{"id":7860,"date":"2015-04-23T16:05:14","date_gmt":"2015-04-23T16:05:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=7860"},"modified":"2015-04-27T16:49:21","modified_gmt":"2015-04-27T16:49:21","slug":"os-debates-pela-paz-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7860","title":{"rendered":"Os debates pela paz &#8211; parte II"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-uuo0Z02yVf0\/VNuBNnSw44I\/AAAAAAAABgI\/2Ldb1WLMr6k\/s1600\/Debates%2Bpara%2Bla%2Bpaz%2BII%2BPacho%2BToloza.jpg?w=747\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Marcha Patri\u00f3tica \u2013 fevereiro de 2015<\/p>\n<p>Por: Pacho Tolosa<\/p>\n<p>Parte II<!--more--><\/p>\n<p><strong>3. Ascenso e encontro do processo de paz com o ELN e o EPL.<\/strong><\/p>\n<p>Uma grande interroga\u00e7\u00e3o na perspectiva da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao conflito armado, passa pelo desenvolvimento do processo de paz com o ELN \u2013 que se encontra em sua fase explorat\u00f3ria, \u2013 assim como pela abertura de conversa\u00e7\u00f5es com o EPL. A arrog\u00e2ncia do governo, baseada na mentira de sua suposta vit\u00f3ria militar, n\u00e3o \u00e9 um bom princ\u00edpio para a ascens\u00e3o de um processo de paz com grupos insurgentes que, como o ELN e o EPL, manifestaram sua vontade de di\u00e1logo<a>[1]<\/a> e se mant\u00e9m em atividade pol\u00edtica e militar h\u00e1 5 d\u00e9cadas. O car\u00e1ter social e pol\u00edtico do confronto armado na Col\u00f4mbia obriga, como nos di\u00e1logos de Havana, a construir igualmente com estas guerrilhas uma agenda substantiva que incorpore as problem\u00e1ticas que originaram e incentivaram a guerra, exigindo que o estado colombiano renuncie a sua vis\u00e3o minimalista de \u201cpaz expressa\u201d tamb\u00e9m com estas guerrilhas.<\/p>\n<p>Ainda que para o caso do ELN o processo leve mais de 2 anos e o in\u00edcio dos di\u00e1logos tenha sido anunciado h\u00e1 mais de 9 meses, hoje \u00e9 pouco o que conhecemos sobre o avan\u00e7o destas conversa\u00e7\u00f5es que requerem o acompanhamento do conjunto do povo colombiano. A \u00fanica evid\u00eancia \u00e9 a atitude ambivalente por parte do estado para a concretiza\u00e7\u00e3o desta mesa, raz\u00e3o que exige maior press\u00e3o popular para a formaliza\u00e7\u00e3o e fortalecimento destes di\u00e1logos, assim como para o in\u00edcio das conversa\u00e7\u00f5es de paz com a guerrilha do EPL, que avan\u00e7am rapidamente para o cessar-fogo e das hostilidades.<\/p>\n<p>Embora as pr\u00f3prias particularidades do ELN como movimento pol\u00edtico em armas e express\u00e3o concreta de um ac\u00famulo de lutas sociais, tornem pertinente o desenvolvimento de uma mesa com uma agenda espec\u00edfica, tamb\u00e9m \u00e9 claro que para al\u00e9m da exist\u00eancia de m\u00faltiplas mesas de di\u00e1logos, \u00e9 inexor\u00e1vel que estas terminem condensando-se em um grande processo pela solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a constru\u00e7\u00e3o da paz s\u00e3o um processo hist\u00f3rico complexo que requerer\u00e1 a coopera\u00e7\u00e3o e conflu\u00eancia de todos os envolvidos no conflito, e a atual t\u00e1tica governamental de dilatar as conversa\u00e7\u00f5es com as outras guerrilhas n\u00e3o faz outra coisa que engessar o fim desta guerra, que supostamente tem pressa para ser conclu\u00edda.