{"id":842,"date":"2010-09-26T23:54:13","date_gmt":"2010-09-26T23:54:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=842"},"modified":"2010-09-26T23:54:13","modified_gmt":"2010-09-26T23:54:13","slug":"tres-originalidades-e-um-velho-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/842","title":{"rendered":"TR\u00caS ORIGINALIDADES E UM VELHO CAMINHO"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Resumo: An\u00e1lise da trajet\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana tomando como hip\u00f3tese tr\u00eas aspectos particulares que atribuem a esta experi\u00eancia hist\u00f3rica sua originalidade e a reflex\u00e3o sobre elementos de sua universalidade como manifesta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica fundada na concep\u00e7\u00e3o socialista e nos pressupostos marxianos.<\/em><\/p>\n<p>Quando comemorarmos os 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana torna-se necess\u00e1rio refletir sobre sua trajet\u00f3ria, seus ensinamentos e impasses. Devemos alertar inicialmente que em se tratando da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, ainda que como em toda a an\u00e1lise devamos preservar a necess\u00e1ria objetividade, nos \u00e9 imposs\u00edvel qualquer tipo de neutralidade. Assim, acompanhamos Mario Benedetti reafirmando que seremos totalmente parciais e, mais que isso, apaixonados, pois cremos que, assim como vimos em Cuba, paix\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana nos permite identificar tr\u00eas originalidades que lhe conferem um aspecto singular no cen\u00e1rio das revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, mas, ao mesmo tempo, ela \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o de pressupostos e caminhos universais que a luta dos povos vem construindo, te\u00f3rica e praticamente, h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n<p>Seguindo as pistas de Che Guevara, quando busca compreender se h\u00e1 ou n\u00e3o uma excepcionalidade nos caminhos trilhados pelos revolucion\u00e1rios cubanos, concordamos que as caracter\u00edsticas espec\u00edficas de Cuba tamb\u00e9m lhe permitem uma profunda identidade com as demais forma\u00e7\u00f5es sociais<sup>1<sup>, fundamentalmente aquelas de nosso continente. Aqui, no entanto, gostaria de come\u00e7ar por destacar tr\u00eas elementos ligados aos caminhos escolhidos no que tange \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 transi\u00e7\u00e3o socialista.<\/sup><\/sup><\/p>\n<p><strong>PRIMEIRA ORIGINALIDADE: QUANTO \u00c0 VIA REVOLUCION\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro aspecto que gostaria de destacar diz respeito \u00e0 via revolucion\u00e1ria, ou seja, o caminho de objetiva\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia e suas vincula\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas. O pano de fundo desta pol\u00eamica se relaciona, ao mesmo tempo, com os elementos da realidade cubana e o debate das experi\u00eancias revolucion\u00e1rias vitoriosas, ou seja, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa.<\/p>\n<p>Toda grande revolu\u00e7\u00e3o deixa uma marca e se torna uma refer\u00eancia. \u00c9 natural, portanto, que os revolucion\u00e1rios procurem seguir seus passos e, muitas vezes, de maneira mec\u00e2nica. Assim surgem <em>modelos<\/em>. Esquematicamente podemos resumir para fins desta exposi\u00e7\u00e3o nas consagradas f\u00f3rmulas do chamando modelo Petrogrado, ou seja, uma insurrei\u00e7\u00e3o baseada nos principais centros urbanos\/industriais e na classe oper\u00e1ria que, se aliando aos camponeses, logra a tomada do poder; e a Guerra Popular Prolongada que partindo das lutas e guerrilhas no campo se transforma em um Ex\u00e9rcito Popular e toma as cidades, cercando-as.<\/p>\n<p>Cuba tinha uma grande tradi\u00e7\u00e3o de greves e insurrei\u00e7\u00f5es, assim como de luta armada, como as duas guerras de independ\u00eancia. Com a montagem do grupo guerrilheiro na Sierra<\/p>\n<p>Maestra e a organiza\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia constru\u00edda pelo M26 nas cidades, abre-se o debate a respeito do n\u00facleo estrat\u00e9gico e da via, isto \u00e9, uma greve geral que leva a uma insurrei\u00e7\u00e3o apoiada pelo bra\u00e7o armado guerrilheiro, ou uma a\u00e7\u00e3o ofensiva da guerrilha apoiada pela resist\u00eancia urbana que deflagraria uma greve geral. Tal pol\u00eamica que contrapunha os chamados setores da <em>plan\u00edcie<\/em> e da <em>sierra<\/em> expressava o debate entre as alternativas sovi\u00e9tica e chinesa. A primeira originalidade que destacamos \u00e9 que a pol\u00eamica se resolve de maneira criativa.