{"id":7744,"date":"2015-04-16T20:51:36","date_gmt":"2015-04-16T21:15:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7744"},"modified":"2017-08-25T01:02:17","modified_gmt":"2017-08-25T04:02:17","slug":"de-onde-vem-o-conservadorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7744","title":{"rendered":"De onde vem o conservadorismo?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/04\/15-04-15-_-mauro-iasi-_-de-onde-vem-o-conservadorismo.jpg?w=747&#038;h=500&#038;fit=500%2C500\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p><em>Por <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\" target=\"_blank\">Mauro Luis Iasi<\/a>. <\/em><\/p>\n<p><em>\u201cAtr\u00e1s da aparente beleza, est\u00e3o os assassinos em massa, <\/em><em>a aboli\u00e7\u00e3o da dignidade, os campos de trabalho for\u00e7ado, a rejei\u00e7\u00e3o <\/em><em>de toda a no\u00e7\u00e3o de liberdade e fraternidade. <\/em><em>(\u2026) [O comunista] \u00e9 aparentemente inofensivo, <\/em><em>ser\u00e1 o seu mais querido amigo, o mais sincero, o mais leal\u2026 <\/em><em>at\u00e9 o dia em que ele o assassinar\u00e1 pelas costas.\u201d<\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>(O GORILA, folheto anticomunista distribu\u00eddo no interior das For\u00e7as Armadas como prepara\u00e7\u00e3o para o Golpe de 1964)<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um certo espanto com as recentes manifesta\u00e7\u00f5es de direita no Brasil, como se fossem algo fora do lugar e do tempo, resqu\u00edcios de um tempo obscuro que se esperava superado. Por outro lado, espantam-se os que cr\u00eaem que tal fen\u00f4meno \u00e9 absolutamente novo \u2013 da\u00ed os ep\u00edtetos tais como \u201cnova direita\u201d, \u201conda conservadora\u201d e outros. Acreditamos que o conservadorismo que se apresenta na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de direita n\u00e3o \u00e9 algo do passado que se apresenta anacronicamente no cen\u00e1rio de uma democracia, nem algo novo que brota do nada.<\/p>\n<p>O conservadorismo sempre esteve por aqui, forte e persistente. O fato \u00e9 que n\u00e3o foi enfrentado como deveria e nos cabe perguntar: <em>por que<\/em>?<\/p>\n<p><strong>CONSERVADORISMO E LUTA DE CLASSES<\/strong><\/p>\n<p>O conservadorismo n\u00e3o pode ser entendido em si mesmo, ele \u00e9 express\u00e3o de algo mais profundo que o determina. Estamos convencidos que ele \u00e9 uma express\u00e3o da luta de classes, isto \u00e9, que manifesta em sua apar\u00eancia a din\u00e2mica de luta entre interesses antag\u00f4nicos que formam a sociabilidade burguesa. Nesta dire\u00e7\u00e3o \u00e9 importante que comecemos por delinear o cen\u00e1rio no qual o conservadorismo se apresenta.<\/p>\n<p>O impacto da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de direita espanta aqueles que julgavam que as classes sociais n\u00e3o eram mais categorias que poderiam explicar a sociedade contempor\u00e2nea. De certa forma, prevaleceu uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica que orientou de forma determinante a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores que esperava amenizar ou contornar a luta de classes para que fosse poss\u00edvel um conjunto de reformas de baixa intensidade no longo prazo.<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia, denominada de Democr\u00e1tica e Popular, se fundamenta na convic\u00e7\u00e3o que a crise da autocracia burguesa permitiria superar uma caracter\u00edstica hist\u00f3rica de nossa forma\u00e7\u00e3o social, isto \u00e9, seu car\u00e1ter \u201cprussiano\u201d. O Brasil era uma sociedade com um Estado forte e uma sociedade civil fraca, assim o fortalecimento da \u201csociedade civil\u201d geraria um cen\u00e1rio no qual a disputa de hegemonia favoreceria \u00e0s classes trabalhadoras, diminuindo o espa\u00e7o pr\u00f3prio da direta e favorecendo a pol\u00edtica de esquerda.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o que ocorreu. A estrat\u00e9gia burguesa de transi\u00e7\u00e3o pelo alto, controlada e segura, venceu. N\u00e3o porque n\u00e3o se tenha fortalecido a sociedade civil burguesa e o Brasil n\u00e3o tenha se \u201cocidentalizado\u201d nos termos gramscianos, mas justamente pelo fato do fortalecimento da sociedade civil burguesa ter acabado por criar um quadro no qual a hegemonia burguesa se consolidou, diminuindo e n\u00e3o ampliando o espa\u00e7o para a pol\u00edtica de esquerda.