<\/p>\n<p>O encontro e a participa\u00e7\u00e3o da sociedade na constru\u00e7\u00e3o da paz expressos pelo ELN, n\u00e3o s\u00e3o uma diferen\u00e7a com as FARC-EP, como apregoavam os analistas descontextualizados, mas uma n\u00edtida coincid\u00eancia entre as 2 guerrilhas, e destas, com todo o espectro democr\u00e1tico do pa\u00eds. Esta necess\u00e1ria discuss\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o decisiva do povo soberano, que as duas insurg\u00eancias enfatizam muito bem, poderia ser a base do encontro das 2 mesas.<\/p>\n<p>Obviamente, os mecanismos de uni\u00e3o das distintas mesas em um \u00fanico processo de paz ser\u00e3o, certamente, debates volumosos e tamb\u00e9m sutilezas que requerer\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o tanto das delega\u00e7\u00f5es de paz como do conjunto do povo colombiano. Por\u00e9m, estas discuss\u00f5es e propostas necess\u00e1rias para a paz s\u00f3 poder\u00e3o amadurecer caso o estado abandone os rodeios e d\u00ea in\u00edcio ao di\u00e1logo com as guerrilhas do ELN e o EPL.<\/p>\n<p><strong>4. A concep\u00e7\u00e3o de \u201cEntrega de armas\u201d e de \u201cFim do conflito\u201d<\/strong><\/p>\n<p>No ponto 3 consagrado no Acordo Geral de Havana, denominado Fim do Conflito, se condensam talvez v\u00e1rios pontos da mais fria discuss\u00e3o, dado o v\u00edes e a mal\u00edcia com que o governo apresentou os di\u00e1logos de paz \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 preciso destacar que este terceiro ponto cont\u00e9m 7 se\u00e7\u00f5es<a>[2]<\/a>, que se referem a m\u00faltiplos aspectos de seu debate, tornando-se inevit\u00e1vel avan\u00e7ar em m\u00ednimos esclarecimentos conceituais sobre nosso conflito social pol\u00edtico armado, que o governo e a grande imprensa preferem ignorar.<\/p>\n<p>A primeira reflex\u00e3o \u00e9 que em Havana avan\u00e7amos para o t\u00e9rmino do componente armado do conflito, por\u00e9m n\u00e3o em sua totalidade, que se comp\u00f5e de dimens\u00f5es pol\u00edticas e sociais. Ao dar-se o acordo de paz n\u00e3o vem nenhum p\u00f3s-conflito, mas continua e se desenvolve o conflito social e pol\u00edtico s\u00f3 que despojado de seu elemento b\u00e9lico. A complexidade do processo de di\u00e1logos se trata precisamente de fixar as regras do jogo para que o conflito social e pol\u00edtico colombiano possa diminuir de forma pac\u00edfica, o que implica inexoravelmente o desmonte das estruturas sociais e pol\u00edticas que levaram a confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e de classe para a guerra. Este esclarecimento, inclusive, foi exposto nitidamente pelo delegado presidencial no in\u00edcio dos di\u00e1logos e irm\u00e3o mais velho do presidente, Enrique Santos Calder\u00f3n, quando afirmou em seu \u00faltimo panfleto de propaganda: \u201cO fim do confronto armado n\u00e3o ser\u00e1 o fim do conflito social e pol\u00edtico. Este continuar\u00e1 e, possivelmente, se intensificar\u00e1, em forma de protestos sociais, paralisa\u00e7\u00f5es camponesas, greves oper\u00e1rias ou mobiliza\u00e7\u00f5es c\u00edvicas de diferentes tipos<a>[3]<\/a>\u201d. Sob o risco de soar contradit\u00f3rio, do que se trata \u00e9 de terminar a guerra para desenvolver o conflito.<\/p>\n<p>Em segunda inst\u00e2ncia e em conson\u00e2ncia com esta concep\u00e7\u00e3o, o debate do fim do conflito n\u00e3o se enquadra como o apregoa o governo na defini\u00e7\u00e3o manualesca de DDR (Desarmamento, Desmobiliza\u00e7\u00e3o e Reinser\u00e7\u00e3o), mas que dado o car\u00e1ter hist\u00f3rico da confronta\u00e7\u00e3o, sua raiz social e pol\u00edtica, assim como a pr\u00f3pria correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no campo de batalha desta guerra de mais de 50 anos, tal como exp\u00f5e a agenda do ponto 3, abordar\u00e3o aspectos t\u00e3o diversos que englobam a liberdade dos prisioneiros de guerra das FARC-EP , os \u201cajustes institucionais requeridos pela paz\u201d ou o \u201cesclarecimento do fen\u00f4meno do paramilitarismo\u201d, entre outros.