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana n\u00e3o \u00e9 uma mera c\u00f3pia de nenhum dos dois modelos, mas antes uma s\u00edntese. A mera greve geral insurreicional n\u00e3o seria capaz de derrotar Batista, como se comprovou na tentativa de 1958. Da mesma forma a mera transposi\u00e7\u00e3o da Guerra Popular Prolongada seria invi\u00e1vel nas condi\u00e7\u00f5es cubanas, pelas dimens\u00f5es do territ\u00f3rio, pela presen\u00e7a pr\u00f3xima do imperialismo e outros fatores. A sa\u00edda foi uma criativa combina\u00e7\u00e3o entre a a\u00e7\u00e3o da guerrilha, a forma\u00e7\u00e3o das \u00e1reas liberadas no oriente, a resist\u00eancia urbana e a frente de revolucion\u00e1ria conseguida atrav\u00e9s de um amplo leque de alian\u00e7as, que culminou, simultaneamente na ofensiva militar e a insurrei\u00e7\u00e3o que levaria \u00e0 vit\u00f3ria de janeiro de 1959.<\/p>\n<p><strong>DIRE\u00c7\u00c3O REVOLUCION\u00c1RIA, ALIAN\u00c7AS E PRINC\u00cdPIOS<\/strong><\/p>\n<p>A segunda originalidade diz respeito a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, sua forma de condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da luta, incluindo a\u00ed a quest\u00e3o das alian\u00e7as e, na seq\u00fc\u00eancia, a firmeza estrat\u00e9gica que leva da supera\u00e7\u00e3o do momento da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e0 constru\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>O protagonismo do M26 desde sua forma\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o assalto ao quartel Moncada, a prepara\u00e7\u00e3o e a montagem do n\u00facleo guerrilheiro na Sierra Maestra \u00e9 inquestion\u00e1vel. No entanto, no curso da luta contra Batista os revolucion\u00e1rios, sem que perdessem o protagonismo, tornaram poss\u00edvel uma frente bastante ampla que n\u00e3o apenas atraiu os outros partidos progressistas, como o PSP (nome legal do Partido Comunista), o Diret\u00f3rio Estudantil Revolucion\u00e1rio e outros, mas setores da pr\u00f3pria burguesia cubana e mesmo de latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Este caminho n\u00e3o se deu sem tens\u00f5es e mesmo pol\u00eamicas, por exemplo, a que op\u00f4s Fidel a Che quando das negocia\u00e7\u00f5es com empres\u00e1rios e o compromisso firmado na Venezuela. O fato \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do M26 isolou o ditador e criou as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da vit\u00f3ria. Mas \u00e9 a\u00ed que entra a verdadeira originalidade da revolu\u00e7\u00e3o cubana e que a diferencia das muitas tristes e tr\u00e1gicas experi\u00eancias que presenciamos em nosso continente.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria em janeiro de 1959 se forma um governo tendo a Frente Urr\u00edtia e Cardona, dois pol\u00edticos democr\u00e1ticos e que mantinham boas rela\u00e7\u00f5es com a burguesia cubana e os EUA, defendendo uma solu\u00e7\u00e3o de compromissos e responsabilidade. Fidel se encontra em Santiago e faz uma lenta e longa marcha na qual repete seu discurso segundo o qual a Revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7aria agora e chegava ao poder sem compromissos com ningu\u00e9m a n\u00e3o ser com o povo que era o \u00fanico dono da vit\u00f3ria. Contra as propostas moderadas, imp\u00f4s o programa de Moncada, a reforma agr\u00e1ria (come\u00e7ando pelas terras de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia), a reforma urbana e, depois, a nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas estrangeiras, leia-se, norte americanas.<\/p>\n<p>Em tempos como os nossos onde candidatos se esquecem de seus princ\u00edpios no caminho entre as urnas e o pal\u00e1cio do governo e contentam-se em se manter nos limites da ordem abandonando as verdadeiras demandas revolucion\u00e1rias que por ventura um dia os moveram, esta \u00e9 uma caracter\u00edstica excepcional da revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n<p><strong>A ORIGINALIDADE NA CONSTRU\u00c7\u00c3O DA TRANSI\u00c7\u00c3O SOCIALISTA<\/strong><\/p>\n<p>A terceira originalidade se relaciona \u00e0 transi\u00e7\u00e3o socialista e seus problemas. Uma vez consolidada a vit\u00f3ria, n\u00e3o sem dificuldades como mostra a brutal rea\u00e7\u00e3o do imperialismo desde as sabotagens at\u00e9 a tentativa de invas\u00e3o pela Baia dos Porcos em 1961, reapresenta-se a pol\u00eamica dos modelos, agora aplicados n\u00e3o mais \u00e0 via, mas a condu\u00e7\u00e3o da economia. Recordemos que no in\u00edcio da d\u00e9cada de sessenta ocorre o rompimento entre URSS e China, o que agrava o debate.