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui duas incompreens\u00f5es graves no que diz respeito ao conceito de hegemonia e, por conseguinte, da compreens\u00e3o do car\u00e1ter do Estado. Prevaleceu uma vis\u00e3o mec\u00e2nica que associou a autocracia ao uso da for\u00e7a e a democracia ao consenso. Desta forma dicot\u00f4mica, ao optar pela disputa de hegemonia supostamente favorecida pelo fortalecimento da sociedade civil burguesa, retira-se da paleta de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas o uso da for\u00e7a \u2013 seja da esquerda, abandonando a perspectiva de ruptura revolucion\u00e1ria, seja pela direita, com sua tradicional tend\u00eancia golpista que interrompe os processos institucionais.<\/p>\n<p>A maneira de contornar a luta de classes e tornar poss\u00edvel as reformas de longo prazo seria o pacto social. Isto \u00e9, deixar a burguesia ganhar seus lucros e criar as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para seus neg\u00f3cios enquanto, pouco a pouco, gotejam melhorias pontuais para os mais pobres. Assim a burguesia n\u00e3o teria raz\u00e3o para interromper o processo pol\u00edtico e a disputa seria desviada para o terreno que interessaria aos trabalhadores: a disputa eleitoral e o reformismo de baixa intensidade gradualista que seria aceito pelas classes dominantes uma vez que n\u00e3o se trata de nenhuma mudan\u00e7a socialista, mas de buscar uma maior justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio ideal a direita e suas manifesta\u00e7\u00f5es mais gritantes se isolariam, o conservadorismo iria cedendo espa\u00e7o para uma consci\u00eancia social cada vez mais progressista e viver\u00edamos felizes para sempre.<\/p>\n<p>A primeira incompreens\u00e3o grave \u00e9 que a hegemonia de uma classe social n\u00e3o se define, pelo menos como Gramsci pensava a quest\u00e3o, pela mera disputa das consci\u00eancias sociais e da legitimidade, mas tem suas ra\u00edzes nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e de propriedade determinantes numa certa \u00e9poca hist\u00f3rica. A hegemonia nasce da f\u00e1brica, dizia o comunista italiano. Querer reverter a dire\u00e7\u00e3o moral de uma sociedade mantendo as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e formas de propriedade inalterada \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Da mesma forma \u00e9 imposs\u00edvel separar os dois elementos constitutivos do Estado, isto \u00e9, a coer\u00e7\u00e3o e a busca do consenso. Dizia Gramsci:<\/p>\n<p>\u201cO exerc\u00edcio \u201cnormal\u201d da hegemonia, no terreno tornado cl\u00e1ssico do regime parlamentar, caracteriza-se pela <em>combina\u00e7\u00e3o da for\u00e7a e do consenso<\/em>, que se equilibram de modo variado, sem que a for\u00e7a suplante muito o consenso, mas ao contr\u00e1rio, tentando fazer com que a for\u00e7a pare\u00e7a apoiada no consenso da maioria\u201d<\/p>\n<p>(Antonio Gramsci, <em>Cadernos do C\u00e1rcere, v. III<\/em>, 2007, p. 95)<\/p>\n<p>Vejam que combinados os elementos do par dial\u00e9tico for\u00e7a\/consentimento, o Estado burgu\u00eas precisa apresentar sua domina\u00e7\u00e3o de classe como express\u00e3o de um interesse geral, e n\u00e3o de seus ego\u00edstas interesses particulares.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da ideologia, mas como isso \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Como j\u00e1 diziam Marx e Engels na <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/a-ideologia-alema\" target=\"_blank\"><em>Ideologia alem\u00e3<\/em><\/a>, as ideias dominantes em uma soctiedade s\u00e3o as ideias das classes dominantes, mas estas s\u00f3 s\u00e3o dominantes porque expressam no campo das ideias as rela\u00e7\u00f5es que fazem de uma classe a classe dominante. Tal aproxima\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 essencial \u00e0 compreens\u00e3o do nosso tema.