<\/p>\n<p>Torna-se evidente a densidade e alcance da pol\u00eamica neste ponto, j\u00e1 que sintetiza a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do conflito armado para sua solu\u00e7\u00e3o. Estamos diante de um processo hist\u00f3rico que n\u00e3o se reduz a meros artif\u00edcios administrativos, mas que requer compromissos e tempos distintos aos que hoje empreende a Casa de Nari\u00f1o <em>(nota da tradu\u00e7\u00e3o: Pal\u00e1cio do Governo)<\/em>. Papel central ser\u00e1 assumido, sem d\u00favida, pela comiss\u00e3o t\u00e9cnica militar que trar\u00e1 v\u00e1rios aspectos espec\u00edficos necess\u00e1rios para o fim do conflito armado, por\u00e9m tamb\u00e9m o informe da Comiss\u00e3o Hist\u00f3ria do Conflito e suas v\u00edtimas, dando orienta\u00e7\u00f5es sobre a origem e combust\u00edveis desta guerra, assim como chaves para sua queda e seu desmonte.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, como denominador comum em todos os debates pela paz, n\u00e3o se pode perder de vista a bilateralidade do processo. O ponto do fim do conflito n\u00e3o \u00e9 o ponto de rendi\u00e7\u00e3o das FARC-EP e nem sequer de entrega de suas armas, mas do t\u00e9rmino de uma guerra que n\u00e3o teve um \u00fanico grupo em combate, o que implica a constru\u00e7\u00e3o de medidas para desativar todas as partes envolvidas. Uma leitura s\u00e9ria dos par\u00e1grafos do ponto 3 deixaria claro que, quando os compromissos competem exclusivamente a uma das partes da mesa, esta fica expressa no documento, o que permite entender que as a\u00e7\u00f5es resenhadas genericamente correspondem a ambas as partes do Acordo Geral.<\/p>\n<p>Em tal sentido, o item de \u201cEntrega de armas\u201d n\u00e3o precisa que seja a entrega de armas da guerrilha, e sim que deve ser aplic\u00e1vel para ambas as partes, com a clareza pol\u00edtica de que a entrega n\u00e3o significa desarmamento e nem rendi\u00e7\u00e3o, mas sua n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o. Falta dizer que a n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o das armas dos combatentes n\u00e3o depender\u00e1 somente da determina\u00e7\u00e3o de uma das partes, mas do car\u00e1ter bilateral e da defesa do cessar-fogo e das hostilidades. Precisamente pelos perigos que contemplam a constru\u00e7\u00e3o da paz, dificilmente as partes em conflito aceitar\u00e3o ficar inertes. Por\u00e9m, indefectivelmente, o processo de paz busca comprometer-se a n\u00e3o continuar usando as armas para seus objetivos pol\u00edticos, ou seja, cessar da viol\u00eancia pol\u00edtica. E aqui destaco que deve ser um compromisso bilateral, j\u00e1 que o estado e as classes dominantes foram os primeiros a juntar pol\u00edtica e armas, \u201ccombinar as formas de luta\u201d em um pa\u00eds cuja exist\u00eancia como rep\u00fablica descansa sobre o atentado de Sucre e onde, em 2015, continuam ocorrendo assassinatos de dirigentes sociais e populares, como no recente caso do companheiro Carlos Pedraza, do Congresso dos Povos. Se a grande imprensa semeia hostilidade e alega desconfian\u00e7a nas FARC-EP, deveria esgrimir que fundamentalmente a insurg\u00eancia e os setores populares t\u00eam raz\u00f5es de