<\/p>\n<p>Neste momento delicado a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria soube manter uma postura extremamente correta e como afirmou Fidel em seu discurso de funda\u00e7\u00e3o do PCC, \u201cn\u00e3o perguntamos a ningu\u00e9m como dever\u00edamos fazer a revolu\u00e7\u00e3o e a fizemos e n\u00e3o perguntaremos a ningu\u00e9m como deveremos lev\u00e1-la \u00e0 frente e levaremos\u201d; e alertava que \u201cningu\u00e9m pode nos dividir se n\u00e3o deixarmos que as diverg\u00eancias que dividem o campo socialista nos atinjam\u201d. Na mesma oportunidade Fidel lembrava que o marxismo \u00e9 uma doutrina feita por revolucion\u00e1rios para revolucion\u00e1rios e n\u00e3o uma propriedade privada registrada em nenhum cart\u00f3rio, completando: \u201caqueles que derem interpreta\u00e7\u00f5es corretas e as aplicarem conseq\u00fcentemente triunfar\u00e3o, aqueles que n\u00e3o o fizerem fracassar\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Esta postura de independ\u00eancia que marcaria a posi\u00e7\u00e3o de Cuba no cen\u00e1rio internacional refletiu-se internamente de maneira muito significativa e neste epis\u00f3dio a figura de Che Guevara \u00e9 essencial. Come\u00e7ando pela pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do Partido.<\/p>\n<p>Quando da cria\u00e7\u00e3o do Partido Unido da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista, ainda em 1961, certos dirigentes de partidos j\u00e1 estruturados defendiam a id\u00e9ia de que se mantivesse a hierarquia anterior, ou seja, algu\u00e9m que fosse da dire\u00e7\u00e3o de um partido ou organiza\u00e7\u00e3o que compunha a frente tornar-se-ia dirigente do Partido Unido. Che contrap\u00f5e a esta tese a proposta de cria\u00e7\u00e3o das ORIs (Organiza\u00e7\u00f5es Revolucion\u00e1rias Integradas) que deveriam ser compostas a partir dos locais de trabalho e comit\u00eas de defesa de quadra e os quadros que integrariam o partido e suas dire\u00e7\u00f5es deveriam ser indicados pelos trabalhadores entre aqueles que estes considerassem os mais capazes e firmes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta importante quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o a grande originalidade na constru\u00e7\u00e3o socialista vem da discuss\u00e3o sobre a forma de organiza\u00e7\u00e3o da economia. Che, nesta \u00e9poca no Minist\u00e9rio, faz um profundo estudo sobre as experi\u00eancias socialistas, inclusive viajando a v\u00e1rios pa\u00edses e conversando com dirigentes e trabalhadores. O comandante chega a uma conclus\u00e3o de transcendental import\u00e2ncia. Em suas palavras:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">Perseguindo a quimera de realizar o socialismo com os meios falhos que nos legou o capitalismo (a mercadoria como c\u00e9lula econ\u00f4mica, a rentabilidade, o interesse material individual como alavanca, etc.) se pode chegar a um beco sem sa\u00edda. E quando se chega a\u00ed depois de percorrer uma longa dist\u00e2ncia na qual os caminhos se entrecruzam, muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil perceber o momento que perdemos o caminho. Entretanto, a base adaptada j\u00e1 ter\u00e1 feito seu trabalho de sabotagem sobre o desenvolvimento da consci\u00eancia. Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material temos que produzir o homem novo (GUEVARA, s\/d, p. 273).<\/p>\n<p>E completa:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de quantas gramas de carne se come ou quantas vezes por ano algu\u00e9m pode ir \u00e0 praia, nem de quantas belezas que vem do exterior possam ser compradas com os sal\u00e1rios atuais. Trata-se, precisamente, que o indiv\u00edduo se sinta mais pleno, com muito mais riqueza interior e com muito mais responsabilidade (p. 282-283).