{"id":8358,"date":"2015-05-19T23:52:30","date_gmt":"2015-05-20T02:52:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8358"},"modified":"2015-05-27T21:50:05","modified_gmt":"2015-05-28T00:50:05","slug":"o-canal-da-nicaragua-e-o-risco-de-um-novo-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8358","title":{"rendered":"O Canal da Nicar\u00e1gua e o risco de um novo imperialismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/redelatinamerica.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Canal-3.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Victor Farinelli<\/p>\n<p>Embora ainda resistido por ambientalistas e cientistas no mundo inteiro, al\u00e9m de camponeses e operadores tur\u00edsticos em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, o Canal da Nicar\u00e1gua est\u00e1 saindo do papel.<!--more--><\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao poder dos mais de 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares investidos pela empresa chinesa HKND (Hong Kong Nicaragua Development, do megaespeculador chin\u00eas Wang Jing, criada especialmente para construir e administrar a obra), os trabalhos j\u00e1 come\u00e7aram, ainda que em ritmo lento, devido aos protestos e obst\u00e1culos judiciais que ainda enfrenta.<\/p>\n<p>ojeto anunciado em julho de 2014, ter\u00e1 278 quil\u00f4metros desde o Mar do Caribe, cruzando boa parte do Rio San Juan, at\u00e9 chegar ao gigantesco Lago Cocibolca, o segundo maior da Am\u00e9rica Latina \u2013 atr\u00e1s somente do Titicaca, entre a Bol\u00edvia e o Peru \u2013 e um dos mais conhecidos cart\u00f5es postais nicaraguenses.<\/p>\n<p>Os trabalhos necess\u00e1rios para viabilizar o canal incluem uma s\u00e9rie de desvios que tornar\u00e3o o San Juan naveg\u00e1vel para embarca\u00e7\u00f5es de grande porte, incluindo trechos entre montanhas e uma fuga de regi\u00f5es do rio mais pr\u00f3ximas da fronteira com a Costa Rica \u2013 para evitar problemas diplom\u00e1ticos \u2013 al\u00e9m das obras no Cocibolca, sendo a principal delas a conex\u00e3o, atrav\u00e9s do Istmo de Rivas, que ligar\u00e1 o lago com a costa do Pac\u00edfico. Tamb\u00e9m ser\u00e3o constru\u00eddos portos de \u00e1guas profundas, pr\u00f3ximos aos dois extremos do canal, nas cidades de Punta Gorda (costa leste) e Brito (costa oeste).<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o investimento chin\u00eas mais importante na Am\u00e9rica Latina nesta d\u00e9cada, recebendo quase um quinto cerca de 250 bilh\u00f5es de d\u00f3lares que o gigante asi\u00e1tico tem previsto destinar ao continente nos pr\u00f3ximos dez anos, e colocando a Nicar\u00e1gua no mesmo patamar dos principais parceiros comerciais da China na regi\u00e3o, como Venezuela, Brasil e Argentina.<\/p>\n<p>Embora a iniciativa, no caso do canal, seja de uma empresa privada, se presume, que o pr\u00f3prio governo chin\u00eas esteja participando, pelo fato de ser uma entidade criada especialmente para a obra, pela verba bilion\u00e1ria destinada ao projeto e porque coincide com uma pol\u00edtica do pa\u00eds comunista em se aproximar da Am\u00e9rica Latina, a partir de acordos com quase todos os pa\u00edses da regi\u00e3o, incluindo v\u00ednculos criados com organismos regionais, como a CELAC (Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos, que realizou, em janeiro deste ano, um f\u00f3rum especial em conjunto com a China, em Santiago do Chile).<\/p>\n<p>O ponto mais complexo, mas tamb\u00e9m previs\u00edvel, desse verdadeiro neg\u00f3cio da China \u00e9 a concess\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o e dos direitos econ\u00f4micos sobre o futuro canal \u00e0 empresa HKND por cinquenta anos, com direito a amplia\u00e7\u00e3o por outro meio s\u00e9culo, que s\u00f3 n\u00e3o ser\u00e1 exercida em caso de desist\u00eancia oriental, concedendo um suposto, e ainda assim condicionado, direito a veto para os centro-americanos.