{"id":8451,"date":"2015-05-29T11:57:16","date_gmt":"2015-05-29T14:57:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8451"},"modified":"2015-06-08T08:36:13","modified_gmt":"2015-06-08T11:36:13","slug":"ilya-ehrenburg-e-a-espanha-da-ii-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8451","title":{"rendered":"Ily\u00e1 Ehrenburg e a Espanha da II Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/mur\/imagens\/ehrenburg_picasso.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Escrevendo sobre a II Rep\u00fablica espanhola, Ehrenburg exagerou o negativo e n\u00e3o captou o positivo. <!--more-->A II Republica fracassou, mas Ehrenburg n\u00e3o soube compreender os milh\u00f5es de espanh\u00f3is que a tornaram poss\u00edvel e lutaram para a defender do assalto fascista.<\/p>\n<p>Ily\u00e1 Ehrenburg chegou a Espanha em 1931, pouco depois da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. A visita foi breve, alguns meses. Mas o choque emocional e est\u00e9tico foi t\u00e3o forte que tentou transmiti-lo num livro,\u00a0Espa\u00f1a, Republica de Trabajadores,\u00a0publicado em 1932 pela Editora Cenit, de Madrid, reeditado pela Critica, de Barcelona em 1976.<\/p>\n<p>Contrariamente ao que o t\u00edtulo sugere, o autor n\u00e3o elogia, sequer defende a jovem rep\u00fablica. Aquilo que viu decepcionou-o.<\/p>\n<p>Conhecer a Espanha era uma aspira\u00e7\u00e3o sua desde a adolesc\u00eancia. Admirava os seus grandes pintores, a sua m\u00fasica; Don Quijote de Cervantes fascinava-o.<\/p>\n<p>Mas o que observou (e o que sentiu) n\u00e3o correspondeu ao que esperava. Tinha ent\u00e3o 40 anos.<\/p>\n<p>Dece\u00e7\u00e3o? N\u00e3o encontro a palavra.<\/p>\n<p>&#8220;Este livro &#8211; escreveu no pr\u00f3logo &#8211; foi escrito por um russo e para russos&#8221;. O seu povo, como esclarece \u2013 &#8220;tem outras montanhas, outras necessidades, outro riso&#8221;. Mas o abismo que separa os espanh\u00f3is dos russos n\u00e3o o impediu de imprimir ao seu livro &#8220;um tom apaixonado&#8221;.<\/p>\n<p>Creio que ele n\u00e3o conseguiu superar tudo o que dificultava a um intelectual sovi\u00e9tico, comunista, a compreens\u00e3o do espet\u00e1culo ca\u00f3tico da Espanha no ano 31 do seculo passado.<\/p>\n<p>Em dois meses correu muito pelo pa\u00eds. Esteve em Madrid, Barcelona, Valencia, Sevilha, C\u00f3rdoba, Granada, C\u00e1dis e mais cidades. Deambulou pelas plan\u00edcies da Andaluzia, conheceu as vinhas e olivais de Jerez, as minas das Ast\u00farias, os estaleiros e tabernas de Bilbau, as rias galegas, a meseta desolada das duas Castelas, as huertas e os laranjais de Murcia, as aldeias mis\u00e9rrimas de Las Hurdes. Muita terra, muita gente em tempo m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Ehrenburg escreve maravilhosamente. O estilo que o celebrizou em romances, ensaios, nas mem\u00f3rias, e em reportagens como correspondente de guerra, \u00e9 identific\u00e1vel neste livro amargo e apaixonado.<\/p>\n<p>As p\u00e1ginas onde recorre \u00e0 ironia para caracterizar a desordem, as contradi\u00e7\u00f5es, o burlesco, o \u00e9pico da Espanha que renegara a monarquia dos Bourbons destilam amargura.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica somente no nome adotado oficialmente era de trabalhadores. Nas f\u00e1bricas, nos campos, nas minas, nos portos, na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica os trabalhadores continuavam a ser desprezados e explorados.