<\/p>\n<p>Tais constata\u00e7\u00f5es levaram o comandante a propor um sistema que chamava de <em>presupost\u00e1rio<\/em> e que, em s\u00edntese, procurava superar a forma mercantil na rela\u00e7\u00e3o entre empresas socializadas e mais adiante tentou, numa experi\u00eancia piloto na <em>Isla de la Juventud<\/em>, uma forma de sociabilidade na qual recuperava-se o valor de uso e abolia-se o dinheiro como forma de equivalente. \u00c9 neste contexto que devemos entender a proposta guevariana a respeito da superioridade dos incentivos morais sobre os materiais. N\u00e3o se trata de uma formula\u00e7\u00e3o meramente \u00e9tica ou rom\u00e2ntica, pelo contr\u00e1rio, sua posi\u00e7\u00e3o remete a necessidade de considerar as transforma\u00e7\u00f5es de consci\u00eancia como for\u00e7a material no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. Polemiza Che:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">Se, o est\u00edmulo material se op\u00f5e ao desenvolvimento da consci\u00eancia, mas \u00e9 uma grande alavanca para obter resultados na produ\u00e7\u00e3o, devemos entender que a aten\u00e7\u00e3o preferencial ao desenvolvimento da consci\u00eancia atrasa a produ\u00e7\u00e3o? Em termos comparativos em uma \u00e9poca dada, \u00e9 poss\u00edvel, ainda que ningu\u00e9m tenha realizado c\u00e1lculos pertinentes; afirmamos que em tempo relativamente curto de desenvolvimento da consci\u00eancia o desenvolvimento da consci\u00eancia faz mais para o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o que o est\u00edmulo material e o fazemos projetando o desenvolvimento da sociedade socialista em dire\u00e7\u00e3o ao comunismo, o que pressup\u00f5e que o trabalho deixe de ser uma penosa necessidade para converter-se em um agrad\u00e1vel imperativo (GUEVARA, s\/d, p. 191).<\/p>\n<p>Destacando que o fundamento \u00e9tico da proposta de Che \u00e9 a materialidade das rela\u00e7\u00f5es, tal racioc\u00ednio n\u00e3o deixa de ser moral, por\u00e9m esta se altera substantivamente n\u00e3o apenas como meta ideal, mas, fundamentalmente como caminho. N\u00e3o \u00e9 uma mera afirma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, \u00e9 uma poderosa cr\u00edtica aos caminhos escolhidos pelas sociedades que ensaiavam a transi\u00e7\u00e3o socialista. A transi\u00e7\u00e3o socialista \u00e9, simultaneamente, composta de mudan\u00e7as materiais e nas rela\u00e7\u00f5es sociais que tanto impulsionam altera\u00e7\u00f5es na consci\u00eancia, como s\u00e3o impulsionadas por estas altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">O socialismo econ\u00f4mico sem a moral comunista n\u00e3o me interessa, dizia Che. Lutamos contra a mis\u00e9ria, mas ao mesmo tempo lutamos contra a aliena\u00e7\u00e3o. Um dos objetivos fundamentais do marxismo \u00e9 fazer desaparecer o \u2018interesse individual\u2019 e tamb\u00e9m, das motiva\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas. Marx se preocupava tanto com os fatos econ\u00f4micos como sua tradu\u00e7\u00e3o na mente. Ele chamava isto de \u2018fatos de consci\u00eancia\u2019. Se o comunismo descuida dos fatos de consci\u00eancia pode at\u00e9 se tornar um m\u00e9todo de distribui\u00e7\u00e3o, mas deixa de ser uma moral revolucion\u00e1ria (DANIEL, 1987, p. 45).<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia \u00e9 que em Cuba se gestavam as condi\u00e7\u00f5es para que esta constata\u00e7\u00e3o ocorresse, pelo desenvolvimento da experi\u00eancia socialista at\u00e9 ent\u00e3o, mas as condi\u00e7\u00f5es materiais para superar as determina\u00e7\u00f5es materiais que se encontram na base do fen\u00f4meno detectado, em Cuba, se encontravam ainda menos desenvolvidas que em outras forma\u00e7\u00f5es sociais que trilhavam o caminho da transi\u00e7\u00e3o socialista. Isso explica o desenvolvimento futuro das escolhas econ\u00f4micas na ilha revolucion\u00e1ria e os problemas pr\u00e1ticos encontrados na execu\u00e7\u00e3o, naquele momento, do pensamento econ\u00f4mico de Che.<\/p>\n<p>Entretanto, estas reflex\u00f5es n\u00e3o deixaram de fincar suas marcas na experi\u00eancia cubana, desde as formas de organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho, nas formas de gest\u00e3o e mesmo, e talvez fundamentalmente, nos processos pol\u00edticos que culminaram na experi\u00eancia de Poder Popular iniciada a partir de 1974, depois estendida em 1979.<\/p>\n<p><strong>UM \u00daLTIMO ELEMENTO ORIGINAL<\/strong><\/p>\n<p>O conjunto destas originalidades implica na singularidade da experi\u00eancia cubana, mas h\u00e1 um outro elemento, mais difuso e dif\u00edcil de ser compreendido por observadores desatentos, que se potencializou por estes aspectos descritos, mas em grande medida tamb\u00e9m podem explic\u00e1-los. Este elemento \u00e9 a dignidade. N\u00e3o que exista alguma essencialidade ou car\u00e1ter nacional, ou qualquer uma destas metaf\u00edsicas, trata-se de um tra\u00e7o cultural e hist\u00f3rico e, em grande medida, constru\u00eddo pela revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o colonial, a escravid\u00e3o e o racismo, as opress\u00f5es