<\/p>\n<p>O conservadorismo n\u00e3o \u00e9 um desvio cognitivo ou moral, n\u00e3o \u00e9 fruto de uma educa\u00e7\u00e3o mal feita ou de preconceitos vazios de significado. O conservadorismo \u00e9 uma das express\u00f5es da consci\u00eancia reificada, nos termos de Luk\u00e1cs, ou do chamado senso comum, nas palavras de Gramsci, isto \u00e9, \u00e9 uma expresso da consci\u00eancia imediata que prevalece em uma certa sociedade e que manifesta, ainda que de forma desordenada e bizarra, os valores determinantes que tem por fundamento as rela\u00e7\u00f5es sociais determinantes.<\/p>\n<p>Neste sentido, o conservadorismo n\u00e3o veio de lugar nenhum, sempre esteve ali nas rela\u00e7\u00f5es que constituem o cotidiano e na consci\u00eancia imediata. As caracter\u00edsticas desta consci\u00eancia imediata j\u00e1 foram delineadas por Luk\u00e1cs e se centram nos seguintes aspectos:<\/p>\n<p>a)<em> imediaticidade<\/em>, o que significa que \u00e9 uma consci\u00eancia que se forma nas rela\u00e7\u00f5es imediatas do ser social com as coisas e pessoas pr\u00f3ximas, nos contextos presenciais e que tem por horizonte de a\u00e7\u00e3o o tempo presente;<\/p>\n<p>b) <em>heterogeneidade<\/em>, o que implica que as diferentes esferas de a\u00e7\u00e3o da pessoa no trabalho, na vida afetiva, nos v\u00ednculos com o sagrado (o que inclui o futebol, al\u00e9m da religi\u00e3o), na ades\u00e3o \u00e0 valores morais, ganham autonomia e coexistem lado a lado sem a exig\u00eancia de coer\u00eancia entre os elementos que conformam um determinado modo de vida e uma correspondente concep\u00e7\u00e3o ideal de mundo;<\/p>\n<p>c) <em>superficialidade extensiva<\/em>, ou <em>ultrageneraliza\u00e7\u00e3o<\/em>, mecanismo pelo qual a experi\u00eancia imediata \u00e9 estendida e universalizada de contextos particulares para generaliza\u00e7\u00f5es carentes de media\u00e7\u00f5es, o que leva ao preconceito como forma imediata do pensamento no cotidiano.<\/p>\n<p>Esta consci\u00eancia imediata forma uma senso comum, bizarro e ocasional, isto \u00e9, formado por elementos dispares e heterog\u00eaneos relativos aos diferentes grupos ou segmentos sociais que o indiv\u00edduo entra em contato em sua vida, na fam\u00edlia, nos diversos grupos, no trabalho, na vida p\u00fablica e outras esferas.<\/p>\n<p>Ainda que todo senso comum expresse as rela\u00e7\u00f5es sociais determinantes e portanto valores da ordem burguesa, nem todo senso comum \u00e9 conservador. Faz parte do senso comum, at\u00e9 pela caracter\u00edstica da <em>imediaticidade<\/em>, a rea\u00e7\u00e3o a uma situa\u00e7\u00e3o vivida como injusta ou intoler\u00e1vel, a necessidade da solidariedade entre os que vivem as mesmas situa\u00e7\u00f5es, o que constitui um n\u00facleo saud\u00e1vel do senso comum ou o bom senso. Entretanto, tais caracter\u00edsticas tamb\u00e9m s\u00e3o cruzadas pela luta de classes, isto \u00e9, podem ser elementos basilares da constitui\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia de classe dos trabalhadores ou de forma\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conservadora.<\/p>\n<p>Neste ponto as duas dimens\u00f5es da an\u00e1lise se encontram. A estrat\u00e9gia gradualista e o governo de pacto social que dela deriva, desarmam a consci\u00eancia de classe forjada nas d\u00e9cadas anteriores e criam uma situa\u00e7\u00e3o na qual a consci\u00eancia dos trabalhadores reverte-se novamente em aliena\u00e7\u00e3o, em <em>serialidade<\/em>, fortalecendo o senso comum. A consci\u00eancia de classe dos trabalhadores pressup\u00f5e uma clara defini\u00e7\u00e3o do inimigo, como dizia Marx, para que os trabalhadores se vejam como uma classe que pode representar uma alternativa universal para o sociedade, outra classe tem que se expressar como um empecilho universal, um entrave que precisa ser superado; ou como dizia Freud, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel manter alguns em uni\u00e3o quando se dirige o \u00f3dio para outros.