e1rias e sociais conseguiram mudar o quadro pol\u00edtico: a anistia, mesmo com restri\u00e7\u00f5es, foi aprovada em 1979. Ana Montenegro tomou o caminho de casa, voltou ao Brasil. De 1979 a 1985, ainda sob a tutela da ditadura, ela intensificou a sua milit\u00e2ncia em v\u00e1rias frentes: a luta feminista, as lutas populares, a defesa dos direitos humanos e o combate interno aos equ\u00edvocos pol\u00edticos do PCB, que na \u00e9poca estava em franco processo de ruptura com a sua hist\u00f3rica tradi\u00e7\u00e3o: operando atrav\u00e9s dos interesses da ordem.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota da ditadura, mesmo com a transi\u00e7\u00e3o tutelada, Ana Montenegro avan\u00e7ou na luta pol\u00edtico-social, atuou no combate ao racismo e aprofundou o debate sobre a quest\u00e3o de g\u00eanero. Refletiu, escrevendo, a partir de muita pesquisa e debates, artigos e textos sobre o momento da luta feminista. Publicou diversos livros: <em>Mulheres \u2013 participa\u00e7\u00e3o nas lutas populares<\/em>, <em>Uma hist\u00f3ria de lutas<\/em>, <em>Ser ou n\u00e3o ser feminista<\/em> e <em>Tempos de Ex\u00edlio.<\/em><\/p>\n<p>Ana Montenegro atuou na \u00e1rea do direito, foi ativa jornalista, desenvolveu intensa pesquisa hist\u00f3rica sobre os movimentos populares e suas lutas de contesta\u00e7\u00e3o. Sendo tamb\u00e9m poetisa, lembre-se do poema que fez em Berlim, no outono de 1969, quando do assassinato do seu amigo e camarada, Carlos Marighella:<\/p>\n<blockquote><p>Em seu enterro n\u00e3o havia velas:<\/p>\n<p>Como acend\u00ea-las, sem a luz do dia?<\/p>\n<p>Em seu enterro n\u00e3o havia flores:<\/p>\n<p>Onde colh\u00ea-las, nessa manha fria?<\/p>\n<p>Em seu enterro n\u00e3o havia povo:<\/p>\n<p>Como encontr\u00e1-lo, nessa rua vazia?<\/p>\n<p>Em seu enterro n\u00e3o havia gestos:<\/p>\n<p>Parada inerte a minha m\u00e3o jazia.<\/p>\n<p>Em seu enterro n\u00e3o havia vozes:<\/p>\n<p>Sob censura estavam as salmodias.<\/p>\n<p>Mas luz, e flor, e povo, e canto<\/p>\n<p>responder\u00e3o \u201cpresente\u201d, chegada<\/p>\n<p>a primavera mesmo que tardia!<\/p><\/blockquote>\n<p>Ana Montenegro, com a sua presen\u00e7a, marcou as lutas feministas e populares do final do s\u00e9culo XX. A partir do seu retorno do ex\u00edlio, atuou primeiramente, no <em>F\u00f3rum de Mulheres de Salvador<\/em> e, depois, no <em>Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres<\/em> (1985\/1989). Tinha como pr\u00e1tica constante se dirigir, sempre \u00e0s tardes, para a sede da OAB \u2013 em Salvador \u2013 para ajudar nas tarefas da Comiss\u00e3o de Direitos humanos. Foi homenageada em um congresso nacional da OAB, indicada ao Nobel da Paz e recebeu diversas homenagens e comendas de institui\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>Uma das suas mais firmes convic\u00e7\u00f5es era a tarefa de lutar contra a destrui\u00e7\u00e3o do PCB, tentativa realizada pelo grupo dirigido pelo deputado Roberto Freire. Travou o bom combate, com for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o, lutou em defesa do socialismo e da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Com seu patrim\u00f4nio pol\u00edtico e intelectual deu uma enorme contribui\u00e7\u00e3o ao processo de \u201creconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d do PCB.<\/p>\n<p>Ana Montenegro, exilada pol\u00edtica, separada e m\u00e3e de dois filhos, teve um deles (Miguel) morto durante o ex\u00edlio: era uma mulher feita de a\u00e7o e p\u00e9talas. Ela faleceu em 30 de mar\u00e7o de 2006, em seu enterro o povo, as mulheres simples, o mundo pol\u00edtico e intelectual e seus camaradas encheram o sal\u00e3o para um ato pol\u00edtico da mais bela homenagem. Seu caix\u00e3o ao baixar para a crema\u00e7\u00e3o estava coberto com a bandeira vermelha do PCB, marcada com a foice e o martelo da luta dos trabalhadores do campo e da cidade, na terra que escolheu como sua: Salvador. Ap\u00f3s 100 anos do seu nascimento a mem\u00f3ria da hist\u00f3ria afirma mais uma vez: Ana Montenegro, presente!<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Milton Pinheiro \u00e9 professor de \u00e1rea de hist\u00f3ria e teoria pol\u00edtica da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e pesquisador da USP. Autor\/organizador de v\u00e1rios livros, entre eles, <em>Ditadura: o que resta da transi\u00e7\u00e3o <\/em>(S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2014).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7715\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-7715","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-20r","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7715\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}