<\/p>\n<p>Mas existem outros elementos desfavor\u00e1veis, e que ferem princ\u00edpios constitucionais, inclu\u00eddos na carta magna por iniciativa do pr\u00f3prio presidente atual do pa\u00eds, o sandinista Daniel Ortega, como o fim da obrigatoriedade para as empresas chinesas de usar m\u00e3o de obra local ou buscar apoio t\u00e9cnico e log\u00edstico em parceiros nicaraguenses, al\u00e9m da ampla isen\u00e7\u00e3o de impostos, apresentada como condi\u00e7\u00e3o para viabilizar o investimento.<\/p>\n<p>A simbologia deste caso deveria ressuscitar velhos temores na regi\u00e3o, mas eles est\u00e3o escondidos pela esperan\u00e7a de se vencer velhos inimigos. Um canal interoce\u00e2nico na Am\u00e9rica Central, com dinheiro estrangeiro implicando em perda da autonomia econ\u00f4mica sobre parte de um territ\u00f3rio, \u00e9 hist\u00f3ria conhecida. Aconteceu no Panam\u00e1, com os Estados Unidos exercendo controle total sobre as atividades na Zona do Canal durante 96 anos, considerando o tempo de constru\u00e7\u00e3o e o per\u00edodo em que se manteve dono da regi\u00e3o, at\u00e9 que o Tratado Torrijos-Carter estabeleceu o \u00faltimo dia de 1999 como data para a entrega da soberania do canal, definitivamente, ao governo panamenho.<\/p>\n<p>Para o resto da regi\u00e3o, o Panam\u00e1 era um s\u00edmbolo, mas n\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o. Os demais pa\u00edses tamb\u00e9m foram ref\u00e9ns de acordos e investimentos realizados pelos Estados Unidos durante os S\u00e9culos XIX e XX, e ainda hoje, os governos da regi\u00e3o, especialmente os de vis\u00e3o mais progressista, tentam se desvincular dessa depend\u00eancia do capital estadunidense, e de seus interesses nas respetivas pol\u00edticas internas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo totalmente, mas em tempos de reordenamento da geopol\u00edtica mundial, a China surge como um o\u00e1sis, com a ilus\u00e3o de uma parceria que trar\u00e1 menos depend\u00eancia e uma rela\u00e7\u00e3o menos sujeita a intervencionismos. A mesma esperan\u00e7a tinham os que, h\u00e1 cem anos ou mais, viam nos Estados Unidos uma alternativa ao imperialismo brit\u00e2nico ou a compromissos com a Espanha que permaneceram pendentes depois dos processos independentistas.<\/p>\n<p>O tempo dir\u00e1 se o Canal da Nicar\u00e1gua ser\u00e1 o s\u00edmbolo da influ\u00eancia da China na regi\u00e3o, e como ser\u00e1 essa influ\u00eancia, se mais daninha ou mais amistosa que a dos Estados Unidos e das pot\u00eancias que impuseram seus interesses \u00e0 Am\u00e9rica Latina nos s\u00e9culos anteriores.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o est\u00e1 provado se as experi\u00eancias colonizadoras calejaram os l\u00edderes latinos, principalmente os progressistas. Pode-se entender uma direita resignada ou at\u00e9 ansiosa em cooperar com os Estados Unidos, mas a esquerda, que sempre criticou essa situa\u00e7\u00e3o, deveria ser a mais preparada para evitar rela\u00e7\u00f5es que, no futuro, possam ser desfavor\u00e1veis, mesmo que venham de um pa\u00eds supostamente comunista \u2013 condi\u00e7\u00e3o bastante question\u00e1vel na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os obst\u00e1culos ao Canal<\/p>\n<p>Os protestos contra o canal n\u00e3o s\u00e3o poucos, mas carecem de repercuss\u00e3o internacional. As comunidades rurais do sul do pa\u00eds est\u00e3o preocupadas com as transforma\u00e7\u00f5es no leito do Rio San Juan e em como ser\u00e3o afetadas. O governo diz que os manifestantes s\u00e3o grandes latifundi\u00e1rios, e que n\u00e3o t\u00eam do que reclamar, j\u00e1 que a empresa chinesa se comprometeu a indenizar todas as propriedades que forem removidas. Contudo, tamb\u00e9m existem muitas fam\u00edlias de pequenos camponeses, provavelmente a maioria dos que reclamam das obras, que t\u00eam no San Juan o seu meio de subsist\u00eancia. Para eles, as indeniza\u00e7\u00f5es ser\u00e3o ajuda de curto prazo, antes que se esgote sua principal fonte de renda.