<\/p>\n<p>O pacto social e a pol\u00edtica da pequena burguesia procura diluir as diferencia\u00e7\u00f5es de classe, em outras coisas, com a enganosa ideia de na\u00e7\u00e3o. Ocorre que a consci\u00eancia de classe n\u00e3o \u00e9 uma naturalidade sociol\u00f3gica, de forma que cada classe tem a consci\u00eancia que lhe corresponde, mas ela se forma na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desta classe e, em grande medida, pala forma pol\u00edtica que assume sua vanguarda. Uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica classista gera um forte sentimento de pertencimento e identidade de classe, uma pol\u00edtica dilu\u00edda de cidad\u00e3os, consumidores, parceiros, e outras gera <em>indiferencia\u00e7\u00e3o<\/em>, permitindo que se imponha a in\u00e9rcia da vis\u00e3o de mundo pr\u00f3pria da sociedade dos indiv\u00edduos em livre concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Desarmada a classe trabalhadora de sua consci\u00eancia de classe, a luta de classes que se esperava contornar e que \u00e9 imposs\u00edvel de evitar, se manifesta. \u00c9 f\u00e1cil identificar os setores de direita que operam no jogo pol\u00edtico, mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples entender por que meios logram a ades\u00e3o de segmentos sociais diversos.<\/p>\n<p>A iniciativa pol\u00edtica e o trabalho ideol\u00f3gico da direita \u00e9 facilitado por um mecanismo que Althusser identificava como \u201creconhecimento\u201d, isto \u00e9, a ideologia s\u00f3 pode ser efetiva se o valor ideol\u00f3gico encontrar na consci\u00eancia imediata algo que produza um reconhecimento e assujeite a pessoa a determinadas pr\u00e1ticas. Neste ponto, o funcionamento da ideologia \u00e9 preciso. As rela\u00e7\u00f5es sociais interiorizadas na forma de valores que constituem uma determinada vis\u00e3o de mundo s\u00e3o apresentada \u00e0 estes valores agora na forma do discurso ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Ocorre que o discurso n\u00e3o \u00e9 uma mera reapresenta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado mais substantivo das rela\u00e7\u00f5es sociais internalizadas, ele o conforma de uma determinada maneira e com certa intencionalidade, produzindo um efeito pol\u00edtico extremamente \u00fatil \u00e0 domina\u00e7\u00e3o. Certas palavras chaves, \u201csignificantes mestres\u201d nos termos de Lacan, ordenam a serie de palavras que s\u00e3o ve\u00edculos de valores dando consist\u00eancia a uma determinada vis\u00e3o de mundo orientada ideologicamente.<\/p>\n<p>Isto significa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, algo muito simples. A disputa de hegemonia, que implica tamb\u00e9m, mas n\u00e3o somente, na disputa das consci\u00eancias, \u00e9 uma luta de classes e n\u00e3o um debate sobre valores. S\u00f3 se afirma uma vis\u00e3o de mundo, numa sociedade de classes, contra outra vis\u00e3o de mundo. Neste sentido a meta do consenso nos quadros do Estado burgu\u00eas \u00e9 ela mesma ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>No inevit\u00e1vel acirramento da luta de classes, os governistas do pacto social ficam \u00e0 deriva porque n\u00e3o esperavam ter que enfrentar a direita neste cen\u00e1rio na qual ela, ao contrario dos gradualistas, consegue dialogar com a consci\u00eancia imediata das massas. E o fazem operando eficientemente os elementos do conservadorismo deixado inalterado.<\/p>\n<p><strong>CONSERVADORISMO E FASCISMO<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um certo exagero conceitual na tentativa de identificar este conservadorismo como fascista. Mas, nos seria \u00fatil identificar nesta ideologia elementos que correspondem ao discurso conservador no intuito de compreender sob que significantes o conservadorismo abre o dialogo com a consci\u00eancia imediata.<\/p>\n<p>Leandro Konder em seu livro <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao fascismo<\/em> (S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2009) nos d\u00e1 um bom caminho nesta dire\u00e7\u00e3o. Primeiro ressaltemos que o fascismo, tal como Togliatti e outros definiram, \u00e9 uma express\u00e3o pol\u00edtica da pequena burguesia que serve aos interesses do grande capital monopolista\/financeiro e que logra uma apoio de massas nas classes trabalhadoras. Ideologicamente ele opera necessariamente apagando suas pegadas relativas ao seu pertencimento de classe, e para tanto \u00e9 essencial a ideia de Na\u00e7\u00e3o, de onde deriva a primeira caracter\u00edstica do pensamento conservador: ele \u00e9 extremadamente nacionalista.