da riqueza e do dom\u00ednio imperialista, costumam impor tra\u00e7os de subservi\u00eancia e servilismo. O fato de a hist\u00f3ria de Cuba ser marcada por duas guerras de independ\u00eancia, a primeira levando \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e a segunda a independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha, a luta guerrilheira contra Batista, produzem uma altera\u00e7\u00e3o significativa que reverte servilismo em rebeldia. Como n\u00e3o h\u00e1 ess\u00eancia humana fora daquela que os seres humanos constroem atrav\u00e9s de sua a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a rebeldia levou a emancipa\u00e7\u00e3o de uma dignidade rara de se encontrar entre nossos sofridos povos explorados.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tra\u00e7o dif\u00edcil de ser compreendido pelos advers\u00e1rios da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e, inclusive, para alguns de seus defensores. Peguemos por exemplo uma bela can\u00e7\u00e3o de Silvio Rodriguez, <em>El N\u00e9cio<\/em>. Explica o autor em seu disco que um tanto surpreendido com as insistentes tentativas de seduzi-lo com propostas milion\u00e1rias de carreiras e contratos no exterior, talvez por estes senhores acreditarem que \u201ctodos t\u00eam seu pre\u00e7o\u201d, ironicamente responde que se \u00e9 assim, coloca o seu: \u201cEs una canci\u00f3n de marketing, de precios. Y para que nadie se imagine que soy santo, voy a poner el m\u00edo (por ahora): El levantamiento del bloqueo a Cuba y la entrega incondicional del territorio Cubano que E.E.U.U. usa como base naval en Guant\u00e1namo\u201d. E diz em sua m\u00fasica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Para no hacer de mi \u00edcono pedazos,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> para salvarme entre \u00fanicos e impares,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> para cederme un lugar en su Parnaso,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> para darme un rinconcito en sus altares.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> me vienen a convidar a arrepentirme,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> me vienen a convidar a que no pierda,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> mi vienen a convidar a indefinirme,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> me vienen a convidar a tanta mierda.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Yo no se lo que es el destino,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> caminando fui lo que fui.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em> All\u00e1 Dios, que ser\u00e1 divino.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Yo me muero como viv\u00ed.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 estranho para quem tr\u00e1s no peito uma m\u00e1quina registradora no lugar do cora\u00e7\u00e3o entender certas posturas. Quando a URSS ru\u00eda e logo ap\u00f3s o muro que separava a Alemanha, muitos rep\u00f3rteres internacionais foram a Cuba, prontos para registrar a queda do regime. Alguns devem estar l\u00e1, persistentes, at\u00e9 hoje. Mesmo no mais duro dos tempos do chamado per\u00edodo especial, e acreditem eram duros estes tempos no que diz respeito as mais elementares necessidades da exist\u00eancia, Cuba logrou resistir e cabe perguntar por qu\u00ea? A imprensa internacional tem j\u00e1 pronta sua resposta, a ditadura, o medo, a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Em um document\u00e1rio sobre o per\u00edodo especial, um dos entrevistados nos diz que quando ouvia Fidel falar das dificuldades, da necessidade de enfrentar as car\u00eancias t\u00e3o s\u00e9rias que estavam enfrentando, mas ao mesmo tempo resistir na alternativa socialista, dizia, \u201cn\u00f3s acredit\u00e1vamos nele, pois podemos olhar nos olhos de nossos dirigentes e ver que eles estavam falando a verdade, que n\u00e3o estavam enriquecendo, nem mandando dinheiro para o exterior quando pediam o nosso sacrif\u00edcio\u201d. Este \u00e9 um recurso dif\u00edcil de ser quantificado e que se relaciona com esta rebeldia e dignidade que fal\u00e1vamos. Um pequeno peda\u00e7o mais da m\u00fasica de Silvio talvez esclare\u00e7a melhor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Yo quiero seguir jugando a lo perdido, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>yo quiero ser a la zurda m\u00e1s que diestro, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>yo quiero hacer un congreso del unido, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>yo quiero rezar a fondo un hijonuestro. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Dir\u00e1n que pas\u00f3 de moda la locura, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>dir\u00e1n que la gente es mala y no merece, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>m\u00e1s yo seguir\u00e9 so\u00f1ando travesuras <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>(acaso multiplicar panes y peces). <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>[&#8230;] <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Dicen que me arrastrar\u00e1n por sobre rocas cuando la Revoluci\u00f3n se venga abajo, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>que machacar\u00e1n mis manos y mi boca, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>que me arrancar\u00e1n los ojos y el badajo. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Ser\u00e1 que la necedad pari\u00f3 conmigo, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>la necedad de lo que hoy resulta necio: <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>la necedad de asumir al enemigo, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>a necedad de vivir sin tener precio. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Yo no se lo que es el destino, <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>caminando fui lo que fui. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>All\u00e1 Dios, que ser\u00e1 divino. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>Yo me muero como viv\u00ed.<\/em><\/p>\n<p>Dignidade. N\u00e3o esperem que explique. Certas coisas s\u00e3o imposs\u00edveis de ser explicadas ao c\u00e9rebro se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o entendeu.<\/p>\n<p><strong>UM VELHO CAMINHO EM MEIO A TR\u00caS ORIGINALIDADES<\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, depois de tecer coment\u00e1rios sobre algumas originalidades da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, me permito afirmar que esta profunda singularidade alcan\u00e7ada s\u00f3 foi poss\u00edvel porque os revolucion\u00e1rios cubanos souberam se fundamentar em pressupostos e leis que n\u00e3o s\u00e3o em absoluto em nada originais: o marxismo.<\/p>\n<p>Em si mesmo, o verdadeiro marxismo, porque dial\u00e9tico, \u00e9 simultaneamente tradi\u00e7\u00e3o e ruptura, heran\u00e7a e inova\u00e7\u00e3o, em uma palavra supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. S\u00f3 pode ir al\u00e9m quem se fundamenta no existente, s\u00f3 pode inventar o futuro evitando as armadilhas do passado, quem conhece a hist\u00f3ria. Neste aspecto a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana n\u00e3o \u00e9 original, ela \u00e9 parte da hist\u00f3ria do socialismo e reafirma elementos substanciais de todo pensamento revolucion\u00e1rio e, fundamentalmente, do pensamento marxiano.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso de realizar um exaustivo invent\u00e1rio desta profunda coer\u00eancia entre a experi\u00eancia cubana e os fundamentos do marxismo, mas ressaltemos aqui apenas alguns poucos elementos.<\/p>\n<p>O primeiro deles \u00e9 o conceito de Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, inicialmente apresentado por Marx e Engels em <em>Mensagem do Comit\u00ea Central \u00e0 Liga dos Comunistas<\/em> (1850) e depois resgatado com muita propriedade por Trotsky. Por este princ\u00edpio, ainda que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, por determina\u00e7\u00f5es objetivas se encontre na situa\u00e7\u00e3o de ter que lutar contra o inimigo de seus advers\u00e1rios, no caso da luta da burguesia contra a nobreza feudal deveria conduzir sua estrat\u00e9gia de forma que as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento da luta em alian\u00e7a com a burguesia levariam ao desenvolvimento da luta contra ela no sentido da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. L\u00eanin compreendeu perfeitamente isso na passagem da Revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro para a tomada do poder em Outubro. Fidel e seus camaradas n\u00e3o pararam no meio da viagem para descansar e se contentaram em <em>democratizar<\/em> Cuba, desenvolver o capitalismo, ousaram o salto revolucion\u00e1rio no sentido da transi\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>A leitura esquem\u00e1tica e dogm\u00e1tica desta tese leva a uma estranha teoria das <em>etapas<\/em>, na qual \u00e9 necess\u00e1rio primeiro desenvolver o capitalismo para depois ser poss\u00edvel uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, tal como se consolidou em certo momento na Terceira Internacional sob influ\u00eancia do per\u00edodo stalinista e virou o principal dogma da deforma\u00e7\u00e3o social-democrata.