<\/p>\n<p>Os ambientalistas tamb\u00e9m protestam contra os desvios do Rio San Juan, mas concentram suas energias nos efeitos que o canal levar\u00e1 ao Lago Cocibolca, um problema muito mais complexo do ponto de vista ecol\u00f3gico, j\u00e1 que, antes mesmo de se iniciar essa parte da obra, a destrui\u00e7\u00e3o do ecossistema local j\u00e1 atingiu n\u00edveis preocupantes. J\u00e1 s\u00e3o d\u00e9cadas em que o uso de suas \u00e1guas para o despejo de lixo, esgoto e res\u00edduos qu\u00edmicos vem acumulando efeitos tr\u00e1gicos.<\/p>\n<p>As 50 mil toneladas di\u00e1rias de despejos s\u00e3o como uma overdose de polui\u00e7\u00e3o a uma das mais belas paisagens do mundo. Um espelho d\u00b4\u00e1gua de 8 mil quil\u00f4metros quadrados, repleto de pequenas ilhas vulc\u00e2nicas \u2013 uma delas, a Omatela, \u00e9 a maior ilha lacustre do mundo, e possui dois vulc\u00f5es em seu territ\u00f3rio \u2013 e que j\u00e1 sente os efeitos da devasta\u00e7\u00e3o em seu ecossistema marinho, cujas mais de trinta esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas come\u00e7am a sofrer perigo de extin\u00e7\u00e3o \u2013 o tubar\u00e3o-touro, \u00fanica esp\u00e9cie desse animal adaptada \u00e0 \u00e1gua doce, s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 considerado extinto porque pode ser encontrado em habitats semelhantes de outros continentes, mas j\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea mais no Cocibolca.<\/p>\n<p>O governo nicaraguense nega tudo, baseado em question\u00e1veis estudos de impacto ambiental, cujos conte\u00fados nunca foram publicados.<\/p>\n<p>Contexto hist\u00f3rico<\/p>\n<p>Ainda assim, a maioria das iniciativas surgiram a partir do S\u00e9culo XIX, quando os pa\u00edses da Am\u00e9rica Central, rec\u00e9m independentes mas com os cofres vazios, viam na cria\u00e7\u00e3o de uma rota de com\u00e9rcio interoce\u00e2nica uma aposta milion\u00e1ria, mas careciam de recursos para realiz\u00e1-la. A Nicar\u00e1gua, e n\u00e3o o Panam\u00e1 (que, na \u00e9poca das primeiras tentativas a respeito, era uma prov\u00edncia pertencente \u00e0 Rep\u00fablica de Nova Granada, atual Col\u00f4mbia), sempre foi a primeira op\u00e7\u00e3o, tanto para os estadunidenses quanto para os europeus que empreenderam a corrida pelos canais.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo passado, os Estados Unidos eram a \u00fanica pot\u00eancia capaz realizar o projeto. Promoveram uma disputa entre Nicar\u00e1gua e Panam\u00e1, vencida em 1902 pelo pa\u00eds mais ao sul. T\u00e3o forte era a influ\u00eancia norte-americana sobre as duas na\u00e7\u00f5es que, mesmo depois de j\u00e1 ter constru\u00eddo o Canal do Panam\u00e1, fez os nicaraguenses aceitarem um acordo para travar qualquer projeto de canal enquanto os pr\u00f3prios Estados Unidos n\u00e3o exercessem sua prioridade em faz\u00ea-lo \u2013 o Tratado Chamorro-Bryan era, na pr\u00e1tica, um documento para impedir que outro pa\u00eds o constru\u00edsse, e se manteve vigente entre os anos de \u00a01916 e 1970.<\/p>\n<p>Agora, finalmente, parece que a China vai tirar do papel um sonho de desenvolvimento presente em quase toda a hist\u00f3ria independente da Nicar\u00e1gua. Falta saber se a realiza\u00e7\u00e3o desse sonho trar\u00e1 os efeitos esperados durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Fonte: P\u00e1tria Latina<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Victor Farinelli Embora ainda resistido por ambientalistas e cientistas no mundo inteiro, al\u00e9m de camponeses e operadores tur\u00edsticos em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8358\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,38],"tags":[],"class_list":["post-8358","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2aO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8358"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8358\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}