<\/p>\n<p>A esquerda sempre flertou com a ideia de na\u00e7\u00e3o, mas ela \u00e9 uma patrim\u00f4nio da direita e uma propriedade intelectual da pequena burguesia, que por ser uma classe de transi\u00e7\u00e3o (n\u00e3o \u00e9 trabalhadora nem burguesa) se cr\u00ea acima dos interesses de classe, sendo a legitima detentora do interesse nacional. N\u00e3o cabe aqui avan\u00e7ar na discuss\u00e3o se este valor pode ou n\u00e3o servir a prop\u00f3sitos de esquerda \u2013 j\u00e1 serviram. Sempre achei temer\u00e1rio e as consequ\u00eancias n\u00e3o costumam ser boas. O que nos interessa diretamente aqui nesta reflex\u00e3o \u00e9 que a direita, de novo, manipula com efici\u00eancia esta ideia vaga que a na\u00e7\u00e3o precisa ser defendida contra seus advers\u00e1rios e sai \u00e0s ruas com as cores da CBF.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante a ser destacado na ideologia fascista, que aqui nos serve apenas de par\u00e2metro de an\u00e1lise, \u00e9 o <em>pragmatismo imediatista<\/em>. Derivado de um quadro de referencia imediato, de problemas ou contradi\u00e7\u00f5es que lhe afetam de forma direta, o fascista assim como todo conservador quer uma solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria, assim como inexistem determina\u00e7\u00f5es fora do campo do vis\u00edvel. Desta forma o pensamento conservador n\u00e3o se preocupa se antes falava uma coisa e agora fala outra, pois n\u00e3o conex\u00e3o entre estas dimens\u00f5es, s\u00f3 existe o agora, o <em>presentismo<\/em> exacerbado. Dane-se o passado e n\u00e3o me interessa as consequ\u00eancias disso para o futuro, me interessa o gozo presente, o \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Tal caracter\u00edstica remete a outras duas pr\u00f3prias do pensamento conservador: a preponder\u00e2ncia das <em>paix\u00f5es<\/em> e o <em>irracionalismo<\/em>. Como n\u00e3o existem determina\u00e7\u00f5es mais profundas al\u00e9m da apar\u00eancia dos fen\u00f4menos, assim como n\u00e3o existe hist\u00f3ria que articule formas passadas \u00e0s presentes, tudo se resume a rea\u00e7\u00e3o instintiva e animal, as paix\u00f5es. Da\u00ed que o conservador \u00e9 por natureza violento e irracional.<\/p>\n<p>Um fato ilustra bem isso. Um fot\u00f3grafo mineiro foi agredido na manifesta\u00e7\u00e3o da direita porque se parecia com Lula. Vejam, um ser racional n\u00e3o agrediria algu\u00e9m por querer participar de ato p\u00fablico, mas um ser irracional n\u00e3o se permite perguntar algo ainda mais elementar: o que estaria fazendo o ex-presidente da Rep\u00fablica disfar\u00e7ado de rep\u00f3rter num ato da direita?<\/p>\n<p>Tentar buscar algum tipo de racionalidade na direita conservadora (uma redund\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9?) \u00e9 tarefa in\u00fatil. Assim como a <em>Globo<\/em> tentando derivar dos atos uma pauta, quando se via claramente um exerc\u00edcio sistem\u00e1tico de \u00f3dio; ou ainda a presidente Dilma e seus perdidos ministros reafirmando quest\u00e3o abertas ao dialogo com a malta que pede sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aspecto que deriva, tanto do nacionalismo, como do imediatismo e do irracionalismo apaixonado: o <em>preconceito<\/em>. Todo fascista e a maioria dos conservadores tem que desembocar, mais cedo ou mais tarde, em algum tipo de supremacia que justifique sua a\u00e7\u00e3o. Aqui ganha uma densidade vis\u00edvel a opera\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio freudiano segundo o qual o que permite a solidifica\u00e7\u00e3o da identidade grupal \u00e9 a transfer\u00eancia do \u00f3dio para algo ou algu\u00e9m fora do grupo. \u00c9 preciso criar um estigma, um preconceito, para que a paix\u00e3o violenta se expresse.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta a oposi\u00e7\u00e3o a um governo, um debate sobre alternativas de sociedade. Isto tudo \u00e9 racional demais. \u00c9 preciso colar algo mais at\u00e1vico, afetivo, que mobilize paix\u00f5es irracionais. Da\u00ed a funcionalidade dos estigmas, e entre eles do anticomunismo, ainda que o alvo da raiva n\u00e3o seja, nem de longe, algo parecido com um alternativa comunista. Desta maneira eu posso atacar, pedir o impedimento, xingar, desejar matar e acusar sem entender o porqu\u00ea. Simplesmente porque \u00e9 comunista (ou judeu, ou negro, ou homossexual, etc\u2026).