<\/p>\n<p>O segundo elemento, que est\u00e1 ligado a este primeiro, \u00e9 a quest\u00e3o da dualidade de poderes que no caso de Cuba se expressou no momento de constitui\u00e7\u00e3o do governo Urr\u00edtia\/Cardona em 1959 ao lado da for\u00e7a organizada da guerrilha e das \u00e1reas liberadas. Este \u00e9 um tra\u00e7o universal nos processos revolucion\u00e1rios, a capacidade de dar forma organizativa e coletiva a uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que torne poss\u00edvel a derrota do inimigo. Assim foram os Soviets na experi\u00eancia russa, as enormes \u00e1reas liberadas com apoio dos camponeses na China e a guerrilha na Sierra Maestra no caso cubano.<\/p>\n<p>O terceiro elemento que Marx e Engels destacam \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o, em algum momento de seu desenvolvimento, encontra a resist\u00eancia do Estado e de seus meios de domina\u00e7\u00e3o, com destaque nos momentos mais agudos de luta, as for\u00e7as armadas. Ainda que as vias e as formas possam variar muito, e de fato variaram na pequena hist\u00f3ria do socialismo, n\u00e3o se sup\u00f5e poss\u00edvel uma revolu\u00e7\u00e3o que se pretenda verdadeira, seguir seu curso sem que haja rupturas. O mito de desenvolvimento pac\u00edfico da revolu\u00e7\u00e3o, que tanto sangue custou em nossa hist\u00f3ria (vejam Alemanha e Chile), desconsidera que a implanta\u00e7\u00e3o de uma transi\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo e al\u00e9m dele ao comunismo, n\u00e3o se dar\u00e1 sem rupturas.<\/p>\n<p>Aqueles que desejam preservar suas alian\u00e7as e as sagradas no\u00e7\u00f5es de governabilidade est\u00e3o condenados a limitar sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos limites da ordem. Os revolucion\u00e1rios cubanos n\u00e3o padeceram deste mal.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, est\u00e1 uma tese central de Marx. A transi\u00e7\u00e3o socialista s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel tendo por base o pleno desenvolvimento das for\u00e7as produtivas materiais que se abrigam na forma societ\u00e1ria capitalista. Dizia Marx, em 1859, que nenhuma forma social desaparece antes que se desenvolvam ao m\u00e1ximo todas as for\u00e7as produtivas que pode conter e jamais surgem novas formas de sociabilidade antes que se desenvolvam, no seio da pr\u00f3pria sociedade antiga, as condi\u00e7\u00f5es materiais para tanto.<\/p>\n<p>Aparentemente Cuba nega esta tese, pois inicia uma revolu\u00e7\u00e3o que se declara socialista em um pa\u00eds pobre e de escasso desenvolvimento capitalista enquanto grandes pa\u00edses altamente industrializados e plenamente capitalistas contentam-se em <em>acelerar o crescimento<\/em> capitalista e distribuir bolsas. No entanto, as apar\u00eancias enganam.<\/p>\n<p>Primeiro devemos ressaltar que nem Marx, nem Engels, consideram uma rela\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica entre a base material econ\u00f4mica e a luta pol\u00edtica, ou seja, a pol\u00edtica \u00e9 entendida como media\u00e7\u00e3o. Isso significa que n\u00e3o existe nenhuma determina\u00e7\u00e3o que limite a a\u00e7\u00e3o dos seres humanos, pois como afirmava Marx no mesmo texto (2009) a humanidade s\u00f3 se prop\u00f5e tarefas que podem realizar, pois se analisamos bem, estas tarefas s\u00f3 brotam quando existem ou est\u00e3o em germina\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es materiais para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 o caso de esperar as condi\u00e7\u00f5es materiais desenvolvidas para depois agir, o que leva a todo tipo de reformismo e adeq\u00fcacionismo que conhecemos. Cuba trilhou seu caminho a partir das condi\u00e7\u00f5es que ali se apresentavam e que tornavam poss\u00edvel uma revolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o d\u00e1 o salto em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo por puro aventurerismo rom\u00e2ntico, mas por que a luta de classe ali tornou poss\u00edvel que sua vanguarda assim caminhasse.