sobra contrastadas historicamente, para duvidar da probidade do governo e exigir todas as medidas para evitar um novo genoc\u00eddio pol\u00edtico. Os guerrilheiros da comiss\u00e3o t\u00e9cnica militar, denominados Comando de Normaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o pedindo o desarmamento de sua contraparte, mas que esta atue como uma institui\u00e7\u00e3o militar em um pa\u00eds sem identidade, marcado pela guerra civil, ou seja, que as for\u00e7as oficiais deponham suas armas que brandiram por mais de 50 anos contra a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Disso se trata a normaliza\u00e7\u00e3o que os delegados governamentais chamam de transi\u00e7\u00e3o e que teria in\u00edcio com o cessar-fogo bilateral indefinido.<\/p>\n<p>Antes que os rep\u00f3rteres mal intencionados apresentem esta clareza conceitual como um truque <em>in extremis<\/em> das FARC-EP para, segundo seus termos, \u201cenganar o pa\u00eds\u201d, acudamos outra vez ao mesm\u00edssimo Enrique Santos, que testemunha como esta diferencia\u00e7\u00e3o esteve presente para as partes sentadas na mesa desde a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da agenda<a>[4]<\/a>. Tamb\u00e9m suponho que se tenha decantado com nitidez a diferen\u00e7a entre <em>reincorpora\u00e7\u00e3o<\/em> das FARC-EP \u00e0 vida civil \u2013 no econ\u00f4mico, no social e no pol\u00edtico \u2013 como reza o acordo, e a <em>desmobiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, conceito que n\u00e3o aparece no acordo e que, segundo anunciado pelos porta-vozes insurgentes, n\u00e3o est\u00e1 na agenda da guerrilha, j\u00e1 que planejam manter-se como movimento pol\u00edtico e n\u00e3o dissolver-se ante um poss\u00edvel acordo, justamente porque, como j\u00e1 apontado anteriormente, o conflito continuar\u00e1 depois de um poss\u00edvel acordo.<\/p>\n<p>Para esclarecer, neste sentido \u00e9 importante apelar para as experi\u00eancias internacionais que rompem com o fetiche da burguesia colombiana de entrega das armas e submiss\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a. No Ulster, o IRA decretou o cessar-fogo desde 1997 para impulsionar o processo de paz que se expressou no Acordo de Sexta-feira Santa, em 1998, que incluiu, entre outros temas, reformas policiais e administrativas para Irlanda do Norte e a liberta\u00e7\u00e3o dos prisioneiros pol\u00edticos, inclu\u00eddos aqueles condenados a v\u00e1rias pris\u00f5es perp\u00e9tuas. N\u00e3o obstante, a guerrilha irlandesa s\u00f3 renunciou oficialmente \u00e0 luta armada em 2005, quando os grupos paramilitares unionistas se desmantelaram e, em 2008, se desintegrou como corpo armado, no marco de um governo de coaliz\u00e3o protestante-cat\u00f3lica formado em 2007 e do qual participava o Sinn F\u00e9in, seu partido pol\u00edtico. Os republicanos irlandeses deixaram e n\u00e3o entregaram as armas em meio do acompanhamento internacional, situa\u00e7\u00e3o aceita por sua contraparte, o poderoso Reino Unido, que avan\u00e7ou em seus compromissos contra\u00eddos pelos acordos de paz.<\/p>\n<p>No Nepal, entre a assinatura do acordo de paz, em 2006, e a entrega do PLA<a>[5]<\/a> das chaves de seus dep\u00f3sitos de armas, em 2011, a uma comiss\u00e3o pluripartid\u00e1ria, convocou-se uma Assembleia Constituinte formada sob um sistema misto de elei\u00e7\u00e3o que eliminou a monarquia motivadora da guerra e o Partido Comunista do Nepal-Mao\u00edsta \u2013 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que dirigia a guerrilha \u2013 entrou para participar da nova coaliz\u00e3o do governo. Tanto Prachanda como Bhattarai, chefes m\u00e1ximos da guerrilha maoista, foram n\u00e3o s\u00f3 constituintes como os primeiros-ministros entre 2009 e 2013, e garantiram o cessar-fogo bilateral, assim como o aquartelamento da guerrilha e ex\u00e9rcito do Nepal pela entrega de armas.