<\/p>\n<p>Os grandes senhores, intoc\u00e1veis, mantinham os seus privil\u00e9gios; os novos ministros, os governadores, os alcaides da Republica exibiam uma atitude de classe; os cardeais, os bispos, os curas de aldeia comportavam-se como o clero da \u00e9poca da Inquisi\u00e7\u00e3o; a mulher continuava a ser tratada como f\u00eamea que servia para o prazer e gerar filhos.<\/p>\n<p>Na Espanha tradicionalista, estagnada economicamente, o ex\u00e9rcito, a Guardia Civil e a Policia permaneciam, como antes, ao servi\u00e7o dos poderosos, vocacionados para a repress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s de breves est\u00f3rias de p\u00e1rias, de pessoas vencidas, sem passado e sem futuro, que esbo\u00e7a o mapa humano de uma Rep\u00fablica que enterrava a esperan\u00e7a, afundada no imobilismo.<\/p>\n<p>Exagera nas generaliza\u00e7\u00f5es. O desfile de pregui\u00e7osos, de b\u00eabedos, de pol\u00edticos incompetentes e corruptos, \u00e9 ininterrupto. Choca.<br \/>\nSatiriza a Espanha folcl\u00f3rica, das prociss\u00f5es, dos leques e peinetas. Condena o mundo cruel das corridas de touros; acha que o trabalho do toureiro quase n\u00e3o &#8220;oferece perigo&#8221;, porque &#8220;os touros s\u00e3o animais pac\u00edficos&#8221;.<\/p>\n<p>Mas nem tudo lhe pareceu negativo. A admira\u00e7\u00e3o do escritor vai para a minoria dos inconformados, respeita e elogia os rebeldes, os grevistas, os trabalhadores revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ecos deturpados da grande revolu\u00e7\u00e3o que mudou a vida na URSS chegavam \u00e0 Espanha da Republica. O pa\u00eds dos sovietes inspirava admira\u00e7\u00e3o aos oprimidos, \u00f3dio e medo aos opressores. Mas a ideia do que ali se passa \u00e9 confusa.<\/p>\n<p>Ehrenburg gostaria de ter encontrado comunistas respons\u00e1veis, organizados, mobilizados para a transforma\u00e7\u00e3o da vida. E n\u00e3o os encontrou. Paradoxalmente \u00e9 generoso nas refer\u00eancias aos anarquistas, \u00e0 FAI. Elogia Durruti, enxerga nele um revolucion\u00e1rio quase comunista.<\/p>\n<p>Os governos da Republica burguesa de 1931 e 1932 eram &#8211; como o escritor afirmou &#8211; profundamente reacion\u00e1rios. Mas ele extrapola, envolve na cr\u00edtica a totalidade do aparelho de Estado e a maioria do povo.<\/p>\n<p>Na contra capa do livro, o editor escreve: &#8220;O tempo demonstraria a lucidez com que o escritor russo analisa a realidade daquela rep\u00fablica burguesa que se auto-intitulou com um sarcasmo involunt\u00e1rio &#8220;rep\u00fablica de trabalhadores&#8221;.<\/p>\n<p>Discordo dessa opini\u00e3o. O escritor exagerou o negativo e n\u00e3o captou o positivo.<\/p>\n<p>A II Republica fracassou, mas Ehrenburg n\u00e3o soube compreender os milh\u00f5es de espanh\u00f3is que a tornaram poss\u00edvel e lutaram para a defender do assalto fascista.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, Mar\u00e7o de 2015<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0http:\/\/www.odiario.info\/?p= 3653<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em\u00a0http:\/\/resistir.info\/\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Miguel Urbano Rodrigues Escrevendo sobre a II Rep\u00fablica espanhola, Ehrenburg exagerou o negativo e n\u00e3o captou o positivo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8451\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[97],"tags":[],"class_list":["post-8451","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c110-espanha"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2cj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}