{"id":8317,"date":"2015-05-15T19:21:34","date_gmt":"2015-05-15T22:21:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8317"},"modified":"2015-05-27T21:49:27","modified_gmt":"2015-05-28T00:49:27","slug":"comando-e-controle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8317","title":{"rendered":"Comando e controle"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/jf\/imagens\/command_control.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>Jorge Figueiredo<\/b><\/p>\n<p><i>&#8220;Command and control&#8221;, <\/i>de Eric Schlosser <u>[1]<\/u> , \u00e9 uma obra cicl\u00f3pica pela quantidade de documenta\u00e7\u00e3o que o autor coligiu, pelo n\u00famero de entrevistas que fez e pela abrang\u00eancia dos temas que aborda. As 632 p\u00e1ginas deste livro condensam dez anos de esfor\u00e7os do seu autor. <!--more-->A sua ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 grande. O livro trata da hist\u00f3ria das armas nucleares, da ilus\u00e3o de seguran\u00e7a que proporcionam, da pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a elas, das quest\u00f5es de comando e controle das mesmas, do &#8220;risco aceit\u00e1vel&#8221;, de quest\u00f5es estrat\u00e9gicas e de quest\u00f5es de seguran\u00e7a quanto \u00e0s ogivas. Apesar de o tema parecer \u00e1rido e rebarbativo, a sua leitura n\u00e3o \u00e9. Pode ser lido como um <i>thriller, <\/i>mas os factos e as situa\u00e7\u00f5es que descreve s\u00e3o bem reais.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar deve-se destacar a estarrecedora quantidade de acidentes com ogivas, asneiras no seu manuseamento, in\u00e9pcias, displic\u00eancias de respons\u00e1veis militares e pol\u00edticos dos EUA (e europeus tamb\u00e9m) com as armas nucleares e os seus vectores, bem como os sistem\u00e1ticos encobrimentos verificados. A maior parte do enorme n\u00famero de acidentes que ocorreu foi cuidadosamente ocultada e nunca chegou \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. S\u00f3 quando era inevit\u00e1vel as autoridades estado-unidenses os reconheciam, como no caso de Palomar, aldeia no Sul da Espanha onde a USAF perdeu ogivas nucleares que contaminaram com plut\u00f3nio uma vasta \u00e1rea agr\u00edcola. Mas nunca ningu\u00e9m soube, por exemplo, que uma bomba nuclear esteve prestes a explodir numa base americana no Marrocos. E poucos deram aten\u00e7\u00e3o ao desastre que vitimou um B-52 com cargas termonucleares na Groenl\u00e2ndia e espalhou o seu n\u00facleo de plut\u00f4nio.<\/p>\n<p>Ter conseguido descobrir tamanha quantidade de casos j\u00e1 \u00e9 uma fa\u00e7anha do autor, mas ele vai mais al\u00e9m com a discuss\u00e3o de quest\u00f5es relativas \u00e0 seguran\u00e7a nuclear. Ao contr\u00e1rio do que as autoridades sempre asseguraram o risco de uma explos\u00e3o nuclear por acidente nunca foi irrelevante. Houve numerosos casos em que isso poderia ter acontecido. Impressiona o fato de quase sempre as ogivas nucleares serem manuseadas por rapazes de pouco mais de 18 anos aos quais apenas foi dada uma breve instru\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria. Muitos deles drogam-se habitualmente. Por sua vez, os famosos bombardeiros B-52 da antiga SAC, que durante anos voaram permanentemente com bombas termonucleares sobre as nossas cabe\u00e7as, muitas vezes tinham mais idade do que as suas tripula\u00e7\u00f5es. Eram aparelhos com mais de 25 anos de idade e o n\u00famero de inc\u00eandios e acidentes com eles foi espantoso. Em tais condi\u00e7\u00f5es parece um milagre n\u00e3o ter chegado a haver qualquer explos\u00e3o nuclear ou termonuclear \u2013 &#8220;s\u00f3&#8221; acidentes com muitas perdas de vida e derramamento de plut\u00f4nio venenoso. No fim da d\u00e9cada de 1980 os EUA tinham cerca de 14 mil ogivas e bombas nucleares, espalhadas por todo o mundo (Turquia, Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Gr\u00e3-Bretanha, Alemanha, Marrocos, etc).