<\/p>\n<p>Algo similar ocorreu na \u00c1frica do Sul, onde Umkhonto WeSizwe, MK, bra\u00e7o armado do Congresso Nacional Africano, embora tenha suspendido as atividades militares desde 1990, s\u00f3 se desintegrou depois de 1994, sob o governo de Nelson Mandela que foi seu comandante em 1961. N\u00e3o podemos esquecer que isto foi possibilitado pelos acordos de paz que abriram o processo constituinte de democratiza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul. Gra\u00e7as aos di\u00e1logos iniciados com a liberta\u00e7\u00e3o dos prisioneiros pol\u00edticos do MK e do CNA, se promulgou uma constitui\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria em 1993 que permitiu o voto livre, a elei\u00e7\u00e3o de Mandela e convocou a Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constitui\u00e7\u00e3o sul-africana de 1996. \u00c9 sob este contexto de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e de abertura de garantias democr\u00e1ticas que se produziu a entrega de armas do MK.<\/p>\n<p>Em El Salvador, a entrega de armas do FMLN, sob a verifica\u00e7\u00e3o internacional, foi acompanhada por uma profunda reforma das for\u00e7as militares e da pol\u00edcia do estado centro-americano, pactuada nos acordos de 1992. Nos Acordos de Paz de Chapultepec foi consagrada a transforma\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, depura\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o substancial das For\u00e7as Armadas de El Salvador, FAES, com a supress\u00e3o das for\u00e7as de elite, a elimina\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional e da Pol\u00edcia do Tesouro, assim como a cria\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil Nacional, corpo desmilitarizado formado por um ter\u00e7o de combatentes guerrilheiros. Como pode observar, a entrega de armas n\u00e3o \u00e9 um ato em si mesmo, mas um processo hist\u00f3rico complexo que parte da suspens\u00e3o de a\u00e7\u00f5es militares insurgentes e de cessar-fogos bilaterais, mas n\u00e3o a rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 contraparte. \u00c9 preciso ressaltar que esta mudan\u00e7a foi acompanhada por reformas estruturais que ofereceram as reais garantias de incorpora\u00e7\u00e3o das guerrilhas e movimentos sociais \u00e0 vida pol\u00edtica aberta, ou seja, pelo desmonte da viol\u00eancia pol\u00edtica como recurso do sistema no poder. Para al\u00e9m dos aspectos t\u00e9cnicos em termos s\u00f3cio-estruturais, a \u201centrega de armas\u201d, enquanto termos de viol\u00eancia pol\u00edtica, sempre ser\u00e1 um processo bilateral.<\/p>\n<p>Ainda que o governo e seus meios de comunica\u00e7\u00e3o neguem, a reforma das For\u00e7as Armadas est\u00e1 sobre a mesa: \u00e9 disso que tamb\u00e9m se trata a entrega de armas e a sa\u00edda pol\u00edtica. A necess\u00e1ria transforma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a p\u00fablica certamente implicar\u00e1 o debate com um importante setor do atual bloco hegem\u00f4nico, dada a progressiva incorpora\u00e7\u00e3o do estamento militar como fac\u00e7\u00e3o de classe dentro da coaliz\u00e3o dominante e a apropria\u00e7\u00e3o de certo militarismo