<\/p>\n<p>No entanto, o desdobramento da constru\u00e7\u00e3o do socialismo em Cuba prova que a experi\u00eancia cubana, e neste ponto tamb\u00e9m todas as experi\u00eancias socialistas do s\u00e9culo XX, comprovam que Marx estava tragicamente certo em sua tese. A autonomia da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o pode prescindir das condi\u00e7\u00f5es materiais, ou seja, ainda que poss\u00edvel ir al\u00e9m com base em condi\u00e7\u00f5es ainda em germina\u00e7\u00e3o, o pouco desenvolvimento das for\u00e7as produtivas materiais cobrar\u00e1 seu tributo na forma e destino da ousadia empreendida, determinando o rumo da transi\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, ao comunismo.<\/p>\n<p>Minha paix\u00e3o por Cuba e meu s\u00f3lido compromisso solid\u00e1rio com o povo cubano n\u00e3o me impedem de reconhecer os graves problemas e, em alguns casos, mesmo distor\u00e7\u00f5es, em sua experi\u00eancia revolucion\u00e1ria. Os pr\u00f3prios cubanos as conhecem e, alguns, t\u00eam clara consci\u00eancia de suas conseq\u00fc\u00eancias. Mas, estes problemas n\u00e3o negam as teses centrais do pensamento marxiano, pelo contr\u00e1rio, as confirmam, como podemos destacar em apenas uma simples mas extremamente complexa constata\u00e7\u00e3o: a revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9, necessariamente, internacional.<\/p>\n<p>Os cubanos, com seu compromisso internacionalista para o qual Che \u00e9 um exemplo, n\u00e3o podem substituir as bases materiais de universaliza\u00e7\u00e3o do capital que torna poss\u00edvel a revolu\u00e7\u00e3o mundial. Podem, e assim o fizeram e fazem, estar ombro a ombro com toda luta que caminha no sentido da emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim podemos concluir que a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana \u00e9 profundamente original e n\u00e3o \u00e9 em seu fundamento original. \u00c9 continuidade e parte da hist\u00f3ria da humanidade por sua emancipa\u00e7\u00e3o, um belo e complexo cap\u00edtulo desta obra coletiva que estamos a construir. Rom\u00e2ntica e realista, rebelde e digna, costurando no corpo de seu sonho notas de ousadia profunda, mas que encontra nos caminhos \u00e1ridos do real a carne de suas realiza\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Bela, tr\u00e1gica e dura&#8230; como a vida. Terminemos por, mais uma vez, citar Silvio e seu grito de esperan\u00e7a e resist\u00eancia: \u201crom\u00e2nticos \u2013 al menos hasta el fin \u2013 imposmodernizable\u201d.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n<p>DANIEL, J. \u201cLa profecia del Che\u201d, in Carlos Tablada Perez. Ernesto Che Guevara, hombre y pensamiento: el pensamiento econ\u00f4mico del Che. Buenos Aires: Antarca, 1987.<\/p>\n<p>GUEVARA. E. \u201cEl socialismo y el hombre en Cuba\u201d. Obras, tomo I, s\/d.<\/p>\n<p>MARX, K. Contribui\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1859\/01\/prefacio.htm. Acesso em 27 out 2009.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Graduado em Hist\u00f3ria, doutor em Sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Professor na Universidade<\/p>\n<p style=\"margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 15px; margin-left: 0px; text-align: justify; padding: 0px;\">Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e educador no NEP 13 de Maio. Membro do Comit\u00ea Central do Partido<\/p>\n<p style=\"margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 15px; margin-left: 0px; text-align: justify; padding: 0px;\">Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p style=\"margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 15px; margin-left: 0px; text-align: justify; padding: 0px;\"><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 15px; margin-left: 0px; text-align: justify; padding: 0px;\">1. Che destacava os aspectos tais como a presen\u00e7a do latif\u00fandio, a din\u00e2mica do imperialismo que deforma o desenvolvimento levando \u00e0 explora\u00e7\u00e3o eufemisticamente chamada de subdesenvolvimento, e as condi\u00e7\u00f5es de vida que poderiam se resumir na express\u00e3o em mai\u00fasculas: FOME DO POVO.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fonte: Revista M\u00faltiplas Leituras, v.2, n.2, p. 109-120, jul. \/dez. 2009.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nTR\u00caS ORIGINALIDADES E UM VELHO CAMINHO\nMauro Luis Iasi*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/842\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-842","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c57-revolucao-cubana"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-dA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=842"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}