<\/p>\n<p>O autor debru\u00e7a-se sobre o desastre ocorrido na localidade de Damascus, Arkansas, com um m\u00edssil Titan II, um ICBM movido a combust\u00edvel l\u00edquido hiperg\u00f3lico <a href=\"http:\/\/resistir.info\/jf\/resenha_c_controle.html#notas\" target=\"_blank\"><u>[2]<\/u><\/a>. Al\u00e9m dos seus aspectos t\u00e9cnicos, analisados com min\u00facia, o autor mostra a cadeia de comando e controle em que estava inserido. As lutas intestinas dentro das for\u00e7as armadas (US Army, US Navy, US Air Force e o antigo SAC) pelo controle das ogivas foram sempre constantes ao longo de toda a sua hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, a princ\u00edpio (anos 50) houve uma luta pelo controle das ogivas entre o poder civil e os militares \u2013 mas esta acabou por ser perdida pelos primeiros. \u00c9 uma mentira que o presidente dos EUA tenha a \u00faltima palavra, final e decisiva, no desencadeamento de uma guerra termonuclear. Este poder acabou por ficar com os militares, a princ\u00edpio por uma &#8220;delega\u00e7\u00e3o secreta&#8221; do presidente dos EUA. Atualmente, at\u00e9 um simples comandante da NATO tem o poder de utilizar uma arma nuclear.<\/p>\n<p>Apesar do antissovietismo que transparece no livro, este \u00e9 rico em elementos factuais que permitem um entendimento razo\u00e1vel dos mecanismos de poder \u2013 que na pr\u00e1tica se traduzem naquilo que os militares chamam a cadeia de &#8220;comando e controle&#8221;. O preconceito do autor manifesta-se, sobretudo por aceitar como bom o pressuposto central da pol\u00edtica estadunidense de que a URSS seria capaz de iniciar um ataque nuclear. Manifesta-se igualmente na afirma\u00e7\u00e3o absurda de que o Boeing 747 coreano derrubado sobre a Sib\u00e9ria ter-se-ia afastado da sua rota &#8220;por acidente&#8221; (como se um Boeing pudesse desviar-se em mais de dois mil quil\u00f4metros &#8220;por acidente&#8221;). No entanto, apesar destes vieses, a leitura do livro \u00e9 altamente instrutiva.<\/p>\n<p>Alguns poder\u00e3o dizer que tudo isso \u00e9 apenas hist\u00f3ria, que \u00e9 passado. N\u00e3o \u00e9. Os temas que levanta permanecem atuais e mais ainda agora, desde o primeiro semestre de 2014, quando a classe dominante estadunidense inverteu a sua pol\u00edtica e passou \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o aberta com a R\u00fassia. O putsch em Kiev e a instala\u00e7\u00e3o de um governo nazi na Ucr\u00e2nia, promovidos pelo governo dos EUA, deram in\u00edcio a uma nova escalada militar. Al\u00e9m de mercen\u00e1rios americanos e polacos que j\u00e1 infestavam a Ucr\u00e2nia, o envio recente de 300 homens do US Army a fim de treinarem batalh\u00f5es nazis ucranianos d\u00e1 um cunho oficial \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar estadunidense. Os EUA ignoram os governos servis da Uni\u00e3o Europeia e o acordo Minsk II, al\u00e9m de fazerem provoca\u00e7\u00f5es militares desde o B\u00e1ltico at\u00e9 o Mar Negro. Trata-se de uma escalada militar que pode resultar numa confronta\u00e7\u00e3o. E esta confronta\u00e7\u00e3o pode ser nuclear.<\/p>\n<p><b>[1] Eric Schlosser, <\/b><a href=\"http:\/\/www.bookdepository.com\/Command-Control-Eric-Schlosser\/9780141037912\" target=\"_blank\"><i><u><b>Command and control<\/b><\/u><\/i><\/a><b> , Penguin Books, 2013, 632 p., ISBN 978-9-141-03791-2<br \/>\n[2] Hiperg\u00f3lico: que se inflama expontaneamente quando em contacto com um oxidante.<\/b><b> <\/b><\/p>\n<p><b>Esta resenha encontra-se em <\/b><a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\"><u><b>http:\/\/resistir.info\/<\/b><\/u><\/a><b> .<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jorge Figueiredo &#8220;Command and control&#8221;, de Eric Schlosser [1] , \u00e9 uma obra cicl\u00f3pica pela quantidade de documenta\u00e7\u00e3o que o autor coligiu, pelo \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8317\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-8317","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2a9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8317","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8317"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8317\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}