fascist\u00f3ide como parte do discurso ideol\u00f3gico da direita colombiana. Equivocadamente, o ministro Pinz\u00f3n pretende construir a paz sem que se mova uma v\u00edrgula nem com rela\u00e7\u00e3o a ele nem a seu complexo militar industrial. A aposta do governo e dos militares ante um eventual acordo de paz \u00e9 reacomodar o hipertrofiado ex\u00e9rcito sem reduzir seu n\u00famero atrav\u00e9s da mercenariza\u00e7\u00e3o de nossos soldados via \u201ccoopera\u00e7\u00e3o internacional\u201d, como \u00e9 visto nos acordos militares com a ONU, OTAN e demais; a promo\u00e7\u00e3o da venda de servi\u00e7os e a promo\u00e7\u00e3o das chamadas alian\u00e7as p\u00fablico-privadas como \u00e9 exposto hoje no denominado GSED (Grupo Empresarial e Social da Defesa)<a>[6]<\/a>; e mediante a proje\u00e7\u00e3o da chamada \u201cseguran\u00e7a urbana e rural\u201d sob o sofisma das novas amea\u00e7as criminosas.<\/p>\n<p>A reengenharia das For\u00e7as Armadas para a paz n\u00e3o pode ser guiada pela disputa entre as fac\u00e7\u00f5es militares pelo controle de fun\u00e7\u00f5es e or\u00e7amentos, nem deter-se ante os interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos criados por generais dos distintos corpos ou contratados do setor, que \u00e9 o que transparece a maioria das propostas governamentais. Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o com o fechamento imperfeito do ciclo da viol\u00eancia, a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em curso deve significar no m\u00ednimo uma transforma\u00e7\u00e3o essencial da for\u00e7a p\u00fablica atrav\u00e9s de um novo pacto, que substitua aquele acordo antidemocr\u00e1tico selado por Lleras Camargo com seus generais em plena Guerra Fria. \u00c9 necess\u00e1rio, no m\u00ednimo, uma s\u00e9ria reforma doutrin\u00e1ria, de estrutura e de tamanho, em um debate aberto no pa\u00eds iniciado na mesa de Havana, com as contribui\u00e7\u00f5es inestim\u00e1veis da comiss\u00e3o t\u00e9cnica militar integrada por comandantes dos dois grupos em conflito, por\u00e9m que requerer\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o do povo soberano na Assembl\u00e9ia Nacional Constituinte para a paz. Sem for\u00e7ar muito a compreens\u00e3o de leitura, alguns sup\u00f5em que estas mudan\u00e7as inevit\u00e1veis nas For\u00e7as Armadas fazem parte <em>\u201cdas reformas e dos <\/em><em>ajustes institucionais necess\u00e1rios para fazer frente aos desafios da constru\u00e7\u00e3o da paz\u201d, <\/em>expressos no ponto 3.5 da agenda de discuss\u00e3o firmada pelo governo e guerrilha.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/marchapatrioticaenelvalle.blogspot.com.br\/2015\/02\/debates-para-la-paz-ii-parte-por-pacho.html\">http:\/\/marchapatrioticaenelvalle.blogspot.com.br\/2015\/02\/debates-para-la-paz-ii-parte-por-pacho.html<\/a><\/p>\n<p><em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><a>[1]<\/a> A respeito, ver n\u00e3o s\u00f3 os m\u00faltiplos pronunciamentos do ELN que tiveram ampla difus\u00e3o, mas a carta aberta do Comando Geral do EPL e do Comit\u00ea Executivo Central do PC do C (ML), de julho de 2014, onde assinam n\u00e3o apenas uma proposta de di\u00e1logo de paz como de Assembleia Nacional Constituinte para a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao conflito.<\/p>\n<p><a>[2]<\/a> O ponto 3 do Acordo Geral que define a agenda de di\u00e1logo reza textualmente: <em>\u201c3. Fim do conflito. Processo integral e simult\u00e2neo que implica: 1. <\/em><em>Cessar-fogo e das hostilidades bilateral e definitivo. 