<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da grande carga afetiva mobilizada na op\u00e7\u00e3o conservadora, ela exige e pressup\u00f5e a repress\u00e3o da sexualidade, como j\u00e1 analisou brilhantemente Willian Reich. Por isso o fascista e o conservador \u00e9 um <em>moralista<\/em>. O moralismo e suas manifesta\u00e7\u00f5es associadas, como a intransigente defesa da fam\u00edlia, por exemplo, s\u00e3o um elemento constante no discurso conservador, mas aqui tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio a alteridade, um outro que ameace a ordem e a harmonia do padr\u00e3o moral, da\u00ed que n\u00e3o nos espanta que o discurso conservador associe o nacionalismo, a irracionalidade, o moralismo com a homofobia.<\/p>\n<p>Por fim, o fascismo sempre foi um cr\u00edtico da democracia e do regime parlamentar e defendeu a solu\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. O conservadorismo \u00e9 sempre <em>elitista<\/em>. A no\u00e7\u00e3o de supremacia, seja racial ou outra qualquer, age aqui como a convic\u00e7\u00e3o que o governo deve ser entregue a uma elite capaz, forte e moralmente firme, para conduzir a sociedade na dire\u00e7\u00e3o correta. No fundo o autoritarismo \u00e9 uma consequ\u00eancia de tudo o que foi dito, pois aquele que clama contra o desvio moral, o risco da corrup\u00e7\u00e3o, na verdade est\u00e1 clamando por controle, inclusive contra seus pr\u00f3prios impulsos. Todo conservador \u00e9 um s\u00e1dico.<\/p>\n<p>O que nos salta aos olhos \u00e9 que estes elementos do discurso ideol\u00f3gico conservador produz a fun\u00e7\u00e3o do reconhecimento com os elementos da consci\u00eancia imediata reificada, com o senso comum. Por ouro lado, a consci\u00eancia de classe se constitui num tortuoso processo de rompimento com o senso comum, ainda que sempre partindo dele.<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira de enfrentar o discurso e a pr\u00e1tica pol\u00edtica da direita \u00e9 revelando sua particularidade e a natureza de seus interesses de classe. No entanto esta n\u00e3o \u00e9 uma mera opera\u00e7\u00e3o racional, em grande medida a luta de classes exige que a transi\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o para a consci\u00eancia de classe tamb\u00e9m opere com mecanismos subjetivos, de identidade de classe, de forma\u00e7\u00e3o de uma nova subjetividade, de transforma\u00e7\u00e3o cultural. O fascismo s\u00f3 tem espa\u00e7o para crescer na derrota da esquerda.<\/p>\n<p>Contra esta ofensiva da direita, que era inevit\u00e1vel, seria necess\u00e1rio agora uma classe trabalhadora que constitu\u00edda enquanto classe e portadora de valores e uma vis\u00e3o de mundo revolucion\u00e1ria, que visse na amea\u00e7a fascista a necessidade de sua maior unidade. Na aus\u00eancia desta consci\u00eancia de classe, na desarticula\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de mundo de esquerda que poderia ordenar o senso comum numa dire\u00e7\u00e3o diferente, os membros das classes trabalhadoras s\u00e3o devolvidos \u00e0 serialidade e viram presas do discurso conservador.<\/p>\n<p>Enganam-se os que querem restringir o pensamento conservador a uma categoria de eleitores, ou apenas aos segmentos m\u00e9dios. O grande risco \u00e9 que a base de massas para alternativas conservadoras (n\u00e3o creio que no momento possam ser identificadas como fascistas) n\u00e3o pode ser somente as chamadas \u201cclasses m\u00e9dias\u201d, ainda que sejam estas a caixa de resson\u00e2ncia por natureza da proposta conservadora. O alvo \u00e9 outro. S\u00e3o os trabalhadores. Por isso o abandono das demandas pr\u00f3prias de nossa classe pelo governo de pacto social \u00e9 o caminho mais r\u00e1pido para dotar a alternativa de direita da base social que ela precisa.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p>http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/04\/15\/de-onde-vem-o-conservadorismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. \u201cAtr\u00e1s da aparente beleza, est\u00e3o os assassinos em massa, a aboli\u00e7\u00e3o da dignidade, os campos de trabalho for\u00e7ado, a \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7744\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-7744","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-20U","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}