2. Entrega das armas,. <\/em><em>Reincorpora\u00e7\u00e3o d<\/em><em>as FARC-EP \u00e0 vida civil \u2013 no econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico \u2013 de acordo com seus interesses. 3. O Governo Nacional coordenar\u00e1 a revis\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o das pessoas privadas da liberdade, processadas ou condenadas por pertencer ou colaborar com as FARC-EP. 4. Paralelamente, o Governo Nacional intensificar\u00e1 o combate para acabar com as organiza\u00e7\u00f5es criminosas e suas redes de apoio, incluindo a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o e a impunidade, em particular contra qualquer organiza\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por homic\u00eddios e massacre ou que atente contra defensores de direitos humanos, movimentos sociais ou movimentos pol\u00edticos. 5. O Governo Nacional revisar\u00e1 e far\u00e1 as reformas e os ajustes institucionais necess\u00e1rios para fazer frente aos desafios da constru\u00e7\u00e3o da paz. 6. <\/em><em>Garantias de seguran\u00e7a. <\/em><em>7. No marco do estabelecido no Ponto5 (V\u00edtimas) deste acordo, se esclarecer\u00e1, entre outros, o fen\u00f4meno do paramilitarismo. A assinatura do Acordo Final inicia este processo, o qual deve desenvolver-se em um tempo prudente acordado pelas partes\u201d.<\/em><\/p>\n<p><a>[3]<\/a> SANTOS CALDERON, Enrique. Assim come\u00e7ou tudo. 2014. P\u00e1g. 124.<\/p>\n<p><a>[4]<\/a> \u201cO ponto de entrega das armas foi, n\u00e3o por acaso, o mais demorado e complicado nos encontros explorat\u00f3rios. N\u00e3o aceitaram que figurasse o termo rendi\u00e7\u00e3o no texto do acordo\u201d ibid.P\u00e1g. 124.<\/p>\n<p><a>[5]<\/a> Ex\u00e9rcito Popular de Liberta\u00e7\u00e3o, por sua sigla em ingl\u00eas. Bra\u00e7o armado do Partido Comunista do Nepal-Mao\u00edsta (CPN-M por sua sigla em ingl\u00eas) guerrilha que desenvolveu a chamada Guerra Popular entre 1996 e 2006 no pa\u00eds asi\u00e1tico.<\/p>\n<p><a>[6]<\/a> Como afirma o pr\u00f3prio Pinz\u00f3n em sua reportagem na revista Dinero do m\u00eas de janeiro: \u201c<em>Quando nos referimos ao Minist\u00e9rio de Defesa da Col\u00f4mbia estamos falando, talvez, de uma das maiores empresas do pa\u00eds e da regi\u00e3o, e a maior empregadora da Col\u00f4mbia: meio milh\u00e3o de pessoas \u2013 militares, policiais e civis \u2013, um or\u00e7amento da ordem dos $28 bilh\u00f5es, um setor que possui 10 empresas concentradas no Grupo Empresarial e Social da Defesa \u2013 GSED \u2013, com rendas de $7 bilh\u00f5es, obviamente uma porcentagem importante em termos de pens\u00f5es, por\u00e9m que gerou em fins de 2014 rendimentos superiores a $180.000 milh\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas a $30.000 milh\u00f5es. Al\u00e9m disso, conta com a que pode ser a maior EPS do pa\u00eds, com cerca de 1,4 milh\u00f5es de usu\u00e1rios\u201d<\/em>. Cerca de 65% dos rendimentos correspondem a contribui\u00e7\u00f5es da Na\u00e7\u00e3o, o que implica um crescente investimento privado neste conglomerado militar. Artigo MINDEFESA INC. Revista Dinero. Edi\u00e7\u00e3o 461. Janeiro de 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marcha Patri\u00f3tica \u2013 fevereiro de 2015 Por: Pacho Tolosa